Sexta-feira, 13 de Junho
4 Raiva
Aquela manhã cheguei em casa mais cedo. Não tinha deixado a Carol em casa por que o pai dela tinha vindo buscá-la. Fui até a cozinha e fiz um sanduíche... liguei a tv da sala no noticiário e sentei no sofá. Não havia nada para fazer. Nenhum trabalho da escola, nenhuma lição de casa... eu estava entediado. O noticiário estava falando sobre o trânsito. Então mudei de canal, mas também não havia nada de bom no canal que eu havia colocado, então fiquei procurando algo para assistir durante uns dez minutos. Mas eu não estava com humor para a televisão...
Resolvi sair de casa. Peguei minhas chaves, tranquei a porta e desci a escadaria do prédio para não encontra com nenhum vizinho no elevador porque eu não estava afim de conversar com ninguém. Fui para a praça Roosevelt. Ela ficava um pouco longe da minha casa, mas lá era bom, era tranqüilo e tinha uma ótima vista da cidade.
A praça tinha dois andares, no primeiro andar ficavam sempre alguns skatistas fazendo manobras e conversando com os amigos — muitas dessas conversas acompanhadas de alcoól e drogas — e no andar de cima geralmente não ficava ninguém, porque não havia muitas coisas para fazer manobras e etc... A parte de tráz da praça dava de frente para a av. da Consolação e você podia vê-la inteira, era muito bonito. Chegando lá fiquei sentado na beirada da praça apreciando a vista.
Eu estava pensando nela... de novo. A quem eu estava tentando enganar? Todo mundo sabia que eu já não era mais o mesmo. Eu nada mais era do que uma sombra, um fantasma do que um dia eu já fora.
Não que eu realmente tivesse sido alguma coisa na vida. Eu não era, realmente, muito bom com nada. Minhas notas nunca foram lá grande coisa, eu não tinha tantos amigos, vivia brigando com o meu pai. Enfim... minha vida era uma droga. A Érika era o meu refúgio. Quando estavámos juntos eu não conseguia pensar nessas coisas e, quando eu precisava desabafar com alguém ela sempre estava lá.
Com ela era parecido. Ela não conseguia se dar bem com a irmã dela de jeito nenhum, eram brigas muito feias. Ela realmente odiava a irmã. A irmã dela não era uma figura muito agradável: estava sempre de cara fechada, era muito grosseira e não perdia oportunidades de tentar provocar a Érika. Uma vez chegou a dar em cima de mim só pra deixá-la pra baixo. Também me lembro de ouvir a Érika me contar de uma história em que a irmã dela atropelou o gato da Érika, com uma bicicleta, só de birra mesmo. Ela era uma filha da puta, isso é o que importa.
Nós eramos a alegria um do outro, ela sabia disso e eu, também... Mas agora tudo estava acabado, graças ao pai dela.
A culpa era dele! Aquele velho idiota só queria arrumar um jeito de nos separar! Ele já havia nos proibido de namorar, mas a gente se encontrava escondidos. Ele demorou para descobrir, mas descobriu.
Depois disso ele a deixou de vários castigos: ela não podia sair mais para a rua sosinha, não podia usar a internet e ele só bloqueou o celular dela para receber ligações minhas. A gente só conseguia se falar por causa da amiga dela que ficava trocando recados pra gente.
Pensando nisso eu comecei a ficar com muita raiva do pai dela. Muita raiva. E eu fiquei com raiva de mim, por que a culpa de ele me odiar era minha: ele quis nos separar quando descobriu que a gente esava transando. Ele descobriu porque, uma vez, nós fizemos na casa dela e ela esqueceu de trocar os lençóis. Foi aí que ele descobriu. E foi aí que tudo começou...
Mas por outro lado, eu também estava começando à ficar com raiva de estar tão deprimido por causa dela. Depois de ficar tanto tempo mal, depois de chorar tanto... eu me sentia cansado! E com raiva disso!
