Shakespeare Café
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Até mesmo aqueles jazz bem calminhos...
é isso.
Ass: Silen (olhodeestrelas)
Era nítido que ela havia crescido. Balançando elegantemente os pés cruzados embaixo da mesa, as pernas bronzeadas iam subindo até chegar num vestido azul florido, faziam com que seu porte dobrasse de tamanho. Com uma xícara de chocolate quente numa mão, ela se concentrava num livro apoiado pela outra. Unhas ligeiramente pintadas, mas não terminadas. Amante de Shakespeare. Típico de.... Seria rude de minha parte dizer que não lembro exatamente seu nome? Creio que ela também não se lembre do meu; ou até pior: não se lembre de mim, de quem eu sou.
Ah, eu não a culpo. Nossos pais cometeram o crime de seguir caminhos diferentes depois de nossa festa de aniversário de 5 anos. Me lembro vagamente da festa, mas nunca esquecerei do rosto sujo de chantili dela, devido a uma guerra de cupcakes. Sem comentários.
Perdido em lembranças, das mais toscas falando sério, só me dei conta de que estava fitando-a descaradamente quando a garçonete bateu o pires da minha xícara de café na mesa. O estalo da porcelana se chocando contra a madeira anunciava o desastre: o líquido quente voando sem dó até minha camiseta. Ah Deus, novinha! Recém-saída da loja- na qual fui arrastado até lá por Jackson, amigo rico, gangster, qualquer outra definição para cheio da grana, porém com um bom coração e mente ainda melhor.
Fecho os olhos e me preparo para os Mil e não sei quantos “Perdões” da moça, é claro que todos cheios de uma indiferença inalcançável. Culpem a cara dela. Juro que se tivesse uma legenda para defini-la, seria:
“Eu não estou nem aí para você e sua camisa cara. Se vira mané! ”
Mas é claro que ela não respondeu aquilo.
Já com a xícara reposta e pela metade e o primeiro café gravado na camisa, observei os sorrisos inconscientes da garota que aparentemente com....Romeu e Julieta?!
Hilário! Que eu saiba este livro inspira cheiro de romance grudento, daqueles de novela mexicana. Outro diferencial dela: sorrir a todo tempo, não se importando com as bochechas furadas por covinhas.
De repente ela se levanta e vai até o caixa. Ofereceu um sorriso gratuitamente à moça fria do outro lado do balcão e saiu anunciada pelo sinete da porta. Decidi fazer o mesmo. Guiado por uma motivação escandalosa de talvez encontrá-la na rua e me permitir olhar para ela até me lembrar de seu nome.
Quando dei o primeiro passo porta afora ouço a voz que eu mais desejava ouvir naquele momento:
—Peter? Sou a Thalia, sua amiga de infância! Lembra-se? — Perguntou um tanto eufórica.
Como eu poderia me esquecer de você?
—Thalia! Bom te ver novamente! – Abri meu melhor sorriso, tentando não transparecer este meu último pensamento.
Quando percebi que ela não havia me respondido direcionei-me ao ponto onde seu olhar estava fixado. Não poderia ser menos vergonhoso do que aquilo.
—Ah, sua camisa! – Expressou uma leve decepção na voz, doce como a de um anjo.
— Pois é – olhei distraído para a mancha. Ah, a camisa, tão novinha!
—Vem comigo! – Senti sua mão roçar na minha e se transformar em um aperto, me puxando até uma das mais diversas e cheias ruas de Nova Iorque.
Uma frase: Saímos de lá carregando seis sacolas. Sim, eu contei.
E foi assim, ela tinha uma ideia, pegava em minha mão e disparava à minha frente me obrigando a segui-la. Corríamos, ríamos, tropeçávamos e caíamos ofegantes em qualquer banco de alguma praça, equilibrando os picolés já semiderretidos.
Lembramos de coisas inusitadas enquanto andávamos: os apelidos, presentes estranhos de natal, esconde-esconde na loja de roupas. Enfim, assuntos que eu não conseguiria começar e muito menos finalizar. Mas, com ela, acho que tomar chuva num dos dias mais frios do inverno seria bom; assim como nossa conversa.
—Bugboo — Balbuciei entretido com os balões coloridos que Thalia conseguira tirar do vendedor do parque apenas com um singelo sorriso, alegando que “é bom colorir o dia das crianças”. Entregando às mesmas a cada vez que via uma.
