Sete Minutos no Paraíso

1 Sete minutos no paraíso


Todos estavam aliviados. Finalmente, depois de tanto esforço, sangue e preocupação, a shinigami de lindos olhos azuis estava salva.
Passados alguns dias, resolveram então fazer uma festa de comemoração. Humanos e shinigamis. Todos aqueles que tinham algum sentimento por ela, compareceram ao evento. Aproveitaram-se da estadia de Byakuya no posto quatro para usar sua casa para a festa. Música, comida, bebida, motivos do Chappy e muita animação.
- Ichigo... – a shinigami aproveitou que estava sozinha com o ruivo perto do som onde escolhiam os CDs para perguntar-lhe algo importante. – Por quê?
- Hm? – ele mirou os olhos castanhos nela. – Porque eu gosto ué! Que idéia! – ele voltou a atenção para os CDs. – Orange Range é a melhor banda. – mostrou o CD escolhido
- Não estou falando disso idiota! – ela disse mas não naquele tom briguento e sim numa estranha voz suave.
O garoto a olhou surpreso. Inclinou a cabeça para observar melhor o rosto dela com ar desconfiado.
- Então... O que é? – perguntou.
Os olhos azuis desviaram-se para o chão. Com uma voz um tanto trêmula, veio a pergunta.:
- Por que se deu ao trabalho? Porque arriscou sua vida daquele jeito para me salvar?
Sem ação. Sabia que teria que dizer. Naquele dia, à luz do crepúsculo, os sentimentos finalmente viriam em palavras. Mas fora interrompido. Espadas, sangue, estratégias de luta, sobrevivência... Todas essas coisas eram mais fáceis para ele do que traduzir para aquela menina o que guardava em seu coração. Era a batalha mais difícil.
- Bem... – cerrou os punhos. Os olhos encontraram-se por um segundo. Ichigo desviou. Não podia dizer, não conseguia dizer, mas como queria dizer... – Você sabe... – olhou para o lado. – Eu te devia uma. – Por que é que sempre dizia aquilo?

— Ah. – ela proferiu. O coração batia de um jeito triste. Apertado. Doía de alguma forma. Seria aquilo desapontamento? – Então estamos quites né?
- Hmm... É. – ele disse impotente.
- Então se... – ela continuava... Agora não podia parar. – Se eu precisasse de novo, você não se arriscaria mais? – ainda não podia encará-lo.
“Que pergunta!” – ele pensava. – “Qualquer coisa que eu responda vai me comprometer seriamente! Droga! Ichigo, seja homem! Não seja covarde!”.
- Claro que não. – quando percebeu estava falando. – Não arriscaria a vida de novo por uma nanica chata como você! – gritou. Mas por que gritava? Por que não dizia? E dizer o que? Que queria envolvê-la nos braços e ter certeza de que não a perderia jamais? Não! Talvez nem gostasse dela... E por que gostaria? Ela é tão chata, brigona, violenta e debochada... E... Tão encantadora...
- Ah! – ela ficou irada. O sangue fervia. – Então que bom para você! Vai se livrar da chata aqui que não voltará mais para a Terra.
- Nossa, foi a melhor notícia que já recebi! – ele dizia aos berros. Também por causa do som alto. – Nunca mais ver sua cara irritante!
- Idem! – ela cruzou os braços. – Melhor que isso só substituir a memória para nem lembrar que você existiu!
- E eu nem preciso disso! Quando sair daqui, não me lembrarei mesmo! – ele deu de ombros.
Os dois ficaram encarando-se cheios de fúria. Não queriam aquilo. Quantas mentiras saíam de suas bocas...
- Idiota! Idiota! – Rukia começou a socar o ruivo descontroladamente.
- O que é isso agora sua louca? Aii! – ele tentava segurá-la.
“Como pude, mesmo que por um instante pensar que... Pensar o quê? Eu só queria que ele me abraçasse e dissesse que eu sou tão importante pra ele quanto ele é pra mim! Mas não devia! Ele é só um ruivo feio e rabugento! Um moleque idiota!” – ela pensava enquanto o socava. De repente parou. Abaixou a cabeça e uma lágrima dolorida cortou seu rosto. Sentia-se inexplicavelmente vazia e abandonada naquele momento.

