Seven Days.
4 Lago dos cisnes.
Notas iniciais
7º dia da semana.
Silêncio, apenas isso.
Ou só o que ela queria ouvir. Silêncio.
Havia uma televisão no camarim, Robsten parecia saber um pouco mais do que aparentava. Ou haveria outra razão para ele tormentá-la com os últimos noticiários sobre os confrontos entre um morro e outro? Será que ele poderia saber sobre seus sentimentos, e principalmente, sobre seu envolvimento com Esteban?
De qualquer modo, ele tentaria vingança. Ela sabia, e isso a machucava.
Não conseguia dormir de modo algum, mesmo que tentasse. Lembrou do último beijo que Esteban lhe deu e que agora parecia uma despedida. Não podia ter acesso ào telefone e lembrou como era tola o bastante por não ter procurado pelo número do cara com quem dormiu. Engraçado, não?
Fazia uma semana, mas está envolvida à ponto de se preocupar com alguém pelo qual ela não consegue pensar direito, mas que sempre tem uma vontade súbita de chorar. Queria que acabasse logo de uma vez. Que Nana Kanye fosse ver sua apresentação e que a levasse dali, para finalmente concretizar o seu sonho.
Como ouviu por aí, ir atrás de um sonho é sempre mais fácil do que desistir dele.
Fechou os olhos e pensou como Robsten reagiria quando visse que não poderia mais tê-la para ele, porque ela não precisaria mais de sua ajuda. Mas era culpa dela. No início, ele parecia tão doce, tão prestativo e amoroso. E depois, supostamente, já queria tomá-la para si por completo. Ele era tão egoísta.
Era difícil porque nunca foi uma pessoa de muitos amigos. Não haveria provas contra ele, então decidiu usar o seu sofrimento como forma de crescimento. Usou Robsten para que sua dança fosse vista. Lógico! Ele mexeria uns pauzinhos lá e cá, e estaria feito. Mesmo que ela não precisasse implorar para estrelar a peça como protagonista, já que seu talento sempre foi visível para todos. Dançava com paixão, porque era a única coisa que realmente ela tinha certeza.
Quando as cortinas se abrirem, ela sabia exatamente o que fazer.
Mas quando se lembrou de Esteban, a única coisa que conseguiu fazer... Foi derramar algumas lágrimas.
Onde ele poderia estar?
As coisas haviam se complicado para ele. Tudo estava bem. Na verdade, até demais. Eles conseguiram a posse do outro morro, o que não foi fácil. Esteban levou um tiro na perna, mas não desistiu.
Ele não podia ir para o hospital, mas havia um médico no morro e obviamente iria cuidar do ferimento por ele. Querendo, ou não. Ele pensava o tempo todo em Serafina. Sentia dores inacabáveis, mas ainda pensava em abraçá-la e acordar apenas no outro dia.
Assim que saiu de lá e foi para casa com a ajuda de um de seus "soldados", ele abriu a porta e não viu nada. Tudo estava no lugar, pareceria normal se não fosse suspeito. A casa estava vazia, ele sabia disso. Não havia o cheiro de cafeína. Tudo parecia calmo demais.
Ele foi até o quarto, mas também não havia nada. Só encontrou seu retrato no chão e sua camisa encima da cama.
– Ela foi embora. – Esteban disse baixinho, enquanto sentou-se na cama e segurou sua foto.
Ligou a TV e estava em êxtase. Hoje era sábado. Claro! Não prestou atenção no nome do programa, mas sabia que era ao vivo. Das poucas coisas que Serafina falou, ele se lembrou de como ela comentou sobre sábado e algo sobre balé. Ele tinha certeza que ela estaria lá, já que a tatuagem da garota não saiu da sua cabeça.
Ele deveria tentar, ou apenas deixá-la ir? Ela poderia voltar depois... Quem sabe.
Mas porque diabos alguém voltaria para ele? Nem seu pai fez isso.
A porta da casa de Esteban se abriu e num momento de fraqueza, ele realmente esperou que fosse ela, mesmo sabendo que não seria. Foi um estrondo tão grande que sabia que ela não teria essa audácia.
– Chefe. – Esteban olhou para o lado e viu Dan, um de seus "soldados".
– O que foi agora? – Esteban respondeu com desinteresse.