— O quê? — perguntou ela, olhos esbugalhados e ainda assim bonitos e envolventes. Uma típica ‘Carinha de Boneca’.
— Você adorava joaninhas – olhei-a de canto, colocando as mãos nos bolsos da calça social sutilmente.
—Ainda as aprecio, se quer saber – fez uma pausa e olhou travessa, diretamente em meus olhos – Peter Pan? — riu ela, ironicamente doce.
— O quê?! – E rimos juntos novamente – Aish! Você continua assim! – Balancei a cabeça em negação e recebi um soco no ombro como resposta.
Ela começou a correr, e eu corri atrás feito uma criança correndo atrás de um cãozinho. Sua risada indicava um pega-pega pelo parque. Brincamos até nossos pulmões gritarem ‘CHEGA! ’. Tempo o suficiente para as estrelas se posicionarem no céu. Thalia parou bruscamente, virando-se para mim, satisfeita e, se despediu:
—Bugboo precisa ir...- Abaixou a cabeça, fingindo uma timidez improvável.
—Ah – Suspirei emotivo — Pode me dizer o motivo? — Fingi então estar tímido também. Na verdade, algo a puxava para mim e eu não queria cortar essa conexão tão cedo.
—Eu tenho um concerto de piano daqui a duas horas – Olhou no relógio imaginário, colocando uma de suas mechas atrás da orelha e sorrindo mais uma vez naquele dia. Confesso, nunca me cansaria daquela obra de arte parada em minha frente, mais especificamente, quase que perto do meu rosto.
—Bem, então acho que vou ter que começar a gostar de Beethoven...- Brinquei
— Do jeito que vi sua cara de nojo ao me ver com um exemplar de Shakespeare em mãos? Ah, não seja tão convencido! — Debochou ela.
Gelei da cabeça aos pés, com todas as letras.
— E sim, eu sabia que era você o tempo todo. Sabia que àquela distância você parecia mesmo um empresário? Ainda mais da Carters...
— Obrigado pela camiseta nova, se é isso que você quer ouvir, Bugboo! – Abaixei um pouco para ficar ao seu tamanho, perto de seu rosto, e sorri.
Ela endireitou meus ombros curvados e me deu um leve, porém longo, beijo perto da boca. Senti por um instante, meu coração travar.
—Adeus Peter Pan – virou-se indo rumo à saída do parque.
Certamente não conseguiria dormir naquela noite.
Saindo do tiro... digo do transe, avistei-a um pouco mais a frente. Sem perceber, palavras deslizaram sobre meus lábios:
— Quando te verei novamente?
— O acaso decide...- Disse ela por cima do ombro nu.
Ah, o que você está fazendo comigo Thalia?
Três palavras: Culpa de Shakespeare.
No dia seguinte após sair do trabalho, como de costume passei na cafeteria e pedi o de sempre, sentando-me na mesa ao lado da janela, a mesma de ontem, desejando que ela pudesse me lembrar de tudo. Força do Hábito...
A música do café soava agradável à situação. A letra dizia exatamente o que se passava dentro de mim. Ah, nojentamente fofo.
Olhei atordoado para o relógio com receio de que ele pudesse esmagar todas as chances que eu estava cultivando de reencontrá-la ali.
Quando me viro para frente com o intuito de localizar a garçonete, em razão do meu café que no caso parecia nunca chegar, vejo posicionada à minha frente uma silhueta com belas curvas desenhadas sobre um vestido de seda vinho, blazer muito bem ajustado sob a cintura e uma boina sob os cabelos ondulados. Carregando colado ao peito um livro romântico de capa em couro. Shakespeare. Persigo a silhueta até chegar no sorriso perfeitamente encaixado entre duas lindas covinhas fundas. Sorrio com os olhos fechados, mordendo o lábio inferior, numa tentativa falha de acordar de um sonho prestes a estourar.
Quando torno a abrir os olhos ela ainda estava lá. Ah Deus, perfeitamente cheia de classe e beleza. Algo demais para alguém como eu.
— Bom te ver novamente, Peter ...
— Ah Bugboo, Shakespeare de novo? — Entrelaço minhas mãos sobre o rosto, num suspiro brincalhão
— Bem, estou procurando o romance ideal. Mas, parece que estou na seção errada. Afinal, meu par está num conto de fadas muito conhecido.... Já ouviu falar de...- seus olhos encontraram os meus – Peter Pan?
Notas finais
~CHU~
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