Leonardo tamborilava os dedos na mesa fria de mármore enquanto os três homens conversavam baixo. Ele sentia todos os músculos do corpo tensos, mas ao mesmo tempo sentia-se elétrico. Completamente acordado. Ele bem sabia que a arma guardada no bolso do paletó poderia ser usada dependendo da atitude das três figuras sentadas em sua frente. Gustave Ezell, o nome de inúmeras lendas e o primeiro vampiro conhecido, Kazuo Nanahara, estrategista e braço direito de Gustave, Ewan Kravchenko, ex-amante e pai de seu sobrinho Cameron. Dono de parte de um ódio latente que Leonardo guardava dentro de si. Cada um de etnia e aparências diferentes, mas que juntos haviam saído tão bem durante a guerra. Tanto que Leonardo estava ali implorando para um fim.

O ar estava quente e pesado. Leonardo começava sentir um peso no estômago, mil e uma perguntas passavam em sua cabeça. E se a resposta fosse sim? E se fosse não? Os senhores da guerra tinham suas mãos – mãos sujas de sangue inocente – o destino de tantas vidas. Principalmente a de Cameron que, com três anos, era a chave de uma disputa e que talvez fosse entregue como uma pequena marionete. Leonardo não se sentia como um titereiro. Se sua irmã estivesse viva nada disso estaria acontecendo, se ela ao menos tivesse se apaixonado por outro homem e não engravidado. A esposa de Ewan não teria pedido sua morte e Joakim Dobrev não a teria entregado... Se, se, se, se.

E, então, Gustave ergueu o olhar e encarou Leonardo. Os mesmos olhos verdes e os mesmos cabelos negros. Será que ele não vê a semelhança? Ele está tão morto que não sente o seu sangue correndo por minhas veias? Ainda parecia irreal que o parentesco entre os dois não fosse conhecido. Se nunca soubesse que era filho do vampiro, ainda assim ele sentia que o reconheceria no meio de milhões. Desde criança ele sentia essa poderosa conexão com o pai, Gustave era o seu pensamento, sua obsessão. Cada escolha de sua vida era baseada no que seu pai pensaria dele. Mesmo enquanto os dois lutavam em lados opostos da batalha, corpos se agredindo, balas sendo atiradas e facas jogadas para matar, Leonardo só queria saber no que o pai estava pensando dele. Será se eu estou à altura dele? Parecia que não.

— Onde está a criança? – a voz de Gustave era suave. Ele sempre soava como um amante apaixonado e não uma das criaturas mais cruéis e perigosas que vagava pela terra.

— Está no carro aguardando. – aguardando não seria uma afirmação correta. A criança mal podia entender toda a situação. Tão nova e ainda sem conhecer a real face do tio e do pai. – E a garota?

Garota? Leonardo às vezes ainda se perdia dos termos. A garota devia ter a sua idade, que daqui a dois anos chegaria aos quarenta, mas enganava os olhos com a eterna aparência jovem e saudável. Tão exótica com sua pele oliva e roupas coloridas. Ainda devia estar deslumbrada com a atenção do poderoso Gustave para ter aceitado ser trocada.

O acordo de trégua era que Leonardo e Gustave deveriam entregar entes queridos como prova de sua lealdade. Gustave exigira o filho de Ewan, Cameron e Leonardo pedira... ninguém. Quem era importante para Gustave? Todos sabiam que ele tinha um irmão, mas tinham uma péssima relação e provavelmente Gustave iria se felicitar se ficasse livre do irmão mais novo e Nanahara nunca iria aceitar ser a troca. Assim ofereceram a bela companheira de Gustave.

— Está no corredor. – A mansão em que estavam se reunindo era de Ewan. Uma casa recheada de luxo e peças valiosas, escolhidas a mão por sua companheira de longa data, Emilia.

Kravchenko e Nanahara haviam terminado a leitura do papel, o primeiro exibia sua famosa expressão de arrogância e desdém e o segundo apenas parecia neutro, com uma calma que não condizia. Impor regras a vampiros era uma atitude radical, um tanto extremista e moralista. E Leonardo sabia que dificilmente eles seguiriam com aquilo à risca, no meio daquelas regras – escritas como crimes – estava apenas um pedido: parem de nos matar.

