Seus Olhos
15 Capítulo XIV
Notas iniciais

Novembro de 1979
Alicia abriu os olhos e analisou o quarto em que estava, era pequeno, mas a cama era bem confortável. Raios de sol entravam pela janela e ela havia se esquecido de onde estava. Esfregou os olhos e esforçou a mente, até que se mexeu e encontrou um corpo ao seu lado. Ao se virar, se deparou com Matheus dormindo plenamente. Assim, ela se lembrou de onde estava. Estava no passado na casa do dono do restaurante. Logo após ela e Matheus terem se beijado eles subiram, e por mais que o corpo de Alicia gritasse pelos toque dele, eles não fizeram nada. Apenas dormiram. Alicia suspirou pesado ao se lembrar.
Os raios de sol que se encontravam em sua pele negra, deixava ele mais lindo. Ela sorriu consigo mesma e se levantou da cama. Assim que se mexeu, Matheus acordou e se espreguiçou levantando a blusa e deixando suas cicatrizes à mostra.
— Bom dia. — Alicia sorriu ao se virar para ele.
Ele viu ela ali com os cabelos negros bagunçados, se perguntando se havia acontecido algo na noite passada que o faria se arrepender pela vida toda. Ele se lembrou do beijo e de como ele foi intenso, aquilo já estava causando preocupação demais. Imagina se tivessem transado na noite anterior. Mas ele se lembrou, eles apenas haviam dormido juntos, nada de mais.
— Bom dia. — Forçou um sorriso.
Alicia saiu da cama e foi até o banheiro lavar o rosto. Não queria incomodar o senhor da casa que já havia oferecido um quarto, então não tomaria um banho. Molhou os braços e a nuca. Arrumou os cabelos em uma trança e saiu. Matheus já havia se levantado e já estava pronto para ir embora.
— Vamos para onde? — Ela perguntou.
— Andar por aí. — Ele respondeu.
Aquele seria o último salto temporal deles juntos. A partir daquilo, não poderiam mais dar continuidade naquilo. Era arriscado demais que ele se envolvesse com alguém do passado dele. Aquilo poderia causar coisas no tempo, que ele nem conseguia imaginar. Afinal, porque se envolvesse com ela, significaria algo mais forte e que ele não conseguiria sair depois e precisava voltar para o seu tempo. Não podia fugir para sempre. Mas podia fazer daquela última aventura algo bom.
Eles tomaram café da manhã no restaurante do Eduardo. E depois de agradecer muito, Eduardo pediu para eles esperarem e sumiu por alguns segundos. Quando voltou trazia uma pulseira de ouro na mão.
— Isso é para você. Era da minha esposa, pretendemos algum dia dar para nossa filha, mas nunca tivemos ninguém. E minha esposa não se importou em dar para você. Ela gosta muito do Matheus e sabe que você o fará feliz. — Ele colocou a pulseira na mão de Alicia.
— Eu não posso aceitar. É pessoal demais. — Lici tentou devolver.
— Não se pode recusar presente. Tome, aceite com carinho.
Alicia sorriu e o abraçou rapidamente. E partiram.
— Quanto tempo você ficou com eles? — Lici perguntou já longe de Eduardo.
— Algum tempo. Eles me conheceram comprando algo, foi uma amizade surreal que começou do nada. Depois me chamaram para almoçar no restaurante e foram dias e noites de conversa. Fiquei alguns dias na casa deles. Muito simpáticos e cheio de amor. Algo totalmente diferente do futuro. — Matheus sorriu ao se lembrar de todas as boas lembranças que teve naquele lugar.
— Que lindo. — Ela disse tentando colocar a pulseira no pulso.
— Deixa eu te ajudar. — Matheus fechou a pulseira no pulso da jovem.
Era uma pulseira fina de ouro, com apenas um pingente de rosa. Era linda e simples. Alicia amou.
Ele foram andando até pararem em um parque e decidirem ficar ali por um tempo. Se sentaram na grama um ao lado do outro e ficaram conversando. Alicia perguntou sobre suas outras aventuras no tempo e Matheus contava tudo com detalhe e uma felicidade no olhar.
— E as mulheres que conheceu por aí? — Lici o questionou.
— Vai bancar a ciumenta? — Ele tocou no nariz dela a fazendo recuar.
— Digamos que você pode ter encantado outras por aí. — Ela sorriu maliciosa.
— Encantado? Eu só te encantei, senhorita Alicia?
— Me responde você, o que acha que fez comigo? — Ela se aproximou dele.
