Notas iniciais
Olaaar! Mil anos sem postar, eu sei. Tô naquela guerra de TCC, estágio... Acaba faltando criatividade :( tanto que estou usando coisas beeem próximas do contexto atual da novela, mas, acho que encaixou bem na fic. É isso, obg quem tá acompanhando!

Aurélio ainda me esperava. Eu podia sentir sua presença, apesar de separados pelas paredes daquele quarto e, doía! Doía muito perceber que eu nunca conseguiria me entregar inteiramente ao seu amor. Eu queria tanto saber expressar em gestos tudo o que eu sentia. Mas, Osório também tirou isso de mim. A sombra daquele demônio estava sempre invadindo os meus sonhos, desmanchando o meu sorriso e apagando o brilho do meu olhar. Além do meu amado filho e das incontáveis dívidas, tudo que o pulha me deixou foi uma herança de ódio. Um ódio tão grande, tão forte que era capaz de destruir todos os bons sentimentos que eu ousasse semear no coração. Não bastou destruir o meu passado, Osório destruiria também o meu futuro e isso aumentava ainda mais o meu rancor. Minha vontade era de ir agora mesmo ao cemitério e despejar sobre ele toda a minha ira, vomitar na sua lápide, quebrar sua fotografia. Se eu pudesse, o veria morrer novamente sempre que sua lembrança se atrevesse a estragar meus dias. Mas, tive de guardar as emoções e tratei de me recompor. Apesar da minha tristeza, tomei coragem para abrir a porta. Aurélio e eu precisávamos descansar de toda aquela cena e ele não conseguiria isso dormindo na posição em que estava.

— Julieta, finalmente! Achei que eu passaria a noite inteira aqui. Queria ao menos entender o que houve. – Ele dizia enquanto levantava do chão um pouco desnorteado. – Me desculpe por tudo, mais uma vez.

— Você disse que nós não adiaríamos mais essa conversa, mas, se eu te pedisse pra deixar para depois, você deixaria? Estou cansada.

— Eu só não quero dormir brigado com você. – Ele disse num tom preocupado. – Ao menos diga que me perdoou pelo que aconteceu e eu prometo sair da sua porta.

Ele tinha um olhar de carinho e preocupação que me afagava e eu não pude resistir a tocar sua face e ajeitar seu cabelo bagunçado.

— Já disse que não tenho o que perdoar. Você não tem culpa de nada, Aurélio. Nada!

— Então, quando você falou em nos afastarmos, em outra mulher, aquilo foi da boca pra fora não foi? – Ele disse segurando minha mão que ainda tocava o seu rosto.

Claro que foi da boca pra fora. Por mim, eu nunca ficaria longe dele. Mas, ao mesmo tempo, temia não fazê-lo feliz. Respondi apenas com um sorriso comedido pra que ele entendesse que eu não tinha mais forças para conversar. Ele beijou minha mão com carinho e me olhou por alguns segundos.

— Fico aliviado. Agora, vou te deixar descansar. Boa noite.

No dia seguinte não tocamos no assunto, nem no outro e nem no próximo. Sem que nada tivesse sido combinado, mantivemos nossos carinhos apenas nos olhares e nas palavras. Os toques estavam escassos entre nós. Os beijos apenas na minha imaginação. De minha parte, porque no fundo eu ainda estava envergonhada pelo papelão que fiz diante de Aurélio. E da parte dele, provavelmente, porque temia a minha reação diante de uma nova aproximação sua. Ele entendeu que eu precisava de um tempo e esperava pacientemente, como sempre disse que faria. Além disso, nós não estávamos mais sozinhos. A casa se enchera de hóspedes e de problemas. Eu havia me desentendido novamente com meu filho e estava passando por um momento difícil também nos negócios, agora que uma tia de Darcy surgira do nada para roubar o pouco de paz que ainda me restava. Era uma mulher amarga, preconceituosa e detestável de tal forma, que eu me entristecia quando enxergava nela um pouco do que fui por tanto tempo. Não nos dávamos bem e sem que eu percebesse, ganhei uma nova inimiga nos negócios e na vida. Mas, aquela senhora não demoraria a me colocar também à luz de sua maldade.

