Clara levou as mãos ao rosto de Marina secando aquela lágrima que escorria por um de seus olhos fazendo a fotografa sorrir alegrando-se com o gesto.

A assistente continuava fitando-a fixamente com um misto de admiração e veneração por aquela mulher. Tinha tantas coisas que queria dizer a Marina, seu peito chegava a doer, mas aquela não era a hora, ainda não (...)

Além disso, ambas sabiam que já estava muito tarde e que Clara precisava voltar para casa. Não poderiam passar a noite ali, juntas, embora fosse esse o desejo das duas. Foi Marina a primeira a dizer que elas precisam ir, se adiantando a amada evitando assim que Clara tivesse que fazê-lo. Clara dirigiu a ela um olhar como se dissesse “Obrigada” pela compreensão da outra.

Seguiram conversando animadamente até o estúdio da fotografa. Falaram sobre coisas da vida, Marina contou algumas de suas estórias vividas na infância e adolescência enquanto Clara ria imaginando as situações descritas por ela. Não conversaram sobre o que acabara de acontecer minutos atrás, cada uma guardou a lembrança daquele momento para si.

Ao chegarem, Clara acompanhou Marina até a parte de dentro, queria aproveitar cada mínimo segundo ao lado da amada, e já no interior do estúdio encontraram Flavinha e Vanessa ainda acordadas.

_E ai meninas, ainda trabalhando?

Perguntou Marina às duas.

_Estávamos adiantando umas coisinhas, tinha muita coisa atrasada.

Respondeu Vanessa.

Flavinha se atentou para o semblante de felicidade de Marina e Clara, dizendo:

_Vocês estão com uma cara boa, foram ao cinema?

As duas sorriram envergonhadas e Clara se adiantou em responder:

_Não, a gente perdeu a sessão.

A fim de tentar desviar o assunto Marina pegou o cinto que havia ganhado de Clara quando ainda estavam no shopping e mostrou-o a elas. Recebendo de volta um comentário sarcástico de Vanessa, o que, em se tratando de Vanessa.era de se esperar:

_Que gracinha! O casal foi fazer compras.

Clara e Marina ficaram constrangidas ao ouvir tal comentário, mas sorriam internamente. Vanessa não fazia ideia do quanto o que acabara de dizer chegava perto da verdade.

Vanessa ofereceu-lhes uma bebida mas Clara teve que rejeitar, precisava voltar para casa. Despediu-se de Marina e dirigiu-se a caminho da realidade que a aguardava no Leblon.

No caminho foi refletindo sobre o que tinha vivido naquela noite. Tinha valido a pena ter tomado a iniciativa do encontro e divertiu-se lembrando da cara de surpresa da amada ao vê-la chegando em seu estúdio no início da noite.

(...)_Clarinha, eu não esperava te ver por aqui tão cedo.

E provavelmente não esperava mesmo, levando-se em consideração a maneira como acabou o jantar da noite anterior. Pensou Clara. A dona de casa sorriu timidamente e foi dizendo a Marina:

_ Eu sei e é por isso que eu vim, queria compensar um pouco pela forma que as coisas terminaram ontem.

Marina se alegrou com as palavras de Clara, embora tenha ficado um pouco confusa, perguntando-se “o que será que Clara tinha em mente”?

_E como é que você pretende fazer isso, hein coisinha?

Falou a fotografa dirigindo à assistente aquele olhar sedutor já muito conhecido de Clara (...)

E agora, horas depois, encontrava-se ali em seu carro relembrando os toques de Marina. Essa lembrança sempre traziam de volta os arrepios e lembrar do olhar apaixonado da fotografa fazia com que seu coração quase explodisse dentro do peito de felicidade. A única coisa naquela noite que frustrava Clara era o fato de não ter tido tempo de desvendar o corpo de Marina, de retribuir o prazer que a outra havia lhe proporcionado. Desejava aquele corpo, conformava-se apenas porque sabia que ainda teria muitas oportunidades de tê-lo.

Mesmo que a razão lhe dissesse que havia traído Cadu, não conseguia sentir como se o tivesse feito. Amava Marina e era ao lado dela que queria estar e se isso ainda não tinha acontecido fora apenas porque não havia como deixar o Cadu naquele momento, afinal, ele acabara de passar por um transplante.

Era certo em sua cabeça e em seu coração que amava Cadu. O marido era uma das melhores pessoas que ela havia conhecido na vida e tinha dado a Clara a coisa que ela mais amava na vida: Seu filho. Em retribuição a tudo que o marido tinha significado em sua vida, Clara gostaria de dar-lhe o mundo e faria qualquer coisa para vê-lo bem. Por causa disso, não podia imaginar lhe causar uma dor tão grande deixando-o para viver com outra pessoa, ainda mais sendo essa pessoa uma mulher.

Sabia que apesar de todas as suas qualidades Cadu era um homem machista, como quase todos os homens são, e que por causa disso sua dor seria ainda maior. Também não queria que ele pensasse que ela havia passado por todo aquele momento difícil de sua doença com ele, por pena. Pois não era verdade. Fez por amor. Não saberia viver em um mundo em que o Cadu não existisse e o fato desse amor estar diferente agora não significava que não existia.

