Sete Luas
3 Faça as suas escolhas
Notas iniciais
A semana passou voando e a minha vida tinha se tornado um caos ainda maior. As cobranças em casa estavam cada vez mais intensas, minha melhor amiga finalmente arrumou um namorado e parecia estar ocupada demais para qualquer outra coisa além de se atracar com ele pelos cantos. E não falei mais com Alice. Graças a Deus eu descobri a corrida, isso me ajudava manter a mente limpa. Era meu mais novo hábito e eu não pretendia parar tão cedo.
Eu estava sentada com meus colegas de classe no intervalo das aulas, discutindo qual era o melhor fast food. Pautas importantíssimas a serem tratadas.
— Quem no planeta gosta de Mc Donald’s? O hambúrguer parece a sola do sapato do meu pai – Bernardo disse com toda a convicção do mundo.
— É um clássico! Você não pode falar assim de clássicos – Fernanda prontamente rebateu. – E pra você, Júlia? Qual é o melhor?
Todos os olhares da mesa se dirigiram para mim.
— Eu acho melhor não ter colesterol alto, mas se for pra escolher, BK tem mais sabor. – respondi enquanto brincava com o canudo do suco.
Bernardo abriu um sorriso e não perdeu tempo.
— Toma, Fernanda! Só você gosta daquela porcaria.
Os dois começaram a discutir novamente igual cão e gato. O canudo parecia mais interessante. Meus olhos vagaram pelo refeitório, analisando as pessoas ao meu redor e totalmente imersa nos meus pensamentos. Até meus olhos encontrarem Alice. Ela parecia estar se divertindo com seus amigos, sempre com um sorrisinho sarcástico nos lábios.
Não demorou muito e eu fui pega na minha espionagem. Nossos olhares se cruzaram e começamos a travar uma batalha onde nenhuma das duas parecia querer desistir. Para minha surpresa seus olhos desviaram dos meus, em seguida pegou uma garrafa de água e desapareceu no meio da multidão. Suspirei. Por que isso era tão importante? Por que eu me importava?
Eu não era capaz de responder.
— Júlia, planeta terra chamando. Tá aí? – Fernanda me cutucou e quando me dei por mim, todos da mesa me encaravam
— Hã. oi.
— Tá pensando no que?
Arrumei minha postura e tentei parecer o mais natural possível.
— Ah, estava pensando se o Fábio vai passar nossas notas de cálculo hoje. Preciso fazer um simulado mais tarde e quero usar a nota de parâmetro. – estava torcendo para ser tão convincente quanto em minha cabeça. Não queria dar explicações. Não sobre isso.
— Credo, você só pensa em estudar! – murmurou Bernardo.
Esbocei um sorriso amarelo.
— É, só penso nisso mesmo. – juntei minhas coisas – Preciso ir agora. Até depois!
Eu precisava respirar e limpar a minha mente. Sentei em um lugar afastado e peguei o livro que Alice me deu. Comecei a folhear as páginas, tentando me concentrar e fazer minha mente pensar em outra coisa além desse afastamento repentino entre nós, mas lendo algo que tinha recebido dela tornava essa tarefa quase impossível.
— Finalmente consumindo uma leitura de qualidade, modéstia à parte. – Sua voz ecoou nos meus ouvidos como uma bomba. Eu realmente não esperava por isso. Meu estômago revirava em pura e extrema ansiedade. – Posso me sentar aqui?
Acenei positivamente com a cabeça e ela prontamente sentou do meu lado.
— Você sumiu. – afirmei.
— Estava ocupada com outras coisas. Não pensei que fosse reparar. – seu olhar estava distante e sua mente parecia fazer o mesmo.
— Ninguém veio me perturbar, então ficou fácil assimilar sua ausência – respondi com indiferença.
Ela me encarava com uma sobrancelha arqueada.
— Sempre ácida. Qualquer dia vou sair queimada disso – ela fez uma pausa – Gostando do livro?
— Sim.
