Sgrooper
2 Ainda confusa
Notas iniciais
Em toda a minha vida eu estou sempre envolvida em problemas estranhos, dos quais a maioria é minha culpa. Mudei de escola por esse motivo, muitas coisas sem explicações. ‘ acho melhor ela procurar uma escola que ela se encaixe, aqui obviamente não é. ’ A diretora havia falado para minha mãe. E então já no primeiro dia de aula um bando de desconhecidos me ataca e eu simplesmente não me lembro em como me livrei deles e fui parar do outro lado da cidade.
Todo o meu dinheiro deu apenas para pagar essa noite no hotel. Ando de um lado para o outro no quarto. Não me preocupo em dormir, quero apenas encontrar uma saída. Batidas na porta me paralisam. Caminho até a porta sem saber se devo ou não abrir. Novamente elas ecoam. Abro.
– você? – pergunto assustada. É o garoto que estava sentado do meu lado na classe Joan, e que havia visto meu lápis em pedaços. Sem me responder, ou esperar meu convite ele entra e fecha porta.
– você esta ferrada. Muito ferrada. – ele fala sem tirar os olhos de mim. Ele espera que eu diga alguma coisa, como não falo nada ele continua. – o que deu em você? Será que é assim tão difícil controlar?
– eu não sei...
– você sabe, e não é de hoje. – ele solta um suspiro e caminha até a janela. – nós sempre sabemos, só não queremos aceitar. Isso não dá a liberdade de fazer o que quiser, e se meter em tamanha confusão.
– você fala como se entendesse... Ninguém sabe ou sente o que eu passo! E eu não vou ficar me explicando para um total estranho. Quero que saia imediatamente.
– pode me evitar agora, me expulsar. Mas daqui á algum tempo vai implora pra me ter por perto querendo minha ajuda. Cedo ou tarde eles viram atrás de você também, e é ai que as coisas vão realmente ficar difíceis. Você pensa que fez tudo àquilo sozinha ? – ele se aproxima e segura meu queixo. – não! Eles te induziram. Sim eles têm esse poder. E quando você não tiver mais escolha eles aparecem...
Ele solta meu rosto e sai sem olhar pra trás. Fico paralisada por um tempo ainda, tentando digerir tudo que ele tinha falado. Esmurro a cama inúmeras vezes, quando o chão esta coberto de plumas do colchão, eu paro. Droga! Mais essa agora. Demoro um tempo até limpar tudo. Minhas mãos estão tremulas e meu pensamento preso nas palavras de Joan. Quem seriam essas pessoas a quem ele se referiu, e como elas teriam influencia no que tinha acontecido? Fazia sentido afinal, eu mal podia me lembrar do que realmente havia acontecido lá.
Já esta amanhecendo, me preparo para sair. Ainda sem rumo, e muito mais confusa. O saguão lá em baixo esta vazio e o ambiente frio, a recepcionista me cumprimenta com um aceno e volta a falar no telefone. Saio rapidamente para a manhã fria e úmida. A neve estava se derretendo e chovia uma garoa tão fina que mais parecia neblina. Do outro lado da calçada, acenando alegremente avisto Benjamim. Ignoro seu chamado acelerando o passo para uma quase corrida. Em vão. Ele corre até mim e me segura pelos ombros.
– eei... Está tudo bem. Eu não quero te fazer mal. Quero ajudar, eu juro! – ele fala e levanta a mão direita sorrindo.
Sorrio de volta. Ele parecia sincero. Caminho ao seu lado até carro.
Parece que ele queria algumas informações, mais nem eu sabia o que estava acontecendo.
– eu não sou louca. E se você acha que eu vou te contar alguma coisa além do que você já sabe... Eu não sei sobre nada! Nada mesmo. Nem ao menos o que aconteceu com aqueles garotos...
– eu vi o suficiente naquela tarde. E escolhi estar do seu lado, só não me pergunte por que, eu também não sei. Passei toda a noite fazendo com que os policiais desistissem de pegar você, e olhe só... – ele estende os braços na minha direção rindo... – aqui estamos nós. Só vamos conversar sobre isso quando você quiser combinado? – ele sorri largamente agora. E é impossível não sorrir de volta. Era estranho, mas a presença dele ali me confortava. Mesmo sem nunca ter estado com ele antes, mesmo não o conhecendo bem.
– tudo bem... Agora eu só quero sair daqui... – olho envergonhada para os meus pés descalços. – eu meio que preciso de algumas coisas lá de casa.
Imediatamente Benjamim se oferece para me lavar pra casa, mas mesmo ele sendo gentil comigo, ainda não confio inteiramente nele. Talvez por medo.
– pode confiar em mim, Audrey – disse ele como se estivesse lendo os meus pensamentos.
–ok – falo tentando parecer o mais seria possível.
Ele abre a porta do carro para mim, e enquanto ele da á volta na frente do carro para entrar fico observando-o. Porque ele estava sendo gentil comigo? Mesmo presenciando a cena da qual eu tenho certeza não ter sido algo “legal” de se ter visto. São tantas perguntas. Benjamin percebeu o quanto eu estava aflita, notando as lágrimas que teimosamente rolavam na minha face, contra a minha vontade. Meus nervos estavam à flor da pele, e obviamente aquilo era resultado disso. Gentilmente ele se aproxima, com um pouco de receio ele passa uns dos braços em volta do meu pescoço. Ao mesmo tempo que o abraço é bom e aconchegante, eu me sinto desconfortável.
