Shadow Touch

25 Originalmente complicado


Quando atravessou a porta esta logo sumiu as suas costas.

Agora estava sozinha com ele em uma sala ricamente mobiliada perto de uma escada de madeira ostentosa que levava para o piso superior.

Havia quadros caros com paisagens surreais pendurados na parede clara de cor pêssega incrivelmente opressora.

–Por aqui – ele caminhou com as mãos no bolso – tem comida nos esperando.

Essa era a maior casa em que já havia estado, embora não soubesse sua extensão de fato. Tudo parecia terrivelmente caro, por isso ficou com medo de esbarrar em algo e passar o resto da vida pagando.

De boca aberta se pegou olhando para o teto coberto com pinturas e adornada com ouro.

Alheio a sua expressão de choque, Jonh caminhou por uma porta que levava a sala de jantar onde vários pratos estavam sendo depositados em uma enorme mesa de mármore com lugares para no mínimo, vinte pessoas.

Gentilmente ele puxou uma cadeira para ela antes de se sentar na ponta sem olha-la nos olhos.

Talvez ele estivesse envergonhado dos atos dele, pensou.

Se obrigou a prestar atenção aos pratos que pareciam tão deliciosos. Havia várias fatias de pão, ovos com bacon, jarras com leite e café, bolo e tortas.

Considerando que não havia janelas nesse grande aposento, tudo estava iluminado com algumas luzes de velas e castiçais, dando ao lugar um clima romântico. Incrivelmente perturbador, posto que fizesse com que ficasse constrangida.

Se ele tivesse feito isso de propósito não poderia ter escolhido o pior momento.

A primeira garfada de ovo calou os protestos de seu estômago. Logo estava comendo tanto que nem tinha tempo para respirar, por isso engasgou com um pedaço de pão.

–Aqui – Jonh serviu-lhe um copo com leite.

Ela grunhiu. Não sabia que podia fazer isso.

Um sorriso reprimido passava por seu rosto a envergonhando. Mas a última vez que havia comido algo fora na tarde do dia anterior. O que fez a lembrou que ele havia a enganado enquanto ela se sentia bobamente feliz por ele a estar ajudando. E agora, estava comendo a comida dele, na casa dele. Grata por ele ter preparado um café da manhã.

Colocou o garfo de volta no prato e limpou a boca com o guardanapo. Dando umas tossidas.

Seria possível morrer de vergonha?

Havia possibilidades...

– As aulas começam à tarde, devido ao pouco tempo que temos – ele interrompeu o silêncio — Você pode dormir agora de manhã em um quarto que será seu durante todo o mês.

Ela acenou com a cabeça e tomou mais um pouco do copo de leite.

–Não vai falar comigo? – ele perguntou depois de um tempo com um sorriso.

– Não tenho o que falar.

– Então você está brava?

– Porque eu estaria? Você não fez nada – tentou parecer calma.

Por dentro uma chamava queimava. Não fez nada! Ele havia feito tudo com aquele sorriso estúpido no rosto.

– Entendo que você possa estar se sentindo um pouco enganada...

– Não estou – ela cortou. Não ia ouvir desculpas – Você fez o que tinha que fazer. Cumpriu ordens. Eu entendo.

– Não foi desse jeito...

– É sério. Eu não preciso falar sobre isso. Não quero falar sobre isso.

Jonh deu a conversa como perdida e pegou um pão e encheu de bacon. A sala ficou silenciosa a não ser pelos movimentos de garfo ou copos.

– Porque você fez aquilo no lago? – perguntou de repente – Quer dizer, obviamente eu já estava vindo com você...

Ela jurava que ele havia se engasgado, mas rapidamente ele tinha um sorriso leve no rosto.

– Eu não fiz nada.

Virou-se o olhando com horror.

– Não fez nada? – repetiu.

– Quer dizer, eu estava te ajudando e você praticamente pulou em cima de mim.

Ia mata-lo. Tinha certeza que iria cometer um assassinato.

Logo depois que parasse de corar...

– Você não pode estar falando sério — lutou contra as palavras.

– Não estou dizendo que não correspondi... – ele a olhou de lado – Não sabia que você fosse tão experiente dado como me bateu antes no beco.

Ó... Meu... Deus!

– Você é doente. Com certeza tem memória seletiva. Se contar para alguém essa sua versão da história...

– Não preciso contar – ele sorriu abertamente para o seu prato.

– O que quer dizer com isso?

– Quero dizer – falou calmamente – que provavelmente alguém deve ter nos visto.

De repente ela estava muda. Abrindo e fechando a boca como um peixe.

– E-estava escuro – tentou raciocinar.

– Se eu conseguia enxergar as muralhas tenho certeza que eles podem ter nos visto também – ele respirou – e de uma posição bem privilegiada.

– Você... – estava totalmente morrendo de raiva – você... Sabia disso? Qual o seu problema? E aquela vez na árvore também...

Corou. Ele quase a havia feito perder a cabeça em um só dia. Por que?

Finalmente ele teve a cortesia de parecer tão incomodado quanto ela e ficou quieto.

–Onde fica o meu quarto? – passou a mão pela testa sentindo uma possível dor de cabeça.

–Eu te mostro. Vamos – ele limpou a boca com o guardanapo antes de joga-lo no prato e levantar.

