Sexto Sentido
10 Depois da tempestade vem a ressaca
Notas iniciais
O ex-vigário se jogou de quatro no chão para limpar o sangue da primeira menstruação da feminina e encrenqueira esposa de RuPaul desde que se assumiu mulher. Eu continuei sentada e bebendo, virando as cervejas como shots de tequila. Falando nisso, será que Berry tem algo mais forte nesse antro? Estava me sentindo extremamente vulnerável com as lanternas verdes da top model me fuzilando. Falando nela, como foi que ela conseguiu abrir mão do critério e deixar Berry colocar sua desrespeitosa língua em sua boca? Mas se eu for pensar muito nessa questão, também não fazia idéia do que tinha passado pela cabeça loira de Q. para se dispor a mais essa humilhação (engravidar de um transexual não foi baixo o suficiente pra ela).
Senti dor de cabeça ao pensar nisso tudo. Vou beber ainda mais e resumir essa indiscutível questão riscando um 'loucura' naquelas duas. É, era a única resposta.
"Bem, aqui está tudo limpo já, vamos subir e arrumar as coisas lá por cima." Falou a mundana empregada doméstica de Janis Joplin agarrando sua Bíblia ao peito, como se isso fosse defendê-lo de mim. Claro que ele estava errado e eu fuzilei-o para que isso ficasse bem claro.
"E a nossa conversa, vamos ter quando? Depois que você reformar o quarto da Berry?" Esse homem estava muito enganado se achava que eu ia abandonar minha missão tão facilmente quanto ele tinha mudado de time.
"Vamos subir e conversar lá em cima." A morena do cinema disse acariciando o dragão preto chamado Aids (essas pessoas tem sérios problemas na vida e não sabem nem nomear um animal, eu até sentiria pena deles se não estivesse tão concentrada em sofrer miséria por mim, pelo fato de conhecê-los) e sorrindo pela enésima vez na noite. Sério, ela está puxando meus botões com tanta risadinha, está me despertando uma vontade de socá-la só por desencargo de consciência, pra ver se vai continuar rindo assim.
Ela, enfim, desistiu de arreganhar seus dentes e se virou para subir, me encarando forte pra ver se eu ia marchar atrás de sua realeza e carregar a anágua de seu vestido. Balancei a cabeça e fui, era melhor saber de tudo aquilo o quanto antes. Claro que não ia encarar a destruição (providenciada pelo abuso dos narcóticos das três patetas e suas respectivas atitudes desajustadas, que acabaram com a decoração já espalhafatosa) do recanto musical do hobbit de mãos vazias. Não e não! Peguei minha nécessaire (duh! Claro que não estou falando dessa bolsinha que as mulheres-bomba carregam por aí para traficar pó compacto se lambuzando de maquiagem, numa desesperada medida para disfarçar suas caras horrorosas e perdedoras. Eu, Santana Lopez, não preciso disso porque sou um presente de Deus à humanidade) com pelo menos mais vinte garrafas para me entreter ouvindo aquela história tão real quanto a saga completa dos vampiros e aquela parafernália toda de pôr-do-sol ou o que for.
Que comece a diversão!
...
Dirigi cada vez mais depressa, aquela situação pedia que eu abrisse mão da minha prudência no trânsito. Puck estava desmaiado e sangrando no colo de Britt, que suspirava doces nadas em seu ouvido para que ele resistisse. Rachel segurava a minha mão com força e de olhos fechados. Provavelmente rezando pra que tudo acabasse bem. Se bem que ela era judia... Mas os judeus também rezam, né?
"Q., eu não sei como dizer isso, mas eu preciso que você corra..." Minha amiga loira disse doce e suavemente como é de seu feitio, mas pude ver pelo retrovisor que ela estava devastada com a situação toda.
"Vou correr sim, B., fique tranqüila." Foi o melhor que pude pensar para acalmá-la, quando eu mesma estava agitada e evitava pensar no pior, já estava destruída o suficiente. Não sei o que tinha acontecido, mas Rach parou de segurar minha mão com força. "O que houve aí atrás? O Puck tá agüentando?" Falei e peguei a mão da Rach com força, pra ver se ela me retribuía o gesto, mas não tive sorte.
"Ele não está mais respirando, Q..." Britt falou já chorando aberto e agarrando-se a Noah. "Vamos rápido, por favor..." Só pude concordar com a cabeça e morder o lábio pra não chorar.
"Vai ficar tudo bem, ok?" Falei ainda olhando minha amiga pelo retrovisor. Ela só assentiu com a cabeça, enquanto lágrimas caíam dos seus olhos. "Rach, a gente ta chegando já, não vai acontecer nada com ele..." Sussurrei para a minha (agora) namorada. Eu poderia ter sido a garota mais feliz do mundo nesse momento e eu seria, só por esse fato. Só que minha pequena diva estava quieta, de cabeça abaixada e seu melhor amigo estava morrendo no banco de trás de um carro que nem meu era (não que eu ligue pra esse fato, é daquelazinha mesmo). Balancei seu braço. "Rach?" E não tive resposta nenhuma. "Rachel!" Gritei para ver se conseguia chamar sua atenção, mas não funcionou.
Tirei minha mão da sua e passei em seu rosto, pra ver se ela me olhava. Foi quando dei por mim e percebi que minha namorada estava desmaiada e estava sendo mantida no lugar pelo cinto de segurança. "Porra!" Xinguei antes de jogar o carro em 200km/h. Não, eu não ia perder a minha garota, eu não podia...
...
Cheguei ao que um dia foi um quarto, mas agora estava mais parecendo com um mausoléu. O berço de Berry estava estraçalhado, as tábuas quebradas e por todos os lugares, os troféus desses que vem em pacotes de biscoito estavam espalhados juntos com seus livros de magia negra.
"Deus! Isso vai dar mais trabalho que imaginei." Esse homem... Esse homem! Ele estava literalmente deixando o meu sangue em ebulição. Não é possível que uma pessoa seja assim tão estúpida. Sem contar a pulga de Fabray e sua aberração de esposa, claro. Aqueles ali rompiam barreiras nesse quesito. "Bem, vamos começar logo pra terminar mais depressa." E eu, inocente, pensando que sua burrice tinha atingido um limite, mas não! Ele tinha que completar com essa. Abri a boca pra dar-lhe um conselho farpado, mas a hollywoodiana foi mais rápida.
"Bem, você pode ir limpando o chão, Brandon, enquanto eu e Santana vamos catando as coisas." Se eu não soubesse que Berry era um homem disfarçado (que dupla era aquela? RuPaul era uma homem vestido de mulher e sua dama de companhia era uma moça com aspecto de homem. Deus é mais!), eu poderia jurar que ela tinha sofrido um aborto. A quantidade de sangue que saiu de seu cabeção era realmente incrível. Isso me fez pensar no que as minhas duas loiras deveriam estar passando com a dupla Bonnie e Clyde, destruídas naquela viatura. Coitada da menina que vai ter que limpar aqueles bancos depois que seus corpos sujos e pecaminosos sentaram-se nele. Eu, no lugar dela, compraria outro carro. Só Deus sabe quantos germes podem estar ali...
"Ótimo! Vamos lá então!" O homem bradou vitorioso. "Vamos, Santana?" Disse me olhando com medo. Era melhor que tivesse mesmo, eu estava pela hora de esganar seu pescocinho de galinha. Ainda mais agora, sabendo que não vou arder no inferno por assassinar um servo do Senhor.
"Vou me sentar aqui e beber." Disse fuzilando sua cara sem noção. Cretino preconceituoso, só porque sou uma delícia latina tenho que ser empregada? Nunca em minha vida! O cargo de escrava do nosso grupo já está ocupado pela sacana e operada drag queen, não tenho nada com isso. O mundano pareceu não gostar da minha resposta, mas ignorei sua cara de quem comeu e não gostou. Como diz o meu ditado: cara feia pra mim é falta de dinheiro ou de porrada. E como eu não ia dar nenhum dos dois praquele capitalista de satã, mantive minha boca fechada e me concentrei em beber mais.
A dupla recém chegada foi limpando como boas visitas devem se prestar a fazer. Eu bebia e trocava olhares com aqueles dois. Até o dado minuto que o abusado resolveu cantarolar uma musiquinha e sorrir, como uma boa e prestativa criada. Resolvi deixar aquela pobre alma ter seu momento cor de rosa, porque eu não sou uma má pessoa, nunca fui. Claro, se eu tivesse pensado que aquela serviçal era ajudante de RuPaul, eu saberia que esse era um movimento errado. O homem achou que estava na Broadway, ou o que seja, e fez sua vassoura de microfone, inclinando-a e gritando um refrão incompreensível enquanto se sentia tão gay quanto Jon Bon Jovi em sua fase tão vendida quanto sua alma. A outra menina, claro!, sorriu. Ela estava me desafiando, eu tenho certeza. O outro achou que estava abalando e abriu dois botões de sua camisa achando estar num cabaré. Revirei os olhos pra ele e pra minha vida. Não sei ainda o que fiz (talvez eu tenha colado chicletes nos cabelos de Cristo quando ele estava na cruz, ou algo igualmente inescusável), mas deve ter sido um pecado sem perdão. Porque eu não posso estar passando por isso e achar que sou uma inocente pessoa. Não, ia ser um crime pensar que eu estava vivendo o dia de hoje sendo uma boa cristã, era injustiça demais.
"Vamos cantar, Santana!" Gritou o roqueiro, me tirando de minha autoanálise e me fazendo voltar àquele momento que preferiria não estar vivenciando. A bonequinha de luxo caiu na gargalhada me olhando. Mas dessa vez eu, estranhamente, não senti raiva. Bem, pra ser sincera, meus lábios se arquearam um pouco contra minha vontade. Malditas esmeraldas verdes! Bono Vox encarou isso como sendo um 'sim' de minha parte e agarrou sua caneta com mais força, preparando-se para voar pelos céus, e resolveu gritar do alto de seus pulmões.
"How I wish, how I wish you were here.
We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year,
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears.
Wish you were here."
Claro que esse insensível homem estava envergonhando o legendário Roger Waters, mas eu me peguei gritando com aqueles dois ensandecidos. Levantei depressa e me juntei naquele distinto trio, o antigo clérigo solava em sua guitarra com piaçava, eu puxava o refrão segurando meu microfone alcoólico (eu estava bêbada, não era estúpida a suficiente como o hobbit para fazer isso de cara limpa) e a sorridente monalisa cantava e teclava em seu piano parecido com um travesseiro. Na verdade, era um travesseiro. Mas não nos importamos e continuamos nosso show, rindo (sim, o álcool estava fazendo efeito).
