Sexo e Outras Drogas
9 Sobre Querer e Poder
Notas iniciais
Eu coloquei o cigarro entre os meus lábios mais uma vez enquanto o sol ia embora, atrás daquelas grandes e monstruosas montanhas depois de toda aquela aglomeração de prédios além dos muros do campus.
Isso soou filosófico demais e céus, essas baboseiras me enjoam.
O barulho que saía dos meus fones de ouvido fariam Carly reclamar que estavam passando da faixa de decibel aceitável e blábláblá, isso também me deixava enojada e só de pensar na voz dela eu sentia vontade de me jogar do alto dessa saída de incêndio em que eu estava refugiada.
Ok, eu realmente não sei o motivo de ter vindo pra cá. Mas, assim que Freddie saiu andando sem olhar nem uma vez para trás, eu só sabia que não queria voltar pro meu apartamento e nem ir para algum lugar onde eu pudesse encontrar alguém.
E aqui estou eu. Sentada em uma escada velha que eu achei no meio dessa construção abandonada, usando meu fone de ouvido e fumando o que parecia ser o terceiro ou quarto cigarro em menos de dez minutos.
Eu só não conseguia entender o motivo de ter saído de lá. Eu poderia muito bem ter corrido e chutado a bunda daquele mané daqui até a China, só por ele ter colocado a ruiva babaca em primeiro lugar e, céus, eu ia fazer isso. Eu juro que ia. Mas, eu ia fazer isso depois dele virar e piscar pra mim, como quem diz “te vejo depois” ou “eu amei estar com você”.
Só que ele não olhou. Ele andou como se eu não estivesse atrás dele, olhando ele ir até ela como um cachorrinho e isso, que merda, isso me deixou puta pra caralho. Como ela ousa fazer isso? Eu tinha acabado de abraçar ele! Sabe quantos abraços eu dou por ano? Dois! Um é em mim mesma no dia do meu aniversário e o outro é na Carly no dia de Ação de Graças.
Eu juro pelo meu presunto que não queria ter ficado tão puta da vida com isso, mas porra, por que ele tinha que andar sem olhar para trás? Era eu que estava lá! Eu, Samantha Puckett, e não aquela sonsa com cabelo de salsicha.
Quando a bituca do cigarro queimou meus lábios, eu o joguei longe e soltei a fumaça junto com um dos últimos acordes de uma das clássicas do Radiohead.
Essa merda toda era drama demais pra mim. Existem pintos maiores que o do Freddie, não tem porque ficar me remoendo se ele prefere uma ruiva que (agora eu aposto meu bacon) não deve nem saber beijar de língua.
Respirei fundo e sorri por ser privilegiada de ter uma visão como aquela. Os prédios de Seattle eram cinzentos e feios e o céu era nublado, ainda mais agora que o sol ofuscava seus últimos raios de luz. Mas, cara, isso era tão fodidamente bonito. É uma paisagem que passava despercebida (ainda mais quando você está no terceiro andar de uma saída de incêndio), mas ela é normal, natural, com a arquitetura incomum por prédios antigos no meio dos mais modernos e espelhados.
No meu íntimo, o que eu mais queria, era ser como aquela paisagem. Talvez eu quisesse ser normal como aquela ali, com pilastras antigas e cores vivas demais, com tantos contrastes e tão sutil, tão normal. Iria ser incrível.
E meu sorriso foi embora quando eu percebi que estava falando sobre prédios e como eu queria ser normal como eles, quando, na verdade, eu estava mais pra uma construção demolida e cheia de buracos, sem cor e sem utilidade.
…
Sam sorriu bastante satisfeita quando o atendente entregou a ela um balde com discos de frango frito. Ela pegou o molho especial e se virou para sair da bancada que ficava no meio das lanchonetes do campus, porém, antes de completar seu caminho, seus olhos focaram em algo além do frango frito.
Na mesa da cafeteria ao lado, ao ar livre, tinha um homem alto e suas roupas pareciam mais largas do que ele. Sam pensou que ele fosse um ex-gordo ou que a velhice talvez estivesse chegando e fazendo ele diminuir de tamanho. Ok, não foi isso exatamente que chamou a atenção de Samantha Puckett. Além do senhor mediano e de cabelos grisalhos, sentando-se junto a ele na mesa, estava o seu querido e canalha nerd Freddie Benson.
E a Missy.
Um formigamento estranho começou no peito da Sam, acelerando seus batimentos cardíacos gradativamente enquanto ela observava como Missy parecia bastante confortável e feliz com a presença daquele senhor.
Daquele senhor que provavelmente era o pai do Freddie.
