Setevidas
22 Do segundo ao sexto andar - Um presente dos guardiões
Abro o portão e me deparo com uma grande piscina. Uma menina está sentada com os pés na beira, seus cabelos são azuis bem escuros e brilham com a luz que se reflete na água. No lugar não há mais nada além da piscina e a garota.
— Olá... — Digo sorrindo. — Eu sou o...
— Nade. — Ela diz mantendo o sorriso no rosto.
— Não, não, é que eu estou aqui para...
— Nade. — Ela me interrompe.
— Não, eu só quero...
— N-A-D-E! — ela ordena sorridente.
Suspiro e começo a retirar o uniforme.
— Você não vai mesmo nadar né? — Harpia pergunta. — Eu posso retirar algumas informações dela...
— Relaxa. Talvez nadar seja o meu desafio. — Digo retirando as calças ficando apenas de cueca. Paro na beira da piscina e molho os dedinhos do pé para sentir a temperatura da água.
— Nade. — A garota diz.
— JÁ VOU! — Grito perdendo a paciência.
A água não está tão fria. Salto na água e mergulho e logo depois começo a nadar até a menina no outro lado da piscina. Quando chego ao local, ela aponta para a sua orelha.
— Perdi meu brinco enquanto nadava na água. Pode me ajudar a procurar? — Ela pergunta. — Prometo que assim que acha-lo te mostro a passagem para o próximo andar.
— Vai me falar o resto do enigma?
— Sim. — Ela sorri.
Olho para a sua orelha direita para ver qual é a cor do brinco e minha frustação é ver que o brinco é transparente.
— Aiin que droga! — Digo mergulhando na água.
Procuro desesperadamente o brinco dentro da piscina. Nado, nado e não paro de nadar. Procurando tanto na superfície quanto em baixo.
— Eu vou ajuda-lo. — Bryan diz pulando na água.
— Ali. — Lupin aponta, entretanto era apenas o reflexo da luz na água.
Harpia aponta pro outro lado cometendo o mesmo erro.
E de novo.
De novo.
— PERA! — Grito. Saio da piscina e dou alguns pulinhos tentando me secar pelo menos um pouquinho. Pego minhas calças e coloco a mão no bolso retirando a carta “O mago” de lá de dentro.
Lanço a carta na direção da piscina que flutua sobre a mesma brilhando intensamente. Faíscas de luzes emergidas da carta começam a soltar. — Esvazie com seus poderes esta piscina, carta de Shat, eu ordeno. Água!
Aos poucos a água começa a flutuar em forma de bolha. A piscina fica vazia e então Bryan consegue achar o brinco transparente.
— Aqui. — Ele diz lançando o brinco para a menina.
— EEEEEEEEEEEHHHHHHHHHH — Ela grita eufórica. A guardiã coloca o brinco perdido na orelha e começa a dar pulinhos de animação. — Como prometido, a segunda parte do enigma é: ...Assim como a água, motiva a necessidade de proteção...
Tô começando a achar que eles que tão inventando essa palhaçada. — Penso ao ver a garota animada pelo brinco.
Bryan sai da piscina e logo eu devolvo a água no seu devido lugar. Coloco o uniforme e circulamos a piscina caminhando em direção ao novo portão.
— Obrigado. — A menina diz.
— Nós é que agradecemos. — Harpia fala.
Lupin abre o portão e nos deparamos com um menino de cabelos arrepiados e vermelhos. Ele parece muito zangado. O lugar é cheio de rochas avermelhadas, há rochas para todo o lado.
— Com licença... — Digo me aproximando.
— QUEEEE É? — Ele berra fazendo umas pedras que havia ao seu lado explodirem.
— KYAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! — Grito me escondendo atrás de Bryan.
— Nós estamos aqui pela asa do desejo.
— Vão embora! — O menino diz.
— Não é assim que as coisas funcionam. — Retruca a menina inconformada.
— É SIM! — O garoto berra.
— O que podemos fazer para que nos diga o restante da charada? — Bryan diz em tom sereno.
— Nada!
— Diz logo. — Falo saindo de trás do garoto.
O guardião de cabelos espetados fica um pouco pensativo e diz: — Há anos que eu ando estressado. Quero que vocês encontrem uma maneira de me acalmar.
— Ah, essa é fácil. — Digo sorrindo. Pego a carta novamente do bolso e digo. — Água!
Uma bolha d’água surge em cima da cabeça do guardião, estourando na cabeça dele e molhando-o todinho.
Todos ficam estáticos.
Eu hein, gente estranha.
— Prontinho. Minha mãe diz que nada é como um banho frio pra esfriar os...
— Eu não acredito que você fez isso. — Bryan diz incrédulo.
— Véi... Você... — Harpia procura as palavras enquanto Lupin permanece calado esperando a reação do garoto.
