Seus Olhos
11 Capítulo X
Notas iniciais
Julho de 1926
Eles saltaram em uma rua pouco movimentada, mas Alicia logo tratou de puxar Matheus pela mão para que eles fossem ver as pessoas e a rua. Chegaram em uma rua mais movimentada, a iluminação era amarela e baixa, várias pessoas andavam calmas pela rua e havia poucos carros. Alicia estava encantada como as mulheres se vestiam e andavam com tanta confiança. Ela olhou para Matheus sorrindo de orelha a orelha.
— Eu preciso de roupas assim, não dá para ficar de casaco. — Ela baixou a mãos mostrando suas roupas.
Matheus riu e puxou ela consigo.
— Você vai amar as pessoas que conheci aqui e com certeza elas vão te deixar muito anos 20.
Alicia o seguiu, mas eles foram andando devagar, sem se importar muita para as pessoas que os olhavam estranho. Ela só queria analisar cada coisa e poder guardar cada detalhe em sua mente. Aquilo era incrível.
Eles chegaram ao local que Matheus queria. Ao entrar Alicia reparou no ambiente, estava cheio de pessoas, homens e mulheres, quase todos tinham um copo de uísque na mão e tocava algum jazz ao fundo. Alicia concluiu que aquilo era algum tipo de carabaret.
— Matheus! — Uma mulher da voz melosa se aproximou deles.
Ela parecia ter saído de algum filme americano dos anos 20, fumava algo longo, que Alicia não sabia o nome ao certo.
— Pensei que não o veria mais. — Disse a mulher se aproximando do ouvido dele.
Alicia olhou para cena com um certo nojo, mas afastou aquele pensamento.
— Jamais a abandonarei, querida Malu. — Ele deu aquele sorriso torto para ela. — Preciso que deixe minha amiga apresentável.
Alicia arregalou os olhos para ele. Ele queria que ela fosse se vestir com aquela mulher. Oh céus, como é que ela deixaria ela? Mas Matheus a encarou e foi como se o seus olhos cor de mel dissessem para confiar nele. Ela suspirou, mas foi com a mulher. Ela o levou para trás de uma cortina onde havia muitas mulheres seminuas.
— Ana irá te ajudar, querida. — Ela indicou uma menina ruiva para ela.
A mulher sumiu e Ana ficou a encarando.
— Você é? — Ana também tinha a voz melosa e puxou Alicia para entrar no quarto que era composto de uma luz amarela e sofás vermelhos de veludo.
Havia uma penteadeira para onde Ana empurrou Alicia e a obrigou a sentar.
— Me chamo Lici. — Ela não queria mentir, mas preferiu não dizer seu nome todo.
— Que nome mais engraçado. — Ana começou a passar algumas coisas no rosto de Alicia.
Ela passou um pó branco, deixou as bochechas dela marcada e fez uma linda boca vermelha, que Alicia admirou muito e adoraria saber fazer. Ela fez um olho marcado e arrumou os cabelos longo de Alicia em um penteado trançado, o que a deixou como se tivesse um cabelo curto.
— Esses cabelos, você poderia cortar. — Ana comentou.
Ana a deixou sozinha na penteadeira e desapareceu atrás de uma porta. Lici ficou se olhando no espelho, ela estava linda e parecia que tinha saído de uma foto dos anos 20. Ana reapareceu com um vestido com champanhe e cheio de franjas. Ela jogou para Alicia e pediu para ela vestir.
Alicia trocou de roupa ali mesmo e quando estava pronta se olhou no espelho e viu uma verdadeira melindrosa no seu reflexo. Ela sorriu para si mesma e deu um beijo na bochecha de Ana a agradecendo.
— Imagina. Agora venha. — Ana a puxou e levou para fora, para o salão.
Alicia procurou Matheus e viu ele sentado no balcão tomando alguma coisa. Ela chegou perto dele. Ele se virou e quando viu a mulher parado a sua frente, mal reconheceu ela. Ele poderia jurar que era qualquer uma das meninas que ficava ali, mas ele reconheceu assim que viu aqueles olhos verdes tão marcados pela maquiagem.
— Você realmente está linda. — Ele analisou de cima a abaixo.
Alicia ficou desconfortável pelo elogio, mas ignorou aquela sensação.