Antes que aquele formigamento a dominasse mais do que ela gostaria, Sam apenas engoliu aquele gosto amargo que tinha aparecido na sua boca e resolveu que iria para o seu apartamento se encher de frango frito e acabar com aquelas garrafas de cerveja.
Mas, antes de completar o seu caminho, ela ouviu vozes gritando para ela.
Sam continuou andando como se não estivesse ouvindo a voz açucarada e insuportável da Missy.
Sam continuou andando um pouco mais rápido, quando Missy pulou na sua frente, sorrindo.
– Ei, vamos ali comigo e com o Freddie. O pai dele está lá... – Sam passou por ela e continuou andando – O que?
– Eu estou um pouco ocupada – Sam sorriu amarelo para ela.
– Vem logo. Qual o problema? – Sam iria continuar andando, mas alguma coisa no olhar da Missy a desafiava a ir até lá.
A desafiava a seguir o que ela estava falando.
...
Então, eu fui arrastada até a mesa em que estavam a cobra enferrujada, o nerd e o pai do nerd.
Minha vida não poderia estar melhor, suspirei profundamente.
O pai do Freddie tinha olhos castanhos, quase iguais aos dele. Diferente dos castanhos do Freddie, os do pai dele não tinha qualquer doçura. Ou empatia. Ou simplicidade. Ou amor.
Eram castanhos frios, que combinavam perfeitamente com os traços imperfeitos e quadrados dele. O pai do Freddie tinha uma cicatriz cortando sua sobrancelha.
Ele me olhou de baixo para cima, fitando meu all star velho e imundo por mais do que dez segundos, um pouco enojado. Olhei pros sapatos italianos e impecáveis dele e me senti minúscula.
E suja.
Olhei para a ruiva.
Ela parecia estar se divertindo com a situação e eu não entendi o motivo daquilo. Missy tinha um sorriso pretensioso nos lábios, o queixo apoiado nas mãos e seu relógio de ouro cintilando a luz do sol de fim de tarde.
Nojenta.
– Quem é a sua amiga, Missy? – Perguntou o velhote ao lado do Freddie.
Freddie pareceu desconfortável e me olhava com aqueles olhinhos de "desculpa", completamente diferente daqueles olhinhos de antes em que ele dizia "você acabou de me chupar, mas eu preciso ver a minha noiva porque ela é mais importante".
Nojento.
– Ah, Joe, essa é a irmã da Carly Shay, mas ela é a adotada – Missy achou graça daquilo e meu punho se fechou. Freddie arregalou os olhos – Seu nome é-
– Sam Puckett – Freddie interrompeu, quase desesperado. Será que eles sabiam que eu poderia responder? Que eu estava lá? Freddie notou que eu ia dizer alguma coisa e veio novamente com aqueles olhinhos pidões – Ela é estudante de psicologia e formada em dois anos de gastronomia – Por que ele estava falando disso? – Morou em Barcelona por quatro anos sozinha e, sim, é meia-irmã da Carly. Filha do Coronel Shay, sabe?
O tom de Freddie era o tom de uma criança que tentava convencer os pais de que tirar zero em uma prova era bom.
– Do Coronel Shay? – O velhote não deixou que suas expressões transparecessem. Mas, suas sobrancelhas se tornaram mais retas e duras — Puckett, hum?
Quando ele disse meu sobrenome, merda, eu senti um arrepio cruzar as minhas costas e os meus nervos. Aquele tom de voz era familiar.
Muito familiar.
– Sim. Ela é uma excelente pessoa, pai. E entende de motos como ninguém – Freddie tentou sorrir para o pai dele.
Missy parecia nervosa.
O velho não parecia com nada além de nada.
Então, segurando meu balde quente de frango frito, eu entendi.
Missy tinha me trazido até aqui porque sabia que o nerd-pai não iria gostar de mim.
E o Freddie estava me usando para jogar com ela. Para contrariar o que ela tinha planejado.
Eu era o zero de prova que o Freddie queria ilustrar para o pai.
Eu ainda tentava digerir a minha conclusão quando o garçom da pequena lanchonete chegou.
– Já escolheram? – Perguntou o menino de uns dezesseis anos.
Eu olhava de Missy para Freddie e de Freddie para o pai dele.
Missy estava furiosa, mas tentava esconder com um sorrisinho cínico enquanto tagarelava com o garçom os ingredientes de um mísero suco de laranja. Eu ate poderia tentar me dar bem com o velho para mantê-la ainda mais estressada. Mas, se eu fizesse isso, eu iria agradar ele.
Freddie Benson.
