Sexto Sentido
5 Sal e mar
Notas iniciais
Obrigada pelos comentários bacanas, gente bonita. De verdade, eu fico rindo como uma maníaca quando os leio. Espero que gostem desse também. Xoxo e bom domingo.
Tenho Glee não, só uma bela ressaca por não ter limites e beber até cair. Literalmente. Eu tenho que parar com isso, se não pela saúde, que seja pela reputação. Enfim. Boa leitura e comentem, moças.
Voltei pra realidade ao entrar na picape de Noah. Ou melhor, ao olhar seu sorriso abominável. Claro que ele não deixaria nossos eventos de hoje passarem em branco. Isso me deixa preocupada com o resto do dia na praia, ele e Santana juntos contra mim. Contra uma pobre pessoa acordada há mais de 36 horas. Uma pessoa dolorida e com a mão escangalhada. Alguém com um sorriso no rosto que não dava espaço nem pra dor. Fui cair no erro de olhá-lo de canto de olho. Ele percebeu, obviamente, isso dava pra dizer por seu riso indiscreto. Revirei os olhos, hora de acabar com isso.
"O que foi, Noah, tem algo a me dizer?" Disse impaciente, mas ainda sorrindo.
"Eu?" Ele se fez de vítima, bem sua cara de pau fazer isso. Ignorei-o.
"Bem, não temos companhia nesse veículo, o que me leva a crer que minha pergunta foi extremamente direta." Ele só me brindou com seu sorrisinho tão cretino quanto ele. Perdi minhas estribeiras. "Eu estava falando com você, Noah!"
"Desculpa, Rach, mas quem tem algo a dizer é você." E nem se dignou a apagar seu risinho ou a me olhar.
"Estamos falando de que, Noah? Não tenho nada a dizer, nada que você não saiba." Disse sincera. Afinal de contas, do que ele estava falando?
"Ah sim, eu imaginei toda aquela interação com a Quinn." Eu tossi sozinha. O quão estúpido é alguém se engasgar com a própria saliva? Ele arreganhou seus dentes pra mim e se riu sem graça nenhuma. Até que decidiu continuar falando "Mas vamos à praia com elas, isso é um grande passo no plano, né?"
"Hum..." Não, eu não me lembrava de plano nenhum. Nós tínhamos um? Claro, os fantasmas encrenqueiros, mas o que eles tinham a ver com um plano? Não era como se fossem bater nos vidros do nosso carro agora...
"Esqueceu do nosso plano de fazer amizade com as meninas, superstar?" Ah! Agora me lembrei. Certamente, nós fizemos um grande avanço nesse plano mirabolante, tanto que iríamos à praia com elas e com cervejas... Isso não pode significar algo bom, definitivamente. Nem nessa, nem em qualquer outra vida "Mas acho que você e Quinn se estreitaram hoje, não?"
Claro que ele tinha que citar a Quinn, sua saliente amizade com Santana não estava fazendo bem pra minha paz de espírito. Não me bastasse ela com suas diretas, ainda tinha que aturá-lo com esse sorriso desprezível e com indiretazinhas. Não os deixarei me abalar. Até porque, meu dia estava muito bom – tirando o negócio da porrada, o fato de termos passado boa parte do dia cuidando da minha mão e do meu rosto feridos e sem contar com a suspensão – e eu devo admitir que isso tudo só aconteceu por causa da Quinn.
Ele me olhou e sorriu. Algo me dizia que eu devia estar sorrindo como uma estúpida, mas estava feliz, quem pode me culpar? Quem no meu lugar não estaria? Não era do quadrado do Finn e nem do bocudo do Sam que ela estava cuidando, era de mim, Rachel Berry, futura estrela da Broadway. Só isso valeu pelo dia e pelo quebra pau no qual me meti até ser suspensa.
"Eu passo com as meninas pra te pegar, Berry." Santana gritou se materializando do lado do carro de Noah, depois de socar, não tão delicadamente, a janela. Acho que ela estava tentando quebrá-la, ou queria bater em mim, nunca se sabe.
"Obrigada pela oferta, Santana, mas não é necessário. Nós conseguimos dirigir até lá sem causarmos alarde. Não precisa se preocupar com nosso bem estar, embora eu agradeça pela preocupação." Respondi honestamente.
"Eu não estou preocupada com você, Berry. Estou sendo prática e a idéia foi da B. Nunca em um milhão de anos eu me ofereceria para te levar a algum lugar que não fosse para desovar sem corpo minúsculo." Ela disse revirando os olhos. Não sei o que há com ela, sinceramente.
"Eu entendo, mas..." Tentei defender meu ponto de vista. Em vão, claro. Já que ninguém me deixa completar uma linha de pensamento.
"Cala a boca. Isso não está pra discussão." Ela disse e voltou a andar em direção a seu carro. "Meia hora te pego em seu cativeiro, você e Puckerman levam as cervejas." Foi o que disse ao virar-se brevemente e seguir seu rumo.
Assim acabamos numa mercearia tentando comprar bebidas alcoólicas.
"Olá, boa tarde. O senhor tem cervejas?" Foi o que perguntei pra lá de sorridente a um senhor de aparência agradável que parecia ser o dono do local.
"Tenho, mas são só pra maiores de 21 anos." Ele respondeu depois de levantar os olhos de seu jornal, me olhar de cima a baixo e voltar a ler e me ignorar. Talvez minha aparência não estivesse a nosso favor. Bati o pé, revirei os olhos e me afastei, tentando bolar um plano. Oras, quem ele pensava que era? Tudo bem, é contra a lei beber sem ter idade pra isso, mas também é ilegal matar e seqüestrar pessoas, mas isso impede alguém de fazê-los? Não, claro que não. E eu não estava sugerindo nada do gênero, só queria uma bebida, que mal tinha? Foi quando olhei ao redor procurando Noah. Avistei-o e fui ao seu encontro.
Eis que o vejo indo pagar as cervejas com o mesmo velho não tão agradável assim. Meu queixo foi no chão quando o vi recolocando os óculos e me chamando.
"Superstar, vamos? Não podemos nos atrasar." Foi o que me disse e saiu andando com cervejas que matariam a sede de um batalhão. Não sei se queria saber como ele tinha conseguido passar pelo velho ranzinza e desfalcar seu estoque de álcool. Ou se eu queria saber quanto, exatamente, ele tinha levado em cervejas. Mas creio que ele deve ter visto minha cara surpresa e resolveu me explicar enquanto ambos colocávamos nossos cintos.
"Como você não comeu, comprei uns biscoitinhos para levarmos também." Eu sorri, ele sempre se importava com meu bem estar. Ele me riu de volta. "Não force a cabeça pensando em como eu consegui comprar as cervejas. Eu não roubei, só tenho uma identidade falsa que vem a calhar em casos como esse." Foi o que me disse, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ele gargalhou – o que me leva a crer que eu devia estar com uma cara de assustada com direito a boca aberta e tudo. "Bem, vamos andando. Vou me arrumar na sua casa já que seus pais ainda estão viajando e nos poupa tempo." Assim fomos.
Chegamos a minha casa os dois. Noah foi colocando os absurdos de cerveja no freezer. Bem, não tínhamos nada a perder, por que não ficarmos bêbados? Não iríamos nem dirigir mesmo. Resolvi dividir os trabalhos. Algo sobre 'dividir pra conquistar', ou não sei. E fui falar com ele.
"Noah, você pode deixar um café passando enquanto vamos nos arrumar? Prometo não demorar muito no banho. E você pode usar o banheiro do quarto de hóspedes pra se arrumar também, caso queira tomar uma chuveirada." Disse e me preparei pra subir.
"Pode deixar, Rach. Deixo a cafeteira fazendo nosso trabalho sujo e vou tomar um banho contigo." Depois riu malicioso e ri também. Só ele mesmo pra me fazer rir com tanta pouca vergonha.
Entrei no chuveiro com um pensamento em mente, é, era Quinn. O dia tinha dado uma reviravolta tão absurda que eu me sentia flutuando. Fui de perdedora e namorada do sem cérebro do Finn a assustadora e amiga das cheerios. Isso sem contar com o fato da proximidade de Quinn. Lavei a cabeça com mais força ainda. Talvez esses pensamentos saíssem caso eu esfregasse bem o couro cabeludo. Era óbvio que eu ia estar errada, não sei por que ainda me engano pensando que posso segurar meus pensamentos – e sentimentos – quando se trata da loira que sempre esteve do meu lado.
Estávamos na quarta série e íamos apresentar O Mágico de Oz. Todos da nossa sala estavam muito animados, mas não mais do que eu. Noah, que achava isso algo contra sua índole e dizia com orgulho que nunca seria ator porque isso era coisa de bichinha, estava lá para me dar força, na primeira fileira do teatro.
A peça fluiu muito bem e eu estava no papel de Dorothy, Mike era o Homem de Lata, Brittany era o Espantalho e mais alguns colegas também faziam a peça. Ninguém que me lembre exatamente hoje, já que não cheguei a construir nenhuma ligação com eles.