...
Chegamos rapidamente ao hospital. Eu estava correndo com minha garota no colo e indo atrás de ajuda para conseguirmos tirar o Puck do carro. Consegui alguns enfermeiros já que, aparentemente, eles conhecem minha Rach e seu melhor amigo. Talvez pelo fato de eles já terem passeado por aqui antes.
"Meu Deus! Rach?" Um dos médicos gritou, largando o telefone e indo para mais perto de mim. Eu não conseguia, pela minha vida, balbuciar palavra que fosse e apenas chorava compulsivamente. Ele ameaçou tirar minha garota do meu colo, mas eu agarrei seu corpo ainda mais.
"Não! Ela vai ficar comigo!" Gritei fazendo um pequeno show no meio da emergência. Meus nervos estavam espalhados por todos os lugares e nem eu entendi esse meu reflexo, mas ninguém ia afastá-la de mim.
"Calma, senhorita, me siga com ela." Ele pareceu entender minha falta de educação.
"Espere, temos o Noah também!" Britt entrou correndo atrás da maca em que ele estava deitado. O médico assentiu com a cabeça e olhou para nosso amigo.
"Noah Puckerman?" Ele perguntou nos olhando e concordamos apenas. "Ok, vocês sigam-me e levem os dois para a primeira sala de operação enquanto eu chamo um clínico geral para me ajudar a examiná-los." Disse olhando para os enfermeiros. "Vocês querem vir?" Perguntou pra nós duas e só balançamos a cabeça, seguindo-o.
"Mas ele já voltou a respirar?" B. perguntou chorosa.
"Já sim, senhorita. Fizemos isso antes de colocá-lo na maca." Um dos garotos respondeu e rolou a maca seguindo o médico, que parou abruptamente.
"Ah sim, eu sou o doutor Kevin Maguire, sou amigo de Leroy Berry e farei o impossível pelos dois, ok?" Disse meio simpático e desolado e concordamos mudamente pela enésima vez na noite, não podíamos fazer mais nada. "Ótimo, agora vamos."
Dito isso, seguimos as duas atrás dele.
...
Confesso que nossa cantoria me fez ajudá-los um pouquinho a arrumar aquela babilônia. Resolvemos os problemas ali jogando fora tudo que tinha sido atraído pela aura insuportável e maligna de Berry. O que deixou aquilo lá mais tolerável. O gigantesco colchão de seu ninho estava no chão e os livros e prêmios de mentira estavam empilhados num canto.
Depois do trabalho feito e de ter descido para um pit stop e pego mais cervejas, me joguei no chão, escorregando pela parede.
"Acho que fizemos um bom trabalho." O coitado disse arfando e ignoramos seu desnecessário comentário, mais um dos, eu quis dizer. Enquanto eu tentava, em vão, me concentrar o suficiente pra deixar de ouvir sua voz, ou fingir que sua presença era fruto de minha imaginação. "Bem, eu vou tomar um breve banho e vocês podem ir cantando aí, pra diminuir a tensão." Falou piscando pra sorridente e se virou pra ir.
"Você realmente tem que ser amigo de Berry pra cantar tanto." Falei cansada e com uma long neck na boca. Ele deu um risinho baixo e continuou seu caminho para purificar seu corpo depois da possessão demoníaca que tinha acontecido ali. Pisquei duas vezes quando vi a atriz levantar-se de sua glória e dos lençóis impuros de RuPaul.
"Vou pegar o violão e volto já." Antes que pudesse responder, ou amarrá-la, ou costurar sua boca, a devassa cantora de chuveiro já tinha passado a terceira, procurando pelo objeto que prolongaria a minha tortura naquele dia. Fechei os olhos, respirei fundo e soltei o ar descontente, quando momentos do dia assaltaram minha cabeça já bagunçada.
Estávamos na minha casa depois de desovarmos Q. e seu oompa loompa. Sorri, era ótimo poder estar sozinha com minha garota depois de uma tarde que desafiava todos os limites do meu inferno astral. Bem, continuei sorrindo até o momento que minha loira simplesmente passou por mim em direção ao banheiro, indo tomar seu banho e trancando a porta. Fiz uma careta. Não que isso não tenha acontecido antes (quando ela estava vivendo seu romance com o motorista de velocípede), mas eu imaginei que estivéssemos juntas agora. Oras, ela tinha terminado com sua muleta inválida. Nós tínhamos feito uma maratona de sexo de sexta ao domingo à tarde, pelo amor (meus pais estavam na Espanha visitando titia que quebrou o braço segurando uma panela de pressão. Aham, a menos que ela tenha tomado uma panelada na pata, não vejo isso sendo possível. Mas bem, era a verdade. Ou ela estava mentindo na cara dura...)! Inclusive nesse mesmo banheiro e no chuveiro que ela estava usando, o que é que tinha mudado então?
Bah! Que fosse! Vai entender as mulheres, não é mesmo? Deixei isso pra lá e me sentei na cama, pegando meu livro "Orgulho e Preconceito". Antes que vocês aí me julguem e me chamem de sentimental, eu só estava lendo por curiosidade, porque gostei do filme e pelo meu professor de literatura que rasgou elogios pra essa bagaceira e mal amada dessa Jane Austen. Me perdi na leitura, não por ter uma história brilhante ou algo do tipo. Não, aquela história passava todo dia nessas novelas horrorosas que temos hoje. Em resumo, uma louca no estilo revoltada Joana d'Arc lutava contra tudo e todos e as imposições de sua época e blá blá blá. Daí conhece um estranho e sombrio cara e o resto é amor e doce. Até a sacana que escreveu sobre a vampiranhada tinha um enredo melhor, mas essa dona-de-casa de sabe Deus quantos séculos atrás sabia segurar os leitores e escrevia com muita delicadeza, como se aquilo fosse realmente uma obra sacra e era isso que tornava aquela água com açúcar tolerável, a paixão da mulher pela escrita e pelo seu livro (alguém tinha que ter, né?). Ela não era genial como a Woolf, não conhecia os segredos da depravada alma humana como o Wilde e não tinha o teor cretino e sabedoria de Flaubert. Mas não era ruim ou fraca, não mesmo.
Estava tão afundada na Inglaterra do século XIX que nem vi minha loira sair sorridente e cheirosa do seu banho. Não até ela abaixar meu livro e me sorrir.
"Jane Austen?" Perguntou depois de ler a capa e me olhar confusa. "Aquela escritora que o senhor Fletcher falou na semana passada?" Assenti com a cabeça. "Hum, então, o que está achando?" Perguntou se sentando de pernas cruzadas de índio na minha frente.
"Bem, pra começar essa menina é uma grande perdedora." Entrei em meu resumo, mas fui cortada por sua risada gostosa. Fiquei confusa, confesso. Claro, é normal rir de perdedores, mas eu nem abri mais minhas críticas.
"Você não mudou, San..." Falou não mais sorrindo. Certo, alguém me passa o memorando dessa conversa porque eu devo tê-lo perdido. "Você está sentada toda salgada e cheia de areia na cama em que dorme mais uma vez." Hum, isso é crime agora? "E continua dividindo as coisas entre boas e ruins, perdedores e vencedores, feios e bonitos, San. Tem muita coisa além disso."
"Aonde você quer chegar, Britt?" Falei sinceramente confusa.
"Você não mudou nada, San. Você tinha me prometido que ia se conter e segurar o seu gênio, mas acho que sua palavra não foi o suficiente, ou o meu pedido." Certo, ali eu já estava puta da cara, por que ela estava fazendo isso? "Eu só queria que você fosse um pouco mais como o Artie..." Ela sussurrou depois de levantar e me dar às costas. Agora sim eu sabia pra que aquele circo. Por causa do desgraçado do inválido. Não preciso nem dizer que isso mexeu com todos os botões errados que eu tinha em mim. Só o nome dele me desceu uma raiva líquida.
"Ah sim, isso tudo por causa do, oh tão perfeito cadeirante. Como não pensei nisso antes?" Falei me levantando e andando pra perto dela. "Quer me dizer algo, Brittany?" Perguntei olhando em seus olhos. Nós nos conhecemos desde sempre e eu sei quando ela quer esconder algo de mim.
"Eu dormi com ele ontem." Peraí! Como é isso? Ela passou o final de semana todo comigo, como que poderia ter dormido com ele? Vendo minha cara branca e de descrença como a de Finnprestável hoje mais cedo, ela seguiu. "Eu adorei nosso final de semana, San, de verdade. Foi maravilhoso tudo que fizemos..."
"O ponto é?"
"Eu fui à casa do Artie pra dizer que tinha te escolhido e não podia fazer isso com vocês dois, não era justo." Bem, isso me deu uma onda de alívio. Talvez ela tenha dormido de dormir mesmo, não feito nada além. Ledo engano. "Mas ele fez um ato tão romântico pra mim. A casa toda estava coberta em pétalas e ele me preparou um jantar à luz de velas e eu acabei dormindo com ele... Eu sei que você não seria capaz de fazer isso por mim." Aquilo jogou meu mundo pro caralho, quebrou meu coração e me causou uma dor física, insuportável.
"Ele pelo menos conseguiu rolar sua cadeira entre tanta pétala de puro romantismo?" Falei me virando pra ela enquanto me afastava, com uma vontade de chorar que desconhecia igual.
"San, é disso que eu estou falando..." Falou tentando chegar perto de mim.
"Não me encosta." Não gritei, mas pela frieza da minha voz soube que isso tinha lhe feito mais mal do que qualquer outra coisa. Não me interessava, ela tinha me destruído. "Eu valho só isso pra você, Brittany? Tão pouco?" Foi um sussurro, pois tinha um nó na minha garganta que me impedia de falar mais alto. Meus olhos estavam embaçados e pude sentir poças se formando em minha visão.
"San, não é isso... eu sinto..." Não fiquei pra ver o fim de seu discurso. Entrei no banheiro e bati a porta com vontade. Abri o chuveiro e me forcei a entrar de baixo dele. Água quente. Pelo menos depois desse balde de gelo que ela jogou em minha cabeça e no meu coração. Ao cair das águas, chorei abertamente como em todas as últimas vezes. Por causa dela mais uma vez. E me prometi evitar isso.
"Está tudo bem, Santana?" Voltei pra realidade abrindo os olhos e me deparando com duas pedras preciosas me furando e sua mão em meu ombro. Abaixei a cabeça rapidamente e limpei a única lágrima que tinha rolado. Respirei fundo e voltei a olhar para menina à minha frente. Assenti com a cabeça.