- Rukia! – ele a segurou pelos braços fazendo-a olhar em seus olhos. – Está chorando? Por que? – ele perguntou com sua expressão de sério preocupado.
- Porque eu te amo idiota! – ela berrou deixando que outras lágrimas percorressem seu rosto. Se sentia humilhada e despedaçada naquela situação.
O ruivo por sua vez, ficou chocado. Seu coração a qualquer momento explodiria. Como podia bater tão rápido? Será que tinha ouvido aquilo bem?
Imagens de tudo o que passaram juntos começaram a vir em sua mente. Sorrisos, olhares, brigas, gritos, palavras duras, palavras doces, lágrimas...
- Rukia eu... – disse baixinho sentindo um frio correndo-lhe pela espinha.
- Gente, gente! – Ganju berrou com um microfone. – Vamos brincar de sete minutos no paraíso!
- É! Vamos! – os convidados berraram animados.
- Para quem não sabe, a brincadeira é o seguinte: escolhemos uma garota, vendamos ela e enfiamos ela num canto... Aqui, acho que esse cantinho de guardar casacos vai servir... – disse apontando para uma portinha atrás de si. – Então sorteamos um garoto e o mandamos pra lá. Aí o casal fica sete minutos lá para fazer o que quiser. Topam mesmo?
- É! – a resposta era unânime.
- A primeira garota, claro, vai ser a Rukia-chan já que a festa é dela! – apontou.
- A-ahn? – ela olhou confusa para todos aqueles olhares voltados para ela.
“Essa é a minha chance!” – um certo garoto de cabelos vermelhos pensava admirando de longe o rostinho frágil e perdido da amada.
De repente, Ganju vendou Rukia e saiu empurrando-a para dentro do minúsculo armário de casacos.
- Pronto! Quem se candidata a entrar agora? – ele perguntou com pinta de apresentador de programa de auditório.
Começa uma confusão de candidatos.

- Vixi Maria! – o “apresentador” coçou a cabeça olhando a briga. – A baixinha é poderosa mesmo, acho que até eu vou querer!
- Como é que é? – Renji o levantou pela camisa com um olhar assustador.
- Na-nada Sr. Zabimaru! Ela é toda sua hehehe!
- Acho bom! – colocou-o no chão de novo emburrado.
- Nesse caso precisaremos de um sorteio! – recobrou sua pinta de apresentador... – Que venha minha assistente de palco com os papeizinhos! — ... até demais.
- Então já estava tudo armado? – Ishida perguntou-se ajeitando os óculos com uma gota na cabeça.
- Kyaaah! O que é isso!? – Hanatarou se assustou com o animal que adentrara a sala. Era um gordo javali mau encarado usando um lacinho cor-de-rosa e curiosamente carregando um pote cheio de papeizinhos na boca.
- Bom trabalho Bonnie-chan! – Ganju acariciava o animal todo orgulhoso enquanto retirava o pote de sua boca.
- Como assim Bonnie-chan? Como foi que isso entrou aqui? Ele morde?? – Hanatarou tremia enquanto estava agarrado no braço de Ganju.
- Sai pra lá mariquinha limpadora de esgoto! – ele sacudiu o braço jogando o fraquinho longe. – A Bonnie-chan é a mulher... Digo, a javali da minha vida. – olhos brilhantes.
Todos com uma gota gigante na cabeça.
- Okay criançada! – Ganju finalmente pôs a mão dentro do pote. – Veremos quem será o felizardo a tirar a virgindade da aniversariante!
- O quê!? – Renji berrou com olhos assassinos.
- Virgindade da boca, que gente maldosa! – o dono da javali balançou a cabeça reprovando. – E o sortudo é... Tcham tchaaam... Kurosaki Ichigooo!
Olhares voltados para o ruivo.
- E-eu!? – apontou para si mesmo em choque.
- Ah, vai dizer que não quer? Todos querem! – Ganju bateu nas costas dele.
- Mas eu não... – ele nem se mexia.