Olhei para ele, que parecia tranqüilo. Tranqüilo porque seu joguinho de irritar a sua noiva estava dando certo. Porque a peã aqui estava participando ilustremente da brincadeira.
Porque eu era a trouxa que tinha se lamentado por ele ter feito pouco caso de mim. E ele, eu sei, eu tenho certeza de que agora o ego dele está enorme, só por ter feito com que eu ficasse de joelhos pra ele. Com o pau dele na minha boca.
Mas, se o nerd quer jogar, então iríamos jogar.
– Você, Senhorita Puckett, gostaria de alguma coisa? – O pai do Freddie perguntou para mim, antes do garçom sair da mesa. Eu o olhei e passei a língua pelos lábios, pensando – Uma água, um suco, café...?
– Uma cerveja – Pedi olhando para o garçom. Freddie, Missy e o pai do Freddie ergueram as sobrancelhas.
O garçom saiu com os nossos pedidos e eu aproveitei para enfiar minha mão no meu delicioso balde de frango frito. Peguei uma coxa suculenta e gostosa e enfiei na boca. Céus, eu quase tive um orgasmo com aquele gosto de carne branca gordurosa e salgada.
Abri o sachê de barbecue e coloquei na parte que faltava comer do frango e se eu achava que o gosto não podia ficar melhor, ele se tornou dez vezes mais divinos por causa do barbecue e por causa do olhar enojado do nerd-pai.
– O que foi? – Perguntei pro velhão e eu sinceramente não me importei com o resto mastigado de frango que ainda tinha na minha boca.
– Senhorita Puckett, em uma mesa de pessoas civilizadas, nós não falamos enquanto ainda há comida nos nossos dentes – Ele disse com um tom seco e intimidador.
– Quem me chamou aqui foi a ruiva – Eu dei de ombros e comecei a mastigar outro delicioso frango – Se ela é uma dissimulada pra achar que eu faço parte da sociedade civilizada e nojenta de vocês, então, provavelmente, o único animal entre nós é ela.
O queixo da Missy estava batendo nos sapatos amarelos e brilhantes dela.
Freddie parecia que ia vomitar.
O pai do Freddie continuava sem expressão.
O garçom chegou com nossas bebidas e eu fingi que não estava sentindo aquele clima tenso na mesa. Peguei a minha cerveja e ignorei o copo, tomando-a direto do gargalo.
O pai do Freddie pegou o café dele e a Missy parecia não ter notado o copo na sua frente.
– Então você não é uma pessoa civilizada? – Perguntou o pai do Freddie.
– Não, senhor – Eu dei de ombros – Eu sou uma bárbara. Ando descalça, mastigo de boca aberta e gosto de torturar os outros. Principalmente no sentido sexual.
Freddie arregalou tanto os olhos que eu pensei que eles iriam saltar para fora.
O pai do Freddie finalmente tinha esboçado alguma reação e era descontentamento e curiosidade.
Missy não parecia mais tão feliz com a idéia de que seria engraçado eu não me dar bem com o sogro dela.
E eu? Mais satisfeita, quase impossível.
Então, para completar meu fascinante e incrível jogo, mudei meu foco para o animal laranja.
– Por que me chamou aqui? – Perguntei e coloquei outra coxa de frango na boca.
Eu podia sentir o olhar do pai do Freddie e do Freddie nas minhas costas.
– Eu… – Ela parecia perdida em pensamentos e passou a língua pelos lábios. Assumiu aquele sorriso cínico e falso dela e piscou aqueles olhos de víbora pra mim – Eu queria dizer na frente do Freddie que eu sinto muito pelo nosso desentendimento na semana passada. Você é amiga dos meus amigos e do meu noivo – será que eu estava imaginando ou a vagabunda deu enfase quase se referiu ao Freddie sendo noivo dela? – e eu me sinto culpada por esse clima estranho entre nós. Me desculpa.
Wow. Wooooow.
Dessa vez nem eu e nem Freddie estavamos entendendendo onde ela queria chegar. Aquela cobrinha laranja estava se fazendo de boa menina, mais uma vez, na frente do Freddie. Mas, eu sei que ela é muito mais do que isso.
Ela é como a dieta de verdes no meio da minha dieta de fritas.
– Hm – Eu disse e tomei outro gole da minha cerveja – Por que você não guarda suas palavras doces e falsas para quem acredita nelas? – Eu sorri com o frango na boca. Missy quase vomitou.
– O que você está querendo dizer dela? – Perguntou o nerd-pai.
Eu me virei para ele e meu humor instantaneamente desapareceu quando eu olhei aqueles olhos escuros. Aqueles olhos eram horríveis e eu não dizia isso por causa da cicatriz que cortava sua sobrancelha.
