Sex, Drugs And Problems - IV
11 Capítulo 76 - Fuga silenciosamente barulhenta
Notas iniciais
Paloma: Não, eu não posso estar grávida. Eu sempre uso camisinha!
Eu: Camisinhas furam.
Ela tava inconsolável. Claro, se eu descobrisse que tava grávida aos dezessete anos cortaria os pulsos. Mentira. Sei lá o que faria. Começamos a pensar em como contaríamos pra Amanda, o Pierre e todo mundo.
Ela só tava fodida. Só.
Pierre: oi. — abrindo a porta — Imaginei que você ia estar aqui e… — o que foi? — secou umas lágrimas no rosto dela — Paloma, o que foi?
Ela me olhou, como se perguntasse o que fazer e eu fechei os olhos e assenti, num sinal pra que ela contasse logo de uma vez.
Paloma: Naty, eu não consigo. Fala você.
Ele me olhou, tenso. Sem saber o que eu tava prestes a falar.
Eu: Parabéns. Você vai ser pai. — totalmente desanimada.
Ele caiu sentado na cama, em choque. Também, com uma bomba dessas…
Pierre: Você… Você tá grávida, Paloma? — não, querido. Foi a Barbie dela que engravidou do seu Ken. — Eu vou ter um filho? — Não, um camelo. Cara, tem gente que fica fazendo perguntas idiotas. Mesmo que seja na hora do choque, se alguém diz que tu vai ser pai, é óbvio que a mina que tu transou tá grávida e tu vai ter um filho. Se toca, porra.
Paloma: Vai…
Pierre: Acho melhor terminarmos essa conversa no meu quarto. — não consegui decifrar o humor dele — Vem. A Naty não tem nada a ver com isso.
Esperei eles saírem do quarto e troquei de roupa. Vesti um jeans, botas de cano longo e o suéter do Nirvana que roubei do armário do Binho. Eu adorava usar as roupas dele.
Roupas masculinas são muito mais confortáveis que as femininas. São largas, quentinhas e não têm aquele monte de frescuras tipo brilhos, frases sem nexo tipo “i’m the queen, baby” — uma das camisetas da Mariana — e também não são daquela cor rosa nojenta. Aquele rosa que até queima os olhos se olhar por muito tempo.
Joguei os testes da Paloma no lixo e saí de casa, ligando pra Camila, a Olívia e a Kimi. Eu tinha que beber. Claro que eu não ia contar o acontecido. Aquilo não era do meu interesse. Eu só precisava encher a cara de álcool e foda-se o mundo. Fomos no D’bar, um dos melhores bares da Molina. E mais caros. Foda-se também. Tive que passar na casa de cada uma das meninas pra irmos.
Kimi: Me diz, o que te faz querer beber numa quarta-feira à noite?
Eu: A vontade simplesmente.
A Camila me olhou torto, provavelmente (Lê-se: com certeza) percebendo que tinha algo errado. Mandei um cala a boca silencioso e discreto e ela deu de ombros, se fazendo de desentendida.
Olívia: E aí, quatro tequilas?
Camila: Três. E uma Coca.
Kimi: Quatro tequilas.
A Camila ia protestar, mas mandamos ela calar a boca. O garçom saiu rindo e voltou pouco depois com as tequilas e uma latinha de Coca.
Garçom: A Coca é por conta da casa.
Tequila. Não sei quem inventou, mas agradeço. Mesmo essa porra sendo forte pra caralho e queimar até o cu. Mas deixa bêbado tão fácil quanto… sei lá, tô sem ideia pra comparações agora. A única coisa que eu quero é minha dose de tequila…
Depois da entrada especial ficamos bebendo cerveja e a Camila ficou na Coca-Cola. Eu já tinha até esquecido o assunto “Gravidez da Paloma”. Droga, lembrei.
Olívia: Pra mim já deu. Tô vendo cinco garrafas na minha frente.
Eu: Mas tem cinco, Liv. — Ela me mostrou o dedo do meio. — Tá bom, vamo embora?
Camila: Você não tá em condições de dirigir.
Dei de ombros.
Kimi: Pra todo problema existe uma solução. Vamo pagar e bora pro carro. — Pagamos e fomos pro carro. A Kimi pegou a bolsa e tirou um saquinho de dentro. — Corta todo o efeito do álcool.
Eu: Eu sei.
Camila: Eu não vou cheirar essa porra.