Por todas essas coisas ela esperava que mais cedo ou mais tarde o entendimento sobre a situação deles viesse dele. Esperava e confiava (talvez por conhecê-lo tão bem) que ele acabaria por compreender que ela não tinha escolhido se apaixonar por Marina, que Marina a fazia feliz, que eles já não eram felizes juntos e que viver assim não valia apena. Esperava que um dia ele fosse capaz de torcer por sua felicidade, assim como ela torcia pela dele. E estava mais do que determinada a fazer Cadu enxergar isso antes que se separassem.

Chegou em casa Cadu e Ivan já estavam dormindo, o filho ocupara o lugar da mãe ao lado do pai na cama do casal. O que para Clara acabou sendo bom, já que ela não podia dormir ali aquela noite, simplesmente não podia!

Dirigiu-se ao banheiro, tomou um banho e foi deitar-se no sofá. Adormeceu pensando em Marina, sua Marina.

Do outro lado da Cidade, em Santa Tereza, após compartilhar um breve drinque com Flavinha e Vanessa, Marina foi se deitar estando ainda em um certo estado de choque: “Nem se tivessem me contado que o convite de Clara para irmos ao cinema acabaria da maneira que acabou eu acreditaria”.

Adormeceu sorrindo lembrando que finalmente Clara havia estado totalmente em seus braços.

No dia seguinte, Clara foi surpreendida por uma tentativa do filho em reaproximar os pais. O que acabou por partir o coração da dona de casa. Fez com que ela lembrasse que o maior prejudicado com qualquer atitude que ela viesse a tomar seria o menino. Separando-se de Cadu tiraria de Ivan o convívio diário com o pai, mudaria todo o mundinho que a criança tinha conhecido até então. Esse pensamento deixou Clara arrasada, mas pior que isso foi ter a consciência que a situação precária de seu casamento já estava afetando o Ivan. Aquilo não podia continuar assim, ela estava sofrendo, Cadu estava sofrendo, Marina estava sofrendo e agora o filho se mostrava a par de todo aquele conflito. A cabeça de Clara dava voltas.

Ao final daquela manhã Cadu já tinha ido para o bistrô e o filho para a escola. Clara permaneceu em casa ainda sofrendo os efeitos provocados pelo ato realizado por Ivan. A única pessoa que ela sabia ser capaz de amenizar esse sofrimento era Marina. Até tentou reprimir a vontade de procurá-la, não queria lhe levar seus problemas. Seu sonho era poder livrar a amada de toda a sua confusão e chegar para ela apenas com suas certezas. Mas não conseguiu resistir por muito tempo, precisava vê-la, abracá-la, apenas Marina era capaz de trazer-lhe um pouco de paz. Resolver ir vê-la e saiu batendo a porta atrás de si.

Ao chegar no estúdio da fotografa deu de cara com Nando, já de saída. O advogado estava ali para discutir os termos do contrato da sociedade que Marina formaria em breve com Branca.

Marina, como sempre, ficou radiante ao vê-la:

_Clarinha! Que bom que você veio.

Clara sentia-se constrangida por ver o ex da tia ali.

_ Oi Marina, oi Nando.

Disse Clara acenando para Nando.

Nando acenou de volta, percebendo o constrangimento de Clara e compartilhando o mesmo sentimento.

_Clarinha, o Nando estava aqui me assessorando sobre aquela coisa da sociedade que te falei, lembra? Até pouco tempo a Branca, Ricardo e Gisele também estavam aqui.

_Acho que não cheguei em uma boa hora então, não queria atrapalhar.

Falou Clara um pouco sem graça.

_ Você nunca atrapalha.

Disse Marina apaixonadamente.

_Bom, Marina. Sobre os termos da sociedade já está tudo resolvido e encaminhado. Vou embora agora porque preciso voltar pro escritório.

Interrompeu Nando.

_Tudo bem Nando, muito obrigada por ter vindo até aqui me dar essa força. Eu realmente não entendo nada sobre essas questões.

_Que isso, nós advogados estamos ai para isso. Quando os advogados da Branca entrarem em contato comigo sobre o contrato eu te aviso.

_Maravilha!

_Bom, então Tchau Marina, tchau Clara.

As duas se despediram dele, estando Clara ainda um pouco constrangida com a situação. Porém, sabia que o “tio” não comentaria nada com Cadu, pensando na saúde do amigo.

Com a saída de Nando as duas se olharam com alegria e trocaram um abraço apertado, cheio de saudades, mesmo que tivessem se visto na noite anterior a saudade já era imensa.

Ao saírem do abraço Marina dirigia um olhar apaixonado para Clara com um sorriso no rosto que refletia o tamanho de sua felicidade por ver a assistente ali.

Clara ainda embriagada pelo efeito que o cheiro de Marina provocava nela, reuniu todas as forças que tinha: para dizer:

_Marina, nós precisamos conversar.

Notas finais
Ih.. O que será que a Clara vai dizer?