— Realmente espera que nos curvemos diante disso? Alguns desses crimes são ridículos. – Kravchenko cuspiu as palavras, empurrando o papel. Uma aliança grossa reluzindo no dedo. Essa é nova, pensou Leonardo.

— Podemos fazer vista grossa em alguns crimes, foi assim durante toda a existência dos humanos. Mas não fecharemos os olhos para os outros, a pena é a morte.

— Não condenaremos nossa raça. – Nanahara se pronunciou pela primeira vez, o inglês saindo como se fosse sua língua natal. – Podemos julgar e banir os culpados e caso ameacem nos denunciar aos humanos, então falaremos em morte.

Gustave deu um sorriso de lado, aprovando as palavras de seu parceiro.

Leonardo sabia que não poderia ir embora dali sem um acordo, um final para a guerra. Os dhampirs haviam sofrido inúmeras perdas, dali em diante só haveria mais mortes. Estiveram em seu lado na batalha e ele sabia que lhes devia isso.

— Eu aceito, com a promessa que Joakim Dobrev será o primeiro julgado.

— Ele será banido. Agora vá buscar a criança, irei chamar Alena. – Gustave se levantou e Leonardo, como sempre, ficou embriagado com ele. Gustave era alto e esguio. O rosto era comprido e belo, seus cabelos estavam longos e cada orelha ostentava uma argola de prata. Ele tinha uma aparência elegante, mas rebelde. O completo oposto de Leonardo com seu terno alinhado e cabelos cortados.

Leonardo saiu da sala, tirou o celular e discou para Howard Hare, seu amigo que estava com Cameron. Ele atendeu rapidamente, e, quando escutou suas palavras, pôs-se a caminho. Uma onda de desespero passou por seu corpo, uma vontade insana de desistir do acordo e desaparecer com o sobrinho. Eu estou fazendo o certo? O que estou fazendo com a vida dessa criança? Eu me arrependerei disto?

Gustave adentrou na sala, desta vez acompanhado daquela que também seria trocada. Ela parecia serena, uma figura alheia à situação com um vestido longo colorido e braceletes ostentando no braço fino e bronzeado. Ela sustentou o olhar de Leonardo sem piscar. Ewan levantou-se da cadeira e foi se postar do outro lado de Gustave. Três pares de olhos. Verde, verde, azul. Nanahara continuou sentado, olhando para eles como um mero espectador, um visitante num museu bizarro.

Os passos do corredor anunciavam a chegada de Howard com Cameron, somente passos de um adulto. A criança ainda era tão miúda que vinha embalada em seus braços. Na primeira visão do menino, não havia como negar de quem ele era filho. Cameron era a miniatura de Ewan, os mesmos olhos azuis, o cabelo louro liso que escorria no rosto, o maxilar quadrado. O sangue italiano de Clarice não conseguiu vencer ali. Leonardo desejava que ao menos a personalidade fosse a mesma. Clarice era tão doce e sonhadora, vivendo num mundo gentil que só existia unicamente em sua mente. A realidade fora implacável com ela. O menino, ao reconhecer o tio, estendeu-lhe os braços e sorriu. Isso quebrou o coração dele. Ainda que os vampiros estivessem concordados com a visita de Leonardo a Cameron em datas especiais, o convívio seria cortado.

Ewan se adiantou e foi até a criança, tomando-o dos braços de Howard. Leonardo sabia que havia acabado. Alena beijou Gustave nos lábios e saiu do cômodo, sem deixar escapar uma palavra de seus lábios. Forçando os músculos a trabalharem, Leonardo deu um sorriso triste para o sobrinho e colocou as mãos nas costas do amigo, apenas com a certeza de que naquela noite, não havia se despedido apenas de seu sobrinho, mas de toda a paz interior e dignidade que restara nele.

Notas finais
Olá, voltei! Espero que tenham gostado deste início da história. Isso foi apenas a introdução para o capítulo 1, em que será pulado 16 anos.
Qualquer crítica ou dúvida, por favor, comente!
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Até mais. Beijos!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.