— Por que tá tão seca? Ah, não me diga! Tá mau humorada? Poxa! – Alice se fez de surpresa e logo voltou para as suas piadinhas, como se nada tivesse acontecido – Ah, espera. É o seu normal. – Não consegui ficar séria. As coisas ao lado de Alice pareciam bem leves, eu conseguia esquecer todas as minhas irritações com as suas piadinhas e seu sarcasmo. Sem dúvidas, ela sabia ser uma boa companhia quando queria. Ela tirou um dos seus fones de ouvido e colocou na minha direção – Escuta comigo, quem sabe melhora seu humor.
Sem dizer nada, coloquei o fone e tocava uma música que eu não conhecia. Alice fingiu estar com um microfone imaginário e começou a cantar com os olhos fechados.
— So just trust me, you’ll be just fine and I need your trust just for tonight... – ela fez uma pausa e continuou — And this is not a place in my head. Reach out your hands and tell me just what you feel, ohhhhh. This is not just all in your head, mind over matter makes these things feel so real.
Ao fim da ultima estrofe, ela abriu os olhos e me encarou com um sorriso. Em contrapartida, eu tentava encarar esse momento com naturalidade. Isso não estava funcionando.
— Não conheço essa música, qual é? – tentei desviar meus pensamentos.
— Além de ser chata, não tem um gosto refinado como o meu? Me empresta seu celular – sem hesitar, desbloqueei a tela e coloquei em suas mãos. Eu estava curiosa com o que ela ia fazer. Alice mexeu em algumas coisas e me devolveu – Pronto. As definições de música de qualidade foram atualizadas com sucesso. Divirta-se!
Quando comecei a mexer no meu aplicativo de músicas, tentando encontrar a proeza que Alice tinha feito, o sinal do fim do intervalo tocou e ela se pôs de pé.
— Tenho que ir pra aula agora. A gente se vê depois.
E para variar um pouquinho, Alice sumiu sem esperar a minha resposta.
Desbloqueei a tela do meu celular e rapidamente fui checar o que Alice tinha feito. Ela havia criado uma playlist no meu Spotify com o nome “Ensinando a Júlia escutar música”. Tive que rir. Dei play na única música presente e, sem dúvidas, era a que Alice estava cantando.
Juntei minhas coisas e retornei para a sala de aula, bem mais animada do que havia entrado pela manhã. A certeza de que as coisas entre Alice e eu estavam bem, renovou meu ânimo. Apesar de estar feliz, uma parte de mim não compreendia essa necessidade de tê-la em meus dias, o motivo de sentir sua falta. Talvez o momento não fosse propício. Minha melhor amiga estava distante, minha casa era um campo minado e Alice era a única pessoa que realmente me dava trabalho. Eu precisava estar afiada para rebater todas as suas gracinhas, o que era quase uma competição interna para mim.
O professor entrou na sala com uma pilha de provas e trabalhos, a hora da verdade estava próxima.
— Senhoras e senhores, boa tarde! Preparados para os resultados?
A sala respondeu em uníssono “não”, tal qual fazíamos quando éramos crianças. Ele sorriu.
— Já esperava por isso. Hora da degola!
Fábio começou a chamar os alunos em ordem alfabética para entregar os resultados da prova e do trabalho que fizemos para o bimestre.
— Júlia, é a sua vez.
Caminhei preguiçosamente até a mesa do professor. Peguei as folhas de suas mãos e retornei para o meu lugar. Examinei os papéis e eu havia tirado 9 em ambos. Nada mal, pensei comigo mesma. Coloquei os papéis dentro de uma pasta e me esforcei para me concentrar na aula. O fato de eu estar frustrada com esse vestibular, não podia afetar os meus anos na escola.
O resto da manhã passou como um borrão, rápida e irrelevante demais para que eu pudesse lembrar de qualquer detalhe. Assim que pus meus pés para fora da sala, escutei uma voz gritando meu nome do outro lado do corredor.
— Júlia, aqui! – virei meu corpo na direção da voz, era Sofia. Parece que hoje é o dia oficial de lembrarem que eu existo. Abri um sorriso em resposta e caminhei em sua direção. Sofia voou no meu pescoço me dando um abraço apertado de urso — Ei, preciso respirar ainda! – soltei com a voz abafada. Sofia riu.
