Notas iniciais
Hey gente, em primeiro lugar quero pedir mil desculpas pela demora de postar, mas o mês foi corridissimo e quase não tive tempo. Mas agora voltei e espero voltar a postar toda semana. Boa leitura e Bjos.

POV’S Klaus

Ciúmes não era um sentimento familiar para mim. E por mais que eu soubesse que ela me amava também, e nada aconteceria entre eles, eu não conseguia me livrar do incomodo que se instalou em mim desde aquela noite. Eu também não estava acostumado a me sentir assim em relação a alguém. Querer tanto uma pessoa que parecia que minha felicidade dependia dela, como se só seu toque fosse capaz de acalmar o caos que existia dentro de mim. Mas conhecer Caroline mudou tudo a que eu estava acostumado, eu podia ficar feliz ao extremo, ou com tanta raiva que sentia vontade de socar alguma coisa. Eu ainda não havia me acostumado a isso, sentir as coisas tão intensamente assim, mas eu teria que aprender bem rápido ou poderia deixar ela escorrer por entre meus dedos.

Apertei meu braço em volta de sua cintura e dei um gole no vinho que estava em minha mão. Arte era algo que sempre me fazia bem, e depois de uma semana como aquela, estar em meio a tanta beleza e perto de Caroline era tudo que eu precisava.

― Sua filha é uma artista incrível.

Falei para Andrew que nos acompanhava, o orgulho era nítido em seu rosto e ele sorriu de forma calorosa. O que na verdade eu não estava tão acostumado também, a maioria das pessoas me olhava com medo, respeito ou até raiva as vezes. Mas era surpreendentemente bom ver alguém me tratar assim, provavelmente era o efeito que Caroline tinha sobre mim, me deixava tão feliz e calmo que as pessoas sentiam isso também.

― Ela é sim... E você nunca quis se aventurar com os pincéis?

Ele olhou para o quadro depois para mim, mas algo soou um pouco errado na sua perguntar, como se ele quisesse saber, mas não devesse perguntar...

― Na verdade eu pintei por um tempo, mas meus pais não gostavam muito, então acabei parando.

Ele franziu a testa para mim, como se eu tivesse dito algo muito estranho.

― Como assim sua mãe não gosta... ― Ele se interrompeu e limpou a garganta ― Porque sua mãe não gostava? Mulheres geralmente têm bastante sensibilidade para essas coisas...

― Meu pai não gostava, e minha mãe nunca deu muita opinião, então imagino que não gostava também.

Minha voz assumiu um tom neutro, eu não gostava muito de falar sobre assuntos assim, não que eu tivesse algo contra pintar, mas falar sobre minha infância e meus pais era algo que eu evitava sempre que podia.

― O Andrew também pintava Klaus.

Caroline falou para nós e notei uma ruguinha de preocupação que se formou em sua testa desde que ela voltou do banheiro, acariciei seu rosto carinhosamente.

― Pintava? Porque você parou?

― Acho que perdi minha inspiração.

Respondeu ele e seu rosto pareceu meio nostálgico.

― Mas sabe de uma coisa? Aposto que ainda consigo pintar alguma coisa se tentar.

― Então com certeza você deveria tentar.

― E se eu consigo, você consegue também.

Ele e Caroline me olharam em expectativa e eu me senti desconfortável com isso.

― Não, eu não pinto a muito tempo e além disso meu foco mudou, essa com certeza não é mais a minha área.

― Ah Klaus vamos lá, aposto que você pintaria algo lindo! ― Falou Caroline.

― Não...

― E que tal se combinarmos assim, eu vou tentar e você também, e se eu conseguir depois de trinta anos, para você vai ser moleza. ― Andrew completou.

― Eu acho melhor não...

― Não aceito um não como resposta, tenho certeza que você tem talento, só precisa se dedicar um pouco.

Eu olhei para ele e pisquei algumas vezes sem saber o que responder. Por mais estranho que pudesse parecer ele parecia genuinamente acreditar em mim, e no meu suposto talento.

― Tudo bem, mas você primeiro.

― Que ótimo, me passa seu número para eu te ligar.

Peguei um cartão do bolso e entreguei a ele. Ele me cumprimentou e saiu guardando o cartão.

― Tudo bem? ― Perguntei a Caroline.

― Tudo, porque não estaria?

― Você parece preocupada...

― Não é nada de importante... Você já viu o Andrew em algum lugar?

― Não, porque?

― Nada.

Respondeu ela e seguimos em frente olhando os quadros seguintes.

***

Ao meio dia da segunda feira eu me encaminhei para o restaurante onde marquei de me encontrar com Marcel para conversar. Eu estava ansioso e irritado, eu queria conversar com ele e ao mesmo tempo não queria. A traição dele ainda estava viva e fresca na minha memória. Deslealdade era algo que eu não suportava, especialmente com alguém para quem eu me abri tanto quanto ele. Quando cheguei lá ele já estava sentado na mesa a minha espera. Respirei fundo algumas vezes e entrei.

