Shadow
5 Someone To Numb The Pain
Ela levantou os olhos.
Sasuke sentiu o rubor no rosto dela. Era... desconfortável. Ele queria dizer tanto a ela...
Não tinha chances.
Fazia muito tempo desde que Sasuke disse a Sakura um "eu te amo". Ele se preocupava o suficiente, mas ela sentia falta de carinho. O casamento havia congelado bruscamente e isso afetou ambos de forma que nem mais conseguiam andar pela casa, conversar, ver pessoas, respirar sem sentir que o pulmão falhava... Quase que magicamente decidiram não abrir as conchas na qual haviam se prendido.
Ele segurou uma mecha rosa com a ponta dos dedos. Sakura tentou não deixar a situação vergonhosa, não respondendo nada. Ele sentiu falta de uma resposta. Sasuke queria, mais do que qualquer outra coisa no mundo...
— Mesmo assim? — Ela quebrou o silêncio. Uma pessoa escutava do lado de fora. Um cheiro de chá.
— Assim como, Sakura? — Será que ela persistiria em dizer que não era o suficiente? Sasuke tentava não usar suas forças para tirar Karin dali e deixá-los conversar em paz. A voz dele soou como se fosse um segredo, como se ninguém precisasse escutar o que estavam dizendo.
— Depois de não conseguir... você sabe. — Ela ruborizou adoravelmente. O amor de Sasuke, para ela, seria conquistado depois que ela tivesse um bebê. Ele ficou com a paciência ao limite, mas a única coisa que conseguiu fazer foi afastar-se da testa dela. Foi olhar nos olhos dela. Nos olhos de Sakura. Na mulher dele. Na Uchiha. Sua.
— Pare com isso. Eu não me casei com você por causa do meu clã. Você acha que eu estaria aqui, quando eu poderia estar com qualquer outra pessoa capaz de gerar um Uchiha? Eu não fiz isso por eles. Eu estou fazendo por você.
Desta vez, não foram apenas olhos verdes que se espantaram. Mas os vermelhos também. E internamente, Sasuke desejou poder ter falado alto o suficiente para que Karin pudesse ouvir.
(…)
— Ela terá um gravidez muito preocupante. Não parece ser muito difícil agora, mas, no parto... Talvez você não sobreviva. — Karin intensificou o pequeno buraco que Sakura estava guardando no peito. — Eu estou preocupada é em encontrar uma forma para fazer você sobreviver durante e após o parto. Mas isso não será necessário, nós podemos... Abortar.
Houve um silêncio. Sasuke tinha que escolher o que fazer. A maior responsabilidade estava nas costas dele. Se permitisse o parto, Sakura e a criança poderiam morrer, mas se não permitisse, talvez fosse a última vez que o mundo veria um Uchiha vivo.
— Eu não quero que você faça isso... — Sasuke disse para Sakura, de forma que só ela pudesse ouvir. Ele parecia estar suando. Morrendo por dentro. Desesperado para que ela pedisse para abortar. Ou para que ela continuasse. Não.
Abortar era melhor.
Era bem melhor.
Ele viveria feliz.
Haveriam Uchihas. Muitos deles. Felizes. Por que uma mulher...
Chamada Sakura, há anos atrás...
Salvou o clã.
— Quando ela vai nascer?
(…)
Durante algumas semanas, a rotina era sempre a mesma: acordava, era "examinada" por Karin, dormia e comia bastante e fazia companhia a Sasuke. Uma vez ou outra mandava cartas ao Hokage, avisando que estava tudo bem. Ele conseguia abrir um simples sorriso de alegria e alívio ao saber que estavam bem, mas logo voltava a encarar os pergaminhos na mesa.
Sasuke redobrou a atenção. Sempre que tinha tempo, acariciava a barriga e beijava o topo da cabeça de Sakura. Ele tinha ficado bastante inseguro quanto ficar longe dela por mais de dez minutos. O que Sakura disse, e os sintomas de uma gravidez bem próxima o deixaram em alerta. Seu sono, que durante um tempo havia melhorado, se tornou, novamente, leve. Eram quase dois minutos de observação durante cada noite, se perguntando como ela foi capaz de pensar algo com isso dele. Talvez ela tivesse os maiores motivos que o mundo pudesse oferecer, mas ele sempre colocava na própria cabeça de que não era um monstro assim. Ela passou tanto tempo o convencendo de que ele tinha um coração que Sasuke se surpreendeu com uma situação em que Sakura o tratava como se ele fosse um monstro.
Sasuke só deixava Karin ao lado de Sakura quando estavam fazendo ultrassom. À medida em que a barriga se acentuava mais, Sasuke ficava mais constantemente observando-a e observando o que ela estava olhando. Era quase... doentio. E cansativo. Mas nada além do normal, porque ele queria garantir que tudo desse certo.
— Eu não me importo com isso. Não me importo de ser o último Uchiha. Só... não se mate por minha causa. — Ele se pegou implorando, praticamente. Sakura sentiu sua espinha tremer. Não sabia que ele estava acordado. Estava recebendo carícias antes de dormir — o que ele não fazia muito, porque quem era mais carinhosa era ela — e Sasuke a surpreendeu com as sentenças. Passaram muito tempo sem se dirigirem emocionalmente um para o outro, que doía. Buscavam amenizar o ambiente, tentando serem mais gentis um com o outro, mas não dava muito certo. Parecia quase forçado.