— O que acha de um programa de garotas, você e eu, eu e você? – eu realmente estava precisando de algo do tipo. Quem sabe isso não ajudasse no processo de me colocar nos eixos novamente?
— Claro que aceito! Já estava ficando com saudades.
— Eu posso ler a sua mente, queridinha. – Sofia encaixou seu braço no meu e seguimos corredor a fora, caminhando lado a lado. – Você pode ir na minha casa?
— Hoje é segunda-feira, então não.
Sofia revirou os olhos. Eu te entendo, amiga.
— Desde quando sua mãe ficou tão chata? Cruzes! – ela soltou nossos braços – Então vou passar na minha casa, compro algumas coisas e vou na sua, pode ser?
Assenti com a cabeça. Sofia sorriu e mandou beijos no ar, sumindo portão a fora. Minha casa ficava há poucos quarteirões da escola e em poucos minutos cheguei sã e salva. Joguei minha mochila em um canto qualquer e fui direto tirar o uniforme, estava exausta de usar aquelas roupas quentes e nada confortáveis. Coloquei algo mais leve e comecei dar uma arrumada na casa. Se eu ia passar a tarde fazendo vários nadas e fofocando com a Sofia, precisava ganhar uns pontinhos com a minha mãe.
Quando tudo já estava em perfeita ordem, me joguei no sofá e comecei a checar minhas últimas notificações. Apesar de evitar ao máximo, não pude deixar de dar mais uma olhada na playlist de uma música que Alice havia criado. Alice. Por que as coisas eram tão estranhas quando se tratava dela? Meneei a cabeça para afastar esses pensamentos. Foco. Alice é uma pessoa, como tantas outras que passaram por minha vida. Fim de papo.
Não demorou muito e a campainha começou a tocar freneticamente. Sofia. Corri na direção de portão e prontamente abri.
— Você demorou 30 segundos. Como ousa? – Ameacei fechar em sua cara, mas Sofia bloqueou com as mãos. – Seja mais doce, Júlia!
— Deixa eu pensar – fingi refletir por alguns instantes – Não.
— Eu sei que você me ama.
— Isso é o que você diz.
Sofia trouxe uma porção de guloseimas, mesmo sabendo que ela provavelmente seria a única a comer. Não que eu não gostasse dessas coisas, mas desde que me entendo por gente a minha alimentação é toda baseada em alimentos integrais e naturais, guloseimas não eram coisas necessárias para mim. Já não posso dizer o mesmo de Sofia.
— E então, o que me conta de novo? Não esconda nada! – Sofia perguntou enquanto abria um pacote de batata chips.
— Você fala como se minha vida fosse interessante – bufei – Vou para a escola, estudo em casa, discuto com a minha mãe e o ciclo recomeça. Conheci uma pessoa, nada demais.
— Espera aí! Com assim – ela fez aspas com os dedos – conheceu uma pessoa? Trate de me contar tudinho!
Maldita seja a minha boca.
— Não é nada demais. Conheci uma menina esses dias, uma colega na escola.
— E por que contou se não tem nada demais?
— Pra caso você me vir com ela, não surtar de ciúmes.
— Muito perspicaz da sua parte. E qual é a dessa menina? – perguntou Sofia enquanto se aconchegava no sofá.
— Não sei.
Sofia endireitou a coluna e me encarava com uma expressão de dúvida.
— Entendi. – ela voltou a deitar no sofá relaxada – Vamos assistir um filme?
— Claro!
— Você escolhe. Não posso me esforçar pra não cansar a minha beleza.
Peguei uma almofada e joguei na cara dela. Que criaturinha implicante, onde eu fui amarrar meu jegue? Sofia começou a gargalhar e a bagunça estava instaurada.
*******
Estudar, estudar, estudar. Essa era a nova composição química do meu corpo. Eu estava debruçada na imensa mesa de estudos da biblioteca da escola, tentando reunir o resto de ânimo que havia me sobrado. Foco, Júlia. Você precisa fazer isso. Me endireitei na cadeira, peguei um lápis e comecei aquela montanha de cálculos.
