Sete Chaves

4 III. A verdade por trás dos olhos.


Notas iniciais
Vamos lá, estou gastando meu estoque de capítulos.

III A verdade por trás dos olhos.

Havia passado uma semana desde meu encontro astral com Psiquê e em comparações esdruxulas, conseguia me sentir aos poucos retomando a normalidade. Não havia mais me deparado com o lunático de olhos acinzentados, nem tão pouco meu professor de química suspeito.

Quase que o pensamento de que tudo não passara de um sonho muito vívido conseguia se fizer presente. Quase.

Eu sabia que não poderia passar de uma ilusão momentânea essa inocência. Sabia que não transpassaria de algo efêmero até finalmente toda a calamidade explodir de vez, forçando-me a enfrentar toda a inquietação que meu peito parecia bombardear por ansiedade. Alguma coisa se aproximava e eu tinha a impressão que provavelmente não passaria daquele dia.

Quando cheguei à mesa do café, estranhamente meu pai estava presente. E só meu pai, mais ninguém além de nós dois. Era um feito raro, deveria ser sublinhado. Victor McShane acordar cedo em plena semana não trazia consigo bons significados de trás. Além de que eu o estava evitando por considerações mais do que claras. Afinal, diante da admissão de Psiquê, isso colocava meu pai contra a parede de mentiroso crônico, já que sua história de como minha mãe me abandonara e ele logo após que nasci por falta de responsabilidade poderia ser visto como algo muito longe da realidade.

Então realmente adiei qualquer conversa que poderíamos ter que culminaria nesse âmbito; o que havia feito com maestria perfeita, até aquela manhã. Pareceu orquestrado por alguma sugestão divina. Supus que a possibilidade era verdadeira, porém tentei não segurar muito firme nessa ideia.

Olhei para os lados procurando minha irmã, e logo voltava a encarar o olhar esverdeado do meu pai.

— Cadê Lenna? — indaguei colocando um pedaço de pão na boca.

— Está doente, não vai para a aula hoje.

Não parecia muito contente em seus murmúrios, o que era normal devido ao fato de estar de pé tão cedo. Mas, como sempre, algo me dizia que este não mostrava-se como único motivo.

Limitei ao silêncio, lançando um murmuro compreensível enquanto me foquei em meu café da manhã apesar da falta de apetite. Estava até que complicado, de fato, porque conseguia sentir o olhar calculado do meu pai sobre mim.

Virei para encará-lo, alteando as sobrancelhas em um vislumbre confuso.

— Está tudo legal? — perguntei avulsa.

Victor sovou o ar.

— Não Elissa, não está — ele estava com aquele tom mordaz de quem preparava para lançar broncas consecutivas.

Encolhi-me sobre a cadeira e desviei meu olhar do dele.

— Eu vou querer ouvir isso até o fim?

— Provavelmente não.

Tive vontade de sair correndo e somente o "respeito mútuo" que havia entre meu pai e eu, fora o que me segurou sólida sobre o assento. Portanto endireitei-me, deixando as costas eretas e gesticulei com a cabeça, compreensiva, dando sinal para ele continuar.

Antes de tornar a dialogar, molhou a boca com uma xícara de café, quase como se tivesse tomando tempo para esperar. Mas esse não demorou, porque aquele olhar verde âmbar já se focava contra o meu.

— Seu professor de química me contatou — ele iniciara breve, com os cotovelos em cima da mesa e as mãos pairando cruzadas frente ao rosto. — E explicou a situação vigente em sua volta e acredito que chegou o momento de lhe contar a verdade.

Bom, diante dos fatos explanados, eu poderia atribuir mais um ponto à precisão exímia de meu instinto. De quarta feira não passava, obviamente. Talvez eu devesse começar a apostar em jogos de azar.

Divagações a parte, tentei não encara-lo, focando novamente me meu pão. Agora que o estopim para aquela conversa acontecera, não queria que ele percebesse o lampejar de ira sobre minhas íris que era movido pelos anos de escuridão.