Lembro-me que ao final da encenação, Noah estava passando a mão nos olhos, provavelmente ele chorou, mas não cheguei a perguntar ou ele iria rir na minha cara e me acusar de ver coisas absurdas. Ele estava ao lado de meus pais e, mais no final da primeira fileira, tinham duas garotas, uma loira e uma morena. Eu vi a morena saltar de pé assim que a peça acabou e aplaudir, mas a loira simplesmente ficou observando o desfecho, sem falar ou fazer nada.
Nos despedimos da audiência (composta por pais, mães e amigos) e fui me trocar. Parei no corredor e vi a menina morena abraçando Brit e elogiando-a com paixão. Sorri comigo. Brit era realmente incrível e foi bom ver que alguém tinha percebido isso. Me virei para ir à nossa saleta que servia como camarim e vi a menina loira parada atrás de mim.
"Oi." Foi tudo que ela disse, depois abaixou a cabeça. Dava pra ver que estava envergonhada e era perceptível também que ela era incrivelmente linda.
"Olá." Eu respondi sorridente. "Gostou da peça?" Perguntei nervosa. Por algum motivo sua opinião me era mais importante que as lágrimas de crocodilo do meu melhor amigo ou que os gritos e choros dos meus pais – dois pais gays, quem esperaria que eles ficassem quietos? Mas era isso que me fazia me sentir tão bem comigo, o fato de tê-los na minha vida esbravejando suas aprovações.
A menina balançou a cabeça rapidamente em concordância e levantou o olhar pro meu. Por muito tempo eu tentei me convencer de que meu coração só ficou mais quente e meu sorriso tomou conta de todo meu rosto porque ela foi a primeira desconhecida a gostar de algo que eu tinha feito. Mas hoje eu sei melhor.
"Que bom que gostou, sua opinião é importante pra mim." Disse com meu melhor sorriso e mais sincera que pude. Ela concordou com a cabeça mais uma vez. E ficou parada me olhando.
Até que abaixou o olhar e mostrou uma de suas mãos que estava escondida atrás de suas costas. "Pra você." Ela me disse ao me dar uma flor que, pensando hoje, eu tinha visto nos canteiros da escola. Eu ri e fiquei nervosa, provavelmente estava vermelha como ela, igualmente embaraçada. Não sei por que, mas até hoje essa foi a ação que mais me marcou, a que achei mais bonita.
"O-obrigada..." Disse gaguejando. Ela assentiu com a cabeça. Até que me olhou novamente.
"Eu sou Quinn." E vi sua mão estendida. Pensei um pouco antes de apertá-la. Não por falta de educação, mas porque estava tremendo como se tivesse tomado um choque. No final, não ia deixá-la com a mão estendida e dei-lhe a minha. Abri a boca pra me apresentar, mas ela me cortou (as pessoas me cortam desde nova, mas, dessa vez em particular, não fiquei chateada). "Você é Rachel." Eu ri nervosa e balancei a cabeça. É, os papéis tinham se invertido.
"É, essa sou eu." Disse sem soltar sua mão ainda, só por um tempinho. Ela balançou a cabeça de novo.
"Rachel, você estava incrível e sua voz é perfeita." Ela terminou de enlaçar meu coração prestes a entrar em colapso ali, só com essa frase. Eu abaixei a cabeça porque, como podem ver, desde sempre uma tal de Quinn Fabray me fazia perder as palavras. Depois de recuperar um pouco do ar, olhei-a de novo e dei meu sorriso mais sincero.
"Você é perfeita." Foi o que saiu, entre trancos e barrancos e ela riu pra mim, me deixando ainda mais nervosa. E, me sentindo estúpida, mais do que sempre, resolvi continuar. "Obrigada, eu não vou me esquecer disso ou de você." Foi o que eu disse quando recuperei as palavras e o funcionamento do cérebro. Ela riu ainda mais e soltou minha mão. Eu confesso que fiquei triste e não sabia o porquê.
"Bom saber disso. Mas acho que é bom você ir trocar de roupa, né? Ou vai se atrasar." Ela deve ter lido na minha testa que isso não era importante e que eu não ligava pra horários ou roupas, contanto que ela estivesse ali. Mas ela tinha a vida dela também, infelizmente. "E eu tenho que ir também, ou minha mãe vai ficar preocupada." Não sei se ela estava de fato triste por ter que se despedir de mim ou se foi só minha mente me pregando mais uma peça, mas seu tom estava mais baixo e mais distante. Só concordei com a cabeça e a vi virar-se pra ir.
"Quinn!" Gritei no auge de minha ousadia e ela se virou. Eu sorri meu melhor sorriso pra ela. E hoje sei que meus melhores sorrisos sempre seriam pra ela. "Obrigada mais uma vez." Ela assentiu de novo com a cabeça. "E nos vemos por aí?" Eu quis parecer certa, mas saiu como uma pergunta. Ela me deu seu sorriso incrível e respondeu.
"Nos vemos por aí, Rachel."
Dizer que nossos encontros depois desse não foram exatamente bons é um senso comum global. Mas eu sempre vou guardar esse dia e aquela menininha meiga e envergonhada, mesmo quando ela não era mais meiga ou mais uma menininha, ou quando me tratava pior que o lixo de ontem. Ela poderia estar perdida em algum lugar por ali, não?
Sorri sozinha ao rever essa cena e as memórias que ela me trazia. Saí do banho, sem gaze –iríamos à praia, por favor, né?– e me vesti. Um short jeans curto e uma blusa vermelha. Os óculos de sol em mãos e desci para nossa enésima dose de café do dia. Dessa vez, feliz e preparada para o resto da tarde.
Encontrei Noah vestido em uma bermuda cargo cáqui, com uma blusa branca e chinelos. Sim, nós tínhamos comprado algumas – muitas – coisas nessa madrugada então não era absurdo ele ter roupas pra passar o resto da semana em que meus pais estavam num seminário em Seattle sem ter que andar nu ou precisar voltar em casa. E era bom ter uma companhia afinal. Nossas compras já estavam no meu quarto, então não teríamos tanto trabalho. Sorri pra ele que estava servindo nosso café e tinha aberto um saco de biscoitinhos para lancharmos enquanto esperávamos. Uma pergunta surgiu em minha cabeça no momento que comíamos e nos intoxicávamos com cafeína.
"Noah, você não acha perigoso irmos à praia com as meninas?"
"Ora, superstar, tá com medo da Santana?" Ele respondeu enquanto engolia e bebericava de sua caneca. Rolei os olhos, claro que não era isso que quis dizer.
"Não, não estou falando disso. Quero dizer dos fantasmas que estão atrás delas e sabem que nós podemos vê-los. Provavelmente sabem que mentimos também. E se eles estiverem vagando pela cidade e nos virem juntos no carro, ou na praia?" Disse sinceramente preocupada e isso pareceu acertá-lo, pois parou um tempo antes de responder. Tempo que usei pra comer, os biscoitos eram realmente bons.
"Hum... Acho que não precisamos pensar nisso, Rach. É improvável que eles nos vejam. Não adianta eles pegarem sol na praia, já que nada vai lhes tirar o visual pálido." Ele disse e sorrimos os dois "E, se eu conheço a Santana, seu carro deve ter vidros fumês mais escuros que a noite." Ele respondeu e eu me senti ligeiramente aliviada. É, Santana é bem o tipo que tem uma máquina tão obscura quanto o batmóvel. Menos um problema pra nos preocuparmos por enquanto.
"Acho que você está certo, punk. Vamos só pensar em aproveitar, que tal?" Ele riu e concordou com a cabeça.
Terminamos nosso lanche e eu tirei a mesa enquanto ele separava os biscoitos e pegava as cervejas que tinham ocupado todo o meu freezer. Até que ouvimos um ronco de motor e algumas buzinadas seguidas por uma cantada de pneus. Revirei os olhos, meus vizinhos vão colocar uma ordem judicial contra nós, tenho certeza. Apressei Noah para corrermos antes que ela resolvesse bradar palavrões em minha porta e o resto do que seria minha ótima tarde terminaria em um encontro com um policial na minha soleira. Noah pegou seu violão, que estava no sofá, e saiu comigo em seu encalço. Puxei minhas chaves e tranquei a porta. Até que olhei pro carro de Santana e depois pra Noah com uma sobrancelha arqueada. Ele deu de ombros. Não, o carro não tinha vidros fumês porque nem tinha vidros. Era um jipe desses de trilhas em areia. É, que seja. Pulamos nos bancos de trás e nos preparamos. Enquanto eu pedia aos céus por uma colher de chá, nem que fosse só por algumas horas.
"Olá, Rach. Oi, Puck!" Isso foi Brit sendo doce como sempre.
"Olá, Brit! Como está?" Eu respondi enquanto Puck disse um "E aí, meninas?".
"Eu to bem legal e você?" Ela me respondeu. "Como está a mão?" Eu sorri, era bacana ver alguém se preocupando comigo.