— Seu ânimo é contagiante, Júlia. — Meu estômago embrulhou. Virei meu rosto na direção de Alice, tentando parecer o mais natural possível. Ela puxou a cadeira do meu lado – Posso?
Assenti com a cabeça. Cada vez mais suas aparições repentinas me davam calafrios, eu não estava acostumada com isso. Alice se sentou e começou a me encarar, mas eu não conseguia decifrar o que ela estava pensando. Rapidamente seus olhos desviaram para as folhas espalhadas na minha frente.
— Por que não estudar as seis horas como uma pessoa comum? O meu vestibular é mais próximo que o seu e estou bem menos preocupada com isso.
— Você não entende.
— Então me faça entender.
— É complicado – tentei desviar do assunto.
Alice pegou um caderno dentro da mochila, começou a folhear as páginas. Em seguida pegou seu celular, mexeu em alguma coisa e retornou sua atenção para mim.
— Você deu muita sorte. Chequei aqui, não tem nada importante na minha agenda e tenho todo o tempo do mundo. Desembucha.
Revirei os olhos.
— É a minha mãe. Ela quer que eu estude pro vestibular, tem me atormentado a paciência com isso há meses.
Alice se aproximou e começou a mexer em uma mecha solta do meu cabelo. Ela tinha que ser próxima assim?
— E você tentou conversar com ela?
— Sim.
— Falou como se sente?
— Não.
Ela recostou na cadeira e começou a me olhar com um sorriso nos lábios. Ela tinha que rir assim o tempo inteiro? O que tinha de tão engraçado em tudo?
— Posso te falar uma coisa? – assenti – Não me leva a mal, mas se o seu modo de conversar é como você fala comigo, fica meio difícil de entender o que você realmente sente. Eu te conheço há o que? Um ou dois meses? Tudo o que vi até agora, desde o primeiro instante, é uma tartaruga dentro de um casco se protegendo de... Tudo? – abri minha boca para responder, mas Alice me interrompeu – Sei que vai dizer que me conhece há pouco tempo, que eu não sei de nada e blá blá blá, mas coloque a mão na sua consciência, Júlia. Tente se ver de fora, a imagem que você passa para as pessoas.
— Você acha isso? – perguntei um pouco relutante. Alice se aproximou e voltou a brincar com a mecha solta.
— Totalmente. E se não quiser acreditar em mim, pergunte para alguém que realmente te conheça.
Suas palavras me acertaram em cheio. Eu sabia que no fundo ela tinha razão.
— E se for verdade?
— Você faz o contrário. Tudo bem não se abrir comigo, eu adoro um desafio. Mas sua mãe? Ela é quem deveria conhecer toda a paleta de cores dentro de você!
— Tudo bem.
— É só um conselho, talvez eu esteja errada, quem sabe? Não te conheço tão bem, muito menos a sua relação com a sua mãe. Mas sou a favor da tentativa. Quem sabe vale a pena?
— Obrigada, Alice.
Ela abriu um sorriso.
— Disponha. Agora preciso ir, bons estudos aí. Não queria estar na sua pele.
— Pensei que tivesse todo o tempo do mundo.
— Não é o momento certo.
Alice começou a caminhar até a porta de saída, parou por um instante e olhou na minha direção.
— Aliás... Continue o que quer que esteja fazendo com o seu cabelo. Ele é bem macio. Acho que cheiroso também. Na próxima vez te dou o veredito. – soltou uma piscada, acompanhada daquele maldito sorriso sarcástico e desapareceu porta a fora.
Senti meu rosto arder em chamas. Será que ela não conseguia ficar só no positivo? Balancei a cabeça e tentei me concentrar nos estudos, mas suas palavras estavam ecoando na minha cabeça. Quem sabe conversar com a minha mãe não fosse realmente a solução para isso tudo?
