Sete Torres

2 Primeiro gelo


– Sara Grins?

Apesar de sua expressão ter ficado mais macia sua voz vacilou.

– Sara Simon Oliveira Grins Kerber! Por quê?

Ele ficou serio, mas seu olhar estava ficando cada vez mais curiosos.

– Você tem parentesco com Pietra Grins?

Ai, porque eu tinha que falar, bastava um Sara, que ótimo, ele conhece a minha mãe (ou pelo menos a já ouviu falar dela). Tudo culpa desse sobrenome maldito.

– É, sim! Mais não tenho nada a ver com minha mãe, só o sobrenome, mais nada, que isso fique bem claro! Ok?!

Fiquei a olhar os dragões que sobrevoavam as arvores enquanto a mulher conversava com um grupo de alunos.

– Calma, eu não quis... espera ai, você falou que é “filha” dela? Achei que ela não tivesse tido filhos. Se você for mesmo filha de Pietra a escola vai surtar de animação.

Fiquei assustada, tudo bem, assustada não, espantada, minha mãe?

–Pietra? Porque Adlocum deveria ficar ‘animada’ por ter a filha de alguém como ela?

– Alguém como ela? Ela meio que é adorada por ter liderado o ataque contra os Sedrovias.

Sempre vi minha mãe mais como vilã do que como líder ou bem feitora, tinha que ter algo errado, as histórias sobre ela a faziam de vilã o tempo todo.

A mulher chamou nossa atenção e indicou para cima perguntando:

– Entenderam o que é pra fazer?

Ainda estava submersa em pensamentos tentando achar alguma história sobre minha mãe que onde ela poderia talvez ser boa. Fiquei calada, apenas fiz um pequeno sim com a cabeça e olhei para Erick como que dizia: Vou me dar mal. Ele também fez sinal de sim para a instrutora e sussurrou para mim:

– Relaxa, não vai ser difícil chegar na escola, mas vamos continuar essa conversa, acho que precisa se atualizar sobre sua própria mãe.

Tentei prestar atenção nas instruções finais, pra ver o que eu teria que fazer e como tomar cuidado.

– Bem, existem várias espécies de dragões, entre ele o Cunis, que é o mais dócil e mais fácil de treinar, esses que estão voando acima de nós, são Cunis. Tenham cuidado ao subir neles, lembrem-se, são treinados mais continuam sendo dragões!

OK, quer dizer que eles podem ter um surto do nada, (que ótimo mal posso esperar) devia ter outro jeito de chegar. Nem entrei na escola e já estou tento aula, tudo bem que não é uma aula de verdade, é mais pra termos uma noção e não acabarmos sendo devorados.

– Você só deve se aproximar do Cunin se ele for até você, antes disso nem pense em chegar perto. Só podem embarcar 4 pessoas em cada dragão, temos dragões suficiente para todos aqui e ainda sobrará. Alguma pergunta?

– OK, já que ninguém tem pergunta, chamarei os dragões! Afastem-se um pouco, acho que uns 10 passos para traz serve!

Virei para Erick e perguntei sarcástica:

– Dez passos para trás? Eu quero andar para trás até não conseguir ver mais dragões. – ele deu uma risadinha e nos afastamos enquanto a moça movimentava o bastão em movimento circular soltando uma luz azul!

– Tomara que fiquemos juntos! — Virou para olhar o pouso.

Eu não quero voar com desconhecidos, eu quero voar com o Erick, quanto tempo será até chegarmos ao colégio? Tomara que seja rápido!

Os dragões chegavam ao chão com uma leveza impressionante, nem eu era tão delicada. Apesar de serem da mesma espécie, suas cores são bem diversificadas, o mais bonito era o verde com patas grandes e pretas, suas escamas reluziam, também tinha um azul escuro com cauda clara, o ultimo a tocar no chão era o maior, é de um vermelho forte, fosco, sem brilho mais muito belo também, suas patas dianteiras são laranja, e seus dentes parecem muito afiados, tremi na hora.

– Espalhem-se para que eles possam ver todos vocês!

Há instrutora falou assim que o primeiro dragão começou a andar!

– Sara, boa sorte!

– Pra você também! Temos que nos espalhar.

Assim que ele começou a andar foi escolhido pelo verde com cauda clara.

