Notas iniciais
* Versão de Maria Yukai *

— Gente, foi incrível ontem! Nunca pensei que a gente conseguiria algum resultado em tão pouco tempo. — Eu sorria, me lembrando do dia anterior.

— Até que eu e o Allen nos saímos bem. Vocês foram muito gentis ao concordarem em criar uma música fácil pra gente tocar.

— A Sabrina e a Maria cobriram a gente legal...

— O ritmo da música ficou o máximo, uma combinação de Arctic Monkeys com Within Temptation. Nossa sincronia é uma porcaria, mas o que importa? Temos uma música nova!

— Só falta a letra...

— Metade, na verdade. — Bel parou de rir e de andar, e foi até um banco. Tirou uma pasta da mochila. — Comecei a escrever a letra ontem. Não tem muitas rimas, já que escrevi primeiro em italiano para depois traduzir para o inglês...

— Bel, você é muito foda, eu já te falei? — Peguei a pasta, onde havia apenas uma folha.

Lights, setting on fire

I'd meant to be right

Running more than legs

Couldn't wait anymore

Dreaming about a castle

With princesses and kings

She was just a child

She was going to met her love

They found angels though

When they look to each other

The prince and the princess were there, then

Prepare the show, stop that damn world


— Bel... — Todos olhamos para ela, com uma expressão idiota.

— Sim, é sobre a nossa "primeira vista". — Ela pegou a mão de Jack, que beijou seu cabelo.

— A letra combina com a música. Tem um tom bonitinho, inocente... gostei. Preciso fazer alguns arranjos com isso. Me empresta, Bel? — Sabrina estava bastante séria sobre isso, principalmente depois de ver o que conseguíamos fazer juntos.

Depois da aula, atrás da escola

— Maria! — Eu me envolvia em meus pensamentos, quando Sabrina chegou correndo no local marcado. — Desculpe o atraso, tive que falar com o professor de física antes de vir para cá.

— Tudo bem, o importante é que você veio. — A abracei fortemente, e nos beijamos.

Eu ainda não havia processado tudo o que acontecera naqueles últimos dois dias. Fora muita coisa. Almoço conturbado, términos de relações, o primeiro ensaio da banda — muito bom por sinal, apesar do preço que pagamos pelas 3 horas e meia de uso -, e principalmente...

— O — o que vocês estão fazendo? — Levei um susto, ao ouvir a voz assustada de um garoto. Quando me virei não era Allen, contudo. Era um garoto de nossa turma, com quem eu nunca havia falado.

— O que você acha que estamos fazendo? — Respondi, sem pensar muito.

— Cara, eu não entendo esse mundo. O que vocês fazem é errado.

Como é que é?

— Eu decido o que é errado ou não. Agora, dá o fora que estamos interessadas em algo que com certeza não envolve você. — Cheguei para mais perto de Sabrina, e quando ia voltar a beijá-la, o inevitável.

— Eu não vou deixar essa história acabar por aqui. — E saiu andando, para o outro lado.

— Maria... ele vai contar para todos do colégio. — A voz de Sabrina tinha um tom preocupado.

— Eu não me importo com o que aqueles idiotas da escola pensam de nós. Desde que tudo fique longe dos ouvidos de três pessoas.

— Jack, Isabel e Allen.

— Principalmente do Allen.

— Mas por que você está escondendo deles? Quer dizer, não que seja importante, afinal, ontem que nós...

— Eu não quero que se magoem, Sabrina. Sei o que Allen sente por mim. Sei o que Bel e Jack esperam que eu faça.

— Se isso está causando tantos problemas, não precisamos continuar. Não quero isso.

— Sabrina, escuta. — Segurei suas mãos e olhei para ela. — Acho que está na minha vez de falar um pouco sobre mim.

Andamos juntas até um lugar sossegado. Nos sentamos debaixo de uma árvore, escondidas.

— Eu me sinto muito mal ao falar sobre família com você, mas acho que preciso falar sobre isso.

— Tudo bem, pode falar.

— Minha vida começou a ficar confusa aos 7 anos de idade. Meu pai e minha mãe se separaram junto com meu tio e minha tia, irmã da minha mãe. Até aí, tolerável. Mas meu pai resolveu casar com a minha tia e minha mãe, com o meu tio. E eu tinha irmãos e primos. Agora não sei quem chamo de pai, quem chamo de tia, quem chamo de madrasta e de irmão. E o meu padrasto, tio, sei lá, é simplesmente o capeta, Sabrina. Quer dizer, não que nos maltrate ou algo do tipo, mas ele lavou as nossas mentes por inteiro. Pelo menos a da minha mãe. Agora ela parece um zumbi, tentando ser a dama perfeita o tempo todo e nos castigando se algo que fazemos é pior do que excepcional. Meu pai a controla e faz a mesma coisa.

— Eu não esperava por isso...

— Acho que ninguém espera. Agora, minha mãe quer me mandar para um colégio de patricinhas francesas no Rio de Janeiro. — Ela arregalou os olhos.

— Você não pode ir!

— Eu não vou. Me recuso. Nem que tenha que sair de casa. Meus irmãos já tiveram a lavagem cerebral completa, mas eu não quero. Por isso tento passar a maior parte possível do tempo na casa da minha tia. Pense o que é chegar em casa, e ser obrigada a fazer faxina, a aprender dança japonesa, instrumentos tradicionais, boas maneiras, e não poder rir, me divertir ou conversar amigavelmente com garotos. Só falta querer me transformar numa Geisha.

— Eu sinto muito...

— Não sinta, você também é como eu. Você se sente como eu. Nós estamos na mesma sintonia. É a primeira vez que alguém me entende de verdade, Sabrina. Até a Bel disse que eu estava exagerando, e que minha mãe só queria que eu fosse uma moça elegante. Eu amo muito meus amigos, e depois de ter te conhecido, não vou mesmo embora.

— Tem tão pouco tempo que nos conhecemos, mas não sei, há algo a mais...

— Você acredita em almas gêmeas, Sabrina? — Sorri para ela, que enxugou as lágrimas que escorriam pelo meu rosto.

— Eu não duvido de nada. — Nos beijamos profundamente, com um sentimento que eu não conseguia explicar.

Notas finais
Agora que a Maria começou a narrar, tá sendo direto mesmo ~