Pela primeira vez, em anos, eu senti medo. Foi pouco, mas eu senti. Medo daquele homem que era pai do homem com quem eu transava. Medo daquele cara que tinha olhos frios e que, merda, por que aquilo parecia tão familiar?
Eu engoli o medo, como fiz com ele durante toda a minha vida desde a sala de tortura, desde os meus nove anos.
– Eu quero dizer que sua nora é uma pedaço de merda – Eu disse e sorri para ele, o enfrentando.
– Sam! – Dessa vez, eu fui advertida por Freddie, que ficou calado e parecendo inexistente durante toda a nossa conversa.
Eu o ignorei.
– Você é uma suburbaninha mal educada! – O pai do Freddie disse para mim, completamente afetado pelas minhas palavras e atitudes.
– Pai! – Gritou Freddie ainda mais estressado.
O velho estava uma fera. Ele me odiava.
Sorri triunfante.
Freddie queria jogar comigo, mas mal sabia ele que a mamãe aqui só joga para ganhar.
– Esse é o seu máximo? Já ouvi coisas piores a meu respeito – Com desdém, eu terminei de tomar a minha cerveja e me levantei, chutando a cadeira para trás.
– Sam, por favor… – Freddie respirou fundo e se levantou, ficando pronto para qualquer ataque meu.
Ou pronto para correr atrás de mim se eu fosse sair dali.
Mas, é claro que ele não faria isso. Ele não deixaria a noiva e o pai para ir atrás de mim.
Ele tinha perdido o jogo. Ele queria que eu fosse um bom zero para o pai dele, para afetar Missy. Mas, eu era mais do que isso. Eu tinha que ser mais do que isso.
Eu não posso ser para ele apenas um atalho para as merdas com a Missy.
– Fredward, você não é amigo dessa imunda, não é? – O pai do Freddie falou.
Meus punhos se fecharam no meu balde de frango. Minha boca secou, pronta para revidar e gritar que era a imunda aqui que o filho dele fodia quase todas as noites.
E antes de dizer alguma coisa pelo “imunda”, eu fui parada pelo fato de que Freddie ficou sem resposta para a pergunta do pai.
Ele olhou para o pai e depois para mim.
– Fredward – O pai dele insistiu e ergueu as sobrancelhas, o pressionando a responder o que ele deveria responder.
E não o que ele queria responder.
Agora eu entendia o Freddie quis dizer sobre eu ser o que ele quer e não ser o que ele tem que querer
Mas, dessa vez, eu também queria uma coisa. Mais do que meu maldito frango frito, eu queria que o Freddie dissesse que nós somos amigos. Que somos conhecidos, merda, eu quero que ele diga alguma coisa.
Eu também olhei pro Freddie.
Ele abriu a boca dez vezes e a fechou onze.
Antes de falar, Freddie respirou fundo e olhou para mim.
– Não, pai – Ele disse, derrotado.
Eu poderia gritar para ele e dizer “ei, pensei que fossemos mais do que amigos quando você disse que eu fui sua melhor transa” ou “definitivamente nós somos amigos depois daquele meu orgasmo”.
Mas, na verdade, não, eu não poderia dizer nada.
Eu não queria dizer nada.
– Exatamente – Eu disse lentamente – Nós não somos amigos. Não somos nada– Freddie entendeu o que eu quis dizer e seus ombros caíram, mas ele não voltou atrás no que tinha dito, então, eu também não voltaria atrás na minha decisão ou seja lá que merda for essa. Me virei para o nerd-pai e meu sorriso se alargou ainda mais – Foi um prazer enorme conhecer o senhor! Cuidado com a idade, quando ela chega, a ereção vai – Eu pisquei e segurei meu balde com mais firmeza.
Me virei e sai comendo meu frango com barbecue. Amável frango.
Eu me lembrei do engradado de cervejas que eu tinha no frigobar. E tirei meu cigarro da bolsa.
Meu cigarro nunca me decepcionaria.
Minhas mãos estavam tremendo.
Meu frango frito nunca me trocariam por causa de um pai controlador e uma noiva ruiva.
Eu sentia vontade de vomitar.
Minha cerveja nunca seria rude ao ponto de fingir que não me conhece apenas para agradar ao pai.
E, obviamente, nenhuma das três coisas anteriores me dariam um orgasmo como Fredward Benson.
Eu estava virando a chave no meu apartamento e pensar em como ter um orgasmo com frango e drogas lícitas quando, por reflexo, eu olhei para a sombra que saía do elevador no meu andar.
Olhei e Freddie Benson estava parado, ofegante, no final do corredor.
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