"Eu estou bem, obrigada. Minha mão também está ok." Disse isso e sorri pra Quinn, que me sorriu de volta. Posso dizer que ela estava linda com uma bata de mangas branca e um shortinho jeans. Santana estava com um short – por falta de nome a chamar aquela quase inexistente peça de roupa, fiquemos com esse mesmo – branco e uma blusa azul. Brit estava com uma saia jeans e uma regata cor de rosa. Todos estávamos de óculos escuros.
"Olá, Quinn." Consegui pronunciar sorrindo como uma desesperada. Nervos, malditos sejam.
"Oi, Rachel." Ela disse ao abaixar os óculos e me dar uma piscadela que fez meu coração dar saltos mortais e borboletas invadirem todos os meus órgãos. Até que ela abaixou os olhos e viu minha mão sem gaze e só se deu ao trabalho de levantar uma sobrancelha em minha direção.
"Eu não podia ir à praia com gaze, poderia encher de areia e minha mão está bem melhor. Os ferimentos estão se fechando..." Foi o que corri pra explicar. Não sei por que e nem de onde veio a explicação, mas me senti na obrigação de fazê-la. Ela assentiu com a cabeça.
"Nossa! Quer comer quem hoje, Puck?" Isso foi Santana, não poderia ser ninguém além dela. "Com essa quantidade toda de cervejas, dá pra porrar um time de futebol". Noah riu.
"Ninguém. Só acho que a Rach precisa relaxar." Eu arqueei uma sobrancelha pra ele. "Shh! Não faria isso contigo, superstar! Não confia em mim?" Ele disse ligeiramente triste e eu me senti mal por duvidar dele. Claro que ele não foi o homem mais nobre da face da Terra com a Quinn, mas isso não queria dizer que ele não era um cavalheiro comigo. "Além do mais, somos quatro bebendo, eu devo ficar tão bêbado quanto vocês, podem ter certeza de que serei inofensivo." Disse olhando pra Santana.
"Melhor se manter longe mesmo, ou eu bato nessa sua cara de pau." Santana disse com toda sua delicadeza.
"Temos um trato, todos nós." Ele falou olhando cada uma de nós no carro. Aproveitei e olhei Quinn que nos olhava com um misto de curiosidade e algo que não sei o que poderia ser.
"Ok, passa uma bagaceira dessa pra minha B. e não chupem todas essas cervejas porque eu quero beber na praia." Santana disse ao ligar o carro. "Principalmente você, Berry, com esse seu bocão, não acabe com nosso álcool." Revirei os olhos.
"Santana, não precisa se sentir ameaçada. Como falei com o Noah, pela quantidade de cervejas que ele comprou, mataria a sede de uma família inteira por uma semana. Visto isso, você não corre perigo." Disse ao dar uma cerveja à Brit e outra à Quinn.
"Que seja." Foi o que disse antes de arrancar com o carro. Me abri uma cerveja – com a mão boa, dessa vez resolvi usar o cérebro — e vi Quinn me olhando atenta. Até que olhei pra ela.
"Desde quando você bebe, Rachel?" Ela me perguntou curiosa.
"Ih, desde os quatorze anos." Isso foi o que Noah respondeu e eu me virei pra ele com os olhos cerrados. Ele só se dignou a rir. "Foi quando ela aprendeu a fumar e deu seu primeiro beijo, né, Rach?" Dito isso, até Santana me olhou pelo retrovisor. É, pode morrer agora? Claro que ele não ia perder a oportunidade de contar uma história. E eu desejei que o banco me engolisse.
Era uma missa de morte. O irmão mais velho do Mike tinha morrido em um acidente de carro. E nós costumávamos nos reunir em sua casa, sempre aos sábados para nos divertirmos. Eu, Noah, Mike e Brit. Em alguns dias, nós ensaiávamos. Noah fazia arranjos em seu violão e eu cantava pra Mike e Brit dançarem. Sempre nos divertíamos e, a melhor parte, ainda treinávamos. Talvez por isso eles tenham uma química tão boa, tão boa quanto Noah e eu. Não sei se Santana sabia do fato de que Brit estava conosco, ou se ela achava que sua loira só dançava com Mike. Enfim, coisa que eu talvez nunca saiba. Em outras vezes, jogávamos jogos. Ou videogame, ou correndo por aí. Nossos sábados eram bastante divertidos. Mas pararam de acontecer quando Raffe, o irmão, quatro anos mais velho, de Michel morreu. O pior era pensar que ele costumava brincar conosco, por maior que fosse a diferença de idade entre nós, ele parecia se divertir.
Então estávamos numa igreja, como toda cidade de Lima, ouvindo o quão bom ele era – e nós sabíamos disso, o que fazia a situação ser completamente pior – e como ele tinha conseguido entrar na faculdade para cursar medicina. Até que, voltando para casa, seu carro capotou por uma pirambeira e ele morreu. Eu chorei como todos e Noah também ficou devastado, dava pra ver em seus olhos vermelhos. Tínhamos nos sentado na penúltima fileira à direita da igreja. Eu, Noah, meus pais e Lily. Quinn e sua família estavam duas fileiras na frente, à nossa esquerda. Junto com os Lopez e os Pierce.
O discurso rolou bastante bem até que algo chamou nossa atenção. Uma menina morena, aparentemente jovem, mas mais velha que nós, estava ao nosso lado, em outra fileira e ligeiramente nervosa e desconfortável. Lily então nos disse que ela era a ex-namorada de Raffe, então as coisas começaram a se encaixar. Claro que ela se sentiria mal ali. Mas não foi exatamente isso que prendeu nossa atenção. Vejam bem, quando nós estamos num velório, com um corpo frio, morto dentro do caixão 'and all that jazz' e depois vemos esse mesmo corpo estendido entre nós, é meio desconcertante. Corpo não, espírito, que fosse. O espírito do irmão de Michel estava tentando enlouquecer sua ex, gritando coisas em sua cabeça e a acusando de algo. Coisa que ela não sabia, pois não o via. Não como eu e Noah e nos entreolhamos, tentando pensar a melhor solução pra esse caso.
Foi nesse momento que Russell Fabray subiu ao púlpito e resolveu dar suas condolências à família Chang. Suas lástimas duraram menos que os ataques à minha família e à de Noah. Homossexuais eram uma abominação, deveriam estar escondidos e não em uma igreja esfregando o seu pecado na cara de bons cristãos como ele – essa parte quase me fez rir. Meu pai, Hiram, que não é de deixar barato, resolveu discutir com ele no meio do velório. Até que o admirável e santo senhor Fabray atacou a família Puckerman também. Disse que se Mark tinha ido embora, a culpa era de Lily que não cumpriu com seu papel de esposa e não lhe deu um lar santificado. Aham, pau-no-cu resumia aquele homem. Enquanto essa romaria acontecia, olhei para Quinn e Judy. A loira mais nova estava com as feições contorcidas em algo parecido com dor e vergonha de seu estúpido pai. E Judy nos pedia desculpa com os olhos, visivelmente desconfortável com as atitudes nada cristãs de seu marido. Noah já estava em pé, gritando e defendendo sua mãe. Eu o puxei pelo braço pra fora da igreja. Não era hora de lidar com aquilo. Saímos e paramos na porta da igreja.
"Quem ele pensa que é? Esse desgraçado!" Isso foi Noah gritando com raiva. Eu o abracei para acalmá-lo, até que ouvimos uma voz.
"Ele é só um idiota, como tantos outros. Não liguem pra isso." Essa era a morena, ex-namorada de Raffe. Ela deve ter fugido de seu GPS particular enquanto as cruzadas rolavam lá dentro. Falar que ela era linda não era novidade, até porque, ela devia saber. Com seus cabelos negros, sua pele bem alva e seus olhos de um azul muito claro, ela chamava atenção. E o que mais chamava atenção era o cigarro entre seus dedos. Ela deve ter percebido nosso olhar e nos ofereceu. "Querem?"
Fiquei nervosa, claro. Eu sei que cigarro prejudica definitivamente a nossa voz, ainda mais a minha que é trabalhada diariamente, mas ela fazia isso parecer tão... charmoso. Antes que eu pudesse responder, Noah já estava ao seu lado acendendo um.
"Noah! O que você pensa que está fazendo? Isso faz mal! Larga isso agora!" Fiz meu papel de amiga e alertei-o, claro. Ele me ignorou e tragou aquele veneno, sorrindo para a menina.
"É, isso realmente relaxa." A menina fez que sim com a cabeça e brincou com seu isqueiro, me olhando. "Você deveria tentar, Rach." Ele disse olhando pra mim.
"Noah! Isso é um absurdo! Você sabe o mal que isso faz pra minha voz. Eu cuido dela diariamente para destruí-la assim, por um vício? Claro que não!" Disse certa de mim, menos que antes, mas mesmo assim.
