Sete Luas

2 A culpa é das estrelas?


O dia estava quente e a sensação da grama nas minhas pernas havia deixado de ser refrescante há muito tempo. A sombra que eu havia escolhido não parecia suficiente para impedir que os raios de sol queimassem a minha pele. Minhas mãos suavam e deixavam vestígios no livro que estava em minhas mãos. Essa edição do Morro dos Ventos Uivantes não poderia ter mais minha marca que isso. A leitura tinha quase uma cadência própria – havia feito no mínimo três vezes. Catherine e Heathcliff me davam nos nervos. Como podem ser tão imbecis? Eu não conseguia superar.

— Quem ainda lê esse livro? – uma voz feminina interrompeu a minha leitura. Por algum motivo a surpresa de ser abordada fez meu estômago revirar. Recompus minha postura e me direcionei para a aquela garota. Quem ela pensava que era para abordar estranhos assim?

— Eu ainda leio. – respondi quase em um murmúrio.

Ela usava um shorts e uma camiseta de corrida, provavelmente era isso o que estava fazendo antes de me atrapalhar. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo mal feito preso por um boné. Eu sentia sua respiração ofegante e era possível ver o seu rosto ligeiramente suado. A estranha sentou do meu lado e abriu um sorriso, como se achasse engraçada a situação. Por algum motivo senti meu estômago apertar um pouco mais.

­— Você já leu esse livro? – ela fez uma pausa e retomou – Olha, sem querer dar spoiler, mas esse é o romance mais conturbado que já li na vida. Não perca tempo.

Sorri. Eu sabia exatamente o que ela estava falando.

— Eu sei. Por isso estou lendo pela terceira ou quarta vez, não consigo entender como deu errado.

­— Quando a gente não assume o que sente, estamos sujeitos a nos tornarmos um Heathcliff da vida – ela esticou a mão – A propósito, me chamo Alice. E você?

Segurei seu aperto de mão e não pude deixar de conter um sorriso.

­— Júlia.

— Prazer em te conhecer, Júlia. – ela respondeu com um sorriso – Então você perde seu tempo relendo romances embaixo do sol?

— Todos os dias. É quase uma religião – encarei Alice por um instante – A propósito, nunca te vi por aqui.

— Como veria se fica com a cara imersa nos livros? – Ela não deixava de ter razão. De todas as vezes que eu visitava aquele parque, a maior parte das vezes (para não dizer todas) eu somente olhava ao meu redor ao chegar e quando ia embora. Esse era meu tempo de qualidade no meio do furacão que estava a minha vida naquele momento.

— Tem razão – concordei.

Alice sorriu em resposta e rapidamente se pôs em pé. Passou a mão pelo corpo para eliminar a sujeira que a grama havia deixado em suas roupas e novamente tornou a olhar para mim.

— Preciso ir. Até qualquer dia, Júlia. Na próxima vez, leia algo produtivo.

— Por que você não traz uma leitura produtiva, então? – provoquei.

Alice soltou uma gargalhada e novamente senti meu estômago apertar. O que tinha de engraçado nisso? Por que eu me sentia assim?

— Vou pensar no seu caso. – piscou e saiu correndo em direção à pista de corrida.

O que havia acontecido ali? Eu sinceramente não sabia responder. Juntei minhas coisas, guardei na minha mochila e comecei a me preparar para ir embora. O sol já estava quase de pondo e eu podia sentir o frescor da noite se aproximar. Finalmente, pensei comigo mesma. Comecei a caminhar em direção a saída do parque e toda a parte verde da cidade, passou a ser tomada pela costumeira selva de pedras. A capital paulistana infelizmente é assim.

Caminhei até o ponto de ônibus e, para minha sorte, ele já estava paradinho me esperando. Sentei em um dos – milagrosos – lugares vazios, coloquei meus fones de ouvido, fechei os olhos e permiti que a música me guiasse.

Ao chegar em casa, percebi que minha mãe havia cochilado na sala e a TV falava sozinha. Desliguei o programa culinário que estava passando, depositei um beijo no rosto dela e a aconcheguei com uma manta que estava próxima. Como não me considerar a filha do ano? Se minha mãe fosse responder, provavelmente diria “não fez mais do que a sua obrigação, Júlia”. Sorri imaginando a sua voz enfezada. Subi o lance de escadas que levava para o meu quarto, tirei os cadernos da minha mochila e comecei a estudar o satanás, mais conhecido como trigonometria.