Ele se sobressaltou quando eu entrei e puxei uma cadeira. Depois sorriu e esticou a mão para me cumprimentar. Eu a ignorei e apoiei o queixo nas mãos.

― Você me pediu para ouvir o que você tinha a dizer, e aqui estou, mas por enquanto não me peça nada além disso.

Fiz esse comentário de forma seca e pedi uma bebida, ele parecia abatido e ansioso, e eu senti meu estomago se apertar, mas mantive a expressão neutra. Quando as bebidas chegaram ele ainda parecia tentar descobrir por onde começar. Mas aquela situação estava acabando comigo, e eu não conseguiria fingir por muito mais tempo que não me importava com ele. Fiz um ruído de impaciência e ele limpou a garganta algumas vezes.

― Você sabe que a minha mãe se tornou assistente social depois que eu terminei a faculdade...

― Sim eu sei, e imagino que ela não saiba o que você fez não é mesmo?

― Ela sabe, eu contei para ela.

― Acho que a decepção dela foi tão grande quanto a minha.

Falei amargamente e ele respirou fundo.

― Ela sempre acompanhava famílias nos hospitais, dando apoio e eu ia as vezes, afinal, foi você mesmo que me ensinou que as vezes as pessoas só precisam de alguém que acredite nelas.

Aquilo enviou uma pontada por meu peito e eu terminei a bebida num único gole.

― E foi lá que eu a conheci.

― Uma mulher? Foi por isso que você me roubou?

Minha voz soou mais alta do que eu pretendia e ele olhou em volta nervoso.

― Não é bem assim Klaus, ela é só uma garota.

Eu me recostei na cadeira e o encarei com um misto de tristeza e raiva no rosto.

― Ela só tinha quinze anos e, em uma das vezes que eu fui ao hospital ela estava lá, sozinha, parecia tão frágil e doente. Perguntei a minha mãe sobre ela e... E eu simplesmente não podia deixá-la. Ela estava com Leucemia Klaus, e a mãe simplesmente deixou ela lá. Procurei informações sobre eles e descobri que o pai tinha abandonado elas assim que ela nasceu e quando a mãe descobriu a doença deixou ela no hospital e sumiu, tentaram ir na casa dela e ela não estava mais lá, tinha se mudado. Eu tinha que fazer alguma coisa, não podia deixar ela morrer lá naquele hospital, sozinha, sem ter nem como fazer o tratamento.

Ele parou para respirar e analisou meu rosto como se avaliasse minha reação.

― Eu ajudei, mas não era o suficiente, ela teve uma parada cardíaca, eu precisava tira-la de lá urgentemente, e não sabia o que fazer....

― Então você simplesmente resolveu me roubar? Sequer passou pela sua cabeça que você podia ter me pedido? Você achou mesmo que eu me negaria a ajudar?

― Eu não sabia o que fazer Klaus, eu estava desesperado, quando soube que o coração dela tinha parado entrei em pânico, eu ia falar com você, mas precisava do dinheiro com urgência e você já estava cheio de problemas com os seus pais e sua noiva, então eu acabei... pegando o dinheiro. Eu consegui a transferência e ia falar contigo imediatamente, mas então eu precisei de mais dinheiro, e então eu fiquei com medo de contar, eu sabia o quanto você ia ficar chateado e com raiva de mim.

― Nessa parte você acertou em cheio.

― Mas eu estava devolvendo, eu não estava sacando meu salário, estava colocando de volta nas contas eu juro pra você que ia devolver cada centavo, e sei que você estava com raiva mas eu não sabia o que fazer Klaus, eu não podia deixá-la morrer. Ela só tinha a mim, e precisava que eu cuidasse dela.

Todas aquelas palavras davam voltas na minha cabeça, por um lado eu estava aliviado que ele tivesse feito isso por algo realmente importante, mas não mudava o fato de que ele tinha mentido e me enganado.

― Eu sei que você não entende, e talvez nunca me perdoe, mas eu precisava salvá-la Klaus, a Davina é minha família agora.

― Assim como você era para mim.

― Klaus... Eu prometo que vou pagar cada centavo que peguei, eu comecei a trabalhar e...

― Não é o dinheiro Marcel, será que você não entende? O que mais me dói é a sua traição, por mais que agora eu saiba porque você fez isso eu não posso simplesmente esquecer.

― Eu sinto muito, bem mais do que posso dizer.

― Você é como um filho para mim, eu sempre dei a você tudo que nunca recebi do meu pai.

