Shady Waters
1 Capítulo 1
Notas iniciais
— Não acredito que vamos passar o fim de semana todo na casa da fazenda — reclamou o garoto do banco de trás do carro — Aposto que não tem nada pra fazer lá!
— É só um final de semana – disse a mãe, que estava do banco do passageiro — Você sabe que não deixaria vocês com tio Josh e tia Liz se não fosse realmente necessário.
— Ainda ter que aturar a chata da Cassie — disse ele, olhando para a irmã — Ela passa o dia nesse celular idiota, se tivesse pelo menos vídeo game lá...
— Cala a boca, moleque. — falou Cassie, dando um tapa na cabeça do irmão.
— Ou se a tia Molly tivesse deixado o Ryan vir com a gente... — continuou o menino, sem dar importância às implicâncias da irmã.
— É só um final de semana, Noah — disse o pai que dirigia o carro — Lá tem bastante espaço pra correr, não precisa de vídeo games pra se divertir.
— Na sua idade — completou a mãe — a melhor parte de ficar de férias era poder vir pra casa da fazenda, tomar banho no lago e me balançar no balanço de pneu da árvore do jardim. Vocês dessa geração não sabem o que é diversão...
Cassie odiava essas discussões sobre “na minha época era diferente...”, então aumentou ainda mais o volume da música que ouvia pelos fones, enquanto trocava sms com as amigas. Ainda não havia se conformado com o fato de que ia perder a maior festa do ano, mais uma vez, por causa do trabalho dos pais. Perdeu a conta de quantos eventos teve que perder por que os pais iam viajar a trabalho e eles tinham que ficar na casa de parentes. E dessa vez foi na casa da fazenda, no meio do nada. O vizinho mais próximo devia estar há 8 km de distância, não tinha tv a cabo ou sequer sinal de telefone. Estava aproveitando os últimos resquícios de sinal para se despedir das amigas.
Com a cabeça encostada no vidro do carro, observava a cidade ficar pra trás, os prédios dando lugar a raras casas, longas áreas verdes, e plantações de trigo. Seu celular vibrava intensamente com as inúmeras mensagens das amigas que chegavam a toda hora. Noah tinha apenas nove anos, sete a menos que Cassie, mas já não via graça em brincadeiras que fossem fora dos vídeo games violentos e cheios de sangue. Aquele fim de semana seria uma tortura para os dois.
— Já estamos chegando? — perguntou Noah impaciente e sem esperar resposta continuou: — Deixa eu jogar no seu celular, Cassie?
— Deixa de ser idiota e fica quieto — Cassie aumentou ainda mais o volume da música.
A viagem durou pelo que pareceu uma eternidade. Quando finalmente chegaram a casa, tia Liz e tio Josh esperavam na varanda. Eles eram um casal de meia idade, tio Josh era quase careca, alto e um pouco acima do peso, já tia Liz era um pouco mais nova, cabelo loiro impecável na altura dos ombros, as unhas sujas de terra por conta da horta, mas não dispensava os acessórios, estava sempre com brincos e pulseiras brilhantes, apesar de serem bijuterias. No colo de tia Liz estava sua gata persa, seu pelo dourado era acariciado pelas mãos enfeitadas da mulher.
A velha casa da fazenda parecia saída de um museu. Era uma construção antiga de dois andares, a tintura verde oliva descascando das paredes, o telhado fazia barulho ao menor sopro do vento, as tábuas da varanda estavam soltas e rangiam aos serem pressionadas. Porém, o jardim era impecavelmente bem cuidado por conta da paixão da tia Liz por jardinagem.
Os pais de Cassie estacionaram o carro no grande terreno em frente a casa. Era hora do almoço e foram convidados a ficar, a tia havia feito um almoço incrível com produtos colhidos na sua horta. Sentaram-se à mesa de jantar que ficava no centro da pequena cozinha. Os móveis antigos denunciavam que não só a parte de fora da casa, mas também a de dentro precisavam de reforma.
Não era uma casa muito grande, tinha uma sala com uma televisão velha, um rádio e um sofá estampado, a estante de livros com teias de aranha, e o papel de parede listrado pareciam saídos de um filme de época. Atravessando o corredor, tinha a cozinha, onde estavam almoçando. No andar de cima estavam os quartos. O quarto dos tios, que estava sempre trancado, e dois quartos de hospedes, apesar de que um estava completamente preenchido por caixas de papelão, era uma espécie de deposito.