Eu estava cansada do ensino médio. Cansada da ânsia por decidir o rumo que eu daria na minha vida inteira em três meses. E se o vestibular não for o que eu quero de verdade? E se não der certo? E se tiver um mar de opções que eu desconheço? Foco, Júlia: seno, cosseno e tangente. Números. Argh.

Depois de longas horas tentando fazer uma quantidade absurda de regras e cálculos entrarem na minha cabeça, decidi que era hora de descansar um pouco. Coloquei uma roupa mais confortável e comecei a organizar minhas coisas para o dia seguinte. Tirei o Morro dos Ventos Uivantes da minha mochila e eu não pude conter o riso. Alice tinha razão; não valia a pena desperdiçar meu tempo tentando entender o porquê deles não terem dado certo. Apaguei a luz e me deitei. O sono não demorou quase nada para chegar.

*******

Eu nunca entendi qual é o propósito de trancar centenas de adolescentes por seis horas, tentando fazê-los aprender coisas que provavelmente não vão utilizar nunca. Como alguém achou que isso seria uma boa ideia? Entreguei meus exercícios de trigonometria esperando uma singela nota cinco. Já estaria de excelente tamanho.

­— Vai tirar um dez, Júlia? – questionou meu professor de matemática, Fábio.

— Eu não seria tão otimista.

Ele balançou a cabeça em sinal negativo.

Retornei para o meu lugar e aguardei ansiosamente o sinal tocar, contando segundo por segundo. Olhei o ambiente a minha volta e todos pareciam estar na mesma sintonia que eu: ansiosos para ir embora. Não demorou muito e o sinal tocou, junto dele todos os meus nem tão amados colegas de classe saíram fazendo cosplay de uma debandada de bois.

Esperei a multidão ir embora, juntei meus materiais e saí tranquilamente. Esse era o momento mais feliz do dia. Eu sentia um misto de alegria por só ter mais um ano na escola, porém me desanimava por completo saber que o vestibular estava logo ali me esperando, e com ele uma porção de expectativas estavam sendo literalmente jogadas nas minhas costas.

O corredor estava ligeiramente deserto, o que me dava liberdade para caminhar tranquilamente até o bebedouro mais próximo.

­— Se você tivesse cara de psicopata, juraria que está me seguindo. – soltou uma voz familiar. Alice.

— O que você está fazendo aqui? – dessa vez ela estava com o uniforme da escola, seus cabelos estavam soltos e sua expressão parecia cansada. Mais cansada do que quando a vi correndo.

— Talvez o mesmo que você: estudando.

— Desde quando você estuda aqui? Eu nunca te vi.

Alice abaixou levemente sua cabeça e sorriu.

— O fato de você nunca ver – respondeu fazendo aspas – não quer dizer que não esteja presente. – fez uma pausa enquanto pegava um papel da sua mochila e me entregou – Veja aí o motivo. – examinei o papel e era um requerimento de transferência de uma escola de Florianópolis. – Por isso nunca me viu por aqui. Mas olha, – disse se aproximando – vou te contar um segredo: agora moro aqui, então, não se surpreenda se me encontrar por aí.

­ Alice estava no terceiro ano do ensino médio. Talvez por isso eu nunca tenha reparado nela durante esses dias. Fiquei me sentindo envergonhada com a minha postura desconfiada, mas convenhamos que encontrar uma pessoa aleatória tantas vezes em pouco tempo, era no mínimo estranho.

— E como você me encontrou aqui?

Alice pareceu revirar os olhos por um breve instante. Em seguida apontou a cabeça para a porta ao lado. A placa estava com um “secretaria” em letras garrafais. Isso está ficando cada vez mais constrangedor.

— Ok, entendi. Desculpa pela síndrome de perseguição. – retomei a conversa envergonhada.

— Tudo bem. Eu não esperaria menos de alguém que leu o Morro dos Ventos Uivantes quatro vezes.

— Já desisti de ler a quarta, então só foram três vezes.