— Se é sobre Psiquê pode poupar o trabalho. Eu já sei de tudo.

Ao meu lado, quase pude vê-lo arfar diante da expressão surpresa em seu rosto.

— Como?!

— Ela me contatou quarta passada em um... Sonho? Bom, algo próximo disso — expliquei sucinta em uma conotação quase cética.

Recobrando a pose, Victor não parecia mais tão surpreso e apenas meneava a cabeça em um gesto compreensivo.

— E acredito que evitou a conversar comigo — adivinhou e eu pude vê-lo brincar com o tom autoritário que estava prestes a nascer.

— Precisamente.

Suas mãos saírem de frente do rosto, e a destra voou sobre a mesa, fechando em um punho assim que tocou sobre a madeira. Tentei não exasperar, mas o ímpeto bruto não era nada esperado até então.

Por sorte, pelo menos, aquela era uma mesa resistente. Somente tremeu o suficiente para a xícara dele quase vazia tombar para o lado.

— Não querer conversar comigo sobre isso eu até entendo. Mas porque não me contou sobre o graceus que estava te perseguindo? Pelo menos era o mínimo a me informar para eu tomar medidas!

De novo aquela palavra e de novo o mesmo desdém impregnado, como se fosse uma ofensa das piores. Franzi o cenho e minha boca alinhou nervosamente. Estava preparada para lhe soltar uma bela resposta quando pude perceber seu rosto.

Meu pai era um cara bonito, pelo menos de acordo com as minhas amigas. Cabelos dourados e lisos como os meus, mas os deles eram naturalmente mais comportados, sempre puxados para trás com gel. Traços másculos de um rosto quadrado, embora delineados com uma leveza que era quase difícil assimilá-lo em uma expressão de raiva. Ele sempre parecia iluminado até quando não tentava.

Em outras palavras meu pai parecia um pequeno sol. Um pequeno sol que eu via murchado gradativamente, perdendo seu brilho em meio a estresses misteriosos. Bem, talvez não mais tão misteriosos.

O problema é que naquele instante eu não conseguia o reconhecer. Ele estava triste, verdadeiramente. Lábios encurvados para baixo, o brilho esverdeado opaco e nuances de desespero sobre os traços.

Não demorou muito para eu perceber o que acontecia. Ele estava se sentindo desamparado pela minha falta de confiança. Eu realmente acreditava nisso. Então no momento que vi, suavizei meu rosto, vacilando em minha pose de atitude e sucumbi para minha culpa.

— Eu nunca mais o vi, pai... Achei... Achei que era nada. Desculpe.

Pude o ouvir suspirar.

— Bem... Seu professor me contatou três dias atrás, e até então, venho mastigando o pensamento e tomei uma decisão que espero você concordar. É para seu bem, eu lhe asseguro.

Levantei a cabeça, o lançando um olhar confuso.

— Você vai para um acampamento de semideuses em São Francisco. Hoje mesmo de preferência — abri a boca para argumentar, mas logo ele retomava as palavras. — Por favor, antes de falar qualquer coisa, considere que agora como ciente de sua situação, não ira demorar até mais e mais monstros começarem também a notar.

Aquilo havia sim me pegado de surpresa. Fechei a boca e a abri umas três vezes, tentando procurar palavras para me expressar. No fim, fiquei com o óbvio:

— Monstros? Do que você está falando?

Um baque de realidade pareceu lampejar sobre seus olhos e com isso, sua mão foi a testa.

— Você nunca viu um cara-a-cara, claro — afirmou consigo mesmo, esboçando um meio sorriso ao canto dos lábios, após. — Bom, isso significa que fizemos um bom trabalho.

— Pai, uma luz? — pedi.

