Seus superpoderes de super-heroi

1 Um Marciano Invade o Terraço de um Hospital


Notas iniciais
Então aí está o primeiro capítulo. Espero que gostem, eu amei fazer essa história e esses personagens quase já nasceram prontos, então foi fácil e agradável escrever sobre eles. Não sei se irei continuar ou acabar por aqui mesmo, quero ver o que vocês acham.

Logo após a morte de Miguel, disseram-me que ele havia lutado corajosamente, como se ele pudesse ter dito ao corpo: “Ei cara, tô cansado de viver, vê se deixa as bactérias se multiplicarem aí e me deixa morrer logo. Ah, e de preferencia sem muita dor, obrigado.”. Ele nunca poderia ter dito isso, porque a luta é a única coisa que nos resta, a única esperança. Do quê? É, eu também me pergunto isso. Todos nós lutamos diariamente uma guerra interminável contra nosso próprio corpo imperfeito, que insistem em dizer que é perfeito, e contra invasores externos que passam despercebidos. Mas nós lutamos mesmo assim. Merecemos ser chamados de corajosos por fazer isso a cada dia? Não, pois apenas a morte nos glorifica. Apenas ela é capaz de nos fazer alcançar o máximo de amor e compaixão dos outros.

Eu sempre soube que participava de uma espécie covarde e que teme aquilo que está certo em suas vidas. Por que lutar tanto contra a morte, se não a teme? Até os mais crentes, aqueles que dizem existir um paraíso e algum lugar para ir, temem a morte, porque tudo que afirmam não passa de uma suposição, de uma esperança. Sempre a esperança, confundindo-me. Sinto em dizer que não sou uma exceção a essa regra, também luto diariamente pela vida. Porém, como antes eu havia dito, lutamos contra o inevitável. E é sobre o inevitável que eu penso enquanto olho o desenho que havia feito do meu irmão meses antes, quando sua morte parecia não existir.

– O que uma garota tão linda faz sozinha no terraço de um hospital? – Ao meu lado direito, sem que eu percebesse, havia se sentado um garoto na típica forma de “pernas-de-índio” sobre a borda do terraço. A cabeça estava raspada da forma característica da quimioterapia, acusando-o de ter câncer. Sua orelha esquerda tinha um brinco de argola simples, com a prata parecendo usada pelo tempo. Assim que o vejo, tento disfarçadamente secar a lágrima que escorria pela minha bochecha. – Está chorando? – Os olhos castanhos se arregalam de forma estonteante, fazendo sua fisionomia parecer a de um E.T., como aqueles marcianos que aparecem em desenho animado. – Você não vai se suicidar, não é? – sua voz doce sai como que num sussurro, um sussurro que ele temia falar em voz alta – Saiba que caso pense em se suicidar, serei obrigado a salvá-la com meus superpoderes de super-herói. – O garoto mantém um sorriso ameno na boca, tentando fazer o clima parecer menos pesado.

– Não se preocupe, não irá precisar usar seus poderes de super-herói. – Assim que falo, ele faz um a cara de falso desapontamento como se estivesse esperado a vida inteira para mostrar seus poderes de super-herói a garotas no terraço de um hospital. – Vim apenas pegar um ar aqui fora.

O garoto inclina a cabeça para o lado, pensando sobre o que eu havia falado. O sol batia diretamente sobre seu rosto, sem a interferência de cabelo algum. Pelas sobrancelhas escassas, podia-se afirmar que os fios deste deveriam ser da cor do carvão, contrastando-se com a pele cor leite. Seu rosto inchado não poderia ser considerado bonito, mas algo nele parecia atrair-me de forma única. Quem sabe, a pureza que ele emanava, junto com seu jeito despreocupado.

– Realmente, aqui há bastante ar. – E como para confirmar o que ele dizia, o vento leva meus cabelos castanhos até seu rosto, fazendo-nos rir. Sua risada é encantadora de todas as formas, e parece ocupar todo o terraço. Ela é calma, dizendo a todos “Eu não preciso de tempo extra na minha vida. Posso até rir com calma, o que mais me faltaria?”. – Sou Daniel. Daniel Alves – apresenta-se, esticando a mão branca em minha direção.

– Como o jogador – respondo ao pegar sua mão fina, com os dedos gelados a encobrirem completamente os meus.

– Se eu não fosse um perna-de-pau... – Daniel afirma, com outra risada calma e viciante. – E qual é o seu nome?