Olhando a nuca dele enquanto estava em sua frente ela quase sentia desejos muito realistas de fazê-lo sentir dor.

Jonh abriu um dos quartos que continha uma cama de casal com rendas brancas, um guarda roupa que ia até o teto de madeira com desenhos na porta, um grande espelho de parede e uma janela que dava a vista para os telhados de outras casas.

A casa estava relativamente alta comparada com outras, e só por isso ela tinha o privilégio de uma bela vista.

Podia ver o sol atravessando timidamente a muralha com pequenos fachos de luz, enquanto tinha certeza que outras pessoas nem podiam se dar ao luxo de ter uma janela.

– O banheiro fica no final do corredor – ele colocou a mão nos bolsos da calça. Um costume que estava começando a associar ao nervosismo — Uma das minhas antecessoras virá para ficar conosco também. Ela chegará pela manhã.

–Tudo bem – ela se virou. E porque sentiu necessidade agradeceu.

De alguma forma se ela se sentisse superior a tudo o que havia acontecido, não teria que ficar se forçando a indiferença.

Ele acenou e um silêncio embaraçoso encheu o quarto quando ele não fez menção de sair.

O que mais ele queria. Ficou se perguntando.

–Acho que vou dormir então.

–Tudo bem – ele se afastou – qualquer coisa eu vou estar pela casa.

–Tudo bem.

Então fechou a porta e suspirou. O pior tinha passado.

Tirou os sapatos que machucavam seus pés há algum tempo e que estavam tão imundos que deveria ter sujado a casa toda.

O tapete de cor creme cobria praticamente todo o quarto e era mais macio do que alguma vez sua cama havia sido.

Esticou os dedos apreciando a maciez e cheiro de lugar limpo. Abriu o guarda-roupa de duas portas, onde havia algumas peças de roupas masculinas que com certeza não era do tamanho dela.

A sensibilidade de Jonh era terrível quando no momento, o que mais queria, era não ter que pensar em nada que pudesse envolvê-lo.

Plateia. Eles possivelmente haviam tido uma plateia!

Supôs que quando a familiar dele chegasse poderia ter algumas roupas normais e parasse de ficar tão neurótica.

Por enquanto, estava agradecida que pudesse tirar as roupas estranhas e sujas que estava. Deslizou a saia e logo a blusa, dobrou-os e colocou dentro do guarda roupa.

Logo depois, tirou uma camiseta branca, só ela já bastava para dormir, chegava ao meio das coxas, cheirava a sabão. Nunca havia usado algo tão curto quanto uma camiseta, mas enquanto ninguém estivesse olhando...

Então percebeu os machucados que tinha desde a noite passada. Era alarmante a facilidade que colecionava machucados.

Havia sangue seco em seus cotovelos e ainda estava com o pano sujo da noite anterior no corte da mão. Precisava se lavar ou não conseguiria deitar na cama limpa que a aguardava.

Abriu à fresta da porta, o suficiente para espiar se o corredor estava vazio, então correu para o banheiro.

Ele tinha ladrilhos azuis claros, um chuveiro e uma banheira em uma das paredes. Um espelho em cima da pia branca e oval terminava o quadro.

Mais do que podia pedir com certeza. Ligou o chuveiro e tomou um banho quente pelo qual estava agradecida, passou o sabonete levemente pelos cortes e lavou o cabelo até senti-lo limpo.

Ao olhar no espelho depois quase não se reconhecia sem a fuligem e os machucados no rosto, o cabelo preto brilhando caindo pelas suas costas, as bochechas rosadas devido ao banho quente.

Além disso, seus olhos estavam totalmente azuis agora.

Ainda chocada abriu a porta para ir para o quarto, quando esbarrou no par de olhos mais azulados que o seu.

Bateu a porta do banheiro.

Era ridículo, estava com vergonha dele. Não podia, não ia ligar. Ela era somente uma pupila, sem segundas intenções. E ele se mostrou ser um idiota...

E ainda sim. Imagens dele a tocando a fizeram ter o rosto quente.

Abriu a porta devagarinho. Ele ainda estava lá, no meio do corredor, com um sorriso no rosto. Não o que ela não gostava, um que a deixava ainda mais ruborizada.

Saiu do banheiro com a mão na barra da blusa como se pudesse aumenta-la de repente.

– Eu precisava de um banho.

– Vejo que a blusa serviu – ele a observava do batente da porta.

– Sim – caminhou de volta para o seu quarto que por acaso ficava de frente para o dele.

– Pedi para comprarem uma escova de dente para você.

– Eu sei, eu vi – franziu o cenho – você sabia que eu viria?

–Alguém tinha que ficar com você – deu de ombros.

Alguém tinha que ficar comigo?

Negou com a cabeça. Algumas coisas nunca mudavam.

–Vou dormir – entrou e fechou a porta, depois pensou um pouco e abriu novamente. Ele ainda estava lá parado.

– Você é um completo idiota. Menti e faz coisas... E com esse sorriso idiota no rosto. Eu juro que assim que eu for forte o suficiente eu te mato.

Virou-se pronta ir embora quando ele segurou seu pulso.

– Não faça promessas que não possa cumprir- a desafiou.

– Eu sei, nunca faço.

Fechou as cortinas e se jogou na cama. Iria dormir e se esquecer de tudo. Era bom não se deixar afetar.

Notas finais
o/