"Agora está melhor, acho." Disse sem tom nenhum de flerte e ela também não entendeu como sendo um. Só me sorriu compassiva e balançou a cabeça em sinal de que tinha entendido minha mensagem.
Bem, eu esperava agir e me sentir de acordo com minha mensagem. De verdade. Maldita bebida!
...
...
Britt sentou-se numa das cadeiras e fechou os olhos, murmurando algo, entre reza e algo que não conhecia. E eu estava andando pelo corredor, marchando de um lado pra outro enquanto esperava. Até que senti uma mão no meu ombro e pulei.
"Desculpa, senhorita, não quis assustá-la." Disse o médico que tinha nos atendido mais cedo.
"Como eles estão?" Falei depressa.
"Estão bem, pode ficar tranqüila." Ele me respondeu sorrindo e senti como se pudesse respirar pela primeira vez em muito tempo. Limpei as lágrimas dos olhos e o mundo saiu dos meus ombros. Sorri pra ele e fui abraçá-lo.
"Obrigada, doutor, muito obrigada mesmo. Nem sei como agradecê-lo." Respondi sincera depois de soltá-lo. O homem só sorriu e eu agradeci aos céus por ainda existirem pessoas assim, boas de coração.
"Meu Deus! Muito, muito, muito obrigada." Britt disse se jogando nos braços do médico e pegando-o de surpresa, que riu e abraçou-a.
"Nossa, gente! Nunca recebi tantos abraços assim." Ele falou ainda rindo enquanto Britt se afastava e ia me abraçar sorridente.
"Nós podemos levá-los já?" B. perguntou.
"Ainda não, eles estão tomando um remédio pra dor. E provavelmente vão ficar meio grogues e sonolentos." Nós só balançávamos a cabeça em concordância. "A Rach levou dois pontinhos na têmpora, mas não ficará marcado porque eu pedi ao cirurgião plástico para fazê-los." Continuou sorrindo ainda. "Suas mãos estão meio machucadas por isso enrolamos as duas em gaze e colocamos mercúrio para melhorar a cicatrização, apesar de a Rach ter o metabolismo acelerado e esse não ser um problema, enfim. Agora vamos ao Noah. Ele teve um corte no abdômen, mas foi até que bastante bem cuidado, o que impediu que a situação saísse do nosso controle. Fechamos seus cortes na barriga e no supercílio também sem problemas de futuras marcas ou coisas do tipo." O doutor parou e respirou, nos olhando e só concordávamos balançando a cabeça. "É isso, crianças, podem ir lá fazer companhia aos dois." Terminou e nos abraçou, se virando pra ir.
Não preciso dizer que só o vi se virando antes de sair correndo e mergulhar (com tanto cuidado quanto pude ter) ao lado da minha namorada na maca.
"Quinn?" Perguntou sonolenta.
"Sou eu, amor, pode dormir porque eu sei que está cansada." Falei passando meu braço direito por trás de sua cabeça pra que ela se aconchegasse a mim. Depois de confortável, ouvi seu suspiro contente.
"Bem melhor..." Suspirou baixo antes de dormir e beijei sua testa.
"Estão todos bem?" Britt perguntou parada na frente da porta.
"Tudo bem sim, B." Disse baixo pra não acordar minha garota. Estranhamente, minha amiga loira jogou seu corpo na parede e escorregou até o chão, chorando. Fiquei alarmada e tentei chamar sua atenção. "O que houve, Britt? Fala comigo."
"Eu fiz uma coisa horrível, Q., a San nunca vai me perdoar..." Ela falou me olhando e soluçando.
"Calma, B., só me diz o que aconteceu." Falei tentando parecer calma, mas aquelas duas eram incrivelmente difíceis de entender.
"Eu dormi com o Artie e acho que eu estou grávida." Calma aí, como é que é?
"Como é que é?"
...
"Então, o que quer cantar?" A morena modelo me perguntou, me tirando de minha autodepreciação e mudando meu foco, até então na Britt.
"Nós podemos não cantar." Disse cansada. Não me basta ter que aturar a cantoria do hamster de Fabray, ainda tinha que lidar com essa gente estranha querendo torturar meus ouvidos? Não é possível que esse povinho tenha uma vida pra cuidar, que gente sem noção, ficar cantando a porra do dia todo. A garota riu e gargalhou. É sério, eu já não entendo mais merda nenhuma nesse lugar. Menina esquisita do caralho.
"Você é divertida." Ousou me falar e arqueei uma sobrancelha pra sua cara de pau. Ela estava me chamando de palhaça ou o quê? "Não sei por que, mas gosto do seu senso de humor." Agora sim, eu estava me encaminhando até que bastante bem para meu coma alcoólico, estava até ouvindo vozes dizendo coisas absurdas. O que me fez sorrir um pouco, estou no caminho certo. "Hum, acho que tenho a música perfeita pra você." Estranhamente não mais sorridente, a atual capa da Vogue comentou depois de me roubar uma cerveja. Deixei por isso mesmo só porque pelo menos teria companhia pra dividir a glicose mais tarde. Foi quando resolveu pegar o instrumento de tortura e cordas da sem classe e desrespeitosa menina operada e abriu uns acordes, testando sua afinação.
Quando se deu por satisfeita com a minha insatisfação, empunhou aquela arma e fez meu pesadelo real, começando uma melodia qualquer.
"I don't mind it
(eu não me importo)
I don't mind at all
(eu não me importo mesmo)
It's like you're a swingset, and I'm the kid that falls
(é como se você fosse um balanço e eu sou a criança que cai)
It's like the way we fight, the times I cry, we come to blows
(é como a forma que brigamos, as vezes que choro, que nós estouramos)
And every night, the passion's there, so it's gotta be right, right?
(e todas as noites, a paixão esta lá, então isso tem que estar certo, certo?)"
Começou minha aflição com uma voz até que melódica e bastante doce. Aquela música mexia com alguma coisa dentro de mim. Não sei dizer ao certo, mas me bateu aquela onde de amargura que senti mais cedo ao ouvir minha Britt dizer que tinha dormido com o deficiente.
"No, I don't believe you
(não, eu não acredito em você)
When you say don't come around here no more
(quando diz "não venha mais aqui")
I won't remind you
(eu não vou relembrá-la)
You said we wouldn't be apart
(você disse que nós não nos separaríamos)
No, I don't believe you
(não, eu não acredito em você)
When you say you don't need me anymore
(quando diz que não precisa mais de mim)
So don't pretend to
(então não finja)
Not love me at all
(não me amar mais nem um pouco)"
Aquelas palavras sendo ditas lenta e agonizantemente estavam me trazendo algumas memórias de volta, coisas que eu adoraria enterrar, tanto quanto o corpinho de Berry.
"San, fala comigo..." Brittany falou depois que abri a porta e saí do banheiro. Cogitei ignorá-la, mas isso me doía os ossos só de pensar.
"O que você quer que eu diga, Brittany?" Falei cansada e querendo fugir daquela conversa tanto quanto adoraria colocar uma meia na boca de Berry que não perde a oportunidade de me mortificar diariamente.
"Qualquer coisa, San... Só não fique assim, por favor..." Respirei fundo ao ouvir sua súplica e me virei para olhar em seus olhos.
"Você me ama, Brittany?" Certo, eu estava apostando tudo o que tinha e era justo saber se pelo menos valia à pena, se existia uma mínima possibilidade...
"Eu não sei... Você já me fez sofrer demais, Santana..."
"I don't mind it
(eu não me importo)
I still don't mind at all
(eu ainda não me importo mesmo)
It's like one of those bad dreams
(é como um daqueles pesadelos)
When you can't wake up
(dos quais não consegue acordar)
Looks like You've given up, you've had enough
(parece que você desistiu e já agüentou o suficiente)
But I want more, no I won't stop
(mas eu quero mais, não, eu não vou parar)
Cause I just know you'll come around, right?
(porque eu simplesmente sei que você voltará, certo?)"
Sua frase me destruiu, meu mundo foi sugado por uma espiral dos infernos e minha respiração ficou presa na garganta, enquanto eu lutava contra as lágrimas pra não esticar ainda mais o papel de idiota que eu estava fazendo. Ser trocada por um cara que não pode correr até ela na praia por ser justamente um falido e perneta perdedor. Que porra!
"Não é isso, San... Você sempre vai ser a minha melhor amiga, mas eu não sei o que sinto pelo Artie..." A loira que estava abrindo mão de mim disse com lágrima nos olhos, falando aquele nome infame e sujo que não deveria estar em sua boca.
"Não me fala a porra do nome dele!" Gritei sem paciência já. Não basta foder a minha vida, aquele inválido tinha que me perseguir ainda?
"Desculpa, só estou tentando ser sincera e correta, San." Me disse baixo.
"Ah, então me diga o quão correto é você trepar comigo o final de semana todo e por causa de uma porra de um jantar você abrir as pernas praquele inválido?" Não, eu não estava pensando e ela também não, mas se eu tivesse alguma dúvida sobre ter ferido seus sentimentos, o tapa que recebi foi forte o suficiente pra me fazer ter certeza daquele fato.
"No, I don't believe you
(não, eu não acredito em você)
When you say don't come around here no more
(quando diz "não venha mais aqui")
I won't remind you
(eu não vou relembrá-la)
You said we wouldn't be apart
(você disse que nós não nos separaríamos)
No, I don't believe you
(não, eu não acredito em você)
When you say you don't need me anymore
(quando diz que não precisa mais de mim)
So don't pretend to
(então não finja)
Not love me at all
(não me amar mais nem um pouco)"
"San, meu Deus, eu sinto tanto…" Foi o que disse depois que coloquei a mão na bochecha que ela tinha acabado de bater. Não sei como tínhamos chegado àquele ponto, mas aquilo ainda me deu mais raiva.
"Sente mesmo, Brittany? Algo me diz que você deve ter se sentido bem lá com aquele imbecil. Diz pra mim como foi? Ele te fez gozar? Fez direitinho? Te deu uma chave de pernas?" Gritei na cara dela que estava escondida entre suas mãos, até que me olhou com raiva e me voltou a me estapear.
"Quem você pensa que é pra falar assim dos outros, Santana Lopez? Falar assim de mim?" Gritou de volta ainda me batendo.
"Eu sou a babaca que te ama e acabou de ser trocada por um peso morto que não vai poder nem te levar ao altar porque ele não anda!" É, eu estava descendo cada vez mais. Dane-se isso! Eu estava despencando e me lixando pra esse fato.