— Oh, sim, perdão. Lembra quando você tinha 12 anos e lhe mandamos para aquele Acampamento Religioso por um final de semana? — fiz que sim com a cabeça. — Lembra-se de quando você voltou eu estava com o braço quebrado? — continuei afirmando. — Uma quimera estava em sua cola por uma semana inteira e tivemos que ganhar um tempo para mata-la, por isso a mandei para longe. Mas a cauda dela conseguiu me atingir em dado momento, e você não tem ideia da força dessas criaturas... Enfim, conseguimos por um fim, mas ela quebrou meu braço. Nunca mais usei um arco da mesma maneira... — explicara em tons quase que triste, principalmente na última fala. Mas respirou fundo, e tornou a me olhar. — Deixando bem sucinto, você tem um cheiro que atraí monstros mitológicos. Bem, todo meio sangue tem. E agora que você está ciente da sua situação é uma questão de tempo até eles também estarem. Além do Cupido, lógico. Nós vacilamos demais.

— Por que você está falando no plural? — isso saiu no automático e tão baixo que nem fora escutado.

Enquanto meu pai divagava, eu provavelmente estava tão confusa como a própria confusão em si. Psiquê não havia me contado tudo e não sei porque me permiti a ficar surpresa diante do fato.

Puxei o ar tão fundo que pensei que fosse ficar tonta. Mas bem, eu ainda estava em choque em algumas coisas. Como assim eu deveria ir para um acampamento em São Francisco? E a minha vida aqui? Lenna, Grace, Caleb... Até minha própria madrasta subitamente me fez falta.

Então me levantei da cadeira, de supetão, e colei meus braços do lado do corpo com firmeza. Meu pai me olhou assustado.

— Bem, eu não vou para esse acampamento. Na realidade, eu vou para o colégio porque estou atrasada. Passar bem.

Meu timbre não era dos mais simpáticos, pude supor pela expressão de Victor e pela cabeça de uma Eva assustada que apareceu na porta da cozinha. Com passos pesados fui até a sala, já pegando minha mochila quando a campainha tocou.

— Quem vai visitar outra pessoa às 7 da manhã? — estava começando a ficar rabugenta, admitia.

Meu pai passou calmamente do meu lado, um tanto quanto contente na realidade. O que não me fez muito sentido mediante ao fato que há poucos segundos atrás eu mostrava meu primeiro ato de rebeldia.

A situação triplicou em nível de loucura quando ele abriu a porta e dela, Sr. Turner aparecia carrancudo e atrás dele, o louco de olhos acinzentados acenava contente para mim.

Toda aquela aura de felicidade do meu pai esvaiu em poucos segundos.

— Você trouxe um graceus para a minha casa, Vincent?! — ora, então o nome dele não era Sr. Turner.

Quando o homem ia responder, o louco acinzentado pareceu não conseguir conter sua ansiedade. Empurrou meu professor e meu pai para o lado e rapidamente quase correu em minha direção. Como reflexo eu já dei um passo para trás, esgueirando entre o sofá e deixando o móvel separar a gente.

— Elissa, estava ansioso para nosso próximo encontro! — a emoção parecia quase palpável no olhar tempestuoso.

— Fique longe da minha filha! — meu pai rosnou pegando ao braço dele em um aperto firme. O homem virou, em contrapartida, lançando uma indagação silenciosa.

Sr. Turner logo interveio conquanto, colocando a mão sobre o ombro do meu pai e apertando.

— Calma Victor, você sabe que ele não é nosso inimigo. E ele tem um argumento bem válido para estar aqui.

Embora em tons tranquilizadores, isso não pareceu acalmar meu pai o suficiente. No entanto Vincent se viu satisfeito quando o aperto sobre o braço afrouxou até nãos mais existir.

Meu pai virou para encará-lo com a expressão ainda rígida.

— Pode não ser nosso inimigo ainda, mas de longe aprecio esse homem tão animado perto de minha filha — rebateu áspero, virando mais uma vez para fitar o louco. — O que você quer com Lissa?

O louco acinzentado piscou algumas vezes, incrédulo e atônito se pudesse ser visto juntos. Seu jogo de corpo mudou, e antes a postura sempre envergada aprumou, e eu pude ver que ele era bem mais forte que acentuava quando relaxado.

De alguma forma isso me fez sentir-me imponente no meio de tantas figuras que irradiavam essências tão contundentes.