— Obrigada. — Ela sorriu.
Eles ficaram algum tempo ali no balcão, Matheus bebendo alguma coisa que Alicia julgou ser alcoólico, mas não pediu nada para si. Viu o show de algum cantor de jazz. Até que eles decidiram sair e Matheus a puxou pela mão para irem embora. Eles andaram pelas ruas que estavam movimentadas e cheia de pessoas bebendo e fumando. O cheiro não incomodava Alicia, apesar de ela nunca gosta de cigarro, ela estava encantada por cada coisa que via.
Até que eles pararam perto de algo que julgava ser uma roda de samba. Havia alguns homens sentados cantando e alguns casais dançando.
— Aceita? — Matheus estendeu a mão para ela a chamando para dançar.
Alicia nunca soube dançar muito bem e muito menos samba. Mas ela aceitou mesmo assim, Matheus diferente do que ela lembrava da quadrilha, sabia dançar samba muito bem e a conduziu. Tão próximo ela conseguia sentir seu cheiro, que agora misturava a um perfume forte. Onde será que ele havia andado além de conhecer rainhas e donas de cabarets? Mas ela conseguia sentir ele feliz, ou pelos menos ali ele parecia muito feliz. Mas não era de se negar, Alicia transpirava felicidade em cada poro seu. Ela jamais se imaginou em uma situação daquela. Eles dançaram algumas músicas e os músicos o elogiaram.
— Não deixe essa garota não. — Comentou o cantor, um homem baixo de pele negra.
— Pode deixar, senhor. Essa, — ele olhou para Alicia — eu quero levar para vida.
O homem sorriu e deu uns tapinhas na mão dele.
— Essa eu quero levar para vida. — Repetiu Lici em tom de deboche enquanto se afastavam da roda de samba.
— Que mal tem em alimentar a ideia do senhor? — Matheus deu de ombros.
Alicia riu alto, gargalhou, mas não porque ele havia sido engraçado, mas por estar ali naquela situação toda. Matheus olhou para ela estranhando a reação e esperou que ela parasse de gargalhar para perguntar se estava tudo bem.
— Apenas estou feliz. Obrigada.
— Para quem me condenava, você até que esqueceu rápido né?
— Ah não estraga a minha felicidade. — Ela saiu andando na frente.
Matheus alcançou o passo dela.
Eles passaram o resto da noite indo de cabarets a rodas de sambas e dançavam samba e também charleston, que Alicia aprendeu muito facilmente. Até que os raios de sol começaram a brotar no céu, dando espaço para o Sol nascer. Eles decidiram para em um parque para poder ver o Sol. Estavam deitados na grama, muito próximo um do outro. Rindo ainda sobre a forma como Alicia dançava samba, que não era das melhores. E os homens nas rodas só a elogiavam por que estava com ele.
— Não queira bancar o dançarino. — Ela revirou os olhos.
— Confesse, era por mim.
— Tá bom, era. Mas eu aprendi muito bem a dançar charleston. — Ela sorriu e virou a cabeça para poder olhá-lo.
Seus olhos cor de mel e sua pele negra brilhavam conforme o Sol o tocava. Alicia analisou aquilo encantada. Como ele ficava bonito no sol, como uma obra. Ela afrouxou o sorriso.
— Que foi? — Matheus encarou os olhos verdes dela.
— Nada. — Ela voltou a olhar o sol.
Matheus continuou olhando para ela, dali ele conseguia ver as pintas da bochecha e da sobrancelha, mesmo que o pó branco que tinha no rosto cobrisse. Sua boca ainda estava bem marcada e desenhada e aquilo chamava atenção de Matheus, mas ele tratou de afastar, seja qual for a sensação, para bem longe. Voltou a olhar para o céu que estava alaranjado devido ao nascer do sol.
— Estou com fome. — Alicia comentou chamando atenção dele.
— Vamos procurar algo para comer. — Ele se levantou.
— Sem roubar nadar.
Ele olhou para ela e levou as mãos ao peito parecendo ofendido pelo pedido dela.
— Não sou mais ladrão.
— E como consegue dinheiro? — Ela ficou curiosa se levantando do chão.
Arrumou o vestido e os cabelos que já se desfazia em ondas pelas costas.