Depois do almoço, os pais se despediram de Cassie e Noah e seguiram viagem. Cassie subiu as escadas para o andar de cima e colocou sua mochila no quarto de hospedes. Era um cômodo pequeno, com duas camas de solteiro separadas por um criado-mudo. Uma janela com vista para o bosque com cortinas azul-bebê que pendiam sobre ela se encontrava ao lado da cama que Cassie havia escolhido, os raios do sol que entravam faziam com que a poeira fosse perceptível. Do lado oposto do quarto, uma mesa com um abajur em cima e uma cadeira pousavam como se nunca tivessem sido movidos. Apesar do estado inóspito do quarto, a roupa de cama era limpa, o cheiro de lavanda enchia o ambiente.
No andar de baixo, Noah estava de joelhos de frente para a velha televisão, apertava todos os botões na esperança de algum funcionar, mas a imagem não passada de chiados. Sua mochila estava jogada no sofá. Cassie passou por ele sem dar importância, estava olhando fixamente para a tela do seu celular enquanto caminhava para a entrada da casa à busca desesperada por sinal.
— Tio Josh, a TV funciona? — Perguntou Noah quando o tio passou na sala
— Não, a antena está quebrada há algum tempo. — respondeu.
Noah a desligou sem esperanças e jogou-se no sofá. O tédio já o consumia. Cassie voltou para dentro da casa depois da sua frustrante tentativa se achar sinal. Ao ver o irmão jogado no sofá, teve uma ideia.
— Noah, que tal brincarmos de alguma coisa? — sugeriu.
— Como se você fosse brincar comigo. — resmungou o irmão
— Claro que vou! — respondeu — Vá guardar sua mochila lá em cima e Não demorou muito para Noah voltar à sala. Passaram-se minutos sugerindo brincadeiras que pudessem brincar naquele fim de tarde de sexta-feira. A gata persa ronronava no tapete em frente ao sofá, tio Josh passou pela sala carregando um balde cheio de alguma coisa que fedia. O cheiro logo inundou o ar. Entrando pela pequena porta abaixo da escada, o tio se dirigiu ao porão, fechando-a logo em seguida. Os irmãos se entreolharam, e sem dizer uma palavra, já entendiam um ao outro. Queriam ver o que tinha lá em baixo.
Esperaram pacientemente o tio sair do cômodo e caminhar para a cozinha, ele ainda carregava o balde, agora vazio. Tia Liz estava na sua cadeira de balanço na entrada da casa, no mesmo lugar onde estava quando chegaram mais cedo, fazia tricot tranquilamente enquanto ouvia ao rádio. Cassie e Noah levantaram-se rapidamente, tão agitados que Noah quase pisou na gata. Os únicos sons eram o dos ponteiros do relógio e os passos apressados dos irmãos. Olharam de soslaio pelo corredor, e viram o tio sair pela porta dos fundos da cozinha.
Abriram a pequena porta da escada, e logo o cheiro desagradável chegou às suas narinas, o que fez os olhos da jovem lacrimejarem. Estava tudo escuro, a não ser pelos raios de fim de tarde que entravam pela porta aberta. No fim da escada, um cômodo ainda mais escuro. O silencio foi interrompido pelo miado da gata, que fez o moleque saltar de susto.
— Silêncio, gata idiota! — sussurrou Cassie para a gata que se aninhava em suas pernas — Saia daqui!
A felina rosnou para a garota, chamando a atenção da tia que se balançava na cadeira da varanda. A mulher largou seu tricot e entrou na casa para saber o que estava acontecendo, dando de cara com duas crianças debaixo do portal do porão e sua gata persa aos pés da mais velha.
— Ora, Srta. Stacy, não rosne para as visitas! Que falta de educação! — disse a mulher — E vocês não deviam mexer nas coisas sem pedir permissão, saiam já daí.
Os dois jovens saíram da passagem, e se encaminharam para o sofá novamente, enquanto a tia trancava a porta do porão com uma chave velha e enferrujada que pendurou no colar. Novamente, as crianças estavam sem nada para fazer. A tia sugeriu que fossem brincar lá fora, desde que tivessem cuidado para não destruir o impecável jardim e a horta, e que voltassem antes de escurecer. Por falta de opção, os irmãos aceitaram.
Do lado de fora da casa, o velho carvalho estendia-se imponente, como um gigante que observava todo o bosque em volta da casa. Sob um dos galhos pendia um desgastado pneu sustentando por duas grossas cordas. O tal “balanço da árvore do jardim” comentado pela mãe na viagem. Cassie sentou-se no balanço, observando o sol que estava quase se escondendo para dar lugar a brilhante lua. Noah tentava inutilmente escalar o grosso tronco do carvalho, por ser um menino da cidade, subir em árvores não era o seu forte. Preferia dirigir carros e fugir da polícia em seus jogos de vídeo game.
