Seu Suéter
1 Seu Suéter
Eu ainda me lembro daquele dia três de dezembro. Dezembro costuma ser um mês quente mas naquela vez em específico o tempo esfriou ao longo do dia. Estava na casa de Rui jogando videogame com alguns de nossos amigos, conversando e comendo bobagens. Eu era a mais nova dali e ele o mais velho. Moramos em cidades diferentes por isso nos víamos poucas vezes ao ano.
Eu vestia apenas um shortinho jeans e uma regata preta. Apesar de sempre andar precavida, dessa vez, justo dessa vez, eu não me lembrei de levar algum casaco ou pelo menos uma blusinha de manga comprida. Rui então me levou até seu quarto para que eu escolhesse algo de seu guarda roupas para me aquecer.
Era quase tudo preto e a gente achava graça no nosso gosto tão parecido. Eu encontrei um suéter de lã preta que parecia ser a menor peça entre as demais. Por eu ser baixinha essa seria a melhor opção. Logo o vesti por cima da roupa e o vi chegar até a metade de minhas coxas. As mangas cobriam minhas mãos do jeitinho que eu gostava.
O rapaz de barba e cabelos negros falou que esse suéter já era antigo e ficava um pouquinho pequeno nele, não de apertar, mas ele preferia mais largo do que aquilo. Eu me pus a desfilar pelo cômodo enquanto ele me olhava rindo sentado na beira da cama. Aquele era meu sorriso favorito no mundo. Era como a luz do Sol ao fim de uma tempestade.
— Que fofa você está. Esse suéter fica melhor em você do que em mim. — disse Rui ainda com um sorrisinho meigo no rosto. Essa fala fez meu coraçãozinho acelerar e eu me desmontei inteira.
— Ai, você que é fofo demais garoto, como que eu lido com isso? — eu respondi indo em sua direção e apertando seu rosto como se eu o matasse de tanto amor.
Me sentei em seu colo meio de lado e depositei vários beijinhos em sua bochecha. Lembro de ter ficado alguns segundos com meus bracinhos em volta de seu pescoço e com uma das mãos fazendo um cafuné em sua barba. Esses segundinhos foram tão preciosos, eu só queria poder parar o tempo ali. Não, ele infelizmente não era meu namorado, mas ele me permitia demonstrar todo meu carinho dessa forma. Entretanto, ele não sabia o quanto eu gostava dele. O quanto estar perto dele me fazia bem. Nesses segundinhos senti um quentinho no coração tão bom e não era apenas pelo fato de ser quentinho o suéter de meu amado. Era tão bom me aconchegar em seus braços.
Rui se levantou comigo no colo e eu levei um pequeno susto achando que ele ia me deixar cair no chão. O mesmo rodopiou algumas vezes me fazendo gargalhar e ter ainda mais medo de cair. Então ele parou e me levou de volta até a sala, me deixando no sofá e se sentando ao meu lado. Lembro de nossos amigos terem brincado com a gente falando "já estão até dividindo a roupa, já são um casal". Rui ria desse tipo de coisa, nunca pareceu incomodado, até entrava na brincadeira e falava coisas que até me deixavam um tantinho iludida.
Mas é aí que tá. Para ele era tudo uma brincadeira. Ele nunca me viu com outros olhos. Eu era apenas a priminha do seu melhor amigo, mesmo que a essa altura já fossemos ambos maiores de idade. Eu sempre fui apaixonada por ele, desde criança. Com o tempo construímos uma boa amizade e essa amizade me fazia extremamente bem. Mas as vezes doía, não posso mentir, dói um amor não correspondido.
Naquele dia eu me despedi de Rui com um abraço muito apertado, eu sempre me despedia dele como se aquela fosse a última vez pois nunca se sabe o dia de amanhã. Lembro de ter ido embora com seu suéter. O deixei na casa de meu primo e ele o devolveria depois. Eu ficava sentindo seu cheirinho e a vontade que tinha era de ficar com ele pra mim. Aquele dia terminou como um dos dias mais agradáveis da minha vida.
