Notas iniciais
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Boa leitura

Prólogo

05 de Fevereiro

Querido diário,

Tudo foi tão rápido, e ao mesmo tempo real, que meu coração ainda palpita, apenas com as lembranças deste sonho perturbador.

Eu estava dentro do avião, me sentia mal, a altitude me fazia mal, eu podia estar de qualquer cor neste momento, uma senhora ao meu lado me encarava com preocupação, enquanto eu ofegava ao seu lado, olhando pela minúscula janela. Eu via as nuvens, pensava que seriam fofas e macias, mas as asas do avião as separavam me deixando ainda mais preocupada com a existência de anjos escondido em meio delas.

Que tolice a minha, revirei os olhos, e segurei-me nos descansos de braço, cravando as unhas quando uma turbulência me assustou.

– Se acalmem, é uma turbulência normal, em breve estaremos estabilizados – a voz da aeromoça, tranqüila e suave, me deixou apreensiva, mordi o lábio, e quis gritar.

Foi quando senti fisgadas em minha pele e aos poucos como uma tortura, começaram as chamas, meu corpo inteiro se queimava, e eu gritava. Todos sorriam, até a aeromoça gargalhava no alto-falante, a senhora ao meu lado, sorria de maneira misteriosa, como se ela fosse à causadora de todo o meu temor.

Foi então que um par de olhos esverdeados tomou o lugar do avião, eu só conseguia vê-los, e depois os verdes foram aos poucos se escurecendo e ficando de um tom quase castanho. Meu coração ficou acelerado diante aos dois olhos, e eles aos poucos foram tomando formas, o nariz, a boca, os cabelos... Mas infelizmente não consegui ver mais do que esboços.

Foi então que acordei, perdendo mais um dia de aula, e mesmo que faça alguma diferença, eu já não estava animada com a ideia de um novo país e nem um novo colégio, onde todos poderiam me acusar de algo, como nas outras anteriores, por isso este diário. Primeira vez que o uso, uma estréia, você é de um rosa intenso, e as folhas tem um tom envelhecido, pois eu o guardara há anos desde pequena.

A garota de cabelos curtos se remexia na cama, após a noite agitada, estava suada e não voltaria a dormir, já era quase meio dia, e ela ainda estava deitada, a escola já havia terminado, e estava mais uma vez entediada. Levantou-se com os cachos amassados tampando seu rosto, e foi em direção ao guarda-roupa bege, abrindo as gavetas e procurando por roupas limpas.

Qual foi a ultima vez em que limpei este lugar? Ela pensou, passando os dedos na franja, encaracolada e a jogando para trás, e então a sua face ficou a mostra, ainda marcada por alguns fios de cabelo, os lábios rosados lembrando a forma singela de um coração, o nariz fino, e os olhos verdes. Sua pele alva marcava-se facilmente a qualquer toque.

Tropeçou em suas roupas jogadas pelo chão, e levava consigo a única peça devidamente limpa em mãos.

Na casa ao lado, um garoto entrava em sua casa, com os ombros tensos, ele jogava a mochila pela sala, os cabelos ondulados e castanhos, emolduravam seu rosto, os olhos quase castanhos, e um rosto sério. O lábio retorcido de desgosto.

– Como foi hoje, cara? – perguntou o irmão aparecendo na escada do segundo andar, o garoto de 17 anos, estava no meio do ensino médio, e também pouco entendia do esforço de seu irmão mais velho.

– Como sempre, briguei com Emily, e por fim terminamos mais uma vez, somente neste mês já foram sete!... Como irei protegê-la, se nem me deixa cuidar dela. – ele se referia a sua missão.

– Sabe como são os humanos, sempre querendo mais e mais, está garota não o merecia, sabe? Ela é muito mimada, e se as sombras querem levá-la que deixem. Não protegerei mais nenhuma paranormal. – pronto o assunto começava. Ambos eram mandados, seres sobrenaturais, que tinham como dever protegerem as bruxas ou paranormais de serem levadas pelas trevas.

– A guerra está por vir, Christian! Temos que ao menos salvar uma, para podermos voltar ao nosso plano espiritual, e deixar estes corpos. – reclamou o irmão mais velho, indo em direção a escada, onde o irmão já havia se sentado.

– Como vai indo a sua protegida, irmão? – perguntou, enquanto subia as escadas tentando mudar de assunto, Christian conseguia ser persistente quando queria e simplesmente não se importava com a privacidade dos outros, nem ele próprio a tinha.

– Não quero falar sobre isso. – Christian passou os dedos nos cabelos em sinal de seu nervosismo, se levantou e assentindo para o irmão, que já entendera. Mais uma que foi tomada, pensou Dante, entrando em seu quarto e fechando a porta para ter um momento a sós, pelo menos enquanto se lavava.

Dante retirou a camiseta molhada de suor, mostrando seus músculos protuberantes, e antes que fosse ao banheiro, olhou-se no espelho. Sua aparência ainda jovem, e sedutora, não entendia como Emily o rejeitara tantas vezes, talvez pelo fato de ele possuir uma boa condição financeira, ela ainda estava ao seu lado. Garota interesseira pensou e riu imaginando-a chegando a sua casa e depois remoendo mais uma discussão com o garoto mais desejado da escola.