– Aquela garota, que o senhor trouxe para cá... – Dan disse calmamente – Algumas pessoas disseram ter visto ela sendo levada daqui.
– E porque não fizeram nada?
– Não tínhamos tempo para nos preocupar com uma vadia, chefe. Estávamos defendendo o morro. – Dan riu, quando viu um pulo inconsequente de Esteban no momento que ouviu a ignorância dele
– Ela não é uma vadia. – Esteban disse nervoso, mas logo recuperou sua postura
– Desculpe, chefe. Mas pensávamos que ela era algum tipo de diversão sua, já que a trouxe para cá.
– Vocês pensam demais sobre a minha vida, não? – Esteban pegou um cigarro – Acho que está na hora de fazer umas mudanças por aqui.
Dan engoliu em seco, mas ouviu o que Esteban tinha a dizer. Ele queria que dessem um jeito de que ele entrasse no teatro João Caetano. "Ele deve estar louco", foi o que Dan pensou. Mas não gesticulou e nem pensou sobre, tinha amor à sua própria vida.
Esteban queria observá-la de longe, ver como ela ficaria bonita enquanto dançava. Nunca admirou balé, sempre achou isso para patricinhas ou menininhas. Mas depois de ter conhecido Serafina, sabia que não era apenas isso. Deveria ter algo mais.
Ele esperaria até o final da peça, quem sabe esperasse do lado de fora, também. Até a hora de ela ir embora. Queria saber se ela tinha outra pessoa, ou se ela voltaria pro morro com ele.
Lá estava ele, não era tão longe. Queria tanto vê-la que não se importou em usar algum tipo de "fantasia", ou melhor dizendo, um chapéu que escondesse sua face para que não fosse reconhecido. Mas quem iria prestar atenção nele em um teatro? Porque alguém imaginaria que ele iria lá?
Faltava 20 minutos para a apresentação.
Serafina estava tão cansada de chorar, principalmenteporque precisava se maquiar para entrar no palco. Ela encarava o espelho e estava tão abatida. Nunca tivera chorado tanto antes. Sabia que o tinha de fazer, mas pensou em como queria fugir dali, pegar um taxi e ir para o Mourão.
Já estava pronta, sabia disso. Mas algo preocupava sua confiança. Era a primeira vez que dançaria para um grande número de pessoas, e hoje estava coberta de sentimentos estranhos. Precisava ver Esteban, queria tentar, fugir dos braços de Robsten e encontrar os de seu amado, mesmo que não tenha certeza de que ele irá estar esperando por ela.
As luzes do teatro se apagaram, ela sentiu. Um silêncio enorme a invadiu.
As cortinas se abriram, e ela se posicionou. Dançaria para ele, porque queria que ele estivesse vendo.
A peça era Lago dos Cisnes.
(http://www.youtube.com/watch?v=pX1CuBhgCj8)
Ela fechou os olhos e sorriu. Quando a música chegou aos seus ouvidos, seus delicados pés ganharam vida à arte. Ela vinha de alma, entregava sua beleza no olhar que só ela tinha, seus movimentos eram doces e cheio de amor. Ela sentia a música no seu corpo leve, sua beleza era invejável. A leveza, o giro e as mãos que não tinham sutileza maior. Seus movimentos suaves exaltam sua graça. Era incrível como Serafina fazia parte da personagem. Era sedutor, clássico e amável.
Ah, se ela visse. Esteban suspirava pelos cantos. Ela parecia um anjo, ou era um. Realmente dançava sobre os céus. Seus passos eram tão sútis, vingativos, inabaláveis. Serafina chorava sem que pudessem vê-la.
Seu corpo era conduzido pela música sem esforços. Serafina se movia com uma precisão incomum e a delicadeza de um cisne. Seus braços eram como penas, iam de um lado à outro numa sincronia belíssima; suas pernas torneadas eram rápidas mas não ao ponto de passarem despercebidas.
Ah, seu corpo...
Era como se a menina pudesse voar naquele instante. Seus giros eram lindos, cronometrados e quase perfeitos. Ela, com tamanha desenvoltura e habilidade, beirava à perfeição.
Quando as cortinas se fecharam novamente, ela pôde ouvir os aplausos. Ela chorava de paixão. Dançou com tanto de si que não poderia descrever em palavras.
Aquilo fora feito para Serafina.
O palco, a coreografia e a vida, ali lhe pertenciam.
Fale com o autor