"Ok, você quem sabe. Fumar um cigarro não vai te viciar." Ele falou e a morena me olhava nos olhos. Ela tinha um olhar cansado, de quem já tinha visto muita coisa e que, provavelmente, preferiria estar morta e enterrada a estar presenciando um briga de adolescentes de 14 anos. Testei a droga, por desencargo de consciência mesmo. Faria bem pra minha biografia mais tarde.
Me aproximei dela e sentei do seu outro lado. Ela, sentindo minhas intenções mudas, acendeu um cigarro e me deu. A princípio, achei esquisito demais, dava uma sensação estranha de leveza, ao mesmo tempo que a cabeça começava a rodar. Interessante. Não para ser usado sempre, ou diariamente, mas não era horroroso. Noah quebrou o silêncio.
"Quero ver o que aquele filha da puta vai falar quando nos vir fumando na frente de seu santuário." Ele disse rindo e nós duas acompanhamos, tentando não engasgar com o cigarro.
"Eu tenho cervejas, vocês bebem?" Ela perguntou. Eu e Noah nos entreolhamos. Não, nós não bebíamos, mas roubávamos carros sem ter carteira de habilitação e invadíamos propriedades privadas e públicas. O quão pior pode ser isso? Até que lembramos do fantasma em sua cola e, se precisávamos tirar algo dela, tínhamos que ser seus amigos. Balançamos a cabeça concordando. Ela sorriu. "Ok, vou no carro pegá-las. Espero que estejam com roupas de banho por baixo, pois vamos queimar no inferno." Nós rimos e continuamos fumando e esperando-a. Até que o fantasma de Raffe apareceu e ameaçou segui-la. Eu o chamei e ele parou, dando meia volta.
"Rachel... você me chamou?" Ele perguntou ainda mais pálido para um fantasma. Eu fiz que sim com a cabeça. "Você me vê?" Concordei com a cabeça e Noah seguiu meu exemplo. "Você também, Puck? Wow! Eu preciso sentar depois dessa..." Ele disse e sentou ao nosso lado.
"Raffe, o que está te segurando aqui? O que aquela menina morena tem a ver com isso?" Perguntei em minha melhor voz preocupada. Ele balançou a cabeça de um lado pro outro, talvez pra clarear os pensamentos.
"Não foi um acidente, Rach, me assassinaram..." Ele disse em uma voz baixa. Eu coloquei a mão em seu ombro.
"Foi ela?" Perguntei nervosa com nossa nova colega provável assassina.
"Não, claro que não! A Katie nunca faria esse tipo de coisa, não comigo." Ele disse sincero.
"Então o que você estava falando com ela?" Perguntei curiosa.
"Estava dizendo pra ela ter cuidado, eu preciso tomar conta dela. Tem pessoas que não a querem bem." Foi sua exasperada resposta.
"Quem, Raffe? Nos diga que nós a avisaremos." Pedi pra ele. E ele nos contou toda a situação de seu assassinato, como tinham cortado os freios de seu carro e ele, tentando desviar de um caminhão, acabou jogando-o de uma ribanceira. Falou o nome de quem fez e citou Stacey, irmã de Katie. Até hoje não entendo o que ela teve a ver com esse acidente, mas ele a citou. Nós, é claro, resolvemos sua morte, mandando seu melhor amigo pra cadeia que revelou o crime de bom grado – não exatamente, depois de algumas porradas, umas ameaças, provas suficientes e torturas (situações desesperadas pedem medidas desesperadas) – e ele conseguiu seguir seu rumo pra sua pós-vida fantasmagórica. Sendo o primeiro caso a não nos bater, ameaçar ou coisa do tipo. Alertamos sua ex que acabou virando nossa amiga ao longo dos dias. Andávamos os três juntos sempre. Bebíamos juntos e aprendemos a fumar com ela também. Só nos separamos no verão, quando ela precisou ir pra faculdade. Não preciso dizer que foi meu primeiro beijo também, mas bem, ela foi. Ah, pra não esquecer da história, a tal Stacey foi a primeira garota com quem Noah dormiu. Admito que ela não era das mais difíceis e parecia não gostar de mim. Pelo menos de Noah ela gostava, ou parecia gostar. Enfim.
Noah, sem se preocupar com minha vontade de morrer ou sumir, citou esse dia e contou a história toda, com beijo, com Stacey, mas sem fantasmas, pelo bem de nossa vida social. E eu me preparei pra ser esculhambada por Santana ou jogada pra fora do carro, mas nada veio. Tive que perguntar então.
"Não vai falar nada, Santana?" Sempre me disseram que o melhor modo de se preparar para um ataque é condicioná-lo em seu tempo e passo. Não que isso fosse acontecer com Santana, obviamente.
"Que foi, Berry? Quer que eu solte fogos de artifício só porque você saiu da sua caixa de sapatos também conhecida como armário? Faça-me o favor, né?" Foi exatamente o que ela disse e eu fiquei de boca aberta, como uma imbecil. Olhei para Noah que deu de ombros e sorriu, voltando a beber. Foi quando virei meus olhos pra Quinn que as coisas ficaram estranhas.
Ela estava em seu mundo particular, olhando para a paisagem e parecia vagar. Para chamar sua atenção, toquei levemente em seu braço. Ela virou com sua atitude que eu conhecia pelos meus anos de tortura e bastante desconfortável.
"O que é?" Foi o que me gritou. E eu recolhi minha mão e deixei-a em meu colo. Claro que ela se sentiria desconfortável com isso. Ainda mais pela criação que teve, com aquela porta de pai vociferando xingamentos para toda a raça homossexual. Mas devo confessar que me fez muito mal, me senti um lixo. Ainda mais depois que ela se afastou de mim, visivelmente querendo pular a inexistente janela. Aquilo partiu meu coração e toda a esperança que eu tinha com ela foi embora. Como fui estúpida pensando que ela tinha mudado... Senti vontade de chorar, morrer ou fugir e Noah, percebendo minha cara patética, passou um braço por trás de minha cabeça e me puxou pra perto dele em um pedido de desculpas mudo. Até que Santana cortou a tensão com sua língua de faca.
"Bem, já que sabemos que vocês fumam de vez em quando, vou parar em um posto e vocês comprar cigarros pra gente." Foi o que ela disse nos olhando pelo retrovisor. Noah assentiu com a cabeça.
Chegamos lá em menos de 5 minutos e Noah pulou do carro.
"Vou lá e já volto, damas." Ele disse se virando para entrar. Pulei atrás dele como uma desesperada. Eu queria fugir de lá mais do que queria conhecer Barbra. Então apressei o passo – corri, literalmente – atrás dele. Noah, me vendo correr como numa competição, segurou a porta de entrada do posto de conveniência e fomos juntos, enquanto ele passava seu braço pelas minhas costas em um meio abraço.
...
Não, eu não estava contente comigo e me arrependi de ter sido tão estúpida no momento que vi Rachel recolher sua mão e me olhar com os olhos arregalados. A mesma reação que tinha quando me via pelos corredores quando eu ordenava raspadinhas em seu rosto. Ela estava com medo de mim e eu me senti enjoada comigo. Não era só arrependimento, era algo tão maior que me deu vontade de vomitar. Mas ignorei isso, como sempre, e só olhei para longe. Até que me virei a tempo de vê-la correr em disparada atrás de Puckerman e fugir de perto de mim. Eu que tinha me prometido mudar, estava me sentindo um lixo, uma estúpida. Abaixei os olhos e olhei para minhas mãos. Não sei de onde veio essa fúria toda ao saber que ela tinha beijado uma garota. Não é como se eu não tivesse visto ela beijar o retardado do Finn. Foi quando me bateu, não que isso fosse ciúmes, mas saber que ela já tinha beijado aquela menina em especial, me deixou enraivecida. Além disso, eu me lembrava muito bem daquele dia.
Depois de ouvir o discurso satânico de meu pai, olhei para mamãe que tinha uma expressão de dor, como se estivesse sentindo-a fisicamente. Até que ela sussurrou pra mim, quando meu pai tinha sido tirado do alto de sua estupidez pelo padre.
"Quinnie, vai se desculpar com seus colegas. Eles não tem culpa pelo seu pai ter uma mente tão fechada." Ela sempre teve decência e jogo de cintura pra lidar com a ignorância do meu pai. Coisa que me magoou muito quando ela simplesmente me viu ser expulsa de casa, ainda mais sabendo que aquele imbecil estava errado. Algo que ainda precisamos trabalhar, mesmo quando voltamos a morar juntas, preciso voltar – ou tentar, pelo menos – a confiar nela. Não é difícil a nossa convivência e posso afirmar que foi ela quem me fez mudar, me fez me aceitar como era. Um ser humano que erra, mas que sempre deve tentar fazer o melhor. Disse isso depois de dizer que me amava incondicionalmente. Diferente de quando morávamos com Russell, onde amor era condicionado à imagem. Eu tinha que ser a perfeitinha para que meu pai me amasse. Grandíssimo filha da puta ele era.