– Júlia, – Meu nome sai facilmente em apenas um suspiro rápido, como se ele nunca quisesse ter estado na minha boca. – Júlia Paz. – Daniel sorri, com os olhos vidrados em meu rosto.

– Júlia... – Meu nome em sua boca parecia fazer voltas, não querendo sair de lá dentro, totalmente diferente da minha. – Julia... – repete com um sorriso torto – Por que está aqui em cima, Júlia?

– Meu irmão – falo depois de algum tempo em silêncio, sentindo a verdade pesar sobre meus ombros ao confirmar isso em voz alta. – Ele morreu de... – Minha voz falha, incapaz de continuar sentenciando o triste final do meu irmão.

Sinto novamente as lágrimas invadindo meus olhos e escorrendo demoradamente pela minha bochecha. Daniel passa o braço sobre meus ombros e me puxa contra seu peito, num abraço de lado completado pela outra mão que passeia entre os meus cabelos. Era incrível como ele me conhecia tão pouco e parecia saber exatamente o que fazer para acalmar meus sentimentos, sem palavras de consolo falsas ou qualquer outra coisa que as outras pessoas normalmente fariam sem serem verdadeiras. Apenas ficou ali do meu lado, acariciando levemente meus cabelos e me escutando soluçar.

Aos poucos vou me acalmando, as lágrimas parando gradativamente, até por fim não restar mais nenhuma. A dor ainda estava presente, ela sempre estaria, mas ficar abraçada com Daniel era como uma ilha de calmaria no meio da perda. Sentir seu cheiro pela primeira vez nas minhas narinas fez com que lembranças voltassem, lembranças felizes dos momentos que passei com Miguel. Assim que me acalmo, desfazemos o abraço lentamente. Daniel estica uma mão até meu rosto e seca delicadamente uma lágrima perdida, sorrindo com tristeza. Logo após apoiando sua mão sobre a minha e a aperta gentilmente, num último consolo silencioso.

– Seu irmão é esse que está desenhado? – pergunta, com a voz calma e baixa de sempre, como se achasse isso tudo muito natural. Faço sinal afirmativo com a cabeça e entrego o desenho que estava até agora na minha mão para que ele possa ver melhor, com o grafite do papel borrado pelas lágrimas.

– Eu vim até aqui em cima me despedir dele – comento, olhando pelo canto do olho para o desenho que estava na sua mão. – Mas agora não sei mais se consigo.

Daniel devolve calmamente meu desenho, sem nem perceber direito o que estava fazendo. Seus olhos estavam perdidos no horizonte, não vendo o que estava a sua frente enquanto sua cabeça parecia estar pensando em algo.

– Então você vai viver uma vida inteira na sombra do seu irmão que morreu? – pergunta por fim, olhando-me atentamente. Não consigo responder essa pergunta, pois não sabia mais o que esperar da minha vida. Ele queria uma resposta diferente daquela que eu poderia lhe dar, então somente olho meus pés que estão balançando perigosamente nas beiradas, e nada respondo. – Sabe Ju, – chamou ele, sem se importar em usar meu apelido – se eu estivesse na situação do seu irmão, não gostaria de ver você vivendo sua vida por mim. – Faz uma pausa, como se pensasse no que queria dizer. – Claro que gostaria que você se lembrasse de mim nos momentos felizes, que continuasse me amando. Mas não gostaria que deixasse de viver sua vida ou tentasse viver uma que não é sua.

– Não acha que está sendo convencido demais em achar que eu te amo? – pergunto com um pequeno sorriso aparecendo nos meus lábios.

– Você verá que todos me amam – sua voz era novamente brincalhona, com um lindo sorriso surgindo pelos lábios. – Mas e o que fará em relação ao seu irmão, Ju? – pergunta, com a voz voltando a ser séria e rouca, mostrando duas personalidades totalmente diferentes de uma mesma pessoa.

Pego o papel que estava na minha mão e olho mais uma vez o desenho de Miguel antes de rasgá-lo em quatro. Assim que termino, abro as mãos e deixo o vento fazer seu trabalho, levando os pedaços para longe, junto com o peso que tinha sobre minhas costas. Sinto uma risada surgir pela boca de Daniel, e ele comenta distraído:

– Parece aquelas cenas dos filmes de drama que minha mãe assiste sempre. Como é mesmo o nome? – A pergunta era dirigida para si mesma, e logo o rosto dele se iluminou quando lembra da resposta. – Sempre ao seu lado! Esse é o nome. – Rio da sua resposta, deixando-o confuso.