Emily, com seus cabelos louros, cativava muitos homens, mesmo nem se quer tendo idade para sair e se divertir de verdade com suas amigas da faculdade, mas não entendia, porque sempre que estava prestes a se afastar de Dante algo a puxava de volta, uma confusão em sua mente e depois o sentimento de culpa.

Seus pais a mimaram, e agora que estava madura o suficiente para namorar os caras que quisesse, se recusava a largar o gostosão do Dante Turnner e o que a mais deixava intrigada, era o fato de não ter nenhuma semelhança com seu irmão, Christian, ela desconfiava que os dois fossem apenas amigos, mas que dividiam o mesmo sobrenome. Por algum motivo, que ela tentaria descobrir, mas não agora.

Sentou-se no sofá de couro, e inclinou a cabeça para ver se alguém a vigiava da cozinha e pegou um caderninho lilás, e começando a fazer breves anotações.

Dante, másculo e forte.

Christian, nada atlético, mas doce e meigo.

Dante, cabelos ondulados e escuros.

Christian, cabelos lisos e castanhos.

Ambos diferentes, até mesmo nas expressões nada parecidos, o que eles escondem? Preciso de uma lista, amanhã farei mais anotações, passarei a reparar mais. Eles mudaram desde as férias... Isso não me cheira bem. Acho que preciso de um banho com ervas para relaxar. Pensarei em tudo o mais breve possível.

E mais uma vez, a confusão brotou em seus olhos azuis, mordeu o lábio e arrancou à folha de sua agenda, os olhos lacrimejaram, e então anotou mais uma vez.

05 de Fevereiro,

Briguei com Dante mais uma vez, e sinto meu coração sendo esmagado, eu o amo de verdade?

É como fogo, quando estou perto dele, sente-me desconfortável e ao mesmo tempo protegida, a sensação de seus olhos em mim, me deixa terrivelmente excitada.

Odeio o que você faz comigo, mas eu te amo!

Com a folha amassada, já não lembrava mais o que estava escrito ali, e nem da sua desconfiança de há poucos instantes, a pegou e se levantou tirando os sapatos, e indo para a cozinha a jogando dentro da lixeira.

– Boa tarde, Emily. – disse a empregada da família, enquanto colocava o avental para preparar o almoço.

Emily a olhou com desdém, e saiu da cozinha. Pegando a mochila e os sapatos sujos de terra e entrando no corredor extenso, com varias portas, mas só a ultima lhe pertencia.

Droga Dante! Porque me dá cada vez mais, motivos para me afastar de você? Ela resmungou consigo mesma.

Saiu do banho já calma e enrolada no seu quimono azul marinho, suspirando e com a consciência pesada, ela se jogou na cama e deixou lágrimas rolarem, não entendia muito bem porque queria chorar, mas sentia uma necessidade extrema de se desculpar com seu amado.

A poucos metros da casa de Emily, estava Louise. Pela primeira vez desde que chegara dos EUA, saíra de casa, estava vestida em uma calça jeans e uma camiseta preta, calçava uma bota de cano curto, e escutava uma musica qualquer no fone.

Pesadelos... Porque me perseguem tanto? Ela fechou os olhos e se sentou na praça, estou andando a quantas horas? Ela já havia perdido a conta, já eram quase duas da tarde, estava faminta. Talvez devesse ir a alguma lanchonete ao menos comer um sanduíche como nos outros dias. Se bem que somente ligava para sua tia trazer quando chegasse do trabalho, mas hoje ela estava de plantão, e talvez só chegasse de madrugada.

Os cabelos agora estavam penteados, ela usava uma maquiagem leve para esconder as olheiras, e tentava parecer somente mais uma brasileira acostumada com o calor insuportável que sentia. Desejou de súbito estar vestida em uma daquelas jardineiras que costumava usar quando mais nova, quando ia visitar os avós no interior, e se lambuzar de lama. Queria voltar no tempo. Uma lágrima escorreu, fungou e levantou os olhos para o sol que a devorava, e teve a sensação de estar em chamas outra vez.

Levantou-se apressada e começou a caminha em direção ao Mcdonalds. Estava realmente faminta, quando seu pedido chegou, ela o devorou em menos de cinco minutos, como era de costume demorar a comer um hambúrguer.

– Gosto de garotas com apetite. – um rapaz se aproximou de Louise, sentando-se em sua frente.

– Desculpe-me já estou de saída. – ela se levantou, limpando os lábios com o guardanapo, e pegando o copo descartável com seu refrigerante ainda pela metade.

– Não tem problema, posso lhe acompanhar. – o estranho se ofereceu e ela o olhou com uma fúria que desconhecia.

– Obrigada, posso ir sozinha para casa. – ela disse tomando uma golada generosa de refrigerante de cola.

– É uma pena, iria adorar te conhecer melhor. – foi então que os olhos de ambos se cruzaram, os olhos verdes de seu sonho ou pesadelo. Não importa o que eram, mas estavam diante dela.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.