- Divirta-se amigo! – empurrou Ichigo para dentro do armário sem cerimônias.
- Quem está aí? – a shinigami perguntou.
Sem resposta.
Ichigo ficou olhando a garota à sua frente. Pensara no que há pouco lhe dissera. Podia admitir para si mesmo. A amava. Amava seu sorriso. Amava seu olhar. Amava seu jeito de falar e até de brigar e bater. Amava o azul de seus olhos. Amava aquela pele tão clara e pura. Amava aqueles cabelos negros macios. Amava aquele conjunto. Uma beleza hamônica, frágil, infantil e exótica. Se surpreendia por pensar daquela forma...
Inevitavelmente, se aproximou dela. Tocou suas mãos pequenas e suaves.
- Quem é? – ela insistia, mas nada de respostas.
Tocou seu rosto de leve. Acariciou as bochechas e percorreu os dedos por entre as mechas de cabelo da garota. Tocou-lhe os lábios. Pegou em seu queixo e aproximou aquele rosto do seu. As respirações levemente ofegantes se encontraram...
- Eu não vou deixar! Eu não posso! – Renji berrava e se debatia enquanto Sado e mais dois outros fortes tentavam segurá-lo.
- Melhor dar um calmante pra ele! – Ishida sugeriu preocupado.
- Que ótima idéia! – Hanatarou exclamou iluminado. Remexeu na mochila que sempre carregava consigo e despejou um pequeno líquido incolor num copo d’água. Foi até ele. – Renji-san, bebe um pouco de água pra se acalmar!
- Não quero água! – berrou.
- Se beber a água vamos soltar a Rukia-san! – ele tentava negociar.
- Então me dá essa porcaria! – ele pegou o copo e bebeu tudo de uma vez só. – Agora soltem a Rukia! – berrou impaciente e irado.
- Nada disso! São sete minutos e só se passaram três! – Ganju mostrou no relógio.
- Ora seu... – preparou-se para socá-lo, mas sentiu o corpo lento. Os olhos pesavam cada segundo mais e ele mal podia levantar o braço. – Eu vou te... – cambaleou. – Eu vou te... – e caiu adormecido no chão.
Olhares voltados para Hanatarou.
- Não se preocupem gente! Ele vai acordar daqui a umas dez horas! – falou sorrindo.
- O quêêê!? – manifestação geral de espanto.

- Ou talvez em doze... Hehehe! – coçou a nunca rindo sem graça.
Mais uma vez, gota na cabeça de todos.
- Ichigo, saia daqui! – Rukia esbravejou.
- Como sabe que sou eu? – ele se afastou bruscamente com o espanto.
- Eu sei. – ela corou sem argumentos. – Ichigo faz o que eu mandei! Saia daqui! Vai ser melhor! Esqueça o que eu sinto! Você não pode corresponder e mesmo se correspondesse... Mesmo assim não ia dar certo.
Silêncio profundo.
- Ichi... – ela retirou a venda lentamente. Ele ainda estava ali, olhando-a com aquela expressão azeda e mal-encarada de sempre. – Eu falei pra sair! – gritou.
- Não vou sair! – gritou também. – Eu já cansei de dizer que não ouço o que você fala! Eu esperei muito por isso e agora não vou dar pra trás!
- Mas Ichigo... Como...? Você não me... – ela estava emocionada. Os olhos e o coração não podiam negar a alegria que sentia por mais que as palavras a contradissessem.
- E quem disse que não? – ele perguntou ainda com ar de bravo. Em seguida desviou o olhar costumeiramente.
- Mas... Nós não vamos dar certo! Somos de mundos completamente diferentes, temos muitos impedimentos, nós...
- Cala a boca! – ele berrou. – Você é muito chata e pessimista. Disse que eu não podia salvá-la e salvei. Disse que não podia derrotar seu irmão e derrotei. Por que dessa vez não vai ser diferente?
Olharam-se nos olhos. A inevitável proximidade em que se encontravam obrigou Ichigo a pegar mais uma vez no queixo de Rukia, trazendo seu rosto pra perto, unindo novamente as respirações.
- Eu te amo sua irritante. E enquanto te amar, tudo vai dar certo.
Ela sorriu com lágrimas nos olhos. Ele tinha razão. Aquele amor não deixou que ela morresse... Aquele amor não a desampararia jamais.
- Eu confio em você. – ela sussurrou.
E consumaram aquele momento com um beijo. Um beijo de hesitação e medo. Um beijo de curiosidade, vontade e paixão. E principalmente, um beijo de amor e união. Um beijo que uniria a morte e o morango em mais um laço eterno.

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