Seven

4 Um menino, Quarta-Feira!


02/06/2010 – Quarta-Feira 4:16 AM


E mais uma vez, eu realmente não quero ir dormir. Dessa vez, eu pude vê-la caminhando pelo corredor com passos tão leves que não emitiam som algum. Seu olhar estava fixo em algum ponto que eu não soube dizer qual e, enquanto marchava sem destino aparente, um sorriso seguido de uma risada maldosa brotaram em sua boca. Ela estava rindo sozinha. Seguindo ela, senti o chão de madeira molhado, mas desta vez ela tinha as mãos secas. Acho que ela havia ido até a cozinha, pois agora caminhava com uma faca (dessas de carne) na mão direita, muito grande e com certeza extremamente afiada. O som de sua risada era abafado à medida que ela arrastava a faca pela parede. De repente, um garoto saiu de um dos quartos e se dirigiu à sua mãe para abraçá-la. Possuía cabelos negros que lhe caíam nos olhos e esses irradiavam a alegria de uma criança com seus treze, quatorze anos. Seu pedido de abraço não fora atendido; em vez disso, sangue escorria pelo seu corpo devido à facada que recebera de sua mãe.

Um grito seco cortou o ar e o sorriso da mulher se abriu ainda mais, de forma doentia. O som da faca cortando a carne da criança era baixo e rápido. Nesse momento, os gritos já haviam cessado, porém, manchas de sangue e lágrimas decoravam o chão do aposento enquanto o garoto encarava sua mãe sem entender o motivo daquilo tudo. E a única resposta que ele recebeu foi a risada espalhafatosa e diabólica da mulher ao mesmo tempo que era empurrado para dentro do quarto do qual havia saído. Segui-os para ver o que iria acontecer, mesmo sabendo qual seria o desfecho da história.

Sangue, muito sangue. O tom escarlate contrastava fortemente contra a parede branca, ainda mais quando os gritos estridentes da criança não estavam sendo reprimidos: penetravam pelos ouvidos e atingiam o fundo da alma. A faca perfurava o menino e depois era retirada sem dó nem piedade por aquela mulher psicótica, banhando ainda mais o chão e as paredes com sangue fresco. Era uma cena assustadora, absolutamente doentia, digna de um filme de terror!

Os lençóis da cama eram tingidos lentamente de vermelho, assim como o rosto e as vestimentas dela também. Tive a impressão de que algumas gotas caíram em mim, mas eu estava muito ocupado assistindo aquilo tudo horrorizado. Um, dois, três. Um, dois, três. Acho que mesmo de olhos fechados, eu poderia dizer a velocidade com que a faca entrava no corpo do garoto.

O rosto dela podia ser visto claramente, enquanto ela estava de joelhos em cima do menino deitado de barriga para cima na cama. Além dos gritos agonizantes, o olhar de terror daquele garoto era o que mais me afetava, olhos azuis que fitavam o rosto da mãe num pedido de piedade. Ele sacudia os braços debatendo-se com violência, desesperado. A mãe dava sinais claros de quem não se importava com o sofrimento do próprio filho; fazia tudo isso com um sorriso estampado no seu rosto, corpo e alma cobertos de sangue. Ela não parou até que o corpo dele estivesse irreconhecível.
A cena fora tão chocante que eu não conseguia me mover. Meu coração batia tão rapidamente que pensei que iria explodir; entretanto, ele simplesmente congelou no momento que ela se virou para mim. Lágrimas escorreram pelas minhas bochechas por medo de morrer, de lidar com o desconhecido. Eu fechei os olhos, jurei que não os abriria.Eu não queria mais vê-la. Sabia que estava sonhando e que eu só precisava acordar, por isso desejei com todas as minhas forças acordar. Então, eu abri os olhos e congelei.

Um par de olhos negros me fitava, gotas de sangue escorriam pela sua face e alguns fios de cabelo estavam grudados em seu rosto. Senti a respiração dela e logo depois ela respirou profundamente e deu aquela mesma risada maldosa. “Há....há.....há...”. Pensei que iria morrer. Eu precisava sair dali o quanto antes; pulei para trás em reflexo, mas o meu pé direito acabou por falhar e bati minha cabeça contra parede atrás de mim. Senti uma dor enorme e logo depois tudo se apagou. Abri os olhos e estou em minha cama. Levantei-me em um pulo só, liguei a luz da cabeceira e olhei ao redor. Sai correndo da cama e sem ligar luz alguma eu fui até o quarto no meio do corredor. Liguei a luz, ninguém estava ali.

- Vá embora. – Eu gelei no momento que ouvi uma voz de criança suave e que eu reconheci. Virei devagar e para a minha surpresa não tinha ninguém. Eu podia jurar ter escutado o jovem que havia morrido em meus sonhos me pedir para sair daquele local amaldiçoado, e foi o que eu fiz. Voltei ao meu quarto onde peguei meu diário e comecei a escrever. Agora o sol já aparecia na janela e não sei se vou trabalhar.

Para recapitular, terça-feira foi um dia como todos os outros. Não vi nada demais, não senti nenhuma emoção forte. Só quero entender o que acontece em minha vida; estes sonhos me perturbam cada vez mais... Sinto que estou enlouquecendo... Eu não quero dormir e ou ter que passar por isto. Por favor, me ajude, eu nem sei para quem estou pedindo ajuda. Talvez para mim mesmo, talvez para a Nina, não sei....

Fernando Martins