Então, ouvindo ela me dizer isso e sorrir embaraçada depois, balancei a cabeça rapidamente e pulei em meus pés para sair da igreja e me desculpar com os meus dois colegas que foram humilhados porque meu pai se achava o próprio messias encarnado. Um imbecil. Saindo da igreja, os vi sentados numa mureta e me aproximei sorrateiramente.
Eles não me viram, estavam com uma esquisita que se achava a oitava maravilha do mundo. Enquanto fumava e dava bebida pra eles. Fiquei muito de cara, que tipo de pessoa dá bebida pra duas crianças, ainda mais na frente da igreja? Ela só podia ter parte com o diabo. Mas nada me irritou tanto quanto o fato de ela ter segurado a mão de Rachel na sua e ficar acariciando-a. Além de tudo, era uma sem vergonha. Rachel abaixou a cabeça e sorriu sem graça, do mesmo modo que tinha me sorrido depois do nosso encontro no camarim, numa peça que ela tinha feito, no dia que nos conhecemos. Foi quando percebi que a safada estava flertando com ela e Rachel nem se dignou a cortá-la. Dizer que fiquei puta com a situação é pouco. Tive vontade de fazer como meu pai e xingá-los os três e mandá-los pro inferno com suas ações desprezíveis. Mas apenas virei o corpo e saí correndo dali. Talvez eu tenha chorado depois, não me lembro. Mas foi desse dia em diante que resolvi tornar a vida de Rachel um inferno. Nada de que me orgulhe, é claro. Comecei afastando-a da má companhia que era Puckerman quando senti que ele tinha uma queda por mim. Depois entrei pras cheerios, não só isso, como virei capitã e tive todo o poder sobre a escola, nada acontecia sem o meu aval. Aproveitei-me disso e comecei a ordenar raspadinhas nela, me juntei com Santana, que também não era boa bisca, e começamos a chamá-la por toda a sorte de apelidos baixos que podiam surgir em mente (mas confesso que isso foi trabalho sujo da S., não meu).
Pensando nisso hoje, eu deveria ter mudado essa história. Se eu ao menos tivesse me aproximado e me desculpado... Talvez ela soubesse hoje que eu não divido a mesma opinião que o Filho da puta. Grande idiotice eu fiz. Ainda mais se eu pensar que isso a levou a beber, fumar e beijar aquela bagaceira sem vergonha. Como eu adoraria poder mudar isso...
"Quinn!" Santana gritou me chamando a atenção e me tirando dos meus pensamentos.
"Que foi?" Respondi de mal grado. Estava de ovo virado mesmo e sem paciência pras tiradas dela.
"Que foi aquilo com Berry?" Ela perguntou me pegando de surpresa. Não sabia que ela se importava com Rachel, então nem respondi porque não consegui pensar em nada. "Q., você sabe que eu e a Brit sempre fomos mais que boas amigas, né?" Foi o que ela me disse enquanto olhava, pedinte, pra B. do seu lado. Ora, era claro que eu sabia! Qualquer pessoa com olhos conseguiria ver isso e bastava ter metade de um cérebro pra saber que elas se gostavam além da amizade também. Coisa que Santana fez questão de jogar pro alto quando resolveu piranhar e dar pra escola toda. Tudo porque ela era incapaz de admitir seus sentimentos... Hum, pensando nisso, algumas coisas passam a fazer mais sentido pra mim.
"Quem nessa Terra não sabe disso, S.?" Perguntei tentando parecer desinteressada, o que a fez sorrir e olhar pra Brit, que a sorriu de volta.
"Então o que foi essa crise homofóbica com o hobbit? Qual é a diferença entre saber de nós duas e saber que sua boca imensa já sufocou uma menina?" Revirei os olhos e a olhei com raiva pelo retrovisor. Não, não era porque a Rachel já tinha beijado uma menina que eu estava com raiva – acho -, mas pelo fato de ela ter usado outro apelido, coisa sobre o qual já a pedi para parar.
"O que eu te disse sobre apelidos, Santana?" Disse seu nome pra ela saber que eu estava falando sério e muito.
"Ora, não seja hipócrita, Quinn! Você humilhou a menina, jogou raspadinhas na sua cara, destruiu a amizade dela com o delinqüente, agiu como uma idiota e só faltou repetir o discurso nada nobre do seu pai sobre gays e ainda vem me culpar por não largar meus belos apelidos? Faça-me o favor, Fabray!" Foi o que ela me disse, me olhando com raiva pelo retrovisor. Eu abaixei a cabeça com vergonha porque, por mais estranho que isso pareça, ela estava certa.
"Eu não estava pensando nisso... Eu só..." Não, eu não sabia o que dizer.
"Não diga nada. Talvez essa reação seja por ela não ser sua amiga como nós duas, né?" Ela me perguntou, ainda me olhando séria pelo retrovisor. Balancei a cabeça negativamente, não era por isso. "Hum, por ela ser insuportável?" Disse tentando conter um risinho e eu olhei firme.
"Não, Santana, não é por isso e ela não é insuportável." Disse séria e fria.
"Que seja! Não me importo mesmo." Disse e olhou pra dentro da loja de conveniência e segui seu olhar. Rachel estava abraçada com Puckerman, com a cabeça em seu ombro enquanto ele passava sua mão sem vergonha em suas costas. Santana deve ter voltado a me olhar e eu devia ter demonstrado a raiva que estava sentindo ao ver aquela cena ridícula. Quem ele pensava que era pra ficar alisando-a assim? "Nós podemos ir embora, ou podemos ir à praia e deixá-los aqui. O que acha, Q.? Eu, por mim, escolheria a segunda opção. Seria bem divertido." Disse rindo e eu me virei abruptamente para ela pra dizer que aquilo era um absurdo, uma falta de caráter deixar duas pessoas – por mim, ele ficava. É homem e deve aprender a se virar sozinho, mas a Rachel era uma menina e era muito pequena, poderiam abusar dela. Lembrando de hoje mais cedo, é, não deve ser fácil assim fazer alguma maldade com ela. Sorri comigo. Mas, de todo modo, não podíamos deixá-los sozinhos e à pé no meio do nada. "Relaxa, Q., não vamos deixar a metade gay da Berry e nem Puck pra trás, nossa!" Ela cortou minha linha de pensamento que envolvia gritos e berros em sua cabeça por pensar algo tão malicioso, minha cara não devia ser das melhores. "De todo modo, eles estão chegando." Me virei e percebi que já tinham comprado os cigarros e Rachel estava de óculos, diferente de Puckerman. "E é bom você pensar em algo pra dizer a ela, talvez um elogio à Barbra, porque ela não parece muito feliz e dá pra ver que a culpa é sua." É, não era sempre, mas Santana percebia as coisas, principalmente sobre mim e sabia como lidar comigo. Ela fazia isso tentando não demonstrar que se importava, algo que era óbvio que não era verdade, ela sempre se importou. Sorri pra ela e assenti com a cabeça, eu teria que reverter essa situação e pedir desculpas, talvez até explicar o porquê da minha reação. E pretendia fazer isso antes de chegarmos à praia. O que não foi possível, já que Puckerman jogou seu corpo no carro e sentou ao meu lado e ela ficou ao lado dele. Coloquei novamente os óculos pra que não vissem a minha tristeza ao saber que ela não queria sentar ao meu lado, meu coração doeu novamente. San me olhou pelo retrovisor e assentiu com a cabeça, é, eu só resolveria isso na praia... Olhei para a paisagem e deixei minha mente vagar.
...
Depois de entrar na loja de conveniência com Noah, resolvi liberar meus sentimentos pois sempre soube que ele me entenderia. Então falei sobre tudo que sentia, sobre como esse pequeno fato tinha me magoado mais que os três anos sendo desrespeitada por ela e ele simplesmente ouviu e assentiu com a cabeça.
"Rach, eu acho que você devia dar outra chance pra ela." Foi o que ele disse enquanto decidíamos qual veneno iria nos matar. "Ela ficou bem desconfortável com o fato de ter sido grossa contigo." Continuou ele.
"Sim e daí, Noah? Eu vou perdoá-la porque sou uma idiota e ela vai fazer tudo de novo. Você não vê que essa amizade, ou o que seja que temos está em um loop? Tudo sempre volta a acontecer. Sempre." Falei alto – que as pessoas ao redor fossem ao inferno, não ligava nem um pouco — e triste porque eu realmente queria perdoá-la, queria que ela se sentasse comigo e me explicasse a situação, que voltasse a ser a menina meiga de hoje mais cedo, ou ainda, a menininha do vestido azul e da flor roubada. Mas eu precisava me preocupar comigo, ninguém podia fazer isso por mim. E eu preciso cuidar dos meus sentimentos. É ruim o suficiente gostarmos de alguém que sabemos que não vai corresponder nossos sentimentos. Mas quando parecem corresponder só pra depois se retirarem, é devastador. E era isso que ele não entendia. Eu não tenho força o suficiente pra parar a minha vida em stand by enquanto esperava ela jogar quente/frio comigo. Não era justo. Não sei em qual parte do pensamento eu comecei a chorar, mas quando dei por mim, Noah estava me abraçando e passando a mão em minhas costas. Ele não dizia nada, só me esperou desabafar.