"Você diz como se fosse fazer isso." Continuou com seus gritos, mas não mais me batendo.
"Sabe o que é pior? Eu faria. Por você, eu faria..." Falei baixo e senti umas lágrimas rolarem pelo meu rosto. Essas que sequei com força e depressa, me afastando dela.
"Just don't stand there and watch me fall
(só não fique parada aí me olhando cair)
Cause I, cause I still don't mind it at all
(porque, porque eu ainda não me importo nem um pouco)
It's like the way we fight, the times I cry, we come to blows
(é como o jeito que brigamos, as vezes que choro, que nós estouramos)
And every night, the passion's there, so it's gotta be right, right?
(e toda noite, a paixão está lá, então isso deve estar certo, certo?)"
"San…" Foi seu suspiro depois que fez eu me dar conta de que estava inscrita e segurando meu lugar na corrida pelo papel mais idiota já feito. Uma competição minha entre a tunada travesti, a metade da nanica miss sunshine de Fabray e a cara burra, feia e desprovida de cérebro de Finnsatisfeito.
"Não, não chega perto de mim." Falei e fugi, mas acabei com as costas na minha parede.
"Não faça isso comigo, San, eu..." Disse se aproximando.
"Você o que, Brittany? Você o quê?" Gritei e ela passou uma mão em seus cabelos molhados, num gesto que resumia o meu dia, uma saga pelo limbo. "Ora, não vai mais me bater não?" Puxei seus botões porque eu estava puta da cara mesmo
"Não, eu não quis ter te batido... Me desculpa..."
"Sinceramente, Brittany, o que você está fazendo comigo é muito pior do que uns leves tapas. Você está me destruindo e nem liga pra isso." Falei baixo e sincera.
"Me perdoa, San... Eu sinto tanto." Seus soluços me chamaram mais atenção do que essa porra de frase batida.
"O que você quer que eu faça?" Perguntei com tanta dignidade quanto RuPaul, ou seja, nenhuma.
"Não me deixa, por favor... Eu não posso encarar certas coisas sem você perto de mim."
"Do que você está falando, Brittany?" Eu estava realmente preocupada com ela por mais escroto que isso pareça. Mas ela só balançou a cabeça e mordeu o lábio.
"Se eu te contar você vai embora e eu não sei o que vou fazer se você for..." Entre seus soluços isso saiu. Em outra época, isso teria me feito andar nas nuvens, mas naquela aposta no inferno, eu só me senti um lixo.
"É só pra isso que eu sirvo, Britt? Te levar ao altar no seu lindo e romântico casamento com o cadeirante? Porque eu faria isso por você, mas espero que não me peça." Eu já estava chorando como uma perdedora mesmo, não tinha a menor decência e nem a minha garota por mim. Quem não tem nada, não tem o que perder, né?
"Não, eu só acho melhor que a gente se afaste um pouco..." Falou secando os olhos.
"Você me prometeu aos cinco anos que nunca nos afastaríamos..." Sussurrei balançando a cabeça quando as lágrimas caíam livremente.
"Eu sei, mas nós não somos mais como éramos naquela época..."
"E você tem certeza disso, Brittany? Porque é melhor que tenha." Perguntei no tom certo e sombrio pra ela ter noção de que ia me perder.
"Não, eu não tenho..." Falou desconcertada, parecendo que ia entrar em um ataque de nervos.
"Muito bom isso. Na verdade, é ótimo!" Disse e segui pra mesa de cabeceira pegando minhas chaves do carro.
"No, I don't believe you
(não, eu não acredito em você)
When you say don't come around here no more
(quando diz "não venha mais aqui")
I won't remind you
(eu não vou relembrá-la)
You said we wouldn't be apart
(você disse que nós não nos separaríamos)
"Eu sinto muito, San…" Ela me falou antes de se jogar em mim, me beijando como se nada mais importasse em sua vida, ou na nossa. Fez isso e começou a se despir, me encostando na parede.
"Não, assim eu não quero, Britt..." Disse num sussurro triste, me afastando porque isso era baixo até pra mim que não tinha nível. Ela me olhou compreensiva e voltou a colocar sua regata. É, eu usei uma força que desconhecia pra me afastar do seu corpo ou dos seus beijos, mas eu merecia mais.
"Eu só queria que você fosse assim quando estávamos juntas." Sua resposta foi tão triste quanto seu sorriso.
"Eu ainda posso ser, eu posso te reconquistar, Britt-Britt..." Uhum, essa frase me deu a vitória na nossa secreta competição pela pessoa mais estúpida que já existiu.
"Eu queria tanto acreditar nisso..."
"Você vai ver, B., você vai ver." Terminei de me envergonhar com essa frase e ela me deu um beijo leve, me puxando para irmos piorar o meu inferno astral com uma noite em companhia das TLC chaves de cadeia.
"No, I don't believe you
(não, eu não acredito em você)
When you say you don't need me anymore
(quando diz que não precisa mais de mim)
So don't pretend to
(então não finja)
Not love me at all
(não me amar mais nem um pouco)
Cause I don't believe you
(porque eu não acredito em você)"
Ela me olhava firme e triste com suas bolas de gude verdes e eu poderia estar chorando (bêbados não tem a menor dignidade nessa vida mesmo) porque cheguei a vê-la se aproximando de mim.
"Não, eu estou bem." Falei me desviando daquela doçura toda antes que ficasse diabética. Mas ela tinha outra coisa em mente e me puxou com força, me abraçando em seu colo.
"Shhh! Eu não vou contar pra ninguém, pode confiar em mim." Seu sorriso que me dava vontade de atirar coisas em sua direção me acalmou dessa vez. E talvez, somente talvez, eu pudesse contar com ela. Quer dizer, ela é a melhor amiga de RuPaul e Glorinha, no mínimo tem que ser canonizada. E ainda deixou de pegar o gostoso sol da costa californiana pra vir ver esse festival de horrores aqui.
Relaxei em seu abraço e chorei em seu ombro. Já disse que a bebida é inimiga da imagem de qualquer pessoa? Ou ela, ou eu realmente tinha perdido meu bom senso por causa de uma garota. Prefiro pensar na primeira opção. É a mais acertada e me poupa dores de cabeça.
...
"Calma, Britt, me explica isso direito." Isso que ela estava passando me lembrou de tudo que o marginal deitado na maca ao lado tinha me feito passar por causa de um dia estúpido me sentindo gorda e desgraçadas doses de vinho. Balancei a cabeça. Não, aquilo não era sobre mim e eu precisava ajudar minhas melhores amigas. "Vem aqui, B., senta do meu lado e me explica tudo." Disse meiga e abrindo espaço na maca, aninhando Rach mais ainda em meu corpo. Não sei que necessidade física é essa que tenho de senti-la, nunca fui assim antes e me assustava um pouco pensar sobre essas coisas. Mas eu tinha dito que a amava mesmo e fui sincera. Bem, ela não ouviu, de todo modo, o que me faz pensar que tenho que dizer isso em uma ocasião menos, hum, mórbida. Não agora, claro, estamos namorando há um dia somente, não podemos correr assim. Pensando nisso, que dia foi esse?
Saí da minha cabeça ao ver minha doce e loira amiga se aproximar e sentar-se ao meu lado, com a cabeça abaixada. Apertei sua mão com a minha que estava livre (a outra estava ocupada demais acariciando os cabelos da minha diva).
"Isso aconteceu há três semanas, Q., a San ainda estava tentando esconder quem era ao sair com o Karofsky, ainda antes do baile. Nós dois tínhamos brigado por causa da San e acabou acontecendo, sem proteção mesmo." Essa loira não se parecia em nada com a minha alegre, serelepe e um pouco mais lenta amiga. Não, ela estava triste, sombria e parecia cansada. Beijei sua testa e apertei ainda mais sua mão que ainda segurava.
"Bem, B., isso pode não significar nada. Quero dizer, você fez o exame?" Falei olhando em seus olhos e ela balançou a cabeça, chorando ainda mais. "Então, Britt, você pode estar enganada..."
"Não, Q., a gente simplesmente sabe dessas coisas, não precisa ser inteligente pra isso." Sua frase me cortou e parei para observá-la e pensar no que ela realmente quis dizer. "Foi assim com a Beth?" Bem, ela vocalizou o que eu estava tentando me lembrar. E sim, tinha sido exatamente assim comigo... Seu choro forte e contínuo me fez pensar que talvez minha expressão tivesse dito o que eu tinha medo de dizer. Abracei seus ombros e trouxe-a mais pra perto, tentando não me mover muito para não incomodar minha namorada.
"A San sabe?" Não sei o que deu em mim, mas quando fui ver, tinha soltado essa bomba. Estúpida, Quinn! Estúpida! Claro que isso fez minha fragilizada amiga chorar ainda mais. Meu Deus, como pode existir uma pessoa tão imprestável como eu (não, o Finn não conta)?
"Não, ela não sabe e nós brigamos hoje. Eu disse que estava dividida e que tinha dormido com o Artie ontem." Ela falou depois de recuperar o ar.
"E foi verdade? Você e o Artie, eu quis dizer."
"Foi sim." Acho que isso a deixou embaraçada, pois cheguei a vê-la mordendo o lábio. "Eu tinha ido lá para conversarmos e falar sobre essa questão e ele tinha feito, tipo, um jantar incrível, com rosas e tudo mais. Acabou acontecendo e não era como se estivéssemos namorando eu e a San, ela sabia que eu ainda estava vendo o Artie..." Falou se explicando como se eu fosse realmente julgá-la.
"Mas você chegou a contar pra ele?"
"Não, eu esqueci." Eu teria sorrido de sua expressão meiga e arrependida, mas aquilo era tudo, menos engraçado.
"Tudo bem, B., vai ficar tudo bem. Mais alguém sabe?" Sua resposta foi um balanço de cabeça indicando que 'não'.
"Só você, Q., eu não sei o que fazer..." Disse desesperada e abracei-a mais forte ainda, murmurando coisas para acalmá-la. Beijei sua testa e segurei seu queixo.
"Nós vamos cuidar disso, eu estou com você. Primeiro iremos nos certificar fazendo testes. Eu passo na farmácia no caminho da casa da Rach e compramos os exames para fazer amanhã, ok?" Falei olhando fundo em seus olhos. Ela assentiu com a cabeça e dei um sorriso triste. "E San, quer contar pra ela?" Fiz logo a pergunta mais difícil porque era necessário. Sempre me disseram que uma ferida se fecha mais rápido quando abrimos mais para a dor, numa concisa frase 'o que arde cura, o que aperta segura'.