E o tempo passou. Nós nos falávamos de vez em quando por mensagens. Falar com ele sempre recarregava minhas energias mesmo nos piores dias. Ele já não tinha mais nenhuma rede social nessa época. Até que olhando fotos no perfil de nossos amigos em comum pude ver uma imagem de Rui com uma garota, sentados numa poltrona na varanda da casa de meu primo. Era uma linda garota. Ruiva, olhos claros, com um estilo alternativo e um belo decote. Ele tinha um braço em volta de seu ombro e ela uma mão em sua perna. Poderia ser só uma amiga, claro. Mas eu não tinha um bom pressentimento. E fui descobrir tempos mais tarde que realmente, futuramente ela deixaria de ser apenas uma amiga e eu tinha motivos para ter meu mundinho abalado.
Era dolorido ter que fingir que estava tudo bem quando ele me falava dela. Era dolorido ter que desejar felicidades ao casal quando eu é que queria ser feliz ao lado de Rui. Era dolorido ver que aos poucos as brincadeirinhas de nossos amigos foram parando em forma de respeito a sua namorada. Era dolorido pensar que talvez eu tivesse que começar me conter nas minhas demonstrações de afeto. Até que depois de muito tempo sem o ver, finalmente fui até sua casa novamente. E nada disso, nada doeu tão forte quanto ver essa garota usando seu suéter. O mesmo suéter de lã preta que eu usei para me aquecer no dia três de dezembro. Aquele suéter que ele disse ficar melhor em mim do que nele próprio e que tivemos juntos um momentinho de ternura tão gostosinho. E lembrar desse momento ainda bagunçava minhas emoções.
Em sua garota o suéter também caiu bem. Ela era tão linda pessoalmente como nas fotos. Era simpática. Me tratou super bem. Não me deu motivos para não gostar dela. Mas doía. Doía ver os olhares apaixonados de um para o outro. E a dor se tornou uma enorme ferida quando ela disse que Rui não só a emprestou a peça mas sim a deu. E diferente do dia três de dezembro, dessa vez eu terminei o dia desolada.
Realmente, Rui, você nunca ficaria comigo, era óbvio, eu não sou bonita nem interessante como ela, nem um pouquinho. Na verdade provavelmente qualquer uma é melhor do que eu. Mas ela é realmente um baita mulherão. Não posso fazer nada, não tenho como te obrigar a me amar de volta. Nem eu mesma me amo.
Você deu seu suéter pra ela, aquele suéter que pra mim significava tanto, que me trazia boas lembranças. Pra você podia ser só um monte de lã, mas de qualquer forma você gosta mesmo dessa garota e isso me destrói, isso estragou o sentimento de coração quentinho que me vinha sempre que lembrava de nossa cena naquele dia três de dezembro. Eu só queria ser ela. Porque agora ela pode sentir seu cheiro quando quiser. Ela pode se jogar em seus braços quando quiser. Ela pode ter com você um momento como aquele que tivemos em três de dezembro. Mas ela pode ter isso por muito mais que apenas alguns segundos. O sentar no colo e esconder o rosto em seu pescoço. Os carinhos. Deitar na cama com você na penumbra, com os rostinhos próximos apreciando cada detalhezinho seu. Ela pode não só espalhar beijinhos pelo seu rosto como também beijar sua boca. Ela pode ouvir você declarar seus sentimentos por ela. Ela chegou agora mas já pode tanto... porque agora você a ama, do mesmo jeito que eu sempre amei você.
E aquele dia três de dezembro ainda passa na minha cabeça como um filme. Só que agora o seu suéter está com ela. Ele não é mais capaz de aquecer meu coraçãozinho, agora sinto apenas um aperto ao recordar.
Eu me arrependo de não ter roubado seu suéter pra mim quando tive a oportunidade. Já que não pude roubar seu coração, pelo menos uma coisinha tua eu teria. Agora é tarde. Ela tem os dois. E eu nenhum.
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