O menino retira o cabelo dos olhos e diz tranquilamente: ...Assim como o fogo, é quente e aconchegante...
— Obrigado. — Grito sorrindo. — Vamos pessoal?
Harpia, Lupin e Bryan permanecem estáticos. É tão difícil acreditar no poder de um banho de água fria?
Abro a porta já exausto. O que será que me aguarda no próximo andar? Uma criança de cabelos amarelos pedindo pra eu fazer tranças no cabelo dela? Isso já está ficando desgastante e estou ficando completamente irritado com isso. Acho que até minha batalha contra o Bryan foi mais difícil que isso e estou começando a duvidar como ninguém nunca conseguiu chegar até o sexto andar com esses guardiões.
Em vez de haver algo no local, há apenas escadas.
Eu não reclamaria se não fossem tantos degraus. Mal consigo ver o fim disso daqui.
— Oi. — Um menino de cabelos verdes claros toca no meu nariz. Ele flutua na minha frente com um sorriso moleca. — Te peguei. Está com você.
Tá de zoação comigo, né?
— ELE QUER BRINCAR DE PEGA-PEGA. — Grito pra Bryan.
— Então pega ele. — Bryan diz se transformando em leão e subindo as escadas com Lupin nas suas costas. — Ele só dará o restante do enigma se você conseguir pegá-lo.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAH. — Grito inconformado. — Eu pensava que os guardiões eram criaturas enormes, que cospem fogo e voam com asas douradas de...
O menino sorri flutuando pra longe.
— Hey. — Reclamo. — Pera aí.
Harpia se transforma em uma águia, ou algo parecido. Seus olhos são pequenos e na sua cabeça cinza há um longo topete. Ela tem uma crista com duas penas maiores e uma cauda com três faixas cinzentas. Quando ela abre suas asas para voar, percebo que elas são lindas. Largas e redondas. Entretanto, meus olhos se focam ligeramente nas suas enormes garras.
Agora eu entendo o motivo dela ser a comandante militar de sua tribo. — Suspiro ao pensar nisso.
— Vento. — Digo segurando a carta dos elementos e voando ao lado de Harpia.
— Eu irei te ajudar a pegá-lo. — Ela diz confiante.
— Okay. — Falo.
O garoto não para de sorri voando.
Será que ele não pode simplesmente dizer o restante do enigma.
Assim como a terra é aquele que une em momentos ruins. Como a água, motiva a necessidade de proteção e Como o fogo, é quente e aconchegante...
— E como o vento? — Penso em voz alta.
O menino para de voar e como se pudesse ler minha mente diz: — Só saberás se me pegar.
— Peguei. — Disse Harpia segurando o garoto por trás.
Admito que ela é ligeira e esperta. Aproveitou a distração da criança para... Ah é, minha vez!
— Galhos dos troncos da árvore pelo qual brotam suas folhas. Ordeno que floresça para atender ao seu novo criador, Nathanael, em meu nome... Terra! — Verbalizo fazendo florescer dos degraus diversos galhos que prendem o menino no exato momento que Harpia o solta.
Aproximo-me e toco em seu nariz. — Peguei. — Digo sorrindo.
O garoto começa a gargalhar, acho que ele achou divertido.
— Pode nos dizer o restante do enigma?
— Claro, claro. — Ele diz sorrindo. — Assim como o vento nada o abala, o que é?
— Acabou? — Pergunto ao garoto.
— É claro que sim. — Ele fala. — Agora é só oferecer a resposta ao templo na ala do sexto andar.
— E como chegamos lá? — Digo desfazendo os galhos.
— Pela porta do quinto, alí. — Ele diz apontando para uma ponta entreaberta nos últimos degraus.
— Obrigado. — Digo correndo com Harpia.
Lupin e Bryan estão nos esperando. Ao chegar, abro a porta ansioso e dou de cara com mais três portas com símbolos diferentes na maçaneta.
— Aiiin, qual delas? — Pergunto.
— Eu sei lá.
— Qualquer uma leva à Ala do sexto. — O guardião do vento grita das escadas atrás de mim.
— Obrigado. — Agradeço abrindo a porta do meio. É um corredor imenso com apenas uma porta no fundo. À direita.
Corremos até chegarmos e por fim abrirmos a porta.
A sala é pequena e dentro dela há apenas uma estátua de águia no centro do local. As paredes são brancas iguais ao chão e teto. Não há nada no local. Entramos e logo após isso a porta se fecha.
Bryan tenta abri-la, mas em vão.
— Droga! — Ele resmunga irado. — Estamos presos.
— O que? — Digo em desespero.
— Nash, o tempo está acabando e precisamos voltar para o deserto.
— Não podemos. — Digo. — Lucas está...
— Você não pode ficar mais tempo aqui. Me ajude a abrir esta porta A-G-O-R-A. — O menino diz desesperado fazendo força inutilmente contra a porta. — Use magia Nash.