E sem nem pensar Matheus a roubou um beijo, que logo foi respondido com tal intensidade. Eles estavam felizes quando se separam e olharam um para os olhos do outro. Mas Matheus se afastou, com medo. Alicia notou e antes que ele pudesse ir mais longe, que ela não conseguisse mais alcança-lo, o puxou e o abraçou. Matheus se surpreendeu com o gesto, mas entrelaçou os braços na cintura dela.
— Não vai. — Ela pediu próximo ao ouvido dele.
Matheus suspirou pesado no pescoço dela. Ele não queria ir, mas não tinha muita escolha.
— Eu não posso te prometer isso, Alicia. — Ele respondeu se afastando do abraço.
Alicia o olhou triste. Queria chorar, na verdade, mas sabia que não faria aquilo. Mas Matheus notou a tristeza em seus olhos.
— Espero que entenda. — Matheus disse com pesar.
Alicia entendia, mas uma parte dela queria gritar e brigar com ele, para que ele assumisse aquilo e lutasse. Mas ela também sabia que ele não faria aquilo, pois ele era de fugir e não de lutar. E por mais que ela quisesse aquilo, tanto quanto ele, não podia deixar que fosse mais difícil do que já estava sendo.
— Sim, entendo. — Ela desviou o olhar para baixo.
Matheus quis levantar o rosto dela, para poder encarar aqueles olhos verdes, mas não o fez. E Alicia esperou aquele gesto, mas sabia que ele não faria, porque ele também não queria que fosse mais difícil.
— Desculpa. — Ela disse levantando o olhar e encarando aqueles olhos cor de mel.
— Desculpa. — Ele disse também.
Ambos ficaram ali alguns minutos se encarando, se perguntando se poderiam olhar para aqueles olhos com aquele desejo de novo. Se perguntando se podiam se permitir mais uma vez aquela loucura, mesmo que fosse só para eles. Ninguém no tempo iria saber. E antes que pudessem pensar com mais detalhes, outra vez eles se entregaram um ao outro. Em um beijo avassalador, que explorava cada canto da boca deles e onde suas mãos queriam tocar partes jamais tocadas.
Se separaram e olharam um para o outro, não sabiam distinguir se nos olhos deles haviam felicidade ou tristeza.
Alicia se afastou dele, se levantando. Ela queria aquilo, mas queria muito mais que aquilo e sabia que ele não podia entregar a ela. Então não tornaria que as coisas fossem mais difíceis para si mesma. Era hora de parar.
— Se continuarmos assim, não vamos conseguir parar. — Ela começou a falar. — É difícil, mas não podemos com isso, né?
Ela o encarou ainda sentado. Seus olhos perdidos nela.
Matheus mais do que ela entendia os riscos e entendia o que ela estava dizendo, mas uma parte do seu corpo, do seu ser lutava contra aquilo de todas as formas. E em segundos involuntários, ele não conseguia lutar contra aquilo e se entregava. E agora se perguntava o quão difícil aquilo tudo deveria ser a ela. Uma hora não é pra ser e na outra estão se beijando. Ele mexeu em seus cabelos, atordoado.
— Sim. — Respondeu por fim.
Alicia o olhou intrigada, mas não queria entender mais aquilo. Entendia que seus corpos queriam ficar juntos, mas aquilo era só um desejo. E antes que se tornasse algo mais profundo, precisava se afastar. Até porque entendia que ele não podia ficar ali com ela.
O dia foi passando, eles não conversaram muito um com o outro, apenas o essencial. Era como se cada troca fosse torna tudo mais difícil no fim. Chegando ao fim do dia o dispositivo de salto temporal já estava pronto e eles saltaram. Aquela sensação de pulo e a luz violeta não conseguiram encantar Alicia, era última vez que via e não queria se lembrar de como era e com quem estava.
Chegaram em frente a casa dela e ela olhou para aqueles olhos cor de mel, o que poderia ser a última vez.
— Eu sinto muito, Alicia. Não era para coisas terem sido dessa forma. — Ele a encarava.
— Mas foi, não temos como controlar nosso sentimentos ou desejos. As coisas acontecem, não tornemos isso mais difícil. — Ela forçou um sorriso. — Adeus Matheus.
Ela queria que aquilo acabasse logo, era para ser rápido.
— Alicia. — Ele pedia mais uma vez.
Mas dessa vez Alicia não atenderia ao desejo de ouvir seu nome ser sussurrado pelo homem que ela queria. Ela deu as costas e entrou na sua casa.
Matheus viu ela entrando e nem sequer olhando para trás. Havia acabado e era mais fácil daquela forma. Ele deu as costas.
Alicia chorou aquela noite enrolada em sua cama.
E Matheus chorou em um beco escuro.
Fale com o autor