Cassie já não aguentava mais espantar insetos que lhe espreitavam, então chamou o irmão para entrar. Uma vez dentro da casa, subiram para o quarto e atiraram-se em suas respectivas camas, fazendo o cheiro de lavanda novamente encher o quarto. A moça vasculhava a gaveta do criado-mudo quando encontrou uma lanterna velha e então teve uma brilhante ideia: aterrorizar o irmão para se divertir um pouco.
— Noah, tia Molly já te contou a história da casa da fazenda?— sugeriu a menina, um turbilhão de ideias vindo à mente.
O irmão inocentemente negou, e sentou-se à beira da cama atento para ouvir. Cassie levantou, apagou a luz do quarto e acendeu a da lanterna, posicionando-a sob seu queixo.
— Bem, diz a história que essa casa pertenceu a um casal de bruxos que se mudaram para cá há muitos séculos. Tia Molly disse que eles usavam animais para fazer experimentos macabros no porão, e que faziam poções e venenos usando plantas que colhia no bosque. — Cassie notou o desinteresse no semblante do irmão. Precisava melhorar sua narrativa — Até que um dia os dois simplesmente sumiram sem deixar rastros, libertando no bosque várias criaturas horríveis e selvagens. Dizem que até hoje durante a madrugada dá pra escutar o ruido deles pela floresta e que às vezes voltam a casa a procura de carne fresca para matar sua fome — Noah arregalou os olhos e apertou as mãos no colchão — e as puxam pelos tornozelos e as arrastam escada abaixo, as prendem dentro de jaulas no porão e…
Tio Josh abre a porta de supetão, fazendo Noah pular e gritar de susto, o que faz Cassie cair na gargalhada.
— O que andam aprontando? — disse o tio, ligando a luz e rindo abertamente, os dentes amarelos a mostra — Sinto muito atrapalhar a diversão, mas o jantar está pronto.
Os três desceram para a cozinha, a menina ainda ria e enxugava as lágrimas enquanto o irmão não parecia nem um pouco contente com a brincadeira. No centro da mesa de jantar uma grande panela estava posicionada, em seu interior um líquido esverdeado e nada apetitoso borbulhava.
— O jantar hoje é sopa de legumes — anunciou a tia orgulhosa. Noah fez uma careta de nojo e a irmã o chutou a perna por baixo da mesa. — Bon appetit!
Todos se serviram do ensopado e passaram a jantar sentados à pequena mesa da cozinha. Cassie quase vomitou ao provar, mas segurou-se. Com o irmão não foi diferente, o liquido era tão ruim quanto aparentava. A menina notou a chave do porão pendurada no pescoço da tia e lembrou-se do acontecido daquela tarde, quando ela os proibiu de descer lá. Era a oportunidade perfeita para assustar ainda mais Noah. Ela precisava daquela maldita chave.
Terminado o intragável jantar, Tio Josh se recolheu ao seu quarto, Noah foi para o banheiro, Tia Liz e Cassie ficaram na cozinha para limpar tudo. A garota enxugava a louça enquanto a mulher as lavava e cantarolava alguma música antiga a qual Cassie não fazia ideia que existia.
—Tia, posso perguntar uma coisa? — a moça se pronunciou. A mulher apenas balançou a cabeça afirmativamente sem interromper o cantarolar. — O que tem lá no porão?
A tia desligou a toneira, depositou a panela no fundo da pia, enxugou as mãos numa toalha e virou-se para encarar Cassie, fazendo-a dar um passo para trás assustada. Após uma pesada respiração, a mulher se pôs a falar:
— Escuta, Cassie. Eu já disse que não quero você e seu irmão lá em baixo. — disse ela quase como um sussurro — Se eu disser o que tem por lá seria o mesmo que deixar vocês descerem. Sei que é uma menina inteligente e não preciso falar de novo para que você entenda. Fui clara?
A menina apenas abaixou a cabeça em consentimento e voltou a enxugar os pratos. Ao terminar, subiu para o quarto ainda calada onde encontrou o irmão deitado apertando a bariga.
— Ai Cassie — gemeu o garoto —, essa sopa não me fez nada bem.
Ela ignorou o irmão, sua mente estava ocupada com seus próprios problemas. Como conseguiria pegar a chave da tia e descer no porão? Antes que pudesse perceber, caiu no sono.
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