Sete Dias Para Viver
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eram nove horas da manhã do dia 19 de abril de 2013. O frescor da primavera entrava pela janela do consultório médico, trazendo consigo o aroma das flores, que desabrochavam dia após dia, proporcionando uma bela sensação de relaxamento. Eu, que estava sentada numa poltrona macia, de frente para o Dr. Collor, sentia-me anestesiada, desnorteada, completamente sem chão. Era como se eu não estivesse ali, ou talvez estivesse, só que fora do meu corpo. O médico, sentado atrás de sua mesa, encarava-me com uma expressão séria.
–Ontem, às cinco e meia da tarde, a senhorita Kate Stuart foi trazida numa ambulância para esse hospital, confere? –perguntou o Dr. James Collor, forçando a vista por trás de seus óculos pequenos, enquanto analisava meu prontuário.
–Sim... –confirmei, olhando distraída para a janela que estava à minha esquerda, e sem nenhum sentimento na voz.
Depois de pigarrear, ele continuou:
–Você sofreu um acidente de trabalho e inalou uma toxina muito perigosa, confere? –sua voz parecia mais séria a cada palavra, o que me fez voltar aos meus sentidos e virar o rosto para encará-lo.
–Sim, eu sou bioquímica e trabalho num laboratório de pesquisa onde desenvolvemos novos fármacos. Aconteceu um vazamento de resíduos tóxicos e eu acabei inalando uma substância venenosa. –respondi de forma natural, porém, aquela conversa estava me deixando com um mau pressentimento.
–Então você está ciente de que a substância que você inalou é letal para o ser humano? –ele prosseguiu com o interrogatório, e meu coração acelerava a cada segundo.
–Sim... Na verdade, eu achava que a essa altura eu já estaria morta, mas como milagre, eu estou bem... Estou bem, não estou? –minha voz falhou nesse momento, um nó havia se formado em minha garganta e o mau pressentimento aumentava.
–Senhorita Stuart, nós fizemos tudo que estava ao nosso alcance: limpeza das vias respiratórias, transfusão de sangue, hemodiálise... Porém, uma pequena quantidade da toxina ainda permanece em seu organismo...
Era impossível controlar minhas mãos, que tremiam desesperadamente e suavam frio. Tentei entrelaçar os dedos e apertá-los, mas o tremor insistia em continuar.
–E o que isso quer dizer? Vou ficar com alguma sequela? –perguntei, já com uma voz de choro.
–Senhorita Stuart, você como uma conhecedora da substância que inalou, sabe que mesmo em pequena quantidade, ela ainda é letal, não sabe?
–Mas eu me sinto perfeitamente bem!- insisti, engolindo o choro e sorrindo falsamente.
–É só questão de tempo até que a toxina atravesse as barreiras de suas células e comece a destruí-las... –falou o médico, e desta vez foi ele que entrelaçou os dedos parecendo apreensivo, ao mesmo tempo em que seus cotovelos se apoiavam sobre a mesa do consultório.
–NÃO! NÃO PODE SER! EU ESTOU BEM! EU ESTOU BEM! –falei em voz alta, tentando convencer não só o doutor, mas principalmente a mim mesma, pois minha confiança fraquejava naquele momento.
–Senhorita Stuart, se acalme, por favor! Você precisa ser forte! – ralhou Dr. Collor, e ao olhar para mim, sua expressão era de pena, algo que me deixou irritada e ao mesmo tempo completamente desolada.
–O doutor não entende? É a minha vida! O doutor está querendo dizer que a qualquer momento eu vou morrer? –perguntei, ainda não acreditando que aquilo era real.
–Em alguns dias... –ele respondeu secamente.
–Hã? Está falando sério? Como...? Quanto tempo... Quanto tempo eu tenho de vida? –perguntei com a voz trêmula e os olhos cheios de lágrimas.
Dr. Collor levou uma das mãos à cabeça, apertando alguns fios de cabelo entre seus dedos. Logo depois, respirou fundo e disse:
– No máximo sete dias...
Após essas quatro palavras, eu não pude ouvir mais nada. Tudo parecia girar ao meu redor. O mundo não tinha mais cor, as lágrimas inundavam meus olhos, escorriam pelo meu rosto e caíam sobre as minhas mãos trêmulas. Dr. Collor tentava me consolar, mas a única coisa que eu ainda podia sentir naquele momento era o frescor da primavera que entrava pela janela. Aquele maldito frescor da primavera, que trazia consigo o cheiro das flores que desabrochavam a cada dia.
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