— Temos um avanço, então. – Alice mordeu o lábio e parecia titubeante com o que iria dizer em seguida – Que tal você compensar essa chatice toda de perseguição me levando para comer alguma coisa? Estou morta de fome e não sei dar um passo sozinha aqui.

— Espera isso de alguém que lê o Morro dos Ventos Uivantes? – provoquei enquanto caminhava em direção à saída.

Alice fingiu estar pensativa por um instante.

— Na verdade, não. Estou te dando a chance de se redimir. – quando percebi, Alice estava caminhando do meu lado quase em sincronia. Perceber essa proximidade fez o aperto no estômago voltar. Por que eu me sentia tão confortável, mas tão nervosa ao lado dela? – Para onde vamos? – questionou enquanto parava no portão de saída do colégio.

— Depende. Qual é o tamanho da sua fome?

— Estou disposta a comer dois elefantes.

Não pude deixar de rir da sua resposta. Alice sorriu também.

— O que? Eu sou atleta! Mereço uma alimentação rica em proteínas.

— Fast food?

— Finalmente você está falando a minha língua.

Sorri. Caminhamos em sincronia até o shopping que ficava próximo ao colégio. Não trocamos uma palavra, mas o silêncio, naquele momento parecia o suficiente para preencher a necessidade de dizer algo. Quando estávamos quase chegando na praça de alimentação, Alice resolveu quebrar o silêncio.

— Você gosta de morar aqui?

A pergunta de Alice me surpreendeu. Nunca havia pensado nisso.

— Não sei.

Ela pareceu confusa.

— Como não sabe?

— Só morei aqui, não tenho um parâmetro de bom ou ruim.

— E se você tivesse a chance de conhecer outros lugares? Você iria?

Refleti por um instante. Talvez eu quisesse realmente mudar o rumo que as coisas estavam levando. A pressão de decidir o que eu queria da minha vida estava me corroendo. O que eu queria? Minha mãe todo o santo dia insistia que eu precisava começar estudar para o vestibular. Como eu poderia estudar se eu não faço a menor ideia do que quero fazer? E se eu quisesse esperar? A ideia de conhecer outros lugares e ter outras experiências fazia muito sentido naquele instante. Eu precisava experimentar o novo, para entender por qual caminho eu queria seguir. Saí de meus devaneios e Alice pareceu perceber que eu estava imersa neles.

— Acho que sim. E você, iria?

Alice soltou uma gargalhada e eu não entendi o motivo.

— Eu vivo assim. – ela estendeu – Prazer, nômade.

— Você não gosta disso?

Alice suspirou.

— Vamos nos sentar – disse enquanto apontava com a cabeça para um par de cadeiras vazias no canto. Pelo visto, íamos comer no Burger King. Nossa Senhora do Colesterol, me perdoe! Alice saiu na frente, analisou os lugares e sentou. A segui e sentei na sua frente. Era um pouco constrangedor conversar olhando diretamente nos seus olhos. Tornavam as coisas mais intensas.

Ela retomou.

— Conhecer as mais variadas culturas, é uma delícia. Mas eu sinto falta de estabilidade. E mesmo que – ela fez aspas com os dedos – você nunca tenha me visto aqui, sou do mesmo lugar que você. Apenas não passei minha vida aqui.

— E por que voltou?

— Porque sou teimosa. Estou contra a vontade dos meus pais. – Alice se pôs de pé – mas eles não são um assunto tão interessante. O que você vai querer?

— O mesmo que você. – respondei enquanto revirava meus bolsos para pegar o dinheiro.

— Pobre garota, péssima ideia. – ela percebeu o que eu estava fazendo e segurou meu ombro. Senti uma sensação estranha com o seu toque – Nem ouse fazer isso. Eu te trouxe para essa cilada, eu pago. Na próxima a gente vê.

E saiu em direção aos caixas. Pera aí, ela disse próxima? Poucos minutos depois, lá estava Alice com uma montanha de lanches e refrigerante. Céus, eu ia morrer com tanta comida. Me arrependi de ter pedido o mesmo que ela assim que a vi com um sorriso de escárnio enquanto sentava na minha frente novamente.