― Eu sei disso, e sei que você sabe como é se importar tanto com alguém, mas o que você não sabe Klaus é a sensação de não ter dinheiro sequer para comprar comida, é pensar que enquanto você está se alimentado sua mãe está com fome no quarto ao lado. E era assim a vida dela Klaus, ela não tinha nada nem ninguém com quem contar e estava morrendo muito mais rápido por estar ali sozinha e sem nada. Eu me arrependo de ter roubado você, mas eu fiz o que precisava para salvar a vida dela, e cada vez que eu a vejo melhorando e sorrindo para mim, eu sei que faria tudo de novo.

E lá estava aquela determinação que eu sempre admirei nele, por mais difícil que fosse, aqui estava ele diante de mim, e por mais triste e abatido que parecesse, estava assumindo a responsabilidade pelo que fez. E por mais que eu não quisesse, no fundo eu me sentia orgulhoso dele, Marcel era um homem forte e humano que sentiu na pele o quanto a vida pode ser cruel.

Fixei meus olhos nele, e passei a mão pelos cabelos.

― Eu entendo porque você fez isso Marcel, mas é uma marca que vai ficar para sempre entre nós, e isso dói muito.

― Eu sei disso, e sinto muito ter feito isso com você.

A sinceridade transbordava de suas palavras, e por mais que ainda quisesse ficar bravo eu me sentia cada vez menos irritado, e todo tempo em que não estivemos em contato pesou sobre mim.

― E como ela está?

Perguntei por fim e ele piscou algumas vezes, surpreso por meu tom um pouco mais amistoso.

― Melhorando. O tratamento foi um sucesso e ela está se recuperando muito bem.

― E a família dela apareceu?

― Não. Achamos uma tia distante, que não queria nem saber da garota, então eu e minha mãe estamos cuidando dela.

― Pelo menos ela tem vocês.

Respondi para ele que sorriu.

― Tem sim, e por mais que eu tenha feito muitas besteiras, acho que posso cuidar bem dela, afinal de contas eu tive um ótimo exemplo.

Tentei conter o sorriso mas não consegui, e senti que no fundo eu já estava perdoando-o.

― E como estão as coisas por aqui?

Ele me perguntou e deu um gole na água.

― Meus pais estão aqui.

― Wow, isso não parece nada bom... Porque eles resolveram vir para cá?

― Porque eu e Hayley rompemos.

― Sério? O que houve?

― Eu me apaixonei.

Respondi a ele e não pude evitar o sorriso que se formou em meu rosto, ele levantou a mão num cumprimento e eu bati nela.

― Nossa cara! Isso é incrível! E quando eu vou poder conhecê-la?

― Na verdade você já conhece, é a Caroline.

― Caroline sua secretária?

― Minha ex-secretária na verdade, mas é ela sim.

― Você estava transando com sua secretária?

O divertimento brilhou em seus olhos e ele deu uma gargalhada.

― Ela é minha namorada, e eu não gosto nada que falem assim dela.

Ele mordeu o lábio para conter o riso.

― Desculpa Klaus, mas isso é tão sua cara, quer dizer, exceto a parte de se apaixonar.

― Ela mudou tudo Marcel.

― Sabe, eu cheguei a pensar que você nunca fosse se apaixonar por alguém.

― Eu também.

Depois disso o clima entre nós foi ficando relaxado e conversamos por um bom tempo.

No fim da tarde sai do escritório e fui buscar Caroline. Eu não lembro bem quando isso virou uma rotina, mas era simplesmente maravilhosa vê-la depois de um dia cansativo de trabalho. Assim como era bom acordar com ela, almoçar com ela... Meus sentimentos estavam evoluindo e eu sentia que estava chegando cada vez mais perto de fazer uma certa pergunta que mudaria completamente a minha vida. Antes a idéia de dividir minha vida com alguém era pura e simplesmente assustadora, mas agora o que mais me assustava era ficar sozinho, passar os dias sem o amor de Caroline.

Estacionei em frente ao seu trabalho e ela já estava saindo com uma caixa nas mãos e um grande sorriso no rosto. Desci para abrir a porta para ela, e ela se inclinou antes de entrar e me beijou. Acho que nunca me cansaria do sensação deliciosa de ter seus lábios contra os meus.

Entramos no carro e ela continuava me olhando e sorriso.

― Posso saber que caixa é essa?

― Assim que chegarmos em casa você vai saber.

― Nós vamos para minha casa?

― Vamos.

Ela respondeu e eu sorri por dentro, imaginando que teria uma noite muito mais gostosa em seus braços.

Assim que entramos no apartamento eu a agarrei pela cintura e mergulhei num beijo apaixonado, seus lábios eram quentes e doces e me faziam querer me perder neles para sempre. Puxei seus quadris em minha direção já sentindo minha ereção pressionar contra ela. Mas ela empurrou meus ombros e riu.