– Sempre ao seu lado é o do cachorro – explico, deixando seu rosto desanimado com uma expressão fofa de “cão que caiu da mudança” – Esse filme que você estava falando é o Uma prova de amor. Na verdade, foi dele que eu tirei a ideia de rasgar o papel.

– Você realmente acha que eu presto atenção aos filmes que minha mãe me obriga a assistir nas sessões de família que ela faz? – a voz era carregada de ironia, iluminada pelos olhos inquietantemente grandes. Não sei se tinha essa impressão pelo fato dos olhos dele serem grandes naturalmente, ou se era por causa da falta de cabelos. Quem sabe pelos dois fatos juntos.

– Na verdade, acho que você é o típico garoto que faria isso – replico, com o mesmo tom irônico. O brinco na sua orelha mostrava exatamente o contrário do que eu afirmava, assim como suas roupas jogadas. Seu conjunto lembrava um skatistas, talvez apenas sem as calças jeans tão folgadas. Mas fora isso, sua roupa berrava “garoto problema”. – Mas e você, o que faz no terraço de um hospital? – a pergunta vem seguida por um segundo de silêncio, que eu completo com: – Além, é claro, de mostrar os seus superpoderes de super-herói para garotas possivelmente suicidas.

– Como você, vim pegar um ar antes da minha sessão de quimioterapia – responde com o olhar perdido no horizonte, perdido em outro mundo. – Você nem faz ideia de como pode ser sufocante a sala de espera para uma sessão.

– O que você tem? – pergunto, apesar do medo de estar indo longe demais e de Daniel se afastar de mim.

– Hepatocarcinoma – responde com calma e ao ver minha cara confusa, corrige-se – Câncer no fígado.

– Você não tem medo? – pergunto, olhando para seu rosto tão liso, que apesar da quimioterapia era algo tão raro nos garotos da sua idade. – De morrer tão novo, quero dizer – acrescento ao perceber como minha pergunta anterior foi vaga.

– Não. – Sua resposta clara e objetiva me trouxe confusão, e o encaro sem acreditar. – Sabe, por mim eu teria terminado todo esse sofrimento. Não aguento mais quimioterapia, ela me faz sentir um bosta total. – Ele não me olha nos olhos, apenas encara sua mão que estava perto da minha. – Eu só faço isso pelos meus pais, eles não merecem passar por isso de novo. Eles ainda têm esperanças que eu consiga um transplante.

– Depois sou eu a suicida. – A verdade é que eu gostaria de ter falado outra coisa, porém foi apenas isso o que consegui formular sem parecer confuso demais.

– Eu salvo pessoas suicidas, não disse em momento algum que não sou um suicida – responde com um pequeno sorriso de lado antes de voltar à expressão séria. – Se isso não ferisse meus pais, aposto que diria para meu corpo: “Ei cara, por acaso você poderia multiplicar essas células cancerígenas mais rápido? Eu sei, a quimioterapia atrapalha, mas acho que isso não é pedir demais, né?”

– Parabéns Daniel Alves, você é a pessoa que conseguiu acabar com uma das minhas teorias mais rapidamente – falo com certo rancor na voz, só me arrependo de acusá-lo de tal forma ao ver sua cara perdida e magoada me encarando como se quisesse entender o que fez de errado. – Desculpa, é que era exatamente nisso que estava pensando quando você chegou, mas isso não tem importância.

– Pensando em como sofremos por nada antes de morrer? – A pergunta parece genuinamente verdadeira, de alguém interessado, mas não consigo deixar de suspirar cansada.

– Não, pensando em como somos uma raça covarde que luta contra o inevitável pelo simples motivo de temer o que há depois da vida. Mas você acabou de contrariar em cinco segundos o que levei uma hora para desenvolver. – Um sorriso de canto se forma em seu rosto ao perceber minha cara de decepção por ter sido vencida tão facilmente.

– Isso se chama instinto – replica, com a voz levemente zombeteira e entretida.

– Instinto é algo que usam para esconder seus medos. – Entro no seu jogo, usando todas as minhas cartas e pensamentos que eu considerava tolos para ganhar dele. – Assim, pode-se trocar o que eu considero medo ilógico por algo que não tem como mudar, pelo nosso lado animal que nos domina. – O sorriso de canto que antes havia se formado aumenta de tamanho um pouco, como se fosse seu passatempo favorito discutir sobre a raça humana no terraço de um hospital à espera de uma sessão de quimioterapia. – Mas você é uma exceção, Daniel Alves, uma maldita exceção que fez toda minha teoria cair por terra. – Ele ri da minha raiva e se apoia no braço esquerdo, com o corpo levemente inclinado para esse lado.