Juntei minhas coisas, saquei o celular do bolso e mandei uma mensagem pedindo para me encontrar em casa. Em poucos instantes ela mandou uma confirmação e eu voei para casa. Precisava resolver isso de uma vez por todas e eu sei que depois eu não teria coragem nenhuma de fazer isso. Assim que pus meus pés em casa, fui direto para o meu quarto e tirei o uniforme da escola. Tentei deixar as coisas organizadas para evitar qualquer motivo de reclamação.
Cerca de quarenta minutos depois, minha mãe chegou em casa com um ar de preocupação.
— Júlia, você está bem? O que houve pra você me chamar assim?
— Preciso conversar com você. – estava reunindo toda a coragem que tinha dentro de mim. Era agora ou nunca.
— Aconteceu algo? – ela se dirigiu para a cozinha – Espera eu pegar uma xícara de café.
Em poucos instantes minha mãe estava de volta. Apontei com a cabeça para o sofá e ela se sentou.
— Eu não quero mais estudar assim. Estou cansada disso, não tem me feito bem e está começando a se tornar um fardo. – respirei fundo – Eu sou adolescente, mãe. Eu quero poder sair, fazer outras coisas além de só estudar.
Eu encarava minha mãe como um cachorro encara um frango de padaria. Não é possível que ela conseguisse ser tão insensível assim. Pedir para chegarmos a um acordo quanto ao assunto estudos, era minha última cartada antes disso começar a afetar – realmente – o nosso relacionamento.
— Então qual é a sua proposta? – perguntou enquanto bebia sua xícara de café e checava as notificações no seu celular. Rapidamente seus olhos desviaram e ficaram fixos em mim, como quando eu era criança e fazia alguma arte. Eu amava a minha mãe, é claro. Mas desde que meu pai morreu, ela se tornou mil vezes mais controladora e exigente comigo. E não estou falando somente dos estudos.
— Olha, eu sei que você se preocupa com o meu futuro e quer o meu melhor, mas já tivemos problemas parecidos tantas vezes e você sabe o final. – ela respirou fundo – Que tal deixar as coisas naturais, sem tanta cobrança?
— Mas eu sou sua mãe, meu papel é te cobrar.
Revirei os olhos, mas logo me recompus. Eu precisava mostrar meu ponto de vista.
— Eu acho que você exagera. Eu sempre fui uma boa aluna, aceito todos seus toques de recolher e suas neuras sem fundamento. Só queria que você confiasse em mim.
Minha mãe claramente ficou mexida com as minhas palavras, talvez porque no fundo ela soubesse que é verdade.
— Me desculpa. – eu podia sentir sinceridade nas suas palavras – Você sabe, não foi fácil te criar sozinha, não é fácil ser uma mãe solteira e não é fácil carregar uma responsabilidade que tinha de ser a dois. – seus olhos estavam marejados. Certo, não era a ideia fazer a minha mãe chorar – Mas você tem razão.
— Tenho? – perguntei surpresa.
— Tem. – ela limpou os olhos – É muito difícil pra mim passar tanto tempo fora trabalhando e me certificando de que você está bem, no caminho certo e fazendo o que é certo.
— E o que isso quer dizer? – não posso negar que eu estava com um pé atrás
— Quer dizer que somos uma equipe agora. Estou te dando um voto de confiança, apenas faça a escolha certa.
Nós duas sorrimos. Minha mãe me deu um abraço aconchegante e apertado, era extremamente bom me sentir assim. E melhor ainda: as coisas estavam bem. Será que ela estava sendo sincera no que disse? Eu espero do fundo do meu coração que sim.
— Prometo que vou fazer, mãe. – respondi ainda em seu abraço.
Ela depositou um beijo na minha testa.
— Tenho certeza que sim. – minha mãe soltou o nosso abraço – Se importa se eu for resolver algumas coisas do trabalho?
— Não, pode ir.
— Certo. Qualquer coisa estou no meu quarto – ela fez uma pausa – Só uma observação.
— Qual?
— Sem chegar muito tarde em casa na semana, você ainda tem aula de manhã.
— E nos fins de semana?
— Podemos chegar em um acordo – ela deu um beijo no meu rosto – Agora vou trabalhar. Juízo!
