Shadow Touch
3 Momento em que a heroína encontra o mocinho.
Dez minutos depois estava sentada no rico banco de veludo vermelho, apertando sua jaqueta preta em volta de si.
Era irônico em que a primeira vez que estava dentro de uma cabine tão luxuosa estivesse afogada em autopiedade e não pudesse usufruir.
Suspirou, era tão típico essa falta de sorte que já não queria lutar contra ela. Na verdade, já a considerava uma boa amiga.
Assobiou uma velha música conhecida, que seu avô tinha-a ensinado. Não lembrava direito à letra, mas conhecia o suficiente para saber que era melancólica e triste. A música começava contando a história de uma criança abandonada para morrer, mais ou menos assim:
Era uma noite chuvosa e o único sinal de vida eram os animais na floresta que se aproximavam famintos. A criança logo foi encontrada e levada para casa de uma família que a amou. Cresceu e se tornou um violinista famoso. Mas incapaz de abandonar seu passado, voltou a floresta em busca de respostas...
Johana não percebeu que batia os dedos em uma parte da janela acompanhando o ritmo da melodia até que saiu de seus pensamentos com um solavanco do trem.
Depois de uma hora ela havia começado a distinguir as primeiras luzes de casinhas pequenas pela estrada.
Faltava pouco agora...
Pensou em seu avô. O último da família a morrer e mostrar que a amava. E o único da família que ela se lembrava com precisão. Todos os outros haviam morrido cedo demais...
Na época era só uma garotinha ingênua que havia sido protegida, e por isso achava que todos a quereriam bem, que todos eram pessoas simpáticas e boas.
Não sabia que o mundo poderia ser perigoso. Só aprendeu, quando por fim seu avô morreu e ela sofreu com a realidade desse lugar, totalmente despreparada.
Era como um choque térmico. Saiu sem perceber de um lugar quente e confortável para outro frio e enorme.
Nunca se esqueceria daqueles olhos que todos os adultos pareciam possuir no começo. Olhos cínicos e frios. Olhos observadores. Todos a estudando só para ver como reagiria.
E por fim ela havia se tornado igual...
Aos seus 18 anos, Johana era considerada adulta pela lei, tinha que trabalhar e pagar impostos, e se tornara alguém que observava as pessoas calada. Embora hoje tenha sido a exceção e ela tivesse se saído mal.
Tomou ar e voltou a assobiar a velha canção até chegar a estação.
Ao ser a última a descer do trem – o próprio chefe operário tinha vindo busca-la – quase foi empurrada e jogada de lado por cavaleiros fortes e robustos impecavelmente vestidos e damas com mangas bufantes, corpetes que pareciam faltar ar as moças e leques que frequentemente batiam em sua cara.
Era uma mistura de cor e tecidos ricamente adornados que poderiam deixar qualquer um confuso.
Havia o cheiro embriagador de perfumes, tabaco e fumaça. O barulho era mais alto do que estava acostumada no campo e havia tanta movimentação que se sentia perdida- embora não fosse a primeira vez que passava pela capital.
O relógio na estação de trem marcava vinte e duas horas, quando começou a andar o mais rápido que pôde tentando bloquear os frequentes empurrões que a tiravam do caminho. Era um problema não ser o suficientemente alta.
Enquanto ainda tentava passar pela multidão foi empurrada tão forte que quase caiu...
Antes de poder respirar percebeu que o único motivo de não ter encontrado o chão foi a forte mão que a segurava pela cintura.
Olhou para cima e encontrou com os olhos mais brilhantes e escuros que havia visto na vida. Dava para se afogar nesses olhos.
Uau foi a única coisa que passou pela sua cabeça. Uma correnteza parecia puxa-la em direção a eles quando as mãos a soltaram e o calor tão desconhecido se afastou.
–Você está bem?- e então foi obrigada a se separar dos olhos para olhar para o dono da voz suave e preocupada.
–Hmm sim estou, obrigada — nunca fora boa de conversa na vida.
O garoto - devia ser mais velho que ela– era branco- assim como a maioria dos ricos– tinha os olhos negros, igual aos cabelos que chegavam ao seu pescoço e o nariz mais perfeito que já havia visto. Estava com um terno escuro com blusa branca por baixo e cheirava a perfume e algo mais.
– Então... Eu preciso realmente ir. Tenha cuidado. Adeus — acenou e se afastou como se aquele contato não tivesse mexido com ele assim como mexeu com ela.
Johana não era idiota. Tentou explicar o máximo possível na sua cabeça o que havia sido aquele encontro.
Como quase não era tocada, colocou toda a culpa da bagunça que estavam seus sentimentos na carência de toque humano.
Assim, com os pés enterrados no chão conseguiu chegar à rua e respirar o que achava ser um pouco de ar puro antes de sentir o cheiro de estrume de cavalo.
As delícias de estar na cidade...
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