Lupin me olha com um olhar deprimido e de decepção ao mesmo tempo. Não existe nenhuma asa dos desejos... E eu neguei ajuda pra salvar a vida de seu irmão de primeira. O que me faz parecer digno de merecer tal amargura, sofrimento, aflição e raiva do garoto sobre mim.
— Nash, use a magia. Agora! — Bryan grita.
Harpia e Lupin não interferem.
— Assim como a terra é aquele que une em momentos ruins. Como a água, motiva a necessidade de proteção, como o fogo, é quente e aconchegante e assim como o vento nada o abala.
— Nash, isso não é o sexto andar. O guardião nos prendeu em uma armadilha. Não conseguiremos voltar até que a porta esteja aberta... Use a...
— PARA! PARA! PARA! — grito chorando. — Eu não vou sair daqui até pensar em uma droga de resposta para dizer na droga do sexto andar. Por que estou aqui com um único propósito. — Digo limpando o rosto. — Salvar a vida pelo menos uma vez de quem deu a vida por mim cinco.
— Nash...
— Não Bryan. — Respondo serenamente. — Não. Você não entende o que eu sinto. Você nunca saberá do que o amor é capaz, até senti-lo... — Digo começando a chorar desesperadamente.
A estátua de águia começa a brilhar fortemente. Uma luz emerge da estátua e posso sentir que é a mesma luz que emerge do meu corpo quando eu conjugo a minha auréola.
— Assim como a terra é aquele que une em momentos ruins. — O guardião da terra diz, surgindo sentado em um dos cantos da sala.
— Como a água, motiva a necessidade de proteção. — A guardiã da água diz surgindo em outro canto, percebo que ela segura os brincos enquanto fala.
— Como o fogo, é quente e aconchegante. — O guardião de cabelos arrepiados diz surgindo ao lado da estátua.
— E como o vento nada o abala. — O travesso guardião do vento fala sentando nas asas da estátua. — A resposta é...
— O amor! — A guardiã da água responde.
— Há séculos, inúmeras pessoas de todas as tribos e nações tentaram conquistar as asas do desejo. — O guardião do fogo verbaliza com voz serena.
— Alguns desistiam no meio do caminho com nossas travessuras. — O menino de cabelos verdes claros fala sorrindo e voando ligeiramente para os todos os lados.
— Enquanto outros nunca disseram a palavra amor dentro da sala. — A menina dos brincos transparente sorri.
— Eu... eu... Consegui? Eu consegui conquistar a asa do desejo?!
— Sim. — A garota diz. — Toque com suas mãos na estatueta.
Me aproximo tremulo.
Coloco minhas mãos nas asas da águia. — E agora?
— Repita as palavras que nós iremos falar. — O guardião da terra diz. Concordo com a cabeça. — Eu, o peregrino Nathanael, recebo a honra pela conquista das asas mágicas criadas pelo mago Shat.
— Eu, o peregrino Nathanael, recebo a honra pela conquista das asas mágicas criadas pelo mago Shat. — Repito.
— Pelos poderes manifestantes presentes, água, fogo terra e ar. — A guardiã da água verbaliza.
— Pelos poderes manifestantes presentes, água, fogo terra e ar. — Repito impaciente.
— Eu libertarei pela primeira vez o desejo de minha alma. — O guardião do fogo diz com voz de sono.
— Eu libertarei pela primeira vez o desejo de minha alma.
— O desejo que me fez bradar e lutar no momento em que todos estavam mudos. Eu desejo... — O guardião do ar sorri.
— O desejo que me fez bradar e lutar no momento em que todos estavam mudos. Eu desejo que meus amigos e eu sejam transportados até o conselho para que assim eu possa salvar Lucas.
No mesmo instante. As luzes que estão na estátua envolve todo o meu corpo até se juntar agrupadas em minhas costas, onde surgem enormes asas que parece com a de um anjo.
— Adeus! — Dizem os guardiões.
Lupin, Bryan e eu começamos a brilhar e a sumir pouco a pouco. Entretanto, Harpia permanece normal.
— Obrigado por tudo. — Digo me aproximando dela e lhe dando um forte abraço.
— Eu é que agradeço. — Ela diz. — Afinal, eu fiquei ao lado do anteposto.
Sorri. — Prometo lhe visitar novamente.
— Minha casa e tribo sempre estarão de portas abertas. — Ela fala sorrindo.
— Tchau! — Todos dizem uníssonos.
Em um piscar de olhos tudo fica preto. Abro meus olhos e vejo tudo embaçado. Ouço barulho de aplausos e com dificuldade vejo o rosto de Lucas que me ajuda a se levantar.
— Boa noite, pequeno. — Lucas diz me abraçado. — Seja bem-vindo ao conselho.
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