Notas iniciais
Algo diferente novamente. Espero que gostem.

É de manhã. Pego meu caderno de desenhos e me dirijo ao meu jardim. Ando entre arbustos e árvores perfeitamente moldadas e podadas por nosso jardineiro. Chega a ser difícil escolher o quê e em que ângulo meu lápis dará vida à minha imaginação.

Sinto meu vestido agarrando em folhas e galhos, a base de minha saia começa a ficar encharcada com a umidade de um tempo nublado e as folhas estão alaranjadas por conta do outono, por isso, nada de flores.

— Pode ir Catarina. — disse à minha dama de companhia que atenciosamente segurava meu guarda chuva.

— A senhora tem certeza? — respondeu vacilante.

— Sim, deixe-me a sós. — demonstrei firmeza.

— Sim, senhora. — cedeu.

Prefiro a mais densa solidão aos confinamento e barreira que a presença de outra pessoa, por mais chegada que seja, acaba me causando. Mesmo assim, até as linhas mais solitárias ganham a verdadeira vida quando se juntam à outras materializando o sentimento e trazendo à existência as emoções mais profundas.

Continuo andando e sento-me no banco de pedra em frente a uma árvore. Já consigo sentir meu humor mórbido quando a vejo, tão escura, fria, solitária e misteriosa. Espero ser um lugar distante o suficiente para que não me achem ou, simplesmente, desistam de me procurar. Quem sabe eu deva me encontrar?

Há anos estou nesta casa a sua espera. Há anos estou tentando pôr meus pensamentos no lugar. Há anos ando por esse maldito jardim. Há anos não deixo a minha esperança morrer. Afinal, você disse que sempre voltaria que sempre viria me buscar e eu acreditei.

Observei o pingo de lágrima em cima de meu desenho, borrando-o. Toquei meu rosto molhado e quente possuído pela aflição. Sentia-me sufocada, a respiração descontrolada. Eu precisava daquilo, precisava chorar, precisava lembrar.

Lembro-me da primeira primavera que passamos juntos. O festival foi aqui mesmo, no jardim do palácio. Darwin estava lindo e sorridente dançando e divertindo-se nas rodas, tão gracioso, tão… inexplicável.

— Respeito que não goste de dançar, mas por favor, dance comigo pelo menos uma vez. — ofereceu-me sua mão como fiel encorajadora.

— Claro. — sorri encantada.

Lentamente, os músicos diminuíram o ritmo e eu fui ficando mais desengonçada. Uma piada uma Lady não saber dançar. Percebendo meu ar de decepção, Darwin aproximou-se de meu corpo puxando-me pelas costas e eu corei.

— Deixe-me te guiar, okay? Só sinta minhas mãos em suas costas. — sussurrou em meu ouvido deixando-me mais envergonhada do que já estava.

A música continuou e aproveitei o momento para aconchegar-me em seu peito quente. Ali, pude sentir o sumiço do borbulho de pessoas falando, dos pratos batendo, das risadas, das pessoas e finalmente, dos músicos. Éramos eu e ele. Não dancei, flutuei. Tudo correu bem e passamos o restante da noite conversando.

A lembrança arrancou-me suspiros perdidos no ar e, novamente, meu coração sentia uma fagulha de esperança. Porém, sabia que não o teria de volta para deitar em seus braços que sempre me oferecia com tanto amor. Foi em uma dessas noites frias que o seu abraço foi o mais consolador de todos.

— Telegrama!!!! — gritou o entregador na porta. Não demorou muito para que o mordomo viesse a mim.

— Boa noite MiLady. Sei que já está tarde, mas é um telegrama de muita importância chegado da França.

— Claro Pierre, obrigada. — dispensei-o.

— O que será que é? É de seu pai? — Darwin, já meu marido, perguntou-me ansioso.

— Creio que sim. — analisei o envelope em minhas mãos e o abri com voracidade.

Só pude sentir meus joelhos vacilarem e irem ao chão, perdia o ar com tamanha intensidade e os risos deram lugar aos gritos de dor que sentia. Meu pai morreu à caminho da França… Sua carruagem tombou na investida de ladrões.

Foi naquele dia, em que perdi o único que me criara, que recebi os mais calorosos abraços de Darwin. Diante de tanta responsabilidade que o seguiria de manter o andamento dos negócios da família — algo que já realizava ao lado de meu pai como forma de aprendizado — deixou de lado o medo repentino para me dar força. Passei noites em seu colo sem que dissesse uma palavra, esperando o meu tempo de luto. Como gostaria de ter tido mais tempo em esses seus braços. Tempo. Todo o tempo do mundo não daria conta do amor que sentimos um pelo outro. Você me reinventava a cada dia.

Fecho os olhos e posso sentir o toque de Darwin em minhas mãos, em meu rosto enxugando as minhas lágrimas, em meus ombros relaxando-me… Posso sentir até sua respiração. Por que morreu Darwin?

— Eu não morri. — abri os olhos assustada e sem reação, senti meu corpo paralisar.

— Darwin? — respondi espantada.

— Sim meu amor. — sentou-se ao meu lado. — Não fique assustada, eu vim te buscar pois fiquei sabendo que está muito doente.

— Estou muito doente… — parei e pensei. Minha mente não poderia estar me pregando peças. — mas como pode estar aqui? Te vi morrer!

— Nunca morrerei pra você meu amor, nem que suas vistas lhe digam isso. Lembra-se do que sempre te dizia em minhas viagens? — sorriu caloroso e eu o abracei forte.

— Que sempre voltaria. Que sempre viria me buscar. Que saudades que sinto de você! Não sabe o quanto esses anos foram difíceis. Sempre estive aqui, esperando-te! — as lágrimas escorriam de forma intensa em meu rosto.

— Acalme-se… estou aqui. Agora pode descansar em meus braços eternamente. Venha. — Já de pé, estendeu a mão convidando-me, assim como no dia da festa de primavera.

— Para onde vamos? — perguntei.

— Para onde você quiser.

Sorri calorosa e aceitei seu convite mais uma vez. Demos um beijo embaixo da árvore e quando abri os olhos, haviam tantas flores bonitas e coloridas nela. Seguimos, enfim, campina afora… e finalmente… a calmaria.

— Eu sempre te amarei — ele disse.

— Eu sempre te amarei... — suspirei

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CATARINA POV

— Senhora Marriene! Senhora Marriene!

— Senhora Marriene! Senhora… — avistei-a deitada em um banco de pedra bem distante da propriedade. — Por aqui ! — chamei os outros funcionários. — Acorde senhora! Socorro! — disse chacoalhando-a, mas era em vão. — Peguem-na rápido!!!! Chamem um médico!!!

Ouvi o estalar de algo indo ao chão. O que é isso? Era o caderno de desenho da senhora. Nele, seu último desenho, ela e o Senhor Darwin beijando-se embaixo dessa árvore, toda cheia de flores coloridas e diferentes. Ela estava com um ar de felicidade.

Há anos que a senhora vem de luto por seu marido a ponto de adoecer, mas olhando a árvore pude ver a cena e chorei ao entender que a doença já tomara conta de seu corpo e que já era hora de sua partida.

Adeus Senhora Marriene… que a senhora seja muito feliz.

Notas finais
Mereço comentários? ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!