"Não sei, Q... Mas não quero fazer isso hoje, podemos pensar mais tarde? Eu estou tão cansada..." Falou com peso na voz e eu assenti com a cabeça, apoiando sua cabeça no meu ombro, enquanto a da minha pequena estava no meu peito. Britt levantou a mão e passou pelos cabelos da Rach. "Eu estou tão feliz por vocês duas, Q." Disse sorrindo e eu teria estranhado ouvir isso de outra pessoa, mas era minha observadora amiga de anos e isso não me alarmava nem um pouco.
"Eu também, B., você nem imagina o quanto." Disse olhando e rindo aberto pra minha garota sorridente que se aconchegava cada vez mais em mim. Voltei minha atenção à porta ao ouvi-la se abrindo e ver o alegre doutor Kevin entrando.
"Ah, a graça das mulheres..." Suspirou e balançou a cabeça rindo. Olhei pra Britt que me olhou de volta, do que ele estava falando? "Se minha esposa me visse com mais duas mulheres numa maca, eu iria precisar de uma para seguir direto pra UTI." Terminou e B. riu e eu fiquei extremamente constrangida. Será que Rach sentiria ciúmes se visse isso? Quer dizer, ela é só minha amiga e nós nunca fizemos nada, então... "Mas vocês podem e você tá com tudo em cima, menina! Duas, uau!"
"Não, claro que eu não faria isso, doutor, isso é um absurdo e eu seria incapaz..." Sim, eu comecei a me explicar como uma louca e não tinha motivo aparente. O que fez o homem rir ainda mais.
"Calma, moça, só vim dizer que já pode levar sua namorada embora, isso se a senhorita Berry quiser ir, tô vendo que ela se aconchegou bem aí." Claro que ele estava rindo ainda e eu fiquei nervosa, vermelha e embaraçada com a situação. Claro que minha amiga ex-cheerio não me ajudou só ria e eu fiquei pensando que se Puck estivesse acordado, aí sim seria minha via-crúcis.
"Como o senhor sabe?"
"Oras, se o modo que você segurou-a quando me aproximei tivessem deixado algo a desejar, também posso citar quando você marchou pelo meu corredor e ameaçou todo e qualquer enfermeiro que tocasse nela ou a machucasse iria 'se ver com a sua fúria e poderia se preparar para uma excursão pelo inferno'. Ou eu sou um cara muito observador só." Ele completou minha vergonha com aspas imaginárias e Britt se levantou da maca por estar rindo demais. Involuntariamente puxei o corpo da minha namorada mais pra perto do meu. "Relaxa, minha jovem, eu fiquei feliz pela minha pequena estrela ter arrumado alguém como você. Aquele gigante que ela namorava não parecia ser inteligente pra saber até mesmo sobre a história do futebol." Terminou balançando a cabeça e eu sorri. Claro que eu era melhor pra ela que o Finn, oras! Qualquer pessoa com olhos veria isso. "Bem, de todo modo, é melhor irem. Isso aqui não é um hotel pra dormirem assim, sem pagar." Terminou de sorrir e chamou alguns enfermeiros para ajudarem a carregar Puck.
"Doutor!" Chamei-o, que se virou depressa. "Obrigada por tudo, de verdade."
"Não há de que, loira." Seu sorriso foi sincero. "Mas a quem eu devo responder quando souber algo sobre uma certa diva Rachel Berry?" Não, ele não podia simplesmente ter perguntado meu nome. Rolei os olhos e respondi em tom leve.
"Quinn Fabray. Qualquer coisa relacionada a ela é de meu interesse." Falei séria e olhando em seus olhos. O homem resolveu seguir brincando e bateu continência.
"Sim, senhora Fabray! Estaremos sempre às ordens de vocês." Sorriu e me apertou a mão, enquanto eu tentava levantar com minha menina no colo sem acordá-la. Os enfermeiros já tinham levado Puck e seguiram com Britt para o carro. "Agora saiam as duas da minha frente!" Gritou se virando e suspirei, levantando devagar com minha menina que não tinha acordado.
Bem, agora era só ver o que tinha dado com a S. por lá. Com isso, saí do hospital na mesma posição que tinha entrado, mas completamente calma e feliz dessa vez. Exibindo com orgulho a minha futura diva pelo pronto-socorro.
...
Acordei do meu envenenamento causado por doses cavalares de cantorias bagaceiras. Me afastei da psicóloga e limpei o rosto com as mangas compridas da minha camisa.
"Quer conversar sobre isso?" Eu realmente olhei pra sua cara agora e pensei nessa pergunta.
"Não, eu não quero." Preciso dar um corte nessa menina antes que ela ache que sou uma sem noção que nem RuPaul que chora vendo novelas mexicanas. Eu sou Santana Lopez e não choro! Enquanto mentalizava minha vida vitoriosa, chegou o homem com um sorrisinho que fechou tão logo viu minha cara. Sem que eu precisasse lhe dar um murro, ou comentar que eu sabia que ele estava me enrolando, o rock star gospel se sentou no colchão que Berry usava pra pular com seus amigos teletubbies.
"É, acho que está na hora da nossa conversa..." O audacioso falou. Não, está na hora de eu porrar a cara estranha dele. Disse isso e calou sua matraca cantante.
"Pretende começar alguma hora ainda hoje?" Rebati já exasperada. Que dia horroroso!
"Bem, vamos do início..." Eu estou dizendo que vou machucar esse homem, estou avisando! "eu conheci os dois há alguns anos e..." Fez sua fofoca e enrolou tanto naquela história que me senti vendo 'Diário de uma Paixão'. Ou esse povo não sabe resumir as coisas, ou vieram ao mundo só pra me atormentar. E, sinceramente, não sabia qual escolher.
...
Eu realmente pensei em dar as chaves do carro à Britt, mas tão logo me lembrei que ela não estava em condições de dirigir e pulei no banco do motorista, com Rach ainda no meu colo como fizemos mais cedo.
Minha amiga loira estava sentada no banco de trás com o corpo de Puck meio jogando sobre o seu ombro e olhei-a pelo retrovisor, para garantir. Sem uma palavra que fosse, dirigi o carro em direção à farmácia e cortei a ignição, respirando fundo.
"Pronta?" Perguntei olhando em seus olhos pelo retrovisor. Sua resposta foi um aceno positivo e me preparei para abrir a porta.
"Não, Q., você não precisa fazer isso. A Rach está dormindo e eu posso ir lá sozinha."
"Claro que não vou deixá-la fazer isso sozinha, B., e eu vou levar a Rach no colo, não tem problema algum." Respondi sincera e sorri pra garanti-la que não a deixaria na mão.
"Mas eu não fiz isso por você... Ninguém fez." Sua voz foi tão baixa e entrecortada que, se eu não soubesse melhor, poderia jurar que ela estava tendo um ataque de asma.
"Não fez porque eu não me abri e não te contei, Britt, isso é diferente. Você está confiando em mim." Ela pareceu entender meu ponto de vista e, assentindo mais uma vez mudamente, abriu a porta do carro. Segurei minha diva no meu colo e apoiei sua cabeça em meu ombro até que minha amiga abriu a porta pra mim e lhe sorri agradecida. B. pegou as chaves e rumamos pra drogaria.
Lá dentro, fui falar com um dos atendentes.
"Boa noite, eu quero exames de gravidez." Sim, é muito mais fácil quando não pedimos pra gente. Eu sei porque tive que me disfarçar quando fui comprá-los pra mim e, ainda assim, dei umas vinte voltas na farmácia antes de pedi-los. Acho até que os seguranças me confundiram com alguma terrorista ou algo do tipo.
"Ai, meu Deus! Sua amiga foi violentada?" A mulher gritou em um horror e foi quando eu entendi o que ela tinha pensado. Bem, uma garota carregando outra que está desmaiada e com uma gaze em sua testa não deve passar a melhor imagem do mundo. Mas mesmo assim! Quem ela pensava que era pra falar assim da minha namorada?
"Ela é minha namorada e não é pra ela o teste. Agora, por favor, onde posso encontrá-los?" Rosnei para a mulher e sua expressão passou por nojo e ficou em medo. Melhor assim. Me respondeu apontando para o fundo do lugar e segui, assentindo com a cabeça pra ela. Gente mais estúpida.
Pegamos três testes diferentes por insistência minha (eu já estive do outro lado, mas é só pensar pra saber que uma resposta só não é satisfatória ou cem por cento correta) e seguimos para pagar por eles. Britt pegou a sacola e voltamos pro carro. Voltei depois de agradecê-la por novamente abrir a porta pra mim.
"Hum, vocês estavam fazendo o que na farmácia?" Isso foi Puck, já acordado. Olhei pelo retrovisor ao me assustar com sua voz e vi minha amiga ficar pálida e sem reação. Precisava pensar depressa pra nos tirar daquele questionário.
"Só algumas coisas que o médico nos indicou a termos em casa, precauções mesmo. Caso vocês decidam fazer outra festinha dessas." Bem, isso pareceu colar. Não é que eu me orgulhe, mas sempre fui boa em mentir e em esconder sentimentos.
"E o médico perguntou algo sobre nossos estados?" Sua pergunta ainda era grogue dada sua condição.
"Não, vocês já tem uma fama lá." Falei sorrindo pra ele que sorriu sincero de volta e balançou a cabeça. "Kevin Maguire era o doutor, amigo do Sr. Berry."
"Ah sim, eu lembro dele. Mas diga aí, conseguiu conquistá-lo? É importante fazer uma social com os sogros, Q." Revirei os olhos pra sua falta de vergonha e sorri, ligando o carro.
"Acho que ele resolveu até ser o padrinho do casamento delas." Me assustei quando vi que Britt estava bem melhor e já brincando com Puck.
"Wow! Isso aí, loira, bota pra quebrar!" Puck falou rindo e nos fez rir. Rumei pra casa da minha namorada depois de beijar sua testa levemente.
...
Eu estava rindo tão desesperadamente que não conseguia mais nem respirar. Que história ótima a desse povo safado. Mas, verdade seja dita, criatividade eles tinham. Poderiam até escrever um livro com aquela baixaria toda de fantasmas assombrando Berry e puxando seus sapatões de madrugada (no mínimo foram pessoas que sofreram do mesmo mal que eu sofro diariamente ao ouvir sua voz grasnida e cantante, além daqueles discursos terríveis e infinitos).