– esta tudo bem... – ele fala tentando me consolar.
Afasto-me dele bruscamente. Não, não estava nada bem. Benjamim liga o motor do carro, e muito rapidamente já estamos em frente de casa.
– bom, chegamos. – ele diz sorrindo levemente. — quer que eu entre com você?- Ele pergunta.
– não, obrigado pela carona- respondo já saindo do carro. Ao sair fui surpreendida pela mão de Benjamin segurando meu pulso impedindo a minha saída.
– Audrey... — disse me estendendo a outra mão — para quando precisar falar comigo.
Ele me entrega um cartão. No cartão tinha o numero de telefone e seu nome escrito na parte superior “BENJAMIN”.
– Obrigada. – respondo dando-lhe um dos meus melhores sorrisos. Não queria parecer grossa mediante tamanha generosidade. Espero poder contar com ele ainda. Muito.
Minha casa estava vazia. Nenhum bilhete, nada. Vou diretamente para o meu quarto, pego a mala preta em cima do guarda-roupa e começo a colocar tudo que achava que fosse precisar futuramente. Documentos, roupas e afins.
Ainda não passava das 13h, já tomei banho e estou devidamente apresentável. Escrevo um breve bilhete á minha mãe, contando apenas que teria que fazer uma viagem rápida, e que assim que eu soubesse de algo mais concreto eu ligaria. Com um aperto no coração saio de casa por tempo indeterminado.
São nove horas da noite, passei o dia todo tentando pensar em alguma solução para os meus problemas, e a única coisa que me vem em mente é o numero no cartão no meu bolso. Ele poderia me ajudar a encontrar novamente Joan, já que ele parecia ser o único que entendia um pouco sobre o que estava se passando comigo. Pego o cartão na mão, ele já esta todo amaçado, suspiro fundo e disco o numero. Nem bem toca, e a voz sonolenta de Benjamin atende.
– alo?
– Benjamin é a Audrey – falei anciosa
– oi. Que bom que ligou.
– acho que você pode me ajudar com uma coisa, mas não quero atrapalhar... – falo timidamente.
– onde você esta? Que eu vou agora mesmo.
Sinto meu coração se acelerar imaginando vê-lo de novo. Balanço a cabeça para espantar tais pensamentos.
– no bar aqui em frente ao shopping. – respondo, e minha voz sai tremula.
– Tá tudo bem? Você parece nervosa com alguma coisa...
– estou bem... Só um pouco cansada...
– já estou saindo de casa então. Até já. Tchau.
Desligo o celular. Olho em volta. O bar esta razoavelmente cheio. Algumas mulheres dançam a minha esquerda, e vários jovens jogam sinuca no outro canto. O cheiro de cigarro impregna minhas narinas. Que péssimo lugar eu escolhi. Os minutos se arrastam intermináveis. Quando Benjamin cruza as portas, parece que tinha se passado horas desde a minha ligação. Assim que ele me avista, sorri e caminha na minha direção. O cabelo loiro estava molhado e bagunçado. Ele esta com jeans claro, uma blusa branca por baixo da jaqueta preta de couro.
– lugar maneiro. – ele diz com ironia.
– horrível né. Podemos ir pra outro lugar se quiser...
– na verdade eu queria sim. Não gosto de lugares muito cheios. Se não se importa...
Ele diz já se levantando. Concordo e o sigo até o carro. Naquele momento, um vento muito forte nos atinge, fazendo me perder o equilíbrio. Um vento anormal, nada que eu já tivesse sentido antes. O vento frio parecia penetrar até meu interior, congelando meu sangue, uma sensação terrível, pavor e medo juntos.
Foi tudo muito rápido, mas desta vez eu vi tudo em câmera lenta. Vi quando uma mulher encapuzada veio na minha direção na velocidade do vento, coloca alguma coisa no meu bolso, e sussurra um “até em breve”. Em seguida eu estou caída na sarjeta com os olhos azuis de Benjamin me fitando preocupado. Pisco algumas vezes tentando me recompor, enquanto Ben me ajuda a levantar.
– o que foi isso? Você se machucou? — Ele segura minha mão e me gira lentamente, olhando cada centímetro do meu corpo para ter certeza de que eu não tinha me machucado. – Nossa! Vamos ter que fazer um curativo nisso... Deixe-me ver... É não está tão mal. – ele sorri, mas um sorriso tenso.
Eu não tenho forças para dizer nada. Seja o que for que aconteceu ali, parecia ter sugado a minha vida. Por um instante pensei que havia morrido. No carro o silencio perdura. Não tenho certeza se Benjamin viu a mulher de olhos frios e cinzentos. A tranquilidade dele em relação a tudo indicava duas coisas. Ou ele tinha visto e estava tão assustado que preferia mostrar o oposto para não me preocupar, ou ele realmente não tinha visto nada.
– é serio que eu preciso de curativo?- pergunto, e minha voz sai rouca e fraca.
– sim, não é grande coisa, mas esta sangrando... Você tropeçou feio...
Fico imóvel e sem resposta. Mal consigo lançar um sorriso. Será que tudo não passava de imaginação minha? Não! Foi bem real. As palavras de Joan ecoam em meus ouvidos, novamente sinto medo, e uma necessidade imensa de encontrar ele novamente. E dessa vez eu iria exigir explicações.
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