Shadow
1 Capítulo Único
Notas iniciais
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Verifico a hora no relógio de corda antigo de minha bisavó. São 02:34 da manhã. Tentando me livrar da melancolia que se segue após a perda de alguém amado, tomo meu ultimo gole de whisky. Deixo então um trocado em cima da mesa, e saio da taverna em que me encontro, caminhando em direção a linha do trem. A rua estava úmida e enlameada, e uma fina chuva caia sobre Aberfeldy, e um vento gelado batia em meu rosto como pequenos canivetes e meus passos ecoavam na rua vazia e gélida, tão forte quanto a solidão ecoava em minha alma.
Caminhei sozinha durante vários minutos, tentando relembrar os acontecimentos da noite passada. Nada era nítido em minha mente, meus pensamentos estavam todos embaralhados e borrados, assim como um reflexo na água agitada. Lembro-me apenas dele gritando meu nome o mais alto que seus pulmões podiam, mas eu nada podia fazer, estava paralisada, não conseguia mover um músculo sequer. Eu via aquela criatura se movendo em direção a ele, aquela coisa sem forma, apenas um borrão preto diante dos meus olhos. E então um grito recheado de dor e agonia seguido do mais estardalhoso silêncio. E então, mais nada.Então de repente eu me via diante da linha do trem. Não tinha reparado que havia caminhado tanto, nem que minhas roupas e meus cabelos se encontravam encharcados. Verifiquei a hora novamente: 03:43. Um súbito pânico então tomou conta de mim, preenchendo cada canto do meu ser. Então me lembro de mais algumas coisas: uma coruja branca me encarava da árvore ao lado da minha janela, e ela então começou a bicar o vidro, fato que me acordou, e me fez verificar a hora, que vinham a ser 03:43, e foi quando ouvi alguém entrando no quarto e... Passos.Meu pensamento foi cortado pois ouvi passos vindo em minha direção, então lentamente crio coragem para me virar e encarar aquele que me persegue. Acabo por encarar o nada. Acreditando que foi apenas fruto da minha imaginação, sigo em frente, paralelo à linha do trem, em direção à casa de meu irmão, onde pretendo me abrigar e fugir de todo o terror que me rodeia. Ouço os passos novamente, dessa vez mais perto. Olho mais uma vez e nada. O medo me faz disparar, mas era inútil. Quanto mais rápido eu corria, mais perto os passos pareciam estar.Meu irmão mora há menos de 5 km de onde eu me encontro, mas a visão de uma pequena igreja me chamou a atenção e eu corri em direção à ela. Mas foi por nada, a porta estava fechada. Assim que me preparo para bater e pedir socorro, ouço uma voz metálica atrás de mim."Não adianta, jamais deixariam um assassino entrar a essa hora da madrugada".Ainda encarando a porta da igreja, retruquei. "Não estou convidando você a entrar, serei apenas eu, e eles com certeza darão abrigo a mim. Quando a você, fique longe".Senti então uma mão em ombro que me forçou a encarar a criatura que me seguia, mas percebi que na verdade, era apenas uma sombra, que se estendia do chão, e passava por todo o meu corpo para que sua mão pudesse tocar meu ombro."Sinto desapontá-la, mas não tenho como ficar longe de você. Eu faço parte de ti, se eu for embora, você não será nada"Sem compreender nada do que "aquilo" quis dizer, a sombra começou a criar uma forma, um corpo, e assim que ela estava completa, pude ver que era idêntica a mim, fato que fez com que o pavor fosse o único sentimento que eu era capaz de sentir, e eu bati então com todas forças que eu pude reunir na porta da igreja, e gritei o mais alto que pude por ajuda. Mas ninguém atendeu às minhas preces, e eu estava sozinha, a mercê de uma criatura que tinha a mesma aparência que a minha."Já disse que é inútil", disse a voz metálica, preenchendo todo o espaço a minha volta como se ela viesse de todo canto escuro ali presente. "Mas por que tens tanto medo de mim? Eu sou você. Tens medo de si mesma?"."Você não é e nunca será eu. Você é um demônio, uma criatura de outro mundo, uma assassina!""Assassina?", disse a sombra inclinando sua cabeça para o lado com um brilho vermelho nos olhos. "Por que acha isso?""Você o matou. Invadiu a minha, matou Ian, e o levou.O levou para longe, para que eu nunca tivesse a chance de me despedir." Nesse ponto da conversa o medo fora substituído pela raiva, e lágrimas caiam dos meus olhos enquanto eu falava."Eu o matei? Ah querida, isso não é possível. Não se pode colocar a culpa na criação, e sim no criador. Você me criou. Eu já disse, e repito: eu sou parte de você. Você mesma o matou, não se lembra?"Então tudo veio a tona. Acordei com a coruja bicando o vidro, e ouvi alguém entrando em casa. Era Ian. Mas por que diabos ele teria chego tão tarde em casa? Acendo uma vela e desço para me encontrar com ele no andar de baixo. Lembro-me de ele ter dito que teve de resolver algo no trabalho. Mas seu hálito exalava álcool, e sua camisa perfume feminino. Então uma fúria tomou conta de mim, não pelo fato da traição, afinal, ele é humano, todos erram. A fúria veio em razão da mentira. Então eu peguei uma faca no balcão da cozinha, e de repente foi como se eu saísse de mim, mas a figura que avançou para cima dele foi eu."Eu sou a parte que você não consegue controlar. Sou pura fúria e ódio. Sou um demônio que você mesmo criou"
Notas finais
Obrigada novamente! beijos
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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