"Oras, Santana, essa é a verdade, não sei por que você não acredita." O ex-padre e atual viciado em heroína disse com raiva. Como se eu tivesse mesmo que acreditar em sua falta de noção e no seu cabeção mais fora da realidade que o nanico do 'Fantástico mundo de Bob', que dava agora pra fazer humor.
"Claro que é a verdade! Berry e sua esposa brigam com fantasmas desde sempre porque foram perdedores por toda sua vida mesquinha." De verdade, esse homem veio me atirando mais mentiras do que as pedras arremessadas na devassa da Maria Madalena e eu, de repente, estou errada por ter bom senso e não acreditar. Eu menti a vida toda e reconheço inverdades, tenham dó!
"Esposa da Rachel? A Quinn?" Bah, homem pau no cu, viu? Nem senso de humor tinha. Revirei os olhos e ignorei sua pergunta tão idiota quanto sua pessoa.
"Certo, vamos ver. Estamos todos em uma realidade paralela onde o Oompa Loompa é, na verdade, uma justiceira vinda de outro mundo e a travesti é sua guardiã." O homem me olhava com fogo nos olhos e eu ria ainda mais.
"Santana, é verdade. Eu me lembro de você e da Quinn do velório do Raffe, irmão do Michael. Eu conheci os dois lá. Raffe disse à Rach que foi seu melhor amigo, Morgan, que tinha cortado os freios do seu carro por inveja de não ter consigo o que ele conseguiu e passou a me ameaçar. Rach e Noah, com a ajuda de Raffe, conseguiram provas suficientes para mandá-lo pra prisão." A moderadora disse defendendo a loucura daquele povo medíocre.
"Gente, o que quer que tenha nessa cerveja é uma droga bem barata, hein?" Falei olhando pra minha garrafa, esperando que ela me respondesse ou que um gênio saísse dela e me oferecesse três desejos. O que eu poderia pedir? Quer dizer, um desejo eu tenho certeza que faria...
"Ora, Santana, por que você acha que Franz, Amy e Susan estavam atrás de vocês?" O traficante me impediu de pensar nos meus outros dois desejos. "Além do mais, como você acha que a Rach e o Noah sabem disso? Sabem que vocês correm perigo e que alguém está invocando algo pra machucá-los?" O tio do pó continuou seu sermão.
"Eu sempre soube que RuPaul era estranha, mas não sabia que ela ainda inventava inimigos. Não me assusta o fato de nunca ter tido amigos e ser tão perdedora. As pessoas geralmente inventam amigos imaginários, a menina me inventa inimigos. É cada uma..."
"Por que você acha que o quarto estava tão destruído, com coisas provavelmente voando?" O homem emendou e aquilo me fez pensar. Maldita seja a amizade do hobbit com a Elvira! Daqui a pouco, além de destruírem musicais, elas estarão fazendo poções mágicas e lançando maldições nas pessoas. Deus! Eu tenho que tomar cuidado pra não perder um fio de cabelo nessa casa, antes que Berry faça um boneco de voodoo meu ou coloque meu nome na boca do sapo. Preciso ir à igreja também, isso só pode ser uma praga e é bom que eu me previna.
Fui interrompida de meu plano pra fechar o corpo por Britt entrando no quarto para devolver a chave à Miss Universo e sendo seguida pelas Destiny's Child. Q. estava com o pouco corpo de seu Frankenstein no colo. A trans vinha porrando nas paredes, certamente numa crise louca de abstinência daquela quantidade toda de remédios que deve ter ingerido para sua depressão pós mudança de sexo. E Fabray ainda tentava cegar a pobre da menina louca de atirar pedra em avião, que não sofreu o suficiente ao trocar saliva com aquela boca sem fim que não para de cantar nem pra respirar.
"Q., você sabia que seu bicho cuco agora anda batendo em mortos com a transviada moça de cabeça raspada? Cuidado que daqui a pouco ela vai te trocar pra passar a noite no necrotério fazendo sabe Deus o que com aqueles corpos inocentes e gelados." Tive que abrir os olhos da minha amiga, né? Vai que sua boneca costurada resolve trocá-la por um monte de formol?
"Cruzes, Santana! Que horror!" Seu grito foi alto o suficiente pra dar-lhe um papel principal numa dessas óperas de esquina e eu me surpreendi quando vi que as janelas não tinham quebrado com tanta potência vocal. "Você não acreditou na história?" Gente, o que fizeram com minha amiga? Berry deve ter enfeitiçado a minha ex-capitã com alguma dessas macumbas de google, não era possível.
"É verdade, San..." Olhei pra loira que costumava chamar de minha e não entendi mais nada nessa vida. Aposto que as Bee Gees tinham drogado-a no caminho do hospital, só pode ter sido isso. Me enfureci com a situação e levantei-me indo ao banheiro, precisava de muita água na cara, quem sabe assim eu acordava em minha cama, ao lado da minha garota e me livrava daquele povo satanista? "Espera, San.."
Não, eu não esperei.
...
"Ela bebeu um pouco demais..." A vagabunda falou e revirei os olhos. Primeiro ela vem querendo afirmar sobre a minha namorada, depois se mete nos assuntos da minha melhor amiga. Quem ela estava pensando que era? Por acaso era Freud pra sair analisando todo mundo assim? Ah, mas ela estava bem enganada se acreditava nisso e se achava que eu ia simplesmente ficar observando. "Como está a Rach?" Ainda teve a audácia de chamar a minha garota por um apelido. Só quem pode chamá-la assim sou eu, não ela. Abri a boca para ensinar umas boas lições pra sua desavergonhada pessoa, mas B. me cortou.
"Ela está bem, Katie, só dorme por causa dos medicamentos." A cretina sorriu a assentiu com a cabeça. Como se fosse a dona da verdade essa menina. Quer saber, o melhor que faço por nós duas é sair daqui e cuidar da minha morena. É, é o que vou fazer.
Virei em meus calcanhares e saí daquele quarto, mas pude ouvir Britt dizendo praquela sem vergonha algo do tipo 'calma, ela é assim mesmo, bem ciumenta'. Oras! Era claro que isso não era ciúme. Nunca fui ciumenta e confio no meu taco, só que aquelazinha estava se fazendo de amiguinha demais pro meu gosto. Maldito Puckerman que chamou-a aqui! Se ele não estivesse tão derrotado por si só, eu socaria sua cara cretina pra que minha opinião ficasse bem clara.
"Baby..." Ouvi minha diva sussurrando e poupando a cara do marginal que teve o desprazer de chamar de 'amigo'.
"Oi, minha linda." Disse sorrindo pra ela, que se espreguiçou.
"Oi de volta." Respondeu baixo e sorrindo.
"Como está se sentindo, meu amor?" Perguntei afagando seus cabelos e parada na frente do banheiro do corredor.
"Hum, bem melhor agora..." Miou para mim e sorri. "Vamos pro quarto dos meus pais? Eu preciso tomar um banho..." Falou e me disse pra seguir até o fim do corredor. Obedeci.
"Aqui estamos." Falei baixo pra ela. Não entendi nada, mas de repente ela estava rindo. Talvez tenha sido o remédio, não sei.
"Nós parecemos um casal de coalas." Explicou vendo minha cara de confusão e passando um dedo leve no meu rosto.
"Isso te incomoda?"
"Não! Nada me deixaria mais feliz que isso, só o fato de você ser minha namorada!" Respondeu sorrindo tanto que não pude conter um riso.
"A recíproca é verdadeira, Berry." Falei brincando pra ela.
"É bom saber que você pode me carregar, Fabray, não espero menos que isso na nossa noite de núpcias!" Falou com sua pose de diva, me fazendo rir de contente. Estranho isso de todas as coisas pelas quais sempre impliquei com ela fossem, hoje, o que me faziam tão verdadeiramente feliz.
"Seu corpo é bem curtinho, Berry." Mostrei minha língua para que soubesse que estava brincando.
"Ora! Que absurdo, Fabray! Hoje você vai dormir no sofá só por esse comportamento." Falou cruzando os braços e descendo do meu colo. Não sei, mas acho que estava fazendo bico e ligeiramente triste porque ela virou-se em seguida e me beijou rápido, antes de seguir para o banheiro da suíte máster.
"Precisa de ajuda com o banho, meu amor?" Gritei pra ela que se virou e me olhou de cima a baixo, mordendo os lábios.
"Por mais que eu queira dizer 'sim', é melhor que você me ajude depois, me secando." Foi sua resposta antes de piscar e seguir, fechando a porta do banheiro. Não preciso dizer que meu sangue ferveu só com essa frase, mas eu não podia fazer isso, não com ela tão cansada e machucada...
"É melhor trancar a porta, Berry!" Gritei e pude ouvir seus risinhos lá de dentro. Mas bem, ela não me obedeceu.
...
Saí do banheiro depois de quase me afogar na pia de Berry. Não, ela não era grande, ainda mais em seu quarto, aonde tudo vinha em miniatura bem como sua pessoa (exceto a cama onde pretendia amarrar Q. e fazê-la ouvir musicais pelo resto de sua vida como forma de tortura). Não, eu é que joguei tanta água na cara que poderia até encher uma piscina. Mas e infelizmente eu não estava no meu quarto, na minha cama, com a minha garota. Não! Ainda me encontrava naquela seita maçônica e condenável. Voltei para enfrentar aquele povo pirado no LSD porque não sou mulher de fugir.
"Pronto, paramos aonde?" Falei praquela galera mentirosa e insana.
"Em você não acreditando." Respondeu a fumante menina do comercial da Dunhill de cigarros mentolados como seus olhos.
"Certo, se eu disser que acredito vocês mudam de disco?"
"Mudamos sim, quer conversar sobre o quê?" A sorriso colgate respondeu e foi quando percebi que estava lidando com a Oprah. Pedi aos céus pela cadeia, ou até mesmo pela cadeira elétrica para fazer justiça ao crime desconhecido que cometi. Qualquer coisa era melhor que aquele encontro dos Narcóticos Anônimos.
"Bem, eu vou me deitar porque tô morto." Gloria disse e depois resolveu se despedir. "Boa noite pra todos vocês."
"E eu tenho que ir porque tenho um compromisso..." Britt falou baixo e eu cerrei os punhos quando a raiva tomou conta de mim.
"Claro, você não vai querer deixar o inválido dormir sentado enquanto espera..." Falei e roubei um cigarro da menina que estava ali. Droga! Tinha que descer e trazer mais bebidas, as cervejas tinham acabado. Talvez lendo meus pensamentos, a falante colega de terapia de RuPaul e sua mulher se levantou e desceu. Ou ela só estava fugindo mesmo.