— Sua filha é uma raridade, me deixe contempla-la uma única vez em prol de do futuro — explicou sério. — Psiquê teve poucos filhos, sabia? Elissa é a primeira em séculos, por ventura. Pode ser minha única chance de catalogar a intensidade dessa menina.

Estava começando a me sentir como um objeto de laboratório; ou quem sabe, desde que descobrira tudo, como o fruto proibido que estivesse marcado por divindades poderosas. O que me fez indagar rapidamente se os homens ali sabiam de minha sina mórbida.

Talvez meu pai, porém decidi me conter de porquês, até pois, acabava de descobrir que não era filha única, teoricamente. Realmente, a deusa fora bem curta nas explicações, não é?

— Você quer estudar minha filha, é isso? Saia da minha casa seu grego doente — a expressão em sua face não era das melhores.

O grego pareceu ofendido, fazendo-me ficar surpresa pela capacidade dele de demonstrar consciência.

— Estudar? Alguém interpretou muito errado minhas intensões. Só quero conversar com Elissa, a colocar sobre um inquérito rápido. É tudo em vigência de nossa sobrevivência, veja bem, afinal foi o acordo registrar todos os semideuses diferentes. Estou reescrevendo nosso legado, arquivando para futuras necessidades. Você sabe muito bem como essas últimas décadas foram prometidas guerras. Senão tivéssemos Quíron...

— E Lupa, não esqueça — rapidamente complementou Vincent.

— Sim claro, a romana também — o louco não parecer muito contente em admitir e disse com uma expressão de quem tinha algo amargo na boca. — De todas as formas, eu preciso somente de uma visita ao Acampamento Meio Sangue. Coisa de dois dias, depois ela pode seguir para onde quiserem.

Não havia gostado dessa última frase, como se eu fosse alguém fadada a ser obediente. Então cruzei meus braços e cocei minha garganta, clamando por atenção. Assim que os três viraram para me encarar, acenei irônica.

— Essa menina que vocês tanto falam está aqui, para descargo de consciência. Que tal perguntarem o que eu acho das coisas antes de já saíram criando planos, hein? Parece bom — bom, eu não estava nada contente até dado momento.

Meu pai olhou quase que culpado, todavia continuou firme perante o porte.

— Elissa, por favor, vá para o seu quarto arrumar uma mala. Você partirá hoje mesmo para São Francisco.

Eu e o louco nos exaltamos no mesmo momento.

— Por acaso entendeu a urgência do que eu disse, romano? — ele falou primeiro do que eu.

Quando foi a minha vez de argumentar exasperada, eu senti algo mudar na sala. O olhar esverdeado do meu pai tornou a brilhar perigosamente e se pudesse, eu poderia ver uma sombra quase assassina serpentear em torno de si.

— Você quer conversar? Ótimo, converse. Vá junto com ela para o Acampamento Júpiter, mas está redondamente enganado que vou deixar minha filha ir para o Acampamento Meio Sangue. Ela é romana como eu, crescerá no mesmo ambiente que cresci e lutará da mesma forma que luto.

Meu pai estava exaltado e era a primeira vez que eu presenciava isso cara a cara. Uma leve tendência assassina eu podia enxergar, uma fome selvagem, talvez. Não soube disse muito bem, mas conseguia dificilmente ignorar esse sentimento urgente de sair correndo que me assolava.

Vincent, o grande salvador, interveio mais uma vez, contudo. Seu corpo todo estava rígido e o maxilar do homem travava ao fixar da atenção no meu pai.

— Controle-se Victor... — Foi à única coisa que eu ouvi, porque após isso, ele sussurrou alguma coisa para meu pai que subitamente parece acalmar.

No meio disso tudo, eu já estava com vontade de sair correndo. Mas a inviabilidade de conseguir tirar os olhos da situação era quase um centro gravitacional, e me via instigada a permanecer, desobedecendo à ordem de um pai que logo partiria para a violência contra um louco.