― Pensei que você quisesse ver o que tinha na caixa.

Comecei a beijar seu pescoço e corri a mão por suas costas.

― Caixa? Que caixa?

― Klaus!

E com isso eu me afastei e ela se soltou dos meus braços pegando a caixa. Ela era feita de madeira polida e escura e tinha um grande laço vermelho em cima, essa última parte com certeza era coisa de Caroline. Ela a estendeu para mim sorrindo, eu peguei de suas mãos e analisei por um tempo, depois tirei o laço e abri a tampa. Dentro havia os mais variados tipos e tamanhos de pincéis, todos de boa qualidade e com o cabo feito da mesma madeira escura que a caixa.

Eu ergui os olhos do presente e olhei para Caroline que esperava em expectativa, mas meu rosto deve tê-la decepcionando pois seu sorriso murchou.

― Você não gostou?

Olhei de novo para os pincéis e toquei sua superfície.

― Não é isso... eu só... não sei o que dizer.

Várias lembranças brincavam em minha cabeça, o dia em que ganhei meus primeiros pincéis, como eu passava horas pintando e como eu me sentia feliz ao fazê-lo... Mas também me lembrava de como foi ver todos quebrados e atirados no chão do meu quarto.

Balancei a cabeça espantando essas lembranças e olhei para Caroline. Ela tocou meu braço e se ergueu nas pontas dos pés para me beijar.

― Não precisa me dizer nada, desde que você me prometa que vai pintar coisas lindas para mim.

Eu fechei a tampa da caixa e a abracei forte.

― Eu não posso pintar nada que chegue perto da sua beleza.

― Owm, isso foi lindo, mas nem pense que vai me enrolar, quero ver você usando esses pincéis.

― Eu não tenho tela nem tinta Caroline, como vou conseguir pintar algo?

― Eu sabia que você ia dizer isso...

Ela disse e me puxou pelo braço em direção ao escritório, quando entramos eu parei no lugar. Um cavalete estava no meio da sala e uma variedade enorme de tintas estavam em cima da mesa.

― Como você fez isso?

Foi a única coisa que consegui dizer.

― Uma garota nunca revela seus segredos... Mas tenho uma coisa aqui para você.

Ela foi até o cavalete e tirou um papel que eu não tinha notado que estava ali. E o estendeu para mim.

“Pinte algo brilhante, eu tenho fé em você. Seu amigo, Andrew.”

Eu li o bilhete de novo e engoli em seco sentindo um aperto na garganta. Era assustador sentir isso depois de tanto tempo, sentir que pessoas acreditavam em mim, não por algo que eu pudesse dar a elas, mas simplesmente por algo que me faria feliz.

― Viu só? O Andrew também acha que você consegue, agora é por as mãos na massa, ou melhor, nas tintas e começar logo.

Ela veio até mim e abraçou meu pescoço depois beijou o canto da minha boca.

― Talvez eu não consiga... Já faz tanto tempo...

― Pare com isso agora, você é um homem incrível e brilhante, nós sabemos disso, porque só você não percebe?

― Caroline...

― E só para constar, a opinião do cretino do seu pai não importa para ninguém.

Consegui dar um sorriso nervoso e a ergui nos braços.

― Posso saber para onde nos vamos?

― Vamos para o meu quarto, porque nós os artistas brilhantes precisamos de um pouco de inspiração.

― Nisso eu com certeza posso ajudar...

***

Levantei da cama bem devagar para não acordar Caroline e desci. Fui para o escritório e parei em frente ao cavalete por longos minutos. Me sentia ansioso e nervoso, querendo fazer algo, mas ao mesmo tempo temendo se o fizesse.

Depois de longos minutos eu finalmente comecei a fazer algo, peguei os pinceis e a aquarela e comecei a misturar algumas cores. Parei o pincel a caminho da tela e respirei fundo algumas vezes antes de finalmente tocá-la.

Arte sempre me inspirou, me conectava com tudo que havia de bom dentro de mim. Por anos eu acreditei que não existia nada dentro de mim que valesse a pena mostrar ao mundo, nada que alguém poderia achar bonito. Mas depois de tanto tempo,eu simplesmente estava perdido em pensamentos, esquecendo-me completamente de tudo mais, apreciando o puro e simples prazer de criar algo bonito.

Meus dedos corriam rápido pela tela, eu mal notei que a noite ia clareando e aos poucos se tornando dia, eu já tinha marcas de tinta nos dedos e no peito, mas me sentia tão conectado comigo mesmo de um jeito que não sabia mais nem que era capaz. Um sorriso se formou em meus rosto e eu continuei pintando, me entregado ao poder e a liberdade que aquilo me fazia sentir, e olhando para o rosto de Caroline que já podia ser reconhecido na tela.

Notas finais
E então, o que acharam?