— Você ficou louca, Alice? – perguntei ainda apavorada com a quantidade de comida.

— Quem pediu foi você! – respondeu reprimindo um riso – Vamos lá, não seja fraca. Faça como eu e manda a ver.

Revirei meus olhos e comecei a tentar comer pelo menos um dos hambúrgueres que ela havia comprado para mim. Os momentos seguintes se resumiram na minha tentativa de comer como uma pessoa normal e Alice rindo descaradamente de mim. Limpei meus lábios e franzi o cenho.

­— O que tem de tão engraçado? – perguntei ligeiramente enfezada.

— Tudo! Se eu soubesse que seria tão engraçado, teria te levado ontem pra comer.

— Sem graça.

Alice parecia reprimir o riso tentando ficar séria e provavelmente sabia que falhava miseravelmente.

— Graças a deus que você não pode ler pensamentos. – pensou em voz alta.

— Eu posso. – a intenção era uma voz ameaçadora, mas só parecia um pinscher ladrando. Tão feroz quanto.

— Tanto quanto você sabe mentir? Aliás, você é péssima nisso. – Alice se levantou – Preciso ir, moça tenebrosa. Antes que fique tarde. Tenho que estudar.

— Você não tem cara de que estuda. – alfinetei.

— É, eu sei. E você não tem cara de que seja bem-humorada, então tá tudo bem. Ah, aliás. Você não é mesmo. – ela deu um tapinha no meu ombro – Anda, Júlia. Deixa de ser chata e implicante.

— Ok, ok. – bufei – Obrigada.

Ela pareceu confusa.

— Por?

— Foi legal, você sabe, passar esse tempo juntas.

Um sorriso iluminou o rosto de Alice por um breve instante, mas logo ela se recompôs.

— Eu sei que sou uma companhia incrível, então não precisa agradecer. – revirei os olhos em resposta e ela começou a gargalhar – É isso. Até depois, Júlia.

— Até.

Alice fez um breve aceno e em segundos a perdi de vista. Olhei para a mesa a minha frente e meu lanche estava praticamente intocável. Alice. Tive que sorrir. Por mais que eu odiasse admitir, seu jeito e a forma como conversávamos me fazia perder toda a noção do tempo. Olhei no relógio e já era quase 16h. Caramba! Minha mãe deve querer meu pescoço nesse exato momento.

Peguei o sanduiche e a batata que estavam quase intactos, embrulhei e guardei na minha mochila. Desperdiçar não fazia muito meu estilo. Saí praticamente correndo do Burger King em direção a minha casa, rezando para minha mãe não notar minha ausência. Ela provavelmente faria um questionário que eu não estava disposta a responder.

O caminho até em casa foi tranquilo e para a minha sorte, minha mãe não havia chegado. Ufa. Joguei minha mochila em um canto qualquer e coloquei as sobras o BK em cima da mesa da cozinha. Peguei meu celular para checar as últimas notificações e me assustei com o que vi.

Como aquilo podia estar acontecendo?

Admito ter aberto e fechado os olhos uma porção de vezes, para ver se eu realmente estava enxergando aquela quantidade de ligações não atendidas. Maldito modo silencioso. Absolutamente todas da minha mãe. Senti meu sangue gelar. O que será que tinha acontecido? Sem hesitar, retornei a última ligação. Prontamente minha mãe atendeu.

— Júlia – sua voz era firme – onde a senhorita estava esse tempo todo? Meu próximo passo era colocar a polícia atrás de você.

Pelo visto não consegui poupar o meu pescoço.

— Desculpa mãe! Meu celular ficou no modo silencioso, não vi as ligações.

— E onde estava? – ela ainda parecia brava. Talvez mais preocupada do que brava.

— Saí para almoçar com uma amiga, acabei perdendo a noção do tempo. – Conhecendo a mãe que tenho, ela provavelmente ia me dar um baita sermão por ter ficado tantas horas fora. Resolvi me defender de antemão – Mas olha, não tem que se preocupar. Não sou mais criança.

Ela suspirou.

— Mas age como uma. Quando vai entender que você tem responsabilidades? Você precisa focar no vestibular.