"San, você não entende..."
"Exato! Eu não entendo. E quer saber, estou me lixando também. Vai lá se encontrar com seu príncipe da cadeira motorizada, Brittany." Disse com raiva e me virei, andando em direção à janela, que mais cedo serviu de plano de fundo para a entrada deselegante da travestida sem classe ou educação. Deixei meu olhar vagar pelas janelas dos abusados vizinhos do hobbit.
"Eu espero que você me entenda um dia, San..." Ignorei sua frase e segurei minhas emoções, a última coisa que precisava era chorar mais. Ia ficar desidratada, ainda mais depois de encher a cara e isso não ia fazer bem à minha pele de pêssego. "Tchau, San, nos vemos amanhã."
Quando me virei, mordendo o lábio pra me impedir de gritar ou implorar pra que ficasse comigo, me escolhesse e me amasse (eu gosto de Grey's, dá licença!), ela já tinha ido. Respirei fundo e de cabeça abaixada.
"Trouxe mais cerveja, acho que você vai precisar." A voz da menina sem critério que sobreviveu ao bocão cantante de Berry me puxou de volta praquela roda viva.
"Quem vê assim, vai pensar que você quer me embebedar e se aproveitar de mim." Falei agarrando uma loira de sua mão. Aparentemente, a única loira que me queria. Ou talvez nem quisesse, só não podia me negar mesmo.
"Eu não sei se precisaria ir tão longe, não acha?" Não sei se já tinha bebido demais e estava devaneando, mas senti algo vir colado com sua frase, talvez velcro. É, a loira não me queria mesmo, mas talvez a morena quisesse...
...
Minha menina saiu do banho com um camisão de Harvard de um dos seus pais e short curto e de pano, provavelmente de pijama. Caminhou até minha direção e sentou-se ao meu lado na cama, me olhando.
"Oi..." Foi quase um suspiro.
"Oi de volta" Voltei ao nosso jogo e sorrimos as duas.
"Você quer conversar, Quinn, eu sei que as coisas devem estar confusas pra você depois de tudo que aconteceu hoje..." Falou numa corrida se explicando e não mais sorrindo. Calei-a com meu indicador em seus lábios.
"Está tudo confuso sim e vamos precisar conversar mesmo, Rach." Disse isso e ela concordou e abaixou a cabeça logo em seguida. "Mas não agora. Eu só quero me deitar um pouco contigo e sei que você também está cansada. Nós resolvemos isso amanhã, eu não vou a lugar algum mesmo." Terminei sorrindo para ela que, mais calma, sorria de volta.
"Só quer deitar um pouco, hun?" Voltamos ao nosso usual diálogo do dia.
"Hum, talvez deitar bastante e até dormir, quem sabe?" Respondi desinteressada e ela abriu meu melhor sorriso.
"Acho essa uma ótima idéia!" Falou e levantou da cama, dando uma volta na mesma e abaixando a colcha. "Tem algum lado preferido?" Sua pergunta me fez sorrir só pela preocupação comigo e com meu conforto.
"Tenho sim." Disse evitando sorrir muito.
"Qual é?" Falou enquanto tirava as fronhas dos travesseiros e pegava um edredom mais quente para nos cobrir. Quando se deu por satisfeita e viu que não tinha respondido, virou-se e me olhou fundo nos olhos.
"Ao seu lado." Respondi retribuindo aquele olhar tão cheio de significado e cheguei a vê-la se embaraçar um pouco e sorrir, abaixando a cabeça. Sorri para sua fofura e sentei na cama, me preparando para deitar. Ela imitou meus movimentos e ficou no meio da cama, me olhando. Puxei-a pelo braço para que deitasse na nossa posição de mais cedo, com sua cabeça entre meu pescoço, um braço em volta da minha cintura e uma das pernas entre as minhas.
"Estou te incomodando, baby?" Perguntou baixo.
"De modo nenhum, Broadway." Disse acariciando seus cabelos, ouvindo sua respiração satisfeita e sentindo seu sorriso no meu ombro.
"Eu posso te pedir uma coisa?" Falou baixo e um tanto quanto indecisa.
"Claro, Rach, qualquer coisa."
"Canta uma música pra mim?" Levantou-se e me olhou com aqueles grandes e sinceros olhos castanhos que me tirariam até minha casa se quisessem. Claro que assenti com a cabeça e seu sorriso era tão grande que eu poderia até dar o meu carro pra caridade só pra vê-la sorrir assim novamente.
"Algo em mente, diva?" Perguntei ainda na mesma posição. Ela balançou a cabeça negativamente e voltou a deitá-la em mim.
"Não, só quero ouvir sua voz..." Sorri e beijei sua testa enquanto pensava em uma canção para me declarar, mas que não fosse avançada demais para não assustá-la. Peguei a primeira que me veio em mente e fui com ela, sussurrando baixo.
"She rolls the window down
(ela abre as janelas)
And she
(e ela)
Talks over the sound
(fala mais alto que o som)
Of the cars that pass us by
(dos carros que passam por nós)
And I don't know why
(e eu não sei por que)
But she's changed my mind
(mas ela mudou minha mente)"
Cantei a primeira estrofe e ela virou a cabeça pra me olhar. Até me abrir seu sorriso lindo e branco como um dia de verão, claro que ela reconheceria a música. Ela é Rachel Berry, afinal de contas. A minha.
"Would you look at her?
(você olharia pra ela?)
She looks at me
(ela olha pra mim)
She's got me thinking about her constantly
(ela me tem pensando nela constantemente)
But she don't know how I feel
(mas ela não sabe como eu me sinto)
And as she carries on without a doubt
(e ela prossegue sem dúvida alguma)
I wonder if she's figured out
(eu me pergunto se ela já descobriu que)
I'm crazy for this girl
(eu sou louca por essa garota)"
Não sei exatamente em qual momento, mas sua respiração começou a ficar mais funda e achei que estivesse dormindo, até sentir sua mão acariciando minha barriga.
"She was the one to hold me
(ela foi quem me abraçou)
The night
(na noite)
The sky fell down
(em que o céu caiu)
And what was I thinking when
(e o que eu estava pensando quando)
The world didn't end
(o mundo não acabou)
Why didn't I know what I know now
(por que eu não soube do que sei agora?)
Right now
(agora)
Face to face
(cara a cara)
All my fears
(todos os meus medos)
Pushed aside
(jogados pra escanteio)
And right now
(e agora)
I'm ready to spend the rest of my life
(eu estou pronta para passar o resto da minha vida)
With you
(com você)"
Terminei a música beijando sua testa. E ela respirou contente, depois segurou seus olhos rasos d'água nos meus. Claro que imaginei o pior. Minha voz era horrorosa, ou a música era ridícula e ela queria terminar comigo, ou talvez ela só tivesse confundido seus sentimentos. Antes de começar a chorar também, ela me deu um beijo leve e limpou os olhos com as costas das mãos, sorrindo.
"O que foi, Rach?" Perguntei menos alarmada do que antes, mas não em completa paz de espírito. Ela balançou a cabeça em negativa, sorrindo agora mais do que antes.
"Não foi nada..." Levantei minha sobrancelha em uma mensagem muda de que eu a conhecia bem demais pra comprar aquela resposta. "Você, hum... você sabe do que se trata essa música?" Sua pergunta tímida me confundiu ainda mais.
"Claro que sei, Rach, por que eu teria cantando então?" Respondi realmente confusa e ela só me sorriu e abraçou meu pescoço com os dois braços, se jogando em mim. E eu, claro, abracei-a ainda mais.
"Ah sim, bem, eu só queria me certificar mesmo..."
"Ah é? Só por isso que estava chorando? Minha voz é ruim assim?" Foi em tom de brincadeira da minha parte, mas ela levantou a cabeça e seus olhos me olharam penetrantes e vulneráveis.
"Não, sua voz foi perfeita como sempre." Falou passando um dedo pelo meu rosto.
"Então me fale o que houve, Rach?" Perguntei com uma mão em sua bochecha. E ela mordeu o lábio inferior enquanto pensava se me dizia ou não. Continuei esperando, até ver que ela tinha se decidido.
"Eu só estou tão apaixonada por você que não é nem engraçado." Ela me disse e eu sorri como uma criança no Natal, o que a fez me sorrir de volta e voltar a se aconchegar em mim novamente.
"Melhor que esteja mesmo, Berry, eu preciso de você perto de mim." Disse voltando a brincar com seus cabelos.
"E quando eu penso que não é possível que você me conquiste ainda mais, você vem e rouba mais um pedaço do meu coração." Foi seu suspiro sorridente em meu ombro e eu tive que trincar a mandíbula para não dizer aquela palavra com 'a'. Mas ao invés dela, optei por outra frase.
"Pode confiar em mim, Rach, eu vou tomar conta de você de hoje em diante. Eu prometo." Beijei sua testa selando minha promessa e seu balanço de cabeça me informou que essa foi a última coisa que ouviu antes de dormir. Suspirei feliz e fechei os olhos para encontrá-la em meus sonhos.
...
"Como estão a coisas entre vocês duas?" A inquisição se virou para mim e minha única resposta foi um aceno com a mão de que não me importava e um gole generoso na minha garrafa. "Bem, se não quer conversar..."
"Não vá achando que sou sua amiga ou que preciso de você, Miss Mundo, aquilo que você viu foi só uma bad por causada pela bebida e pela convivência com essas pessoas insuportáveis que são seus amigos hobbit e Glorinha. Nada além disso." Disse antes que a menina quisesse tricotar e brincar de manicure, atrapalhando meu barato de beber.
"Como quiser, Lopez." Foi sua resposta com um cigarro na boca. "Não vai dormir não? Amanhã você deve ter aula, se não me engano." Revirei os olhos. Claro que a Madre Tereza de Calcutá ia me condenar ao reino dos infernos por cabular aulas estúpidas. Mas nem sob tortura eu iria pra ficar vendo Brittany se rolando com seu paraplégico motorista particular.
"Eu não vou." Falei fria e grossa pra ver se alguma noção entrava naquela cabeça bem penteada. Certo, ela era uma das mulheres mais bonitas que já vi (e volto de novo à questão de sua sorridente boca ter ido parar colada na máquina de tortura de Berry), mas isso não lhe dava o direito de me pentelhar.
"Posso saber por quê?" Ela me desafiava, todos estão de prova. Falando em todos, cadê a bailarina cantora e empregada do convento?