Alguns dias já haviam se passado desde o momento constrangedor que vivi com Aurélio, do qual ainda não tínhamos nos recuperado por completo. Faltava a nós dois a conversa sincera que ele tanto desejava e que eu tanto temia. Ele estava sempre me observando, esperando de mim o sinal para uma reaproximação que eu evitava porque ainda não me julgava preparada para expor a ele o meu azar. Minha infeliz motivação para uma vida inteira de amargura. Eu precisava de coragem, mas, na ausência dela eu via Aurélio sair todas as manhãs para visitar seu pai, sua filha e conversar com qualquer outro que não fosse eu. Estávamos, ao mesmo tempo, juntos e separados, e eu tratava de esconder minha saudade no escritório, sob o pretexto de desacumular tarefas que, propositalmente, nunca acabavam. Eu achei que estava ganhando tempo e nunca poderia imaginar os planos perversos que, de repente, tomariam esse tempo de mim.

Todos os dias, chegava a minha casa o jornal onde Elisabeta trabalhou antes de ser demitida por Lady Margareth, então sócia do empreendimento e minha mais nova adversária. Era uma leitura matinal, que me mantinha informada sobre os últimos acontecimentos políticos e sociais da região. Qual minha surpresa e desespero quando me vi personagem de uma coluna inteira repleta de indiscrições a meu respeito? Nunca saberei responder.

“Não bastasse as inúmeras mudanças culturais confrontadas desde a abolição, a novidade que desponta no cenário atual da sociedade paulistana envolve uma leva de mulheres que se diz a frente de seu tempo e escapa dos padrões. Elas trabalham fora de casa, saem sozinhas e criam seus filhos sem marido, como algo natural. Ao que parece, esse é um mal que atingiu a todas as classes. Até mesmo Julieta Bittencourt, a chamada Rainha do Café, rendeu-se a tal excentricidade e prestou-se a colocar-se acima do homem que lhe garantiu riqueza e sobrenome ao afirmar que dele herdou apenas dívidas, das quais ela se recuperou sozinha, e o filho, fruto de um abuso.”

Eu mal conseguia terminar de ler esse que era apenas um trecho daquele relato vexatório a meu respeito. O segredo que me sufocou por tantos anos estava agora exposto de um modo aviltante e extremamente vergonhoso. Era uma humilhação pública que, apesar de todos os meus pecados, eu nunca considerei merecer. Eu queria sumir, me afundar no primeiro buraco que surgisse, e se necessário eu mesma o cavaria.

Saí correndo do escritório e me resguardei novamente em meu quarto, como há alguns dias. A diferença é que agora eu não fugia apenas de Aurélio. Eu fugia do mundo inteiro. Do meu passado. Das minhas lembranças. De mim mesma! Tentei evitar ao máximo o contato com quem quer que fosse pelo caminho, mas, não pude deixar de cruzar com alguns olhares de dó que me deixavam ainda mais angustiada.

Quebrei alguns móveis do quarto enquanto chorava de ódio, de desespero e de medo do que estava por vir a partir daquela revelação. Como meu filho reagiria? Será que ele me culparia pela desmoralização do seu pai? E, Aurélio? Eu evitei tanto ter essa conversa com ele de repente, os fatos foram jogados assim, de bandeja para ele e qualquer outra pessoa interpretar a seu modo. Por mais forte que eu fosse, aquela situação estava acima do meu limite. Eu me sentia tão frágil quanto uma rosa prestes a ser esmagada.

“Seria melhor morrer e acabar de vez com a vida miserável a que você me condenou, Osório. Venha, termine de me matar!” Meus pensamentos desesperados foram interrompidos por batidas na porta.