Vestibular. Esse é o ponto. Por que ela não pode simplesmente me deixar em paz com isso? Por que tenho que decidir e me preparar tão cedo para algo que eu nem sei se quero? Eu já estava farta disso.

— Tá, mãe. Não precisamos ter essa conversa de novo. Beijos, amo você.

Ela percebeu minha irritação.

— Não quero que fique brava comigo. Sabe que só quero o seu bem.

­— Às vezes você quer demais.

Ela ficou em silêncio na linha por alguns instantes. Típico.

— Espero que um dia você me entenda. Agora tenho algumas coisas para resolver. Juízo, amo você.

E desligou.

— Estou bem, mãe. Obrigada por se importar em saber como estou. – pensei comigo mesma.

Me joguei na cama e fiquei encarando o teto, agoniada com a minha atual situação. Eu não suportava mais tanta cobrança. Olhei para a pilha de livros do meu lado e afundei a cara no travesseiro. Ficar desse jeito não ia ajudar em nada. Em um ímpeto, me pus de pé e fui direto para o chuveiro tomar um banho bem mais demorado do que a minha mãe aprova. Ela merece esse ato de rebeldia.

Coloquei uma roupa de ginástica e decidi sair. Indo contra todas as regras, decidi sair à noite e correr pelas ruas. Talvez minha mente ficasse mais leve. Equipada com meus fones de ouvido, comecei com uma corridinha preguiçosa até pegar impulso e correr de verdade. Quanto mais cansada me sentia, mais motivada ficava. Eu precisava liberar energia. Precisava limpar a minha mente dessa chatice de estudos.

É óbvio que eu entendia o ponto de vista da minha mãe. No fundo, ela só queria o melhor para mim e eu não via mal nenhum em estudar. Só que a cobrança dela estava começando a impactar negativamente em mim, a ponto de me fazer perder a vontade de estudar. Não deveria ser desse jeito.

Não faço ideia de quanto tempo passei correndo pelas ruas próximas à minha casa, mas foi o suficiente para tirar o peso dos meus ombros. Eu me sentia renovada. Em passos curtos e cansados, comecei a caminhar até a minha casa. Não demorou muito e eu estava na porta, procurando as chaves para entrar, até que fui abordada por um par de mãos tapando meus olhos.

— Apertando meus olhos desse jeito, não fica tão difícil adivinhar que é você, Sofia.

Ela bufou.

— Você precisa ser tão chata assim?

— This is me. Aceita ou surta.

Sofia revirou os olhos. Isso me fez rir. Eu a conhecia desde que eu me entendo por gente, era de longe a amizade mais antiga que eu tinha. E a pessoa que mais me conhecia também.

— Você na rua a essa hora? Desde quando você é bad girl desse jeito? – dei um empurrão nela.

— Agora eu quebro as regras, saí no meio da semana a noite. É melhor você se acostumar com essa nova versão de mim. – respondi em um tom irônico. Desde que eu recebi o toque de recolher imposto pela minha mãe, qualquer tipo de lazer se tornou quase impossível. Exceto ler no parque. Disso, eu não abro a mão. – E o que você faz aqui?

— Vim te sequestrar pra gente sair. Acho que você encontrou uma melhor amiga nos livros, já que não se importa mais comigo e somente com eles. – ela fingiu uma cara triste.

Sorri.

— Não precisa desse drama todo. E você fala como se eu gostasse de ficar assim. – fiz uma pausa – Estou cansada, não tem como a gente ir amanhã?

— Tanto estudo e não sabe o que é sequestro? É bastante meiga a sua inocência de achar que tem escolha. – ela abriu o portão e praticamente me empurrou – Vai se trocar. Estou te esperando.

Revirei os olhos e obedeci. Era burrice discutir com ela.

*******

A noite com Sofia foi mais do mesmo. Ela me contando do mais novo crush dela, talvez o décimo do mês, reclamou da estagiária que trabalha com ela e o quanto o irmão dela era insuportavelmente ciumento. Nossa mecânica funcionava bem. Eu não era a pessoa mais animada da face da terra, mas Sofia era o completo oposto. Efusiva, se jogava de cabeça nas coisas e gostava de falar. Muito. E eu ouvia. A gente funcionava como uma espécie de yin yang e, talvez por isso, a nossa sincronia segue intacta depois de tantos anos.