— Por que você não consegue esquecer ela, porra? — Eu dizia a mim mesmo.
Eu estava muito puto. Naquele momento eu pensei em me jogar da praça e cair em cima de um carro só pra morrer e levar mais alguns comigo em um lindo acidente de trânsito!
E a raiva foi aumentando. E eu olhava para as pessoas lá embaixo, pensava "aposto que esses cretinos estão muito melhores que eu!" e deviam estar mesmo! Era injustiça eu ter que passar por aquilo! Por que aquilo tinha que acontecer comigo porra? Logo eu que nunca fazia mal a ninguém? Eu fiquei muito irritado, queria quebrar coisas, bater em alguém... arrumar confusão. Eu estava nervoso e ao mesmo tempo triste. Mas eu estava me sentindo meio bem. Era melhor do que ficar me deprimindo por causa dela, me sentindo um patético por causa de tê-la perdido. Eu não podia fazer nada! A culpa não era minha! Era dele! — o pai dela — Eu só queria queria fugir daquilo! Queria sumir, desaparecer... e foi mais ou menos isso que eu decidi tentar fazer. Como eu disse, eu tava afim de arrumar confusão, de me fuder... então saí da praça. Voltei pra casa, peguei um dinheiro e fui pra Borba.
A Borba era uma ruazinha onde havia muitos bares e botecos. Era um ponto de encontro onde o pessoal menor de idade ia pra fumar, beber e se drogar. No estado que eu estava e com o dinheiro que eu estava... Não ia sair coisa boa disso.
Eu cheguei na rua, ela estava meio escura e lotada de gente como sempre, música alta pra todos os lados — exatamente como de costume. Me lembro vagamente do que aconteceu naquela noite, o resto... eu esqueci devido à bebida. Pois bem, eis o que aconteceu: chegando lá, encontrei com alguns conhecidos meus. Eles estavam enchendo a cara e conversando sobre as meninas que eles estavam "pegando" — que no vocabulário deles, significava o mesmo que fuder.
Eram todos muito sujos, o jeito como falavam... o jeito como olhavam para as garotas, com malícia e perversão. E isso ainda piorava por causa do efeito da bebida e da maconha. Eu comprei uma latinha de cerveija pra mim e fiquei conversando com um cara chamado João. Esse era gente boa, diferente dos caras de lá, ele não era tão sujo... era tarado, como qualquer outro cara da minha idade na época, mas não era podre como aqueles caras. Cada um deles se gabando de ter fudido mais meninas, roubado mais playboys, fumado mais maconha e etc... Enquanto conversava eu bebia e bebia, terminava uma lata, já comprava outra. E por aí fui indo até ficar completamente bêbado.
Depois de conversar com o tal de João eu não me lembro muito bem do que aconteceu... só me lembro — muito vagamente — de ter ficado com uma menina que tinha namorado e o cara vindo pra cima de mim...
Depois disso só me lembro de acordar numa sala meio escurecida, branca... Eu estava deitado numa cama com um tubo enfiado no meu braço, pelo qual passava um líquidozinho transparente. As luzes da sala estavam apagadas, a pouca luz que havia no aposento, entrava por uma abertura quadrada na porta. Senti alguma coisa pesando no meu colo, olhei melhor e reconheci...era a Carol. Ela estava dormindo sentada numa cadeirinha, de bruços sobre mim. Senti um negócio estranho e logo me apavorei. Senti que meu colo estava molhado. Pensei não ter conseguido acordar à tempo de ir ao banheiro. Por impulso levantei o rosto da Carol com a mão que estava livre — eu sabia que ela tinha o sono pesado — e vi que não era o que eu estava pensando.
As bochechas dela estavam molhadas, e um pouco rosadas também e mesmo dormindo, ela tinha uma expressão triste. Expressão essa que eu conhecia muito bem: ela estava chorando quando caiu no sono...
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