"Cadê a menina que perdoou a mãe que não fez questão de conhecê-la e depois ainda negou a possibilidade de um relacionamento?" Foi o que me falou, segurando meu queixo para olhá-lo quando parei de chorar.
"Não sei." Disse entre soluços e colocando os óculos. Não era a mesma coisa, será que ninguém via isso?
"Pois eu te digo que ela está aí e vai fazer o que é certo, na hora certa, como sempre." Me disse e depois sorriu enquanto pagava pelos cigarros. Fomos andando para sairmos até que ele parou e me disse "Respire fundo, a gente já passou por coisa pior e eu sei que você vai dar conta disso." Me falou com certeza e sorridente. Eu lhe devolvi o sorriso e segui seu conselho. Respirei fundo, ajeitei os óculos e saímos. Que eu tenha força...
A viagem durou mais uns quinze minutos e Santana, não sei se pra quebrar o clima tenso ou só por ser desagradável mesmo, resolveu colocar músicas e cantar com Brit enquanto seguia o caminho. Desde que saí da loja com Noah, comecei a beber transloucada e pude ver Quinn me olhando de canto de olho. Ignorei-a e bebi pela minha vida. Noah me acompanhou, ao que Santana disse enraivecida.
"Espero que essas bocas marginais de vocês não acabem com a bebida ou vão ter que comprar mais." Foi o que falou sem nem se dar ao trabalho de nos olhar pelo retrovisor.
"Relaxa, dá pra gente ficar bêbado, passar a onda, porrar de novo e ainda vai sobrar cerveja pra vocês ficarem tão loucas quanto quiserem." Isso foi o que Noah respondeu e não duvidei nem por um segundo da verdade dessas palavras. A quantidade de bebida que ele tinha comprado era assustadora desse jeito.
Chegamos à praia, todos sem falar o que quer que fosse. Arrumamos um lugar na areia que concordamos mudamente e estiramos nossas toalhas, os dois coolers e quatro cadeiras de praia. As meninas tiraram suas roupas sem dar um pio. Bem, todas exceto Santana.
"Se ficar me secando com esses seus olhos de peixe morto, vou te dar uma garrafada, Berry!" Foi o que disse e fez Noah rir e eu revirei os olhos. Não era ela que eu iria 'secar', obviamente. Dito isso, olhei brevemente – assim espero – o corpo de Quinn que tinha voltado ao seu auge. Era como se nunca tivesse estado grávida pra começar. E ela tinha pernas bem bonitas também, sem contar com o abdômen... Fui interrompida de começar a babar por Noah que, sem esperar que eu tirasse a roupa, me jogou em seu ombro e saiu correndo como um desesperado enquanto eu ria loucamente. Ri até o momento que ele me jogou no mar, de roupa e tudo. E depois caiu na água rindo comigo. Senti um desconforto com a água salgada nos ferimentos, sobretudo os da minha mão, mas ri também. É, não foi ruim me divertir com ele. Depois que levantei, corri atrás dele que fugiu de mim,= enquanto corríamos quase toda a extensão da praia até voltarmos pra onde estávamos, perto de nossas coisas. Então eu pulei em cima dele com um movimento sempre visto nos jogos de futebol e joguei-o na água, caindo por cima dele dessa vez. Rimos de novo, com as roupas molhadas. Eu podia dizer que estava feliz.
...
"Qual cérebro é o menos desenvolvido ali?" Santana disse enquanto olhávamos Rachel e Puckerman brincando de correr pela praia. Revirei os olhos. Não era como se estivesse com ciúmes, mas ele podia machucá-la com seu tamanho e falta de jeito. Santana me olhou "Vai resolver as coisas com Berry ou não, Q,?" Balancei a cabeça afirmativamente. Eu teria que resolver isso, era o certo a ser feito. E eu precisava da minha paz de espírito. Tinha de fazer isso. Enquanto pensava comigo, vi os dois ensopados chegarem sorridentes. Resolvi acabar logo com tudo isso.
"Rachel, posso conversar com você?" Disse depois de algum tempo me debatendo sobre o que falaria. Ela apenas assentiu com a cabeça e ficou de pé, me esperando. "Não é melhor tirar a roupa antes? Você pode ficar doente..." Continuei, um pouco envergonhada.
"Nossa, Q.! Já vai tirar a roupa de Berry sem nem uma preliminar?" Claro que seria Santana que ia complicar a minha vida e me deixar ainda mais embaraçada, como se eu não estivesse envergonhada o suficiente. Puckerman riu (minha vontade foi de enterrá-lo na areia) e Rachel deu um sorriso leve, mas seguiu meu conselho e se despiu. Bem, eu confesso que observei, só por curiosidade. Afinal, um pouco mais cedo, ela estava me olhando enquanto fingia não estar, coisa que me deixou sorrindo comigo. Isso antes de Puckerman seqüestra-la, claro. Olhei-a de leve. Depois de tirar as roupas molhadas, ela parou e me olhou. Ela tinha um corpo realmente indecente para seu tamanho e as pernas longas, com uma barriga definida... Ficamos nos olhando por um tempo, até que abaixei a cabeça e chamei-a para sentar-se na cadeira ao lado da minha. Puck, que ainda duvido que tenha semancol, puxou B. pela mão e os dois foram correndo pela areia, como ele estava fazendo com Rachel um pouco antes, mas Brit pulou em suas costas e eles saíram desembestados pela praia. Rachel, que já estava na cadeira e deve ter visto meu olhar se perder nos dois, me chamou.
"Então, Quinn, em que posso ajudá-la?" Falou em sua melhor voz teatral, sem expressar sentimento algum. O que me deixou um pouco com raiva, mas superei isso. Quem estava errada era eu, né?
"Eu queria dizer que sinto muito e te pedir perdão por hoje mais cedo. O que aconteceu não foi culpa sua, eu é que estava zoneando longe e fui pega de surpresa quando me chamou. Eu sinto muito, de verdade." Fui o mais sincera que pude e olhei-a fundo nos olhos. Pude ver suas emoções passando como um filme, indo de indiferença, passando por raiva e chegando a confusão. Ela não disse nada, estava surpresa com tudo, então continuei. "Eu me lembro daquele dia, de tudo que o meu pai disse, de como me senti envergonhada por ele ter dito aquilo tudo..." Ainda olhando em seus olhos, vi que ela tinha baixado sua guarda e estava me ouvindo sem julgamento algum. Hora de pensar, ou eu me abria completamente, ou eu deixava as coisas no ar. Resolvi optar pela primeira opção, tenho que fazer por onde pra merecer a sua confiança depois de tudo que já fiz com ela. Então expliquei tudo, disse que fui atrás deles pra me desculpar, disse que minha mãe tinha me dado força pra isso e falei também que tinha visto que eles estavam muito bem e acompanhados e acabei desistindo de continuar. Deixei de lado a parte da biscate segurando sua mão e de como isso me fez sentir, mas pude ver que quando terminei de contar a história, ela estava com o rosto em paz e que me entendia completamente, como sempre me entendeu, e me perdoava pelas palavras do Filho da puta. Ela chegou mais perto de mim e segurou meu queixo, pois tinha abaixado os olhos com vergonha de olhá-la, principalmente depois de ter repetido as ações que eu detestava em meu pai.
"Quinn, você não deve se sentir responsável pelas ações do seu pai, ainda mais quando você era uma criança. Era ele quem tinha que se desculpar, não você, como também não deve deixar isso te impedir de fazer as coisas. Ele era só um homem preconceituoso, atrasado e quadrado, não é culpa sua ter tido um pai como ele." Ela me disse olhando em meus olhos e ainda segurando meu queixo. Deixe pra ela me reconfortar quando deveria ser o contrário a estar acontecendo. Dei um riso leve quando a ouvi falar do estúpido que tinha como pai. Ela me sorriu de volta, meiga.
"Eu sei, Rachel, mas mesmo assim... E eu também não fui muito melhor que ele, sobretudo com você..." Disse me sentindo horrível, com um nó no estômago e um peso no coração, abaixei os olhos, pois me sentia muito mal por tocar nesse assunto com ela. Ela, ainda segurando meu queixo, forçou-me a olhar em seus olhos novamente.
"Shh! Não precisamos voltar a tocar nesse assunto, Quinn. Eu já te perdoei, lembra?" Ela disse sorrindo leve, mas ainda assim...
"Mesmo assim, Rach, eu fui estúpida e idiota e eu sinto muito e pelo tapa no dia do baile..." Não terminei a frase porque ela colocou o indicador em minha boca, selando meus lábios. Olhei abobada pra ela, senti um arrepio me percorrer a espinha, me sentia quente e provavelmente eu estava vermelha. Isso tudo só por um toque. É, eu devia estar ficando louca mesmo...