O homem em questão permaneceu soturno. Cenho decaído, boca franzida em uma linha de pensamento. Ele havia reconhecido alguma coisa, acreditava. Ou estava totalmente assustado.

A primeira sugestão se fez real quando um sorriso certeiro enalteceu em seus lábios, e o olhar tempestuoso brilhou de orgulho do nada.

— Ah... McShane, claro! — proferiu brincando com uma arrogância discreta. — O filho do Sol que é escravo da Lua. Ora, finalmente apareceu, não é? Seus dezesseis anos em anonimato então se deu por causa de Lissa... Oh, Eros deve ter assustado horrores.

Não sabia o que aquilo significava de fato, mas pareceu ser o estopim para toda ira que meu pai tentava reter em um mantra. Ao último tecer do comentário venoso do louco, eu pude ouvir um rugido explodir da garganta, e antes que todos pudessem assimilar, meu pai avançava contra o pescoço do mesmo, em um ato tão selvagem como se fosse possível.

Ambos caíram ao sofá, e eu pude sentir a intenção assassina cada vez mais dominante sobre a essência do meu pai de uma forma que eu podia tocá-la se quisesse.

— Sai de cima dele pai! — bradei em desespero, tentando me aproximar para empurrá-lo quando senti os braços de Vincent envolver minha cintura, me levantando do chão. — Me solta agora! Me põe no chão! Ele vai mata-lo! — eu pedia socando-o os braços, contudo algo me dizia que pareciam cócegas para ele.

Meu pai pendurava ainda em cima do louco, e sua mão arrodeava sobre o pescoço do mesmo. Eu poderia sentir a fragilidade da pele em minhas mãos, a vontade latente de dilacerar com as minhas garras. O gosto de sangue se fez saudoso em meu paladar. Eu somente poderia fazer um movimento para mostrar minha superioridade diante a tal ordinária criatura, e ele submeteria a minha vontade, abraçando a morte em minha responsabilidade.

Então eu percebi que essas não eram minhas emoções. Nem de longe, na realidade, deveria corresponder ao que sentia. Por que quando o amago do meu pai dominou sobre o meu, o desespero de ver o homem que me criara cometer um ímpeto tão impiedoso era a única coisa que eu pensava.

Não mais, no entanto. Eu sentia uma raiva que eclipsava todas as minhas virtudes. Um sentimento leproso de caos, de fome. Uma cor rubra tomava minha visão e eu me via rosnando.

Matar, matar e matar.

Tão absorta como estava, minha consciência apenas recobrou quando senti o vento gélido daquela manhã de outono acertar minha face e me despertar, fazendo a visão da entrada do meu prédio ganhar notoriedade pelo olhar turvo que já melhorava. Ao meu lado, Vincent estralava os dedos em meu ouvido.

— Elissa... Lissa! — clamava por minha atenção, quando finalmente constatei que ele havia me tirado do apartamento assim que pareci finalmente comandar minha mente.

Olhei para os lados antes de responder, e depois para cima. Minha mente voltou nos acontecimentos da sala e mais uma vez, me dispus ao desespero.

Virei meu corpo, dando meia volta para começar a correr em direção ao prédio quando Vincent segurou-me pela gola da minha jaqueta, inviabilizando meus movimentos. Ele era inumanamente forte. Todavia tão pouco desisti e tentei me desvencilhar das mangas.

Também não deu muito certo, porque assim que escapei da jaqueta, ele me segurou pela blusa.

— Caramba, me deixa entrar. Minha irmã está lá dentro, meu pai, Eva, Courtney... Até o homem louco! — argumentei me debatendo.

— Leanne e Courtney não estão Lissa. E não se preocupe que Eva pode se cuidar muito bem sozinha — eu podia sentir a ironia escorregar nas palavras finais e que ele evitará responder sobre o homem.

As primeiras, no entanto, captaram minha atenção e me vi relaxando nos movimentos para encará-lo, com a dúvida pairando sobre o olhar.

— Onde estão Lenna e a minha madrasta?