– Você já ouviu o ditado, toda regra tem sua exceção? – Faço movimento afirmativo com a cabeça, fazendo-o continuar. – Podemos mudar para: toda raça tem sua evolução. E eu sou esse ser evoluído que contraria sua teoria, Julia Paz, porque você não esperava topar com um ser tão evoluído como eu.

– Você é o ser evoluído mais confiante e arrogante que eu conheço – falo levemente, para que ele percebesse que era apenas uma brincadeira.

– É que nós, seres evoluídos, sabemos que somos assim e por isso não conseguimos tratar seres comuns como vocês da mesma forma. – Sua voz dança entre meus ouvidos, provocando-me e me fazendo arrepios. Onde esse garoto aprendera a ser tão inteligente, afinal? Ninguém nunca havia conseguido acompanhar uma conversa minha quando eu estava no meu “modo filosófico”, pelo menos não até agora.

– Para mim, você é um garoto suicida que leu uma matéria de um ser evoluído e copiou suas ideias para apresenta-las para mim – Seu sorriso aumenta, fazendo todo seu rosto inchado iluminar-se ainda mais sob o sol.

– Se você me conhecesse saberia que eu sou incapaz de memorizar o caminho até meu quarto, quanto mais uma matéria tão complexa como esses tais de seres evoluídos conseguem fazer – Sua voz foi levada ao vento, com o tom brincalhão misturado com os sopros que balançavam meus cabelos. – Tem muita coisa que você não conhece em mim. Com o motivo de eu usar esse brinco, por exemplo.

– E qual é o motivo? – rebato de volta, o fazendo rir. No pouco tempo que conhecia esse garoto, ele já havia rido mais vezes que muitas pessoas que conviviam comigo desde o meu nascimento.

– Isso é história para outro dia. – sua resposta é seguida por uma piscadela, o que me deixa com mais raiva ainda.

– Para mim você não tem história alguma, só esta me enrolado. – Ele me encara por um segundo, voltando a olhar o horizonte.

– Você nem faz ideia de como há história por trás. – O sussurro parecia não ser dirigido para mim, fazendo com que eu me sinta como se estivesse interrompendo algo.

Daniel sorri pra mim depois de um tempo e eu sorrio de volta, vendo todo seu corpo iluminado pelo céu. Ele levanta da beirada do terraço, mostrando toda sua altura que até agora estava escondida para mim. Sob o casaco de camurça amarronzado, vestia um suéter preto que modelava seu corpo magro, porém que me atraía de uma forma inexplicável. Tudo em Daniel era assim, simples e normal, porém ele tinha um efeito tão forte sobre mim, efeito que nem os atores e cantores considerados mais lindos tinham.

– Júlia Paz, eu sei que é quase certo que eu não viva até o final do ano, ou se viva, seja quase moribundo, e sei que no futuro você estará nesse mesmo lugar chorando por mim, mas estou te convidando para um encontro comigo na padaria aqui do hospital para comer um pastel com gosto de papelão e tomar um refrigerante quente. – Ele estica a mão, com um pequeno sorriso contido. – A companhia compensa, eu garanto.

Olho para a mão esticada dele, pensando no meu futuro em que eu poderia estar chorando aqui por ele como havia acabado de dizer, ou ver como uma estranha ele partindo dessa vida. Parecia arriscado aceitar a oferta de um garoto com câncer logo após perder um irmão, e se eu aceitasse aquele convite eu estaria aceitando quem sabe mais problemas e sofrimento na minha vida. Mas ao ver aquele rosto tão inseguro, com os olhos grandes a me encararem com expectativa qualquer pensamento de recusa foi totalmente expulso da minha mente. Como eu podia dizer não a ele, depois de toda a batalha mental que o garoto a minha frente fez para finalmente decidir me convidar, mesmo sabendo que normalmente as garotas não aceitariam. Ele teve sorte por não encontrar uma garota normal.

– Eu aceito o convite – falo, pegando sua mão para levantar-me. – Mas saiba que não é por causa da companhia.

Notas finais
E aí, o que acharam? Eu pretendi não fazer eles como pessoas perfeitas e superlindas, queria faze algo real. Mas se não ficou legal me avisem. E por favor, comentem o que acharam e se gostariam de continuação ou se está boa a história assim.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!