Mandamos o foda-se e a Kimi separou as carreiras em cima do meu case de cds. A Camila bufava enquanto a gente cheirava. Segundos depois eu já tava “limpa”. Sem efeitos do álcool. Deixei cada uma em sua respectiva casa, limpei o nariz e saí do carro. Agradeci mentalmente quando entrei em casa e vi que tavam todo dormindo e subi pra tomar um banho e dormir, mas antes de deitar bebi metade da garrafa de Jose Cuervo da Lolita. Nem lembro de ter dormido.
*
Pra variar, perdi a hora da escola. Foda-se. Fui pra cozinha e sentei do lado do Pierre, que tava tenso pra caralho.
Pierre: Estou com medo de contar. — sussurrou.
Eu: Fala depois.
Eu tava de ressaca. Morrendo de dor de cabeça, minha visão tava embaçada e eu tava com um gosto azedo na boca.
Mãe: Filha, por que não foi pra aul…
Corri pro banheiro vomitar.
Sei lá quanto tempo eu passei vomitando. Sei que foi tempo o suficiente pra minha mãe ficar desesperada.
Mãe: FILHA! O QUE ACONTECEU? VOCÊ PERDEU A AULA PORQUE TÁ DOENTE? O QUE FOI?
Porra, não dá pra falar, cacete! Eu tô vomitando, filha da puta!
Só quando senti que tinha vomitado tudo o que eu tinha pra vomitar que eu voltei pra cozinha, pálida e olhei pra minha mãe.
Eu: Eu não to bem. Acho que comi alguma coisa estragada. – cujo nome é tequila.
Mãe: Vai pro seu quarto. Vou levar um remédio pra você.
Passei o dia na cama e tomando chá. Como eu odeio chá. Mas a parte da cama compensava. A Paloma tava no quarto comigo esperando o Pierre chegar de onde ele tava (um curso sei lá do quê que ele fazia) e minha mãe tava num dos lapsos de arrumar a casa. Ela entrou no meu banheiro pra tirar o lixo e voltou pro quarto com aquela cara de “você tá fodida”.
Eu: Que foi?
Ela estendeu a mão com três coisas. Puta que pariu. Os três testes POSITIVOS de gravidez da Paloma. E no meu banheiro. E eu vomitei hoje cedo. Fodeu.
Mãe: Comida estragada? O nome de gravidez mudou? Quando você ia me contar isso? — ela tava tão vermelha, que até os olhos dela que eram claros escureceram.
Eu: Mãe, é… — olhei pra Paloma, que tava desesperada. Se eu falasse que não eram meus testes, eu estaria entregando a Paloma. Mas se eu falasse que eram meus, eu estaria mentindo e me metendo em confusão à toa. E agora? — Mãe…
Mãe: QUANDO VOCÊ PRETENDIA ME CONTAR QUE EU VOU SER AVÓ? — de vermelha ela passou pra roxa, ela não respirava de tanta raiva.
Paloma: SÃO MEUS OS TESTES! — silêncio repentino. — Eu tô grávida. Do Pierre.
Minha mãe olhou pra cara dela, depois pra minha, respirou fundo e sua cor voltou ao normal aos poucos.
Mãe: Desde quando vocês sabem dessa gravidez e mantiveram em segredo?
Eu: Ontem. Eu comprei os testes e ela fez.
Mãe: E como você explica seu enjoo? — tentando se acalmar, mas me fuzilando com os olhos.
Lolita: CADÊ MINHA TEQUILA?! — invadindo o quarto.
Mãe: Tequila?! Mãe, onde você guardou tequi… — ela olhou pra mim. Enfiei a mão embaixo da cama e peguei a garrafa.
Eu: Aqui, Lolita. Sua tequila.
Mãe: Você. — apontou pra Lolita — Vamos conversar mais tarde. — Você. — Paloma — Vai chamar sua mãe. Se ela não sabia, vai saber agora. E você. — minha vez… — Espero que da próxima vez que você beba, vomite o fígado. Vai ficar deitada aí até domingo. Não vai pra escola amanhã, mas também não vai fazer nem receber ligações, não vai ter internet e muito menos vai ver o Fabrício no hospital.
Eu: VAI SE FODER! EU VOU NO HOSPITAL SIM!
Mãe: Se falar assim comigo de novo, vai perder o carro também.
Murchei. O carro não. Tudo bem que o Binho era mais importante que meu carro, muito mais importante, lógico. Mas perder o carro significa perder a gota de liberdade que eu tenho. Voltei a deitar e virei de costas pra elas.