— Fiquei aqui um bom tempo para pessoas quererem me ajudar.
— Inclusive a mulher da voz melosa que com certeza não pensaria duas vezes em ver o que você tem aí nas calças. — Ela apontou para baixo.
— Não se preocupe, ela já viu. — Ele riu.
Alicia o olhou horrorizada. Matheus analisou o olhar dela.
— Com ciúmes, senhorita Alicia? — Ele sorriu torto.
Alicia não o respondeu, apenas deu de ombro. Até parece que ela estava com ciúmes dele, mas também não entendia porque ele fazia tanto sucesso com as mulheres daquela época ou porque sentia aquela sensação formigando em seu peito.
Eles voltaram para o cabaret da mulher da voz melosa, que não se importou em dar um lugar para eles ficarem. Que era apenas um quarto com uma cama de casal, com lençóis em tons vermelhos. Ela disse que logo alguém chegaria com a comida. Havia convidado Matheus para ir com ela a outra lugar, mas ele recusou.
— Já imaginou que você pode engravidar uma mulher do passado? Imagina o que isso causaria no tempo. — Alicia olhou com cuidado para reação dele.
— Nem brinque com isso. Sei me cuidar, Alicia.
— Mas às vezes escapar. — Ela sorriu debochada.
— Algo me diz que isso é ciúmes. Te incomoda que eu transe com outras pessoas? — Matheus se aproximou dela e começou a enrolar uma mecha do cabelo dela entre os dedos.
Alicia o encarou e sentiu a respiração dele tão perto dela.
— Me poupe, Matheus. — Ela o afastou com as mãos.
Alguém bateu na porta e uma mulher entrou com um bandeja de comida. Havia tortas, suco e frutas. Alicia agradeceu a moça e atacou a comida. Estava realmente com muita fome. Matheus acompanhou. Depois de comerem, Matheus disse que precisava resolver algumas coisas e saiu do quarto deixando Alicia sozinha. A jovem acabou por deitar na cama e adormeceu.
Quando Matheus voltou ele viu uma Alicia calma deitada na cama dormindo. Ela se mexeu assim que ele entrou no quarto, deixando que o lençol deslizasse pelo seu corpo. Dessa forma, as pernas dela ficaram a mostra, assim como sua bunda, pois o vestido havia subido. Matheus olhou o corpo dela, admirando, mas logo tratou de puxar o lençol para cima a cobrindo de volta. Ela se mexeu mais uma vez, mas não acordou.
Já era tarde lá fora, quando a jovem se espreguiçou na cama e se levantou. Matheus avisou ela que já poderiam voltar para casa e que suas roupas estavam em cima de uma cadeira. Lici olhou para o vestido que vestia e ficaria com saudade de ser uma melindrosa, mesmo que fosse por um dia. Ela pegou suas roupas e sumiu no banheiro para se trocar, tomaria banho quando voltasse para casa. Saiu do banheiro e viu Matheus já em pé com o dispositivo nas mãos.
— Isso não trará problemas para nenhum de nós, nem ninguém e nem para o tempo né? — Alicia colocou as roupas em cima da cadeira. Ela estava preocupada e começava a pensar que tinha sido irresponsável, ela não aceitaria aquilo de novo. Era correr muitos riscos, pensou.
— Eu não seria louco de fazer nada que prejudicasse o tempo ou você.
Alicia assentiu. Ele segurou a mão dela e girou o dispositivo com força. A luz violeta os envolveu e Lici se deixou ser levada pela sensação de saltar e de viajar. Quando abriu os olhos estava parada em frente a porta da sua casa.
— Que dia?
— Mesmo dia e algumas horas depois que te levei da lanchonete. — Ele viu o relógio no pulso.
Já era noite ali.
— Obrigada. — Ela sorriu. — E tome cuidado.
— Pode deixar, senhorita Alicia, eu não irei engravidar nenhuma dona de cabaret ou rainha por aí. — Riu debochado.
— Pois deveria, só pra parar de ser babaca. — Alicia soltou a mão dele.
— Que horror! — Matheus levou as mãos ao peito fingindo uma cara de horrorizado.
Alicia riu dele.
— Obrigada. — Ele disse sorrindo torto. — Foi maravilhoso com você. Tchau.
E ele se virou indo embora.
Fale com o autor