"Não falemos mais sobre isso, ok?" Ela disse, ainda com o dedo em meus lábios e se aproximando de mim. Não pude fazer nada além de concordar com a cabeça, do mesmo jeito imbecil do Finn. Eu realmente estava me sentindo lerda como ele. Ela abriu seu melhor sorriso e eu senti meu coração perder o compasso e acelerar. "Ótimo! Então vamos deixar isso no passado e aproveitar a praia, que tal?" Completou sorridente e eu, mais uma vez, concordei com a cabeça. Ela sorriu mais uma vez e tirou seu dedo da minha boca. Talvez eu tenha sentido falta dele, mas ainda não sei ao certo. Só me dei por mim quando a vi levantar-se e virar.
"Rach.." Ela se virou pra mim. "Você... quer dizer, eu... posso te dar um abraço?" Foi exatamente o que saiu. Assim gaguejando como o lesado do Finn. Idiota! Como eu não consigo montar uma frase na cabeça? Coisa estúpida!
Até que senti seu peso no meu colo e seus braços no meu pescoço. Ela estava me abraçando e eu estava que nem um João-bobo sem saber o que fazer com os braços, as borboletas no estômago – deve ter sido aquele lanche horroroso da escola – e o coração que entrou em corrida. Parei de me debater e abracei-a de volta. Ela estava de lado, com suas pernas – infinitas para alguém do seu tamanho – balançando do lado de fora da cadeira e com os braços ainda em volta do meu pescoço. Forcei suas costas e seu corpo mais pra perto e apoiei sua cabeça em meu ombro enquanto brincava com seus cabelos. "Obrigada..." Sussurrei pra ela que só balançou a cabeça em meu ombro, sinalizando que tinha entendido. Fechei os olhos e me concentrei na posição. Ela, fatalmente, estava ouvindo meu coração bater prestes a saltar pelas costelas, mas não disse nada e continuamos em nossa posição. Abri os olhos e vi Santana com seu riso diabólico, balançando a cabeça e rindo como uma louca. Na melhor das hipóteses, eu fiquei vermelha e olhei pro corpo quente em cima de mim. Senti sua respiração ficar mais funda e percebi que ela tinha cochilado. Eu, claro, não teria o coração de fazê-la levantar, ainda mais quando parecia tão calma, em paz e até feliz, estava com um sorriso leve nos lábios. Fechei os olhos e me entreguei à sensação.
...
"Cacete!" Foi o que gritei quando senti uma água gelada nas minhas costas. Abri os olhos rapidamente e me virei. Noah com sua cara de culpa só riu pra mim. Desgraçado! Brittany estava de pé ao seu lado e me piscou enquanto Santana a puxava pra sentar-se com ela. Esses dois mancomunando contra mim, pestes! Mas não foi isso que me chamou a atenção, longe de ser.
"Dormiu bem, Rach?" Foi o que uma tal de Quinn Fabray me perguntou arqueando uma sobrancelha. Quando será que passamos ao apelido? Não me lembrava disso. Até que me toquei e voltei meus olhos pra ela. Ok, eu, Rachel Berry, estava deitada no colo de Quinn Fabray que tinha abaixado os óculos de sol e me sorria doce. Certo, eu morri e estava no céu. Tenho certeza absoluta que estava com uma cara de retardada que faria até o Finn parecer inteligente. Fechei minha boca aberta e tentei soar desinteressada enquanto borboletas faziam uma festa na minha barriga.
"Quinn!" Ela concordou com a cabeça e sorriu mais aberto ainda. É, um dia meu coração não vai agüentar isso tudo e vai pedir demissão. "Desculpa, eu acho que cochilei em cima de você, eu sinto muito..." Ela só me sorriu ainda mais e balançou a cabeça em discordância. Até Santana, é, nenhuma novidade até aí, resolveu acabar ainda mais comigo.
"Berry, você molestou Quinn e agora vai dizer que estava bêbada e não lembra?" Foi o que disse ao segurar a mão de Brit, que sorriu doce pra ela. Ok, eu tinha molestado a Quinn? Minha santa Barbra! O que eu fiz? Ela vai me detestar, provavelmente vai mandar alguém me exorcizar. O que eu faço, o que eu faço? Parei de me sentir culpada quando Quinn passou um braço pela minha cintura, me puxando para encostar nela novamente e eu a olhei. Que absurdo! Como eu posso molestá-la e não me lembrar? Isso só podia ser um pesadelo, eu conseguir molestá-la – não que eu queira me aproveitar dela, obviamente – e esquecer. Maldita vida sem sorte!
"Você não me molestou, só cochilou em cima de mim, fique tranqüila." Ela me disse sorrindo e eu fiquei estúpida e boba a olhando até me localizar e perceber que ela ainda estava com o braço em minha cintura.
"Me desculpa por tê-la incomodado, Quinn, não sei o que me deu... Talvez tenha sido a andança no shopping..." (Isso era realmente um fato. Sorte minha que cansaço não paga imposto, ou eu estaria falida.) Disse enquanto olhava pra baixo e acabei dando de cara com seus seios. Muito discreta, Rachel. Levantei a cabeça antes que ela fosse pensar que eu era uma espécie de tarada, estupradora ou sei lá. Ela só riu ainda mais enquanto bebida sua cerveja.
"Tudo bem, Rach. Você não me incomodou nem um pouco pra ser bem sincera." Ela falou com uma leveza que me fez desconfiar da minha sanidade e se eu acordei na mesma dimensão que eu vivia. "Ah, eu passei protetor nas suas costas, tudo bem?" Foi o que me perguntou, agora não mais sorrindo. Balancei a cabeça. Não estava bem, estava ótimo! Ela sorriu "É, eu fiquei com medo de você ficar se ardendo quando acordasse..." Disse meio envergonhada, olhando pra baixo e um pouco vermelha. E, como se eu já não fosse apaixonada por ela o suficiente, acabei de me apaixonar ainda mais. Senti meu coração correndo e dando saltos, as borboletas do estômago devem ter ido pros pulmões porque, de repente, ficou extremamente difícil de respirar. E sorri tímida de volta.
"Er... o-obrigada, Quinn. Por tudo. Hum... não precisava." Foi a estupidez que me enrolei como um carretel pra dizer. Ela só assentiu com a cabeça e colocou sua cerveja na areia, tirando sua mão da minha cintura. Como eu estava num estado de letargia, permaneci na mesma posição. Não tinha em mente o que fazer.
"O que acha de um mergulho?" Ela me perguntou depois de largar a cerveja no chão. Concordei com a cabeça. Nem sempre minha talentosíssima voz estava ao meu lado. Ainda mais se tratando dela. Me levantei devagar e ajudei-a, que me sorriu como quem diz 'obrigada'. Fomos andando em silêncio até lá. Não era um daqueles desconfortáveis, mas um prazeroso, que aprimora todos os sentidos. Só me dei conta de que tínhamos chegado quando a vi subir à superfície depois de um mergulho e me jogar água, sorridente. Mergulhei também e entramos em uma guerra de água, até brincarmos de nos afogar – sempre muito sadias as brincadeiras que aprendi com Noah – e eu resolvi assustá-la ficando em baixo d'água por mais de um minuto – anos de treinamento musical e de respiração funcionam muito bem, obrigada. Até que ela afundou e me puxou pela cintura de volta. Passou a mão em meu rosto, sentiu meus batimentos – colocando a mão em meu pescoço -, me olhou com uma expressão que não consegui entender e me abraçou apertado, sussurrando em meu ouvido. "Graças a Deus está tudo bem com você, eu fiquei preocupada..." Claro, eu deveria estar me sentindo culpada ou como a pessoa mais feliz do mundo – na verdade, essa pessoa era eu, ninguém podia estar mais feliz que eu naquele momento -, mas para deixá-la menos nervosa, eu ri.
"Eu estava brincando contigo." Disse rindo e ela se afastou. Me arrependi na mesma hora. Maldita falta de filtro!
"Como assim 'brincando'?" Ela me disse com uma expressão entre séria, surpresa e interessada.
"Ora, Quinn, eu passei toda a minha vida estudando teoria musical e grande parte do canto é a respiração, posso até dizer que é a mais importante. Então eu consigo ficar quase dois minutos submersa antes de precisar respirar." Disse rindo e me sentindo orgulhosa de mim. Rá! Duvido que o bocão ou o mongolóide do Finn conseguissem fazer isso. Pensando no Finn, ele com certeza afundaria como um martelo sem cabo, então não era nenhum ponto pra mim ser melhor que ele.