"Não." Sua expressão era divertida. "Cadê o mundano cantor de cabaré?" Perguntei antes que voltasse a querer saber da minha vida, essa fofoqueira.
"Está estirado e dormindo no sofá. Noah foi para o quarto de hóspedes e Rach deve estar com Quinn no quarto dos Berry." Falou bebendo e brincando com seu zippo.
"Isso quer dizer que vamos ter que dormir nesse lençol imundo da Berry? Nem no inferno! Eu posso acordar com pulgas. Ou cantando mais que a nova noviça RBD." Sério isso? Não tem como dar uma trégua não, aí de cima? Porra!
"Bem, eu vou dormir no colchão, mas o chão é bem grande e todo seu." A abusada ainda fez uma dessas mesuras que aqueles atores esquisitos e mortos de fome fazem nas peças. Rolei os olhos pra sua falta de graça. "A menos que queira dividir uma cama com o Noah, ou o sofá com o Brandon..." Completou me olhando com um sorriso.
"Valha-me Cristo! Nem se fossem a única opção de pessoas na Terra." Disse realmente assustada, essa armação dos astros contra mim já tinha até perdido a graça.
"Pois é o que tem pra hoje, senhorita Lopez." Decidiu parar de masturbar o isqueiro e resolveu acender logo a porra do seu veneno.
"Que desgraça de dia do inferno!" Falei para mim e joguei as costas no beiral da janela onde estava sentada.
"Levanta daí que vou te mostrar uma coisa." Falou segurando minha nécessaire e se aproximando da janela onde me pendurava, cogitando pular ou não. Acabar com aquela tortura não era uma má idéia, afinal...
"Vai ficar nua aí não, né?" Falei pra saliente modelo pornô, porque nunca se sabe e do jeito que eu estava, era melhor não provocar.
"Segura o cooler que eu vou pegar uma coberta para irmos." Sim, eu fui ignorada pela sua realeza e ainda estava recebendo ordens. Ora que mulher enjoada! Como é que pode? Sua salvação da minha educação que queria fazer uma aparição naquele papo foi o fato de ter voltado rápido e pulado minhas pernas esticadas na janela, saindo do quarto e fazendo o inverso do trajeto percorrido pela garota interrompida de nosso meio.
"Que porra você vai fazer, Lanterna Verde?" Ela só riu pra mim e me chamou.
"Vamos lá, latina! Cadê sua ousadia?" Não, me provocar não é certo pra qualquer pessoa com cérebro e isso, pelo visto, ela não tinha. Agora, fazer isso com uma Santana bêbada era ultrapassar a linha de limite do sadismo e entrar no plano do suicídio. Ah, essa garota ia ver. Me aprumei com aquele monte de garrafa na mão (que em breve iam estar quebradas em sua cabeça dura) e segui seu caminho. "Cuidado aí!" Ela falou depois de me ver quase escorregar do telhado e dar um beijo na morte. Segui seu conselho pela minha integridade física e me deparei com aquela bandida trepando pela parede para um outro andar como a mulher-aranha. Duvido nada de que essa amizadezinha dela com RuPaul e a drag deve ter feito mal ao seu juízo. Como também não duvido desse trio do inferno aplicando roubos tão pequenos quanto a decência de Berry. Nem me perguntem o tipo de companhia com quem ela anda porque eu prefiro nem saber. "Me passa as coisas que eu te ajudo." A Rapunzel falou depois de jogar seus cabelos bem lavados com um xampu só conhecido pela nobreza e eu passei os bagulhos em suas mãos.
Me joguei como a mulher gato na parede, mas tropecei nessa velharia de telha vagabunda de Berry e fui salva de minha segunda morte no dia por seus braços me segurando e me puxando pra cima. Cheguei engatinhando (não, eu não era eu mesma hoje e isso não é uma paródia escrota da piranhíssima da Christina Aguilera, era a mais pura verdade) e dei uma cabeçada em sua boca, já que ela tinha caído sentada.
"Ai, porra!" Gritei passando a mão na testa.
"Talvez se você não tivesse tentado escalar com uma garrafa na mão, eu não sei, mas podia ter sido mais simples." Ela me disse passando a língua no lábio, onde minha cabeça tinha acabado de bater. Confesso que observei seu ato até balançar a cabeça e olhar pra minha mão, é, tinha uma garrafa nela. E eu nem tinha percebido isso.
"Cala a boca! Você que está colocando minha integridade em risco ao me fazer vir a um lugar sujo como esse." Falei olhando ao redor. Tinha uma das vistas mais bonitas que tinha visto até hoje. As estrelas pareciam bem próximas e todo o resto da cidade podia ser visto da laje de RuPaul, pelo simples fato de ela ser uma favelada e morar no alto de uma morreba.
"Pra quem não gosta da Rach, você certamente fala um bocado como ela. A diferença é que você só reclama." Revirei os olhos praquela sem noção. Me comparar com o hobbit? Isso é uma baixaria, uma agressão quase física. Mas a abusada estava abrindo a coberta em cima daquele mafuá e não me dava mais atenção.
"Se eu fosse você, prestava atenção com o que diz, eu posso jogá-la aqui de cima." Falei cruzando os braços e abrindo outra cerveja.
"Não, não pode não." Disse me olhando fundo nos olhos e se sentando naquele pano horroroso, provavelmente um tnt muito do muquirana. Cruzei os braços encarando-a forte e recebi um sorriso de volta. Essa mulher era mais louca que a Shakira. "É bonito aqui, não?" Disse olhando ao redor e me olhando em seguida. Bem, eu tinha que concordar com isso, né? Então concordei com a cabeça e me sentei ao seu lado. "Eu costumava vir aqui com a Rachel e com o Noah em noites como a de hoje, de verão. Ele trazia o violão e cantávamos..."
"Por que vocês cantando não me surpreende?" Interrompi a história da sua vida antes que ela se embaraçasse ainda mais falando de seu caso tórrido de amor com a rata ligeirinha. Coitada dessa menina.
"Porque você acha que sabe de tudo. Mas não sabe." Eu juro que se os iniamigos mortos de RuPaul forem desagradáveis assim como os vivos eu vou quase sentir pena de sua metade de pessoa. Porque essa menina... Essa menina!
"Quem sabe é você, obviamente." Revirei os olhos pra sua falta de modéstia e noção
"Obviamente." Falou sorrindo.
"E eu achando que a galinha mestiçada sua irmã era pau no cu, você ta dando aula já." Dito isso olhei nos seus olhos e sua expressão mudou completamente, algo entre medo ou vergonha de sua vida e escolhas. Sei lá.
"Você conheceu a Stacey? O que ela te disse?" Falou depressa e inquieta como se fosse tirar a mãe da zona. Se bem que, pensando bem naquela família, não duvido muito disso não...
"Ela falou algo sobre essas criações imaginárias e doentias de Berry, que estava planejando uma reuniãozinha com eles. A propósito, esquisitíssima a sua irmã. Ela deve estar usando a mesma droga que o hobbit..." Falei e seus olhos se arregalaram.
"Ela o quê?" Perguntou de novo. Odeio gente surda porque eu não me repito nunca. Ainda mais depois de beber e sem fazer a menor idéia de que porra eu tava falando.
"Usa as mesmas drogas que Berry. Dá pra prestar atenção, cacete? Vou ficar repetindo não!"
"Não essa parte, sobre a de tê-los chamado pra uma reunião..." Ela me corrigiu.
"Se você sabe, tá perguntando por que, merda?" Ai, odeio essas pessoas iguais ao RuPaul, o mesmo disco quebrado repetindo tudo.
"Ela tirou os mortos de onde quer que eles estivessem e os mandaram atrás de você e das suas loiras, não tá vendo?" Pra resposta atravessada que dei, ela até que foi bem educada comigo.
"Ih, começou..." Voltei a beber. Haja saco pra essa vibe psicótica e mórbida desse povo. Me virei em sua direção quando senti sua mão em meu rosto.
"Isso é sério, Santana, não percebe? A Rach fez amizade com vocês para protegê-las. Por que você acha que ela e Noah foram de madrugada ao shopping comprar roupas novas e se aproximaram de vocês em seguida?" Bem, essa explicação dela fazia mais sentido que tudo voando misteriosamente no muquifo de Berry. Até que a realização me bateu e eu abri os olhos e meu queixo deve ter quicado no chão. Ela, claro, percebeu. Eu estava em choque, não me mexia e nem esboçava reação nenhuma, até que ela me puxou pra mais perto. "Calma, vai ficar tudo bem..."
"Eu não tive nada com a morte deles, eu juro..." Falei sincera.
"Eu acredito em você." Foi de uma compreensão e doçura que curariam meu coma alcoólico com tanta glicose, ainda passando a mão em meu rosto. "Vai ficar tudo bem, eu prometo."
"Não, não prometa nada, por favor." Falei me lembrando da promessa que Brittany tinha quebrado mais cedo.
"Eu prometo e vou cuidar de você, ok?" A menina permaneceu prometendo. Que gente cabeça dura! O que se seguiu, eu não tenho a menor explicação pra dar.
Começou com meu aceno de cabeça, concordando com sua desnecessária e mentirosa promessa. Terminou quando eu estava puxando- pela camisa e beijando a vida de seu corpo, colocando a língua bem fundo naquela boca que já trocou saliva com Berry (e eu deveria ter pensado nisso. Deveria e teria se estivesse sóbria). Bem, ela correspondeu com a mesma intensidade e volúpia e algo percorreu minhas veias. Me afastei por medo e falta de ar e ela só me olhava compreensiva.
"Eu ainda não gosto de você, ok?" Disse e ouvi sua gargalhada melódica cortar o ar. Não consegui me segurar e sorri com ela, depois rimos como hienas. Balancei a cabeça pra sua falta de noção, até pra rir a menina chamava atenção.
Olhei meu relógio e vi que faltavam dois minutos pra esse dia no inferno acabar. Suspirei contente e olhei pra sorridente garota propaganda de beleza e saúde ao meu lado. Com toda a minha delicadeza, puxei-a mais uma vez para outro beijo.
Quando acordei hoje de manhã, não tinha imaginado viver um dia tão cretino como o de hoje. Claro, caso soubesse não teria levantado minha maravilhosa pessoa da cama. Mas de repente, com um céu estrelado, uma lua cheia, algumas cervejas e aquela menina que foi a única a se importar com meus sentimentos, eu tive certeza de como eu queria que o meu dia terminasse.
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