Shalant'ará
1 Prólogo — O Cárcere
O Cárcere
Descobriu que estar desperta não era suficiente. As pálpebras de modo algum quereriam mover-se; e, conquanto estivesse disposta a empenhar os últimos esforços de que ainda era capaz para este fim, tampouco eles resultariam em algo. Sentia sob si uma espécie de borra viscosa que as aprisionava aos cílios inferiores, e sua cegueira, reparou, tinha cor escarlate.
A atenção que por segundos deu à impossibilidade de fazer abrir os olhos logo voltou-se à latência de uma dor que lhe percorria os membros como espasmos de epiléptica. Trouxe as mãos ao tronco, local em que a umidade mostrava-se particularmente dolorosa, e a ardência do toque fê-la pestanejar — caiu com a estrutura apoiada sobre duas mãos, as únicas partes sãs que haviam restado de seu corpo, e pôs-se involuntariamente a chorar. A desidratação, no entanto, em que reparou nos instantes seguintes, restringiram sua lamúria a soluços inaudíveis.
A dor espasmática foi sua última impressão, e então veio o desmaio.
Trevas avermelhadas vieram dançar à sua volta até que perdesse por inteiro a consciência.
Acordou pela segunda vez com o cheiro indistinto de alimento. Sem que pudesse conter o grito de êxtase sob a tirania da dor, apoiou as mãos uma vez mais no chão de madeira úmida — julgava ser aquela umidade fruto de seus fluidos, que já começavam a lançar qualquer odor emputrecido ao ambiente — e suspirou longamente após o êxito da tarefa. Descobria-se a cada instante mais ofegante, e a dor não se atrevia a deixá-la por um segundo sequer. Sentia nos membros inferiores fendas que se formavam sobre sua carne, as quais seguiam por todas as direções: à direita, rumando a cintura; à esquerda, sentenciando com cascatas ensanguentadas todo o caminho até o calcanhar.
Rompeu com os dedos a pasta sanguinolenta que mantinha presas as pálpebras, liberando-as do sangue que ali havia se tornado como ramela, e lutou para habituar a visão aos trechos escurecidos de seu cárcere. A comida fora posta à sua frente em um vasilhame de barro e lhe aparecia como repulsiva lavagem. O cheiro encorpado produzia-lhe ânsias de vômito — estivera há muito tempo adormecida; o estômago, fraco como estava, não fazia senão doer, e o apetite confundia-se todo o tempo com a dor do vazio.
Decidiu, não obstante, que o melhor seria nutrir-se de sua lavagem. Achegaria-se ao recipiente e entornaria em sua boca o caldo nodoso; seria novamente forte e poria-se pronta para enfrentar as atrocidades que sabia estarem por vir. Pôs em prática a decisão ao tentar contra o soalho com a força das mãos, que impulsionavam-na à frente… mas não suportou a dor de arrastar-se. A dureza das tábuas de madeira fustigava suas chagas, e seu corpo, ademais, não suportaria uma nova posição de apoio, afetando-lhe a sustentação.
Grunhiu com a face caída, a roçar de modo grosseiro a madeira, e desfaleceu pela segunda vez.
Foi acordada, enfim, pelo agudo retinir do ferro. À sua frente, uma criatura de olhos muito largos e castanhos estendia-se, surpreendentemente ínfima e cujas pernas curtas eram como as de uma criança. A barba espessa dava-lhe algo de burlesco ao semblante, e suas vestes de malha avantajadas aparentavam pesar-lhe tanto que o corpo encurvado deveria permanecer sempre assim, ou cairia inevitavelmente ao chão. Tinha em mãos um artefato irreconhecível de metal que prosseguia a bater contra um grande espeto de ferro. Percebendo que a moribunda abria finalmente os olhos, fez sobressaírem da boca meio aberta os dentes tal qual os de um garrano e sibilou de modo repugnante.
Seu primeiro impulso foi recuar; recordando, porém, da última vez em que seu corpo executara o mais frágil movimento, Eloria cessou de imediato a tentativa, ação que o homem nanico e grosseiro pareceu aprovar.
Aproximou-se, muito hesitante, da figura agonizante de sua prisioneira, como se temesse que suas feridas tornassem-se as dele conforme se pusesse adiante. Quanto a ela, seu coração enchia-se de grande ódio; quis desesperadamente rechaçá-lo com seu olhar fulminante e repleto de angústia.
O meio-homem forcejou falar-lhe, mas sua linguagem era a ela ininteligível, e cada uma de suas palavras assemelhava-se sobremedida a sons guturais de um animal sem cognição, aspecto com que concordava o animalesco de suas feições. Foi em vão.
Impaciente, o homenzinho vil chutou-lhe na coxa esquerda, que, por conveniência, se colocava à frente do restante de seu corpo moído.
O espasmo atingiu-lhe com força execrável. Gritou longa e obstinadamente contra o afogo de sua carne, e das feridas precipitou-se o sangramento. Uma vez mais sem forças, dirigiu ao carniceiro seu olhar cansado e deixou cair os ombros. Ao fechar os olhos, a escuridão envolveu-a maternalmente. O gosto férrico que lhe veio ao paladar antes que estivesse novamente inconsciente prenunciava um novo pesadelo: a besta anã embrutecida com um imponente armamento de ferro que lhe rasgava e partia ao meio como uma carne de suíno.
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