Sem a pressão de ter que estudar, tirei o resto da noite para organizar as minhas coisas. Comecei arrumando meu armário e deixando somente o que era necessário. Próximo passo? Livros. Fiz uma pilha com todos eles e comecei a coloca-los nas prateleiras que minha mãe havia instalado umas semanas atrás. As antigas estavam bem gastas. Um a um fui colocando, até chegar no livro que ganhei da Alice. Encarei a capa por alguns instantes, pensando em tudo o que tinha acontecido e na forma como ela estava certa, sem entender de fato o que acontecia.
Peguei meu celular e fui direto na playlist que ela havia feito, para escutar pela enésima vez a música que ela havia colocado ali. Admito que era ótima para escutar antes de dormir. Fui interrompida nos meus devaneios pela minha batendo na porta.
— Júlia?
Rapidamente me pus de pé e tentei agir naturalmente.
— Oi!
— Você tem o contato de algum motorista de táxi que seja de confiança? Preciso sair e não confio muito chamar pelo aplicativo agora de noite.
— Tenho sim, só um minuto – respondi enquanto desbloqueava a tela – Já te mando no seu WhatsApp!
— Não demora. Já estou atrasada.
Abri meus contatos e levei um susto com o que vi. Havia um número desconhecido e sem nome no topo dos meus contatos. O que será que era isso? Bom, não era hora de pensar nisso. Se eu comentasse com a minha mãe, provavelmente ela entraria em surto e não é bem isso que quero agora. Rolei para o número do motorista e compartilhei no WhatsApp da minha mãe.
Cerca de vinte minutos depois escutei minha mãe sair. Certo, hora de investigar o que é isso. Será que eu adicionei o número de alguém e esqueci de colocar o nome nos contatos? Eu não poderia ter sido tão lerda a esse ponto. O único jeito de saber era perguntando. Sem hesitar, disquei o número e esperei que atendesse.
— Hmmm. Oi – uma voz sonolenta atendeu do outro lado, pude escutar um bocejo – Quem é?
— Júlia, seu número estava na minha lista de contatos.
— Ah, Júlia. – escutei um barulho no fundo, como se algo tivesse caído — Pensei que não fosse ver nunca, já estava quase acreditando que você não gosta muito de tecnologia.
Alice.
— Não sei porque me impressiono. Você não pode fazer as coisas como uma pessoa comum? Era mais fácil você me passar seu número. – tinha uma ponta de irritação em minhas palavras.
— E perder a chance de você ficar curiosa? Você não aprende mesmo, Júlia.
Revirei os olhos.
— Você precisa ser implicante assim? Nem sei porque ainda perco tempo falando.
— Simplesmente porque você quer falar. – eu podia sentir o sarcasmo em suas palavras – O que te impede de desligar o telefone na minha cara?
— Porque sou educada. – respondi com indiferença.
— Ah, entendi. Aprecio muito a sua educação.
— Obrigada. – soltei.
— Estou quase começando a acreditar que sou uma boa pessoa de tanto agradecimento. Posso saber o motivo?
Deitei na cama. Eu não precisava ficar armada, pelo menos no meu quarto eu podia ficar confortável.
— Conversei com a minha mãe, como você aconselhou.
— E?
— Deu certo.
Alice começou a gargalhar do outro lado da linha.
— Eu sabia! Eu deveria ganhar um prêmio por ter acertado em cheio.
— O que você quer?
— Não queria nada, mas já que você quer tanto, aceito comida. Estou com fome.
— No Burger King? – eu estava insegura, sentia a ansiedade irradiar cada célula do meu corpo.
— Em cheio, garota. Te vejo lá!
— Ok, até.
Desliguei o telefone. Que diabos eu estava fazendo? O mais rápido que pude me pus de pé e fui procurar algo para vestir. Coloquei uma roupa casual, um tênis, dei uma arrumada rápido no cabelo e saí. O motivo do desespero? Também não sei. Deixei uma mensagem avisando minha mãe que eu tinha saído para comer e me dirigi para o shopping.
Eu estava fazendo a escolha certa?
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