Daí por diante não parou mais, todos sendo escolhidos até que só sobraram quatro pessoas, eu, um garoto de cabelo bagunçado, uma ruivinha de óculos e uma garota grande de cabelo preso. Eu não quero ir sozinha, não posso ser tão azarada.

Fiquei olhando a menina ruiva subir no azul até perceber que alguma coisa estava se mexendo pouco atrás de mim. Virei com um grito entalado na garganta. Eu não tinha visto aquele dragão pousar, ele não estava voando com os outros, não que eu tenha visto.

Chegou mais perto de mim, era mais branco que a neve e fez sinal para que eu subisse. Fui me movendo bem devagar, tremendo de medo, e apoiei-me em suas costas que não estavam frias apesar da aparência. Todos olhavam para o dragão branco, ter a atenção todos voltada para mim foi meio constrangedor, mas ao mesmo tempo eu achei bem legal, como se eu fosse uma princesa.

Fiquei tão submersa nos meus pensamentos que nem notei que meu dragão estava prestes a decolar (e eu era a única montada nele).

As asas batiam fortes e depois de alguns segundos já estava voando. Seus batimentos cardíacos eram bem leves e calmos, não era um colchão mais dava pra relaxar de boa! Sua aparência bem branca, todo branco, do focinho a ponta da cauda parecia neve. Eu teria percebido se ele tivesse junto com os outros, era impossível não notar sua presença.

– Sigam-me! – quase não deu para escutar direito a mulher se esgoelando pra falar mais auto que o vento produzido pelo bater de asas.

Ela subiu em seu bichinho e pegou a frente da manada.

Neve (apelido temporário dado por mim ao dragão) não gostou de ser tirado da frente, ele começou a voar baixo para ver se pegava velocidade, eu tentei fazê-lo voltar, mais ele não obedecia por nada.

Percebi que iria tomar a frente novamente e depois de tentar fazê-lo ir mais devagar desisti e segurei-me mais forte para não correr o risco de cair. Assim que eu me ajeitei ele disparou e tomou a frente com um rugido grave!

–O que está fazendo mocinha? – um pouco atrás de mim a mulher parecia muito indignada.

– Ele acelerou do nada! – Tentei explicar com uma voz meiga mais o vento estava muito forte para ouvir então tive que gritar.

– Quero que saia agora do posto de guia garota! – Sua expressão era séria e ranzinza.

–Ele não vai me obedecer. – Estou cansada de gritar, porque isso tem que acontecer comigo? Não basta eu ter que ficar sozinha em um monstro que voa, eu tenho que ficar sozinha num monstro cabeça dura que voa!

Tentei o fazer voltar, descer, parar, desacelerar, nada adiantou. Ele deixou a professora Lara ficar ao seu lado, mas não a deixava passar nem um milímetro ha frente.

Tudo ficou mais calmo depois de um tempo, as pessoas estavam concentradas na paisagem ou cansadas, Neve estava quentinho e com um aroma de pinha muito bom, só não deitei por que fiquei com medo de acabar cochilando e despencar.

Depois de muito tempo voando, dava pra ver uma grande clareira gramada e uma fila de uns 18 homens vestidos com uma capa marrom, os caras estavam segurando baldes com alguma coisa pesada dentro.

Fiz sinal para que Neve pousa-se, e pela primeira vez ele me obedeceu de imediato. Fizemos um pouso leve, deitou para que eu pudesse descer. A cada dragão que pousava um homem andava até ele e oferecia um pedaço de carne, colocava uma corda prata em volta do pescoço do animal e o Levava para dentro da floresta que ficava ao lado da clareira.

Ao invés de prender o “Neve” e o levar para floresta, o homem lhe deu a carne e o soltou. Primeiro eu achei que não tinha conseguido prende-lo e fiquei com uma cara meio que assustada.

– Não dá pra prendê-lo! É meio que o líder do bando, os outros ficariam desorientados ou até furiosos, não sabemos como chegou aqui, acho que faz uns sete dias só, tem talento, em sete dias já é o líder.

O homem virou-se e foi andando em direção a floresta, parou no meio do caminho e perguntou de lá mesmo em voz alta (mais as pessoas estavam ocupadas de mais para perceberem):

– Como você conseguiu voar nele? O que você fez para ser escolhida?

– Eu não fiz nada.

Acho que ficou meio desapontado com a resposta, virou-se e continuou andando até sumir completamente.