— Eu estou fazendo isso por ela. E por você. Quero ver vocês dois felizes, porque isso me faz feliz. Mesmo que eu tenha que me sacrificar-
— Pare de tentar salvar o mundo sozinha. — Sasuke joga, exprimindo toda a sua revolta com a decisão da esposa em uma única frase. Isso tocou Sakura porque era verdade. Embora estivesse na companhia de alguém que a amasse do jeito que ela sempre quis, cada problema ela levava nas costas. Cada pequeno desafio que vinha pelo caminho. Ela deixava de se amar por causa dele. Alguma coisa a dizia que, dos dois, quem precisava de mais carinho era Sasuke.
Estava certa, mais isso a impedia de realizar coisas muito simples.
Ela quase dormiu. Só esperou que Sasuke dissesse algo a mais para rebater, porque quanto a última frase, ela não podia fazer nada.
(…)
— A única pessoa capaz de fazer isso seria um Uzumaki, teoricamente. Há chances de sobrevivência, mas são poucas. Sakura, eu preciso tentar algumas coisas durante o parto, mas eu realmente não quero fazer isso. São minhas únicas opções. — Karin anunciou. Os dois estavam sentados nas cadeiras de madeira da cozinha. Tinham das mais diversas frutas ali. Sakura assentiu, mostrando muito interesse pelas palavras da Uzumaki. Não percebeu porém, que ela ruborizou quando, indiretamente disse, que ela seria a única pessoa que poderia gerar um Uchiha.
Karin fizera de propósito. Apenas para observar a reação de Sasuke, mas naquele momento, ele estava mais preocupado com o que Sakura podia comer do que com o discurso dela. Mesmo assim ele concordou, alegando internamente que nada daquilo daria certo se ele não convencesse Sakura a abortar.
Era uma decisão difícil, mas ele não queria perdê-la.
Sakura foi a única pessoa que ele conseguiu se importar mais que a si mesmo. Aprendeu a dar valor ao que o beneficiava, mas encontrou nela a serenidade que procurava inconsientemente. Sua primeira paixão foi o seu primeiro amor. Quando os dois passaram mais tempo juntos, quando voltou de Konoha, encontrou alguém que queria proteger pelo resto da vida. Não importava o tipo de desafio, era melhor deixá-la atrás dele, acobertada, do que sem ajuda. Foi ela quem tomou os pensamentos dele durante os dias em que estava de volta. Ela quem o impediu de fazer erros estúpidos no relacionamento. Como ele deixaria parte de si morrer, quando ele tinha uma opção a mais? Sasuke podia fazer algo a respeito. Podia salvá-la. Por que não tentar?
— Se isso não prejudicá-la, não interessa. Obrigada, Karin.
(…)
— Sasuke-kun..? — Ela perguntou, sentindo um forte chakra ao seu lado. Sasuke não respondeu, apenas saiu da escuridão e observou as estrelas da noite iluminada. Evitou contado ocular com ela de propósito.
O que trouxe Sasuke ali? O sofrimento? A vontade de cuidar de tudo e todos? O que o incomodava era mais que isso.
— Então o seu hospital... Eu sinto muito. — Ele estava diferente. Tinha começado a se desculpar já faziam algumas semanas, mas era sempre novo. Ele nunca pedia desculpas, e agora passou a desculpar-se sobre coisas pequenas, poucas vezes.
— Obrigada. Ele é muito importante pra mim. — Sakura respondeu. Houve um problema com fogo lá dentro e o hospital acabou por ser incendiado naquele dia. A notícia apertou o coração de Sakura quando ela descobriu que um dos pacientes dela não conseguiu sobreviver. Não estava lá, a culpa não era dela, mas Sakura se sentia responsável pela morte de uma criança com uma doença mental. — Precisava fazer isso, por mim. Eu tive muita inspiração, esses anos...
Sasuke não entendeu o que poderia ter inspirado-a para fundar aquele local, mas isso deveria ser porque ele estava ocupado com sua vingança, e cego com o ódio.
Sim, foi naquele período.
Mas foi justamente por causa de Sasuke que ela fundou o Hospital. Foi porque muitas outras crianças também tinham conflitos internos difíceis como Sasuke tinha. Há sempre alguém com um problema parecido com o nosso. Aquilo a fez pensar que muitos outras estariam sofrendo com algo muito grande e, sem ajuda, poderiam tornar tudo mais complicado.
Como Sasuke tornou.
Ela olhou rapidamente para ele e desejou que o silêncio constrangedor acabasse.
— Eu vou concertar tudo amanhã. Vou visitar os pacientes em casa. Talvez eu fique muito ocupada esses dias... — Sakura deixou escapar da garganta um som parecido com risada. Isso era tão comum para ela.
— Pare de atrair tudo pra si. Isso cria muitas responsabilidades. — Um conselho. Um sábio conselho. Muita gente foi reunida para a reconstrução do hospital, mas, mesmo assim, ela queria ajudar. Sakura queria sentir o dever cumprido como médica e civil.
— Tem razão. Mas, eu preciso fazer isso.
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