Sete Dias
5 Quinto dia
– Okay. – Mary disse após beijar Jeff e deitar ao seu lado. – Eu já contei tudo para você sobre eu e minha família, agora quero que você fale da sua.
– Mas você não sabe tudo sobre mim?
– Nem tanto. Nós dois sabemos muito bem que nunca podemos confiar totalmente no que se vê na internet. Nem tudo é verdade. E além do mais, eu quero ouvir a história de você.
Ele suspirou, puxando ela mais para perto e acariciando suas costas.
– Se é isso que você quer… Bem, você já deve ter lido em algum lugar que a primeira vez que eu usei uma faca para ferir alguém foi naquele dia em que meu irmão e eu estávamos no ponto de ônibus, aí logo chegaram aqueles idiotas dizendo que os novatos tinham que pagar tarifa.
Mary assentiu em silêncio e esperou.
– Então isso já resume bastante meu relato. Certamente você irá querer saber como eu me sentia quando eu fiz isso. Eu me senti… bem. Me senti forte e satisfeito. Não consegui sentir remorso algum por ter feito aquilo. A única coisa de que me arrependo sobre esse caso é que meu irmão foi preso em meu lugar. Meu irmão foi preso por minha causa. Isso ficou batucando em minha mente durante todo o tempo em que ele ficou no presídio. Ouvir meus pais falando dele como se ele fosse realmente alguém perigoso me deu um desconforto. E para não sentir mais isso, eu apenas… me entreguei por completo àquela nova parte poderosa e perigosa dentro de mim. E então eu parei de sentir culpa, dor, remorso, compaixão… Tudo o que uma pessoa normal sente.
Jeff deu uma pausa, revirando a faca em sua mão.
– No dia da festa da minha vizinha eu sentia que havia voltado a ser humano, mas um pouco mais diferente. Mais fechado, calado. Mas mesmo assim, humano. Meu irmão voltaria no dia seguinte para casa e eu acho que talvez tenha sido isso que trouxe um pouco de minha humanidade. Enfim, eu peguei a primeira roupa “social” que vi pela frente…
– Seu moletom branco e sua calça preta. – Mary acrescentou, pensando alto e Jeff assentiu.
– Minha mãe reclamou comigo, mas como estávamos atrasados ela deixou passar. Chegamos à casa da vizinha e ela foi nos receber com um sorriso enorme estampado no rosto. Ela cumprimentou-nos e falou que eu podia brincar com seu filho na parte de trás da casa, assim eu fiz. O filho dela, eu e mais alguns amigos dele ficamos brincando de guerra. Era uma brincadeira divertida até, mas fingir machucar pessoas não era tão divertido quanto machucar de verdade. Então, de repente, eu ouvi um barulho do outro lado da cerca e aqueles três meninos estavam lá novamente, dois armados e o outro com uma faca.
“Nós começamos a brigar. Um deles pegou uma garrafa de vidro e bateu em meu rosto falando: ‘- Vamos Jeff brigue comigo! Levante-se Jeff, seja homem’. Eu me levantei com o sangue escorrendo por meu rosto, todos na festa olhavam para nós apavorados. Mas os garotos não ligaram para isso, levantaram as armas e começaram a atirar contra mim, mas eu era rápido e ágil demais, consegui subir as escadas e entrar no banheiro.
Lá eu peguei um objeto duro e não muito pesado, saindo logo depois do banheiro e acertando um dos garotos com o objeto. De repente, eu sinto minha pele arder…”
– Os demônios em pessoa jogaram bebida alcoólica em você.
– Mas mesmo assim eu ainda encontrei forças para pegar a faca de um deles e acertá-lo. Ele caiu dando uma risada, então eu perguntei: “- O que é tão engraçado?”. Ele me responde: ‘- O engraçado é que está coberto de álcool!’.
“Meu olhar vai de seu rosto para sua mão, onde ele acende um isqueiro e o joga em mim. Eu andei para trás e acabei caindo da escada. A última coisa de que me lembro é dever meus pais tentando apagar o fogo de meu corpo.”
Jeff aproximou seu rosto do pescoço de Mary e deixou-o ali enquanto continuava a contar sua história:
– Quando acordei logo percebi que estava no hospital. Meu corpo estava totalmente enfaixado, até meu rosto. Algum tempo depois o médico decide tirar aquelas faixas de mim e quando termina, tudo o que eu ouço é o grito de horror de minha mãe. Eu corri até o banheiro e quando me vi no espelho, lembro-me de ter exclamado com um sorriso deformado: ‘- É perfeito! Combina totalmente comigo!’. Eu virei para minha família e eles estavam perplexos com minha reação.
“De noite eu fui até o banheiro para personalizar minha aparência. Minha mãe apareceu alguns minutos depois, despertada pelo barulho e quando me viu ela perguntou: ‘-Jeff o que você fez?’ e eu respondi: ‘- Não está vendo mãe? Agora eu sempre irei sorrir! Eu não estava conseguindo me olha quando meus olhos fechavam por isso queimei minha pálpebras. Não estou bonito?
As lágrimas já estavam em seus olhos quando ela me respondeu com um sorriso forçado: ‘- Sim filho, você está lindo!’.
Nisso, ela corre até o quarto dela e quando chega lá diz para meu pai que eu me cortei e que eu estava horrível. Que eu era um monstro! Mal sabia ela que eu estava bem atrás dela.”
Ele respirou fundo e selou o pescoço de Mary.
– Eu me lembro de ter gritado: “- Você mentiu para mim!”. Eu corri para cima dela e a esfaqueei, nem me lembrando mais que ela era minha mãe. Meu pai tentou me impedir, mas eu também o esfaqueei. Eu não conseguia mais sentir minha humanidade, eu sabia que ela já havia sido esquecida em uma parte muito obscura de mim. Tudo no que eu pensava era matar.
“Meu irmão ainda estava vivo e isso me desagradava um pouco. Fui até seu quarto e apontei a faca para seu pescoço. Com a movimentação ele acordou, olhando diretamente para mim. Eu apertei a faca contra a garganta dele e… disse pela primeira vez…”
– Shhh… Vá dormir. — Completou Mary automaticamente.
Ela acariciava o cabelo de Jeff, enquanto que ele permanecia com a cabeça no pescoço dela. Ele estava atormentado, durante anos ele tentou esquecer esse episódio, mas agora toda a dor reprimida voltou para ele como uma onda gigante, levando-o para o fundo do mar.
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