"Ah! Então você fez isso de propósito, Berry?" Ela disse com uma expressão que tinha visto mais cedo, quando quis saber sobre a enfermeira. Algo que só Santana saberia explicar. Cerrou os olhos e foi se aproximando de mim, eu, em instinto de defesa, fui recuando. "É divertido fazer isso, né?" Ela continuou se aproximando e eu me afastando. Até que me puxou com força pelo braço, me segurou no colo e me jogou pro alto como se eu não tivesse peso algum – sinto até medo de pensar em quais tipos de rotina ela foi submetida pela insana da treinadora Sylvester – e eu caí no fundo e subi com impulso dos pés, mas antes de sair da água, ela me jogou água como quando estávamos brincando mais cedo. E eu, pega se surpresa, acabei engolindo. Ela riu e continuou me jogando água, que devolvi, logicamente. Até que me puxou pelas pernas e me afundou de novo. Existem pessoas que não são boas perdedoras, Quinn Fabray é uma delas, tenho que manter isso em mente. Quando voltei à superfície, ela estava saindo da água e sacudindo os cabelos curtos com as mãos. Olhei-a em dúvida e fui recompensada com um sorriso. Até que correu desembestada pra onde nossos amigos estavam com nossas coisas. Balancei a cabeça e sorri comigo. Pela primeira vez em muitos anos, pude dizer que meu coração estava completamente alegre, tão alegre que não me cabia em mim de felicidade. Até que acordei do meu transe e corri para nossas coisas, rindo como uma retardada.
Cheguei pouco depois dela que tinha se secado com uma toalha e estava sentada em sua usual cadeira. Até aí, nada de mais, nada exceto o fato de ela estar com o violão de Noah no colo enquanto testava sua afinação. Veja bem, a música me flui como sangue nas veias e me orgulho de ter uma ótima voz — sem falsa modéstia, até os surdos concordariam — e bastante ritmo para música, mas nunca fui a mais experiente em instrumentos. Só sabia tocar piano ou teclado e tocava para compor, não era o meu forte. Tanto que em anos de amizade com Noah nunca aprendi a tocar violão, coisa que ele sempre tentou me ensinar. Mas pensar em acordes e batidas e ter que trocá-las ao mesmo tempo, segurando cordas, isso tudo era demais pra mim. Por isso, vendo-a com tanta intimidade com aquele instrumento despertou minha curiosidade.
"Você toca violão, Quinn?" Perguntei enquanto me secava e sentava na toalha, ao lado de Noah. Estávamos em um círculo com Santana, Brittany e Quinn nas cadeiras e eu e Noah dividindo uma toalha. Ela me olhou e assentiu balançando a cabeça. "Isso é ótimo! Desde quando?"
"Aprendi com Puck, enquanto morávamos juntos." Ela disse sorrindo para mim e pro meu amigo do meu lado que lhe deu um de seus sorrisos sinceros.
"Quinn costumava tocar piano pra minha mãe e eu a ensinei a tocar violão em troca." Ele explicou olhando pra mim e depois olhando-a. Wow! Ela não só tocava violão como também tocava piano? Me digam como essa menina pode ficar mais perfeita. Ri abestalhada pra ela
"Não me diga que vai tocar showtunes pra Berry, Q.?" Santana, sem dúvidas. Ela negou com a cabeça.
"Na verdade, não. Tô vendo ainda o que vou tocar, não tenho nada em mente até agora..." Ela respondeu sincera e sem cair na malícia de Santana.
"Por que você não toca aquela música que costumávamos cantar nas vezes que nos juntávamos e fazíamos uma noite de meninas pulando na cama, Q.?" Isso foi Brittany perguntando doce. Quinn sorriu e balançou a cabeça num 'sim'.
"Ótima idéia, B., me ajuda na letra?" Ela perguntou sorrindo pra outra loira que abriu um sorriso gigantesco em resposta.
"Claro, Q.! É uma ótima idéia!" Disse simpática. E eu estava morrendo de curiosidade pra saber qual era a tal música, não me agüentava sentada e balançava os pés até que ela abriu os acordes e entrou na música. Meu sorriso se abriu mais, como que num passe de mágica e ela cantou me olhando nos olhos.
"Get a load of me, get a load of you
(pegue um pouco de mim, pegue um pouco de você)
Walkin' down the street, and I hardly know you
(andando pela rua e eu mal te conheço)
It's just like we were meant to be
(é como se fôssemos feitas uma pra outra)
Holding hands with you when we're out at night
(de mãos dadas com você enquanto saímos à noite)
Got a girlfriend, you say it isn't right
(você tem uma namorada e diz que isso não é certo)
And I've got someone waiting too
(e eu também tenho alguém me esperando)
What if this is just the beginning
(e se esse for apenas o começo?)
We're already wet, and we're gonna go swimming
(nós já estamos molhadas e vamos sair pra nadar)"
Britt e Santana a acompanharam e todos nós estávamos empolgados. Noah batucava num cooler, as meninas faziam a segunda voz e eu só ria como uma estúpida pela enésima vez no dia. Quinn olhou-as e continuaram rindo e cantando.
"Why can't I breathe whenever I think about you
(por que não consigo respirar quando penso em você?)
Why can't I speak whenever I talk about you
(por que não consigo falar quando o assunto é você?)
It's inevitable, it's a fact that we're gonna get down to it
(é inevitável, é um fato sobre o qual teremos que converser)
So tell me
(então me diga)
Why can't I breathe whenever I think about you
(por que não consigo respirar quando penso em você?)"
Até que ela voltou seu olhar pra mim e senti meu rosto pegar fogo enquanto Brit me ria doce, Santana me ria demoníaca e Noah me deu um tapinha no ombro. Vendo isso, Quinn sorriu encantadora para mim.
"Isn't this the best part of breakin' up
(essa não é a melhor parte de um término?)
Finding someone else you can't get enough of
(achar alguém de quem não nos cansamos)
Someone who wants to be with you too
(alguém que também queira ficar conosco)
It's an itch we know we are gonna scratch
(estamos arrumando sarna pra nos coçar)
Gonna take a while for this egg to hatch
(vai demorar um pouco pra esse ovo chocar)
But wouldn't it be beautiful
(mas isso não serial indo?)
Here we go, we're at the beginning
(aqui vamos nós, partimos do início)
We haven't fucked yet, but my head's spinning
(ainda não transamos, mas minha cabeça tá girando)
Why can't I breathe whenever I think about you
(por que não consigo respirar quando penso em você?)
Why can't I speak whenever I talk about you
(por que não consigo falar quando o assunto é você?)
It's inevitable, it's a fact that we're gonna get down to it
(é inevitável, é um fato sobre o qual teremos que conversar)
So tell me
(então me diga)
Why can't I breathe whenever I think about you
(por que não consigo respirar quando penso em você?)
High enough for you to make me wonder
(alto o bastante pra você me fazer imaginar)
Where it's goin'
(pra onde estamos indo)
High enough for you to pull me under
(alto o bastante pra você me deixar debaixo)
Somethin's growin'
(de algo que que está crescendo)
out of this that we can control
(fora de algo que não conseguimos controlar)
Baby I am dyin'
(baby, estou morrendo)
Why can't I breathe whenever I think about you
(por que não consigo respirar quando penso em você?)
Why can't I speak whenever I talk about you
(por que não consigo falar quando o assunto é você?)
It's inevitable, it's a fact that we're gonna get down to it
(é inevitável, é um fato sobre o qual teremos que conversar)
So tell me
(então me diga)
Why can't I breathe whenever I think about you
(por que não consigo respirar quando penso em você?)"
Quinn terminou a música toda me olhando e posso dizer que meu sorriso tinha engolido todo o meu rosto e não ligava nem um pouco pra minha boca cortada e dolorida. Todos aplaudimos e rimos como um grupo de antigos amigos. Nada poderia melhorar o meu senso de humor naquele momento. Até que ela se levantou e sentou-se do meu lado, dando a viola para seu dono que cogitou puxar uma música pra cantarmos. Ela me sorriu um sorriso que poderia iluminar toda Lima e devolvi meu sorriso com uma potência igual, até que perguntou.
"Gostou da música, Rach?" Disse me olhando e observando Noah com o canto de olho. Ele balançou a cabeça pra ela em sinal de positivo e ela sorriu pra ele e voltou seus olhos pra mim.
"É incrível, Quinn! Ficou maravilhosa e eu estou sem palavras pra descrever o quão bom foi ouvi-la cantar e tocar violão." Disse em uma corrida, rindo como uma lesada. Ela se aconchegou do meu lado, apoiou seu braço na toalha atrás de mim e, com um sinal de cabeça, me incentivou a encostar nela. Eu obedeci na hora, obviamente. Não conseguiria me lembrar de qualquer momento sendo mais feliz do que estava sendo ali. Levantei os olhos e sorri pra ela, que me sorriu de volta. "Foi perfeito..." Falei baixo, só pra ela ouvir. Noah estava mudando a afinação do violão para entrar em outra música.
"Isso é ótimo. E foi pra você." Ela me piscou, meu coração parou – não exatamente, por sorte, mas foi por pouco – e as tais borboletas quase me carregaram voando pelo céu. Até que ela voltou seu olhar pra Noah enquanto os primeiros versos de 'wonderwall' abriam a música. Fechei os olhos e me deixei levar pela sensação incrível de estar do lado dela e entre amigos, sem me preocupar em agradá-los ou coisa do tipo, só sendo feliz. Sorrimos uma para a outra. E voltamos nosso olhar pra Noah e seu amigo de cordas.
Fale com o autor