— Viajando. Foram hoje de madrugada. Seu pai fez questão de priva-las da discussão que ele supôs que teria com você — explicou calmo, e eu poderia ver que ele estava controlado em demasia.

Cerrei as pálpebras e limitei a ficar em silêncio por um segundo. Quando cogitei a possibilidade, tentei correr novamente, aproveitando de uma surpresa.

Bem, não dei muito certo, porque podia sentir seu braço enlaçar em torno do meu tronco mais uma vez, impedindo-me de continuar por mais que minhas pernas corressem furiosamente.

— Qual é seu problema? Meu pai vai matar aquele cara e você fica ai me parando? Temos que ajudar! — rebati incrédula com a falta de tato sensitivo.

— Ah é mesmo? O que você ira fazer para impedir? Estou curioso — via o desdém brincar em sua face rígida.

Diante da pergunta, eu não obtive qualquer resposta, pois era indubitável o fato de minha inutilidade. Gradativamente parei de me debater e vacilei sobre os joelhos, cambaleando até o chão. Foi inevitável, no fim, sentir a umidade em meus olhos, não delongando a escorrer lágrimas silenciosas.

Em algum ponto eu sei que comecei a tremer porque delicadamente Vincent segurou em meus ombros, me pondo de pé, e foi um tanto quanto difícil me manter daquela forma. Eu nem contestei, também, quando senti o guiando até uma camionete e me colocando ali dentro.

Só fui falar quando o mesmo sentou ao meu lado, no motorista, e o silêncio pendurou por uns 10 minutos. Naquele ponto eu já tinha me acalmado, todavia o pensamento que meu pai estava matando alguém e tão pouco podia fazer algo para impedir me corria.

Ou talvez fosse porque eu realmente queria acreditar que quando senti tudo o que meu pai sentia, fosse apenas um ato efêmero. Mas ao julgar pela intensidade subjetiva, eu sabia que era uma esperança ilusória, exatamente como Eros havia prometido. Meu pai não era em nada o homem que eu julgava conhecer.

Limpei meu nariz com a manga da minha blusa, percebendo que estava com frio. Vincent ainda tinha minha jaqueta em suas mãos, o que me fez inclinar para pegá-la. Como me olhava, não ficou surpreso e apenas estendeu, não tecendo comentário algum.

— O que vai acontecer agora? — minha voz saia tremula e baixa, parecendo um sussurro.

Vincent ajeitou-se sobre o banco de couro, e eu pude perceber pela primeira vez como era parecia musculoso para um professor de química. Deveria ter entre 30 anos, um tanto quanto jovem até, como Grace e eu sempre comentávamos. Cabelos negros como a noite e olhos ônix que poderia gelar qualquer estudante quando fitados da forma rígida que somente os rebeldes recebiam até então.

Mas ele não era bonito. Pelo menos passava longe do meu conceito de beleza. Ele tinha um rosto muito estranho; para dentro, como se tivesse levado um soco na infância, fazendo seu queixo salientar chamativo. E a boca dele fazia um bico naturalmente.

Grace era apaixonada por ele. Eu? Bem, digamos que ele nunca assolou meus sonhos de colegial.

— Você vai para São Francisco.

Não pareceu ser uma pergunta e até aquele momento, eu não me via com vontade alguma de contestar qualquer escolha. Na realidade, se me deixassem, provavelmente eu dormiria até o fim de minha vida.

Pensamentos mórbidos não eram tão comuns só que eu estava precisando de uma folga até então, logo me dei o luxo de dramatizar.

— E meu pai? — arrisquei a perguntar, vendo-o cerrar as pálpebras.

— Te contarei no caminho. Tudo — prometeu e pelo vislumbre de seus olhos eu soube que era verdade.

Vincent ao findar dos dizeres, inclinou para frente, ligando a camionete. O som doce de algum folk que tocava ao radio alcançou-me os ouvidos e a última coisa que eu ouvi fora a voz firme do meu professor me pedindo para dormir.

Notas finais
Espero que tenham gostado, adios.