Eu: Quero todo mundo fora do meu quarto.
Mãe: E você vai ficar fora do assunto que eu, a Paloma, o Pierre, o Jéan e a Amanda vamos tratar lá embaixo.
Eu: Quem tá grávida mesmo? Ah! É a Paloma. E o que eu tenho a ver com isso? Ah! Porra nenhuma. — minha parte irônica veio dela, ela não podia reclamar.
Mãe: Já chega. Uma semana sem carro. — filha duma…
Eu: FODA-SE! EU NUNCA PRECISEI TER MEU CARRO PRA ME LOCOMOVER!
Mãe: E SE CONTINUAR FALANDO ASSIM, VAI PRECISAR DE UM NOVO PAR DE PERNAS!
Porra, minha mãe era a única pessoa que ganhava uma briga comigo. Claro, porque ela era minha mãe e tal. Eu juro que queria ter coragem pra bater na cara dela, roubar o carro do Jéan e sair gritando “FUCK YOU, BITCH” na rua.
Mas…
Mas o caralho. Eu tenho dezoito anos. Não tenho mais que obedecer à mamãe. Mamãe o caralho. Deixa ela sair do quarto pra ela ver só. Ou melhor, não ver.
Meia hora depois, a Amanda tava causando lá embaixo. “EU NÃO VOU SER AVÓ ANTES DOS QUARENTA!” Solução: tenha mais de quarenta. E você tem, Amanda… com certeza…
Aquela era a oportunidade perfeita pra fugir. Pular a janela não era a melhor opção, mas era a única. Então tá né… Lá vou eu.
A chave reserva do meu carro ficava numa gaveta do meu armário e daquele pequeno detalhe minha mãe esqueceu. Fácil demais. Peguei a chave, enfiei no bolso, enchi uma mochila com roupas e afins e me equilibrei na beira da janela. Não era uma queda tão alta. Uns quatro metros, eu acho. Não era tanta coisa, era? Foda-se, tinha mato lá embaixo. Se eu conseguisse cair nesse mato o máximo que aconteceria seria eu levar alguns arranhões. Me arrisquei e pulei. Senti o que é estar à beira da morte por meio segundo e depois senti o que é nascer de novo. Mas fodam-se as sensações, eu tinha que pegar o carro e sumir dali. E foi o que eu fiz, entrei no carro e saí a milhão. Mas pra onde eu podia ir? Minha casa? Muito óbvio. Casa da Camila? Pior. Olívia? Vish.
CASA DO BECK! CLARO!
Toquei a campainha e a Thaís abriu a porta.
Thaís: Naty! Quanto tempo! Entra aí, vou chamar o Bê. — entramos e ela subiu, enquanto eu sentava no sofá. — BERNARDO! SAI DO TELEFONE! A NATY TÁ AQUI!
O Beck apareceu no topo da escada e desceu correndo quando me viu.
Beck: Naty? O que foi? Aconteceu alguma coisa com o Fabito?
Eu: Não que eu saiba. Eu… briguei com a minha mãe e meio que fugi de casa. Não tinha pra onde ir.
Beck: Tatá, prepara uma cama pra Naty, beleza? — sorriu pra mim. — Você sabe que pode ficar o tempo que precisar.
Eu: Valeu, Beck. — abracei ele.
?: Bernardo, quem é sua amiga? — uma senhora sorridente saiu da cozinha.
Beck: Vó, essa é a Naty. Ela vai passar uns dias aqui, tá? — Ela sorriu pra mim.
?: Tudo bem. Meu nome é Naomi. E não quero que você me chame de senhora e nem de dona ok? É só Naomi.
Ela tinha os cabelos bem brancos e presos num coque firme. Era baixinha, usava uma calça preta, blusa florida e um cardigã rosa claro por cima. Segurava uma bengala e tinha um óculos pendurado no pescoço, com uma daquelas cordinhas que eu não sei o nome. Era a típica vovó de filmes da Disney. O que eu não imaginava é que ela era a vó do Beck.
Ele me levou até o quarto da Thaís e eu sentei na cama debaixo da beliche dela.
Thaís: Nem precisa contar o que aconteceu, tá? Tá de boa.
Eu: Valeu.
Tomei um banho e fiquei deitada, conversando com a Thaís, que tava na cama de cima.
Eu tava mais fodida do que antes. E daí? Minha mãe viveu fazendo merda, então não tem o menor direito de reclamar das minhas merdas.
Notas finais
ps: a Gika não tem Nyah
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