— Julieta, me deixe entrar. Eu preciso ver você!

— Não quero falar com ninguém. Por favor, vá embora! Me deixe só, Aurélio.

— Sabia que me diria isso, mas, você também sabe que eu não vou desistir! Vou ficar aqui até que você me deixe entrar. Eu preciso te ver!

Aurélio era mesmo corajoso, afinal, falar comigo naquele momento era o mesmo que arriscar receber em troca toda a minha ira, rancor e indignação, apenas por se fazer presente. Ele sabia disso, mas, estava lá. Então, resolvi deixa-lo entrar. Se ele queria me ver em estado de penúria, eu faria sua vontade. Ele veio rapidamente em minha direção, mas, eu me esquivei.

— Me ver assim? Pra que? Pra sentir pena de mim? Eu não quero que sinta pena.

Ele parecia desnorteado. Estava ofegante e eu podia perceber que se controlava para não me tocar.

— Eu só sinto amor, Julieta! Eu amo você! – Ele dizia enquanto dava início a mais uma fracassada tentativa aproximação. – E agora eu entendo porque me evitava tanto. Porque fugia dos meus toques. Porque ainda foge... Agora, tudo faz sentido pra mim. Se eu soubesse dessa sua ferida ainda aberta eu nunca a teria magoado. Nunca!

Eu me voltei para os seus olhos e tentei controlar um pouco o meu choro, que insistia em fazer falhar a minha voz.

— Mas, talvez tenha sido essa a razão porque eu não queria te contar! Eu nunca quis que meu passado interferisse na forma como você me vê, Aurélio. Eu queria que você me visse como a Rainha do Café. Uma mulher forte, corajosa, admirável! Não como a menina frágil e boba que foi facilmente desonrada por um...

— Canalha miserável! Covarde! Eu estou com tanto nojo desse homem, Julieta! Se é que ele pode ser chamado de homem. E você, pare de se culpar, por favor. A culpa não foi sua, você sabe disso!

— Vamos ver se é isso mesmo o que todos vão pensar! Agora, saia, Aurélio. Já nos vimos, já conversamos. Você já sabe o que tanto queria saber, não é mesmo? Deve estar satisfeito.

Eu falei, me arrependendo logo em seguida. Como eu era capaz de atacar o único que não merecia receber de mim nenhum sinal de fúria?

— Você sabe que não é verdade! – Ele disse cabisbaixo enquanto caminhava em direção à porta. – Eu queria tanto ter lhe encontrado antes dele!

Essa frase, mesmo curta, foi suficiente pra que eu imaginasse uma vida inteira ao lado de Aurélio. As coisas teriam sido tão diferentes! Não resisti e corri para o abraço forte e consolador que eu tanto precisava antes que ele pudesse deixar o recinto.

— E eu queria tanto que você tivesse me encontrado!

O beijei finalmente. Intensamente! Depois de todos aqueles dias sem tocá-lo eu tinha sede dos seus beijos, do seu cheiro, do calor do seu corpo. Eu estava desesperada para sentir o que só ele era capaz de me proporcionar. Só Aurélio poderia me levar da realidade insuportável em que eu me encontrava e viver comigo um sonho bom. Eu queria! Eu precisava ser amada. E ele precisava saber disso.

— Eu amo você, Aurélio. Eu preciso de você. Eu quero você!

Ele parecia um pouco reticente, o que era compreensível.

— Você está certa disso? Talvez o momento não seja apropr...

Eu o beijei de novo e de novo. Entreguei meu corpo em seus braços e pela primeira vez, o deixei me conduzir inteiramente, sem ressalvas. Eu estava certa, como nunca estive em toda minha vida.

— Eu quero esquecer esse momento, Aurélio... Me faça esquecer!

Notas finais
♥ Vou só comentar que #Aurieta é lindo demais e estou morrendo de amor pelas últimas cenas (mesmo que curtas).