Setevidas

1 Setevidas


Notas iniciais
Só nos últimos cinco meses eu já morri umas quatro vezes. Ainda me restam três vidas pra gastar

"Sete. Ele tinha sete vidas quando nasceu, entretanto quando me conheceu tinha apenas três."

Acordo em um impulso. Ao levantar do gélido chão forrado de jornais velhos, percebo as marcas e hematomas que haviam por toda a região do meu corpo nu. Sim, eu estava nu. As paredes mofadas do lugar me davam um leve embrulho no estômago enquanto os raios de luz que entravam pela janela com os vidros quebrados me incomoda significadamente. Lentamente as dores no corpo e os flashes de memórias tomam conta de mim. Lembro-me de cada segundo de vida que vivi e minha história em cada marca inchada do meu corpo.

Caminhei me arrastando com dificuldade. Era como se estivesse aprendendo a andar novamente. Relutante, peguei cambaleando minhas roupas jogadas no chão e caminhei pelo galpão abandonado.

O lugar estava vazio como sempre esteve, porém bagunçado.

No fundo do corredor, avistei uma porta de madeira se abrir. Uma mulher de cabelos ruivos entrou sem hesitar ao local imundo e caminhou em minha direção. Seus cabelos presos em um coque mal feito e seus olhos extremamente inchados demonstravam o quão abalada ela estava. Sua jaqueta de couro, o salto e o as unhas pintada da cor preta se destacavam no visual, enquanto os pequenos detalhes eram passados despercebidos pelos meus olhos.

A mulher se aproximou.

— Mãe. — Disse sorrindo. A ruiva levantou a mão e desferiu um forte tapa sobre meu rosto. Virei com a força do impacto. — Que bom lhe ver de novo. — Ironizei.

— Você não sabe o que está fazendo seu resto de aborto. — Ela verbalizou segurando minha bochecha e cravando suas unhas na mesma.

— Jura? Não me diga que agora a madame está preocupada com o filhinho. — Questionei retirando suas mãos de meu rosto. — Seria cômico se não fosse falso!

— O conselho está atrás de você! — A mulher falou olhando nos meus olhos. — Sabe o que acontecerá se desobedecer mais uma regra, não sabe?

— Sei. E você sabe o que eu acho sobre isso não é? — Perguntei colocando as calças. — Eu não me importo.

— Que seja. — A ruiva disse acendendo um cigarro. Ela tragou furiosamente de um jeito anormal e expirou a fumaça na minha cara. — Só quero entender o motivo. — Gritou com o tom agudo irritante que só ela tem. — Me dê um motivo pra toda essa palhaçada de protegê-lo.

— Ele é legal. — Debochei fazendo a mulher levantar novamente uma de suas mãos. No entanto, segurei e pressionei sua mão erguida no ar. — Eu sinto muito, mas se você me der de um lado, eu devolverei no outro. — Disse fazendo ela puxar o braço de volta.

Ela tragou mais uma vez e virou as costas caminhando em direção à saída.

— Com essa será a quinta vez que você irá ajudá-lo. — Sussurrou. Sua voz ecoou pelo galpão. — Só não termine como o seu pai queridinho. — Ela abriu a porta e virou novamente para olhar nos meus olhos. — Pourquoi tu gâches ta vie?

“Por que estou desperdiçando minha vida?! — refleti. — Porque o amo!” Respondi mentalmente aquela pergunta. No entanto, apenas apontei o dedo do meio para a mulher que fechou a porta batendo tão forte que os vidros cortados da janela cairam no chão.

Peguei minha jaqueta jogada no chão e o óculos escuros que estavam perto do tênis. Coloquei no mesmo instante e sai do galpão enfrentando a terrível manhã de quinta-feira.

As palavras da ruiva ainda estavam alojadas na minha cabeça. Se eu não fizer tudo certo desta vez, o conselho poderá interferir e mudar totalmente meus planos. Os nossos planos.

— Acalme-se! — Ordenei em pensamento. — O que pode dar errado desta vez? — Questionei — Ele me empurrar na rua e eu ser atropelado por um caminhão. — Rapidamente minha mente respondeu me fazendo rir.

Sim, eu converso sozinho, mas pense comigo: Quem vai te entender melhor do que você mesmo?

Atravessei a rua e me deparei com três homens de terno preto, gravata, calça e all-star da mesma cor andando em harmonia como se fossem soldados. Em seus rostos havia uma máscara de ferro em formato do rosto de gato.

Soltei um leve sorriso. — O conselho irá precisar de mais do que simples olheiros para me vigiar. — Disse saltando em cima de um carro e pulando o muro de uma grande casa luxuosa.

Corri o mais rápido que pude e saltei dentro de um beco distante de onde estavam os guardas.

Fácil de despistar como tirar doce de criança. — pensei.

Aos poucos flashes de memórias invadiram minha mente provocando uma forte dor de cabeça que me fez cair no chão.

“Você não precisa fazer isso por mim” — O moreno disse me fazendo sorrir. Eu conseguia me lembrar como se fosse ontem daquelas palavras que estavam me matando por dentro. Não conseguia parar de chorar enquanto olhava em seus olhos.

“Eu não quero existir se você não existir.” — Respondi beijando-o levemente.

“Podemos enfrentar isso juntos” — Ele insistiu. Porém já era tarde demais. Tudo aquilo já tinha chegado longe demais e eu não consegui completar minha missão de protegê-lo.

“Eles são fortes demais e estão em maior número.” — Respondi.

“E o que vai acontecer a partir de agora.” — Ele perguntou olhando para minha mão que segurava uma grande lâmina. — “O esquecimento?”

“Eu não diria isso.” — Disse sorrindo. “Diria que iremos recomeçar de uma maneira diferente e mais segura.”

“Antes de ir, quero que saiba de uma coisa.” — O menino disse baguçando o meu cabelo. — “Eu te amo muito meu pequeno gatinho”

“Eu também” — Digo pegando a lâmina e cortando fortemente meu pescoço. — “Eu também” — repeti sentindo minha respiração parar aos poucos e tudo em volta ficar escuro.

Abri meus olhos novamente e percebi que estava deitado no chão frio do beco.

— Você está bem? — Uma criança de cabelos azuis perguntou sentada no muro. Balançando seus pés para frente e para trás.

Sorri. — Claro maninho. — Respondi reconhecendo o pequeno Lupin.

Levantei do chão e coloquei as mãos no bolso da jaqueta. — O que faz aqui?

— Vim para te avisar... — Ele respondeu me olhando severamente. — Você precisa fazer diferente desta vez. O conselho está de olho no guri.

— O que? — Perguntei mais alto do que deveria.

— Se você se expor mais uma vez... — O menino disse saltando para o outro lado do muro. — ...Eles irão matá-lo.

Um arrepio percorreu minha espinha ao ouvir aquilo.

— Não pode ser! — pensei, mas apenas me assentei no chão cobrindo a cabeça com as mãos.

Notas finais
Este é o primeiro capítulo de SETEVIDAS ^^ A história terá suas explicações no decorrer da trama e prometo que não irão se decepcionar :D Espero que tenham gostado e que tal comentarem dizendo o que acharam? O que acharam do Lupin? Da mãe (raivosa) do Lucas (personagem principal)? Será que ele vai conseguir proteger o menino que tanto ama? Essas e outras perguntas surgirão no caminho, mas creio que a resposta esteja há dois capítulos de distância, entãoo... Te encontro nos próximos capítulos. Bjoos ♥