Decidi sair um pouco mais cedo de casa para a aula. Precisava achar um novo livro para ler e meu orçamento não permitia comprar. Eu caminhava devagar enquanto olhava as estantes de livros, analisando com afinco as minhas opções – diga-se de passagem não eram muitas.

Sem sucesso algum, caminhei vagarosamente até a sala de aula para esperar. Arranquei uma folha do caderno e comecei fazer alguns rabiscos enquanto passava o tempo. Chegava a ser admirável como a ausência de barulho tornava o ambiente bem menos agoniante do que era quando estava cheio.

— Cara, eu fico impressionada como a pessoa consegue ser nerd. Essa hora no colégio, Júlia? Vai dormir, garota.

Tinha que ser ela. Alice.

— O sujo falando do mal lavado. Caiu da cama?

— Pior que sim. – ela puxou uma cadeira e sentou do meu lado – Aproveitei para pegar um livro que eu estava precisando – respondeu enquanto acenava com o livro na mão. – E aposto que você veio só pra me ver.

Senti meu rosto queimar. Ela percebeu e começou a sorrir.

— N-não. – droga, péssima hora para gaguejar. O mais rápido que pude, me recompus e tentei parecer indiferente – Vim procurar um livro novo para ler. O mundo não gira em torno de você, Alice. – dei de ombros – Fora que a gente mal se conhece.

Ela colocou a mão no queixo e parecia pensativa por um instante, mas logo voltou com seu sorriso de escárnio.

— É, você tem razão. Mas ei, é só brincadeira, tá? Seja leve. – seus olhos passaram pela sala ao nosso redor – Achou o que procurava?

— Não.

— Então foi pra me ver mesmo.

Revirei os olhos e dei um leve empurrão nela. Alice gargalhava como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.

— Desculpa! – disse enquanto reprimia o riso – Para você não me achar uma pessoa tão ruim, tenho algo pra você. – Alice começou a revirar a sua mochila. Já estava esperando a próxima gracinha dela, até que ela pôs um pacote de presente na minha frente. – Me senti mal pela brincadeira de ontem. Já que estava procurando, encontrou algo para ler.

Hesitei um pouco. Por que ela fez isso?

— O que me garante que não tem um explosivo aí?

— A minha palavra.

— E se tiver?

— Aí você vai explodir. Mas tem a chance de ver que eu não sou escrota 100% das vezes e posso ser gentil. Às vezes.

Desembrulhei o pacote e havia um livro. Para minha total surpresa, era um exemplar de “A Culpa é das Estrelas”. Confesso ter ficado balançada com a atitude de Alice. Ela não era tão chata e implicante quanto parecia. Folheei as páginas em silêncio. Ela não esperou a minha resposta.

— Não sei se você gosta desses romances mamão-com-açúcar, mas achei bem menos denso do que ler quatro vezes O Morro dos Ventos Uivantes. Espero que goste, qualquer coisa eu tenho a nota fiscal e você po... – interrompi Alice.

— Shh. Eu adorei! A sua sorte, é que meu fraco é qualquer tipo de leitura. Obrigada. – inconscientemente dei um abraço em Alice e as coisas ficaram no mínimo desconfortáveis. Senti seu corpo enrijecer e ela não demorou muito para ficar de pé.

— Esqueci que estou atrasada, tenho que resolver algumas coisas. – ela encarava o chão – Que bom que gostou do livro, a gente se vê por aí. – Deu uma piscada e desapareceu porta a fora.

Sem tempo de processar o ocorrido, os alunos começaram entrar na sala e minha mente pairava na sensação de abraçar Alice. O aperto no estômago ganhou mais relevância e eu não conseguia pensar em absolutamente mais nada. Talvez pela sua atitude, talvez pelo o que eu havia sentido ali. Eu já não sabia descrever o que eu sentia.

— Um presente? É seu aniversário? – perguntou Caio, um colega de classe.

— Não, não é. – respondi aérea enquanto guardava – Só um presente.

— Entendi. Pode me emprestar suas anotações de química? Eu faltei semana passada e preciso para estudar.

— Claro – entreguei meu caderno – quando terminar me avisa.

A aula seria longa.