Sete Chaves

3 II. O silêncio da alma.


Notas iniciais
O último do dia, glória? Não, sem glória.

II. O silêncio da alma.

O meu corpo parecia flutuar sobre um mar intangível, e um cheiro doce fazia cócegas em meu nariz.

Quando abri os olhos, pude notar que estava de fato flutuando. Em minha visão, se estendia para qualquer direção que eu olhasse apenas uma escuridão plena e silenciosa, como eu acreditava que a morte seria. O único corpo luminoso era o meu próprio, que parecia expelir uma luz alva e delicada, como seu fosse uma lâmpada fraca.

Não demorou até eu perceber que deveria estar me sentindo desesperada, porém não era o que acontecia. Certa sensação calorosa e confortável me rodeada, como um calor puro, assegurando-me que tudo ficaria bem.

Como James.

Mas eu sabia que James não tinha nada haver com isso, como poderia? Era apenas um sonho... Parecia, pelo menos. Só que eu sabia que não era. Aquela sensação antes a pouco sentida, da energia me envolvendo como uma mão e parecendo puxar minha alma para fora do corpo havia sido real, e me conduziu para exatamente onde estava.

Podia tudo ser fruto de minha mente, naturalmente. Todavia até então, eu levava como uma realidade.

Comecei a me mover e mais parecia que eu estava nadando. Entre minutos que mais se assemelhavam há horas, ou horas que mais pareciam minutos, eu percorri a escuridão perpétua em busca de qualquer coisa; o silencio se fez presente, assim como a solidão e pouco a pouco, tomei a ficar desamparada.

Era de supor que isso eventualmente aconteceria. O ruído do silencio começava me proceder, contundente. Até dado instante, girei em meu próprio eixo incontáveis vezes no clamar de qualquer luz ou som distinto.

Consecutivos brados e arfadas escaparam da minha garganta. Meu mar intangível não tinha gosto, mas eu podia sentir sua essência acariciar minha língua. Eu poderia estar de ponta cabeça que não notaria, igualmente em gravidade zero.

— Alguém aí? Por favor... — clamava implorando e o som da minha voz reverberou ao nada.

Foi então que um caminho acinzentado tornou nítido abaixo da posição que eu encontrava, e uma luz purpura emanou em suas bordas, chamativa. Não fora surpresa que movi desesperada até lá, e pude ficar confusa mais uma vez quando senti uma gravidade me puxando assim que meus pés tocaram sobre o piso.

Quando olhei para baixo pela primeira vez que me vi ali, constatei que estava nua.

Não tive tempo de ruborizar, no entanto. Até, pois, não deveria me envergonhar da solidão. De todas as formas, uma trilha de formigas prendeu minha atenção, cruzando toda a distância em um alinhamento natural da espécie.

Algo dentro de mim não precisou instigar muito aderente, pois institivamente minhas pernas acompanhavam lado a lado, trilhando até o fim o caminho que até então parecia reto, embora eu estivesse crente eu em até dado ponto, havia cruzados sobre meios tangenciais, nivelados diferentemente embora.

Não me cansei, mas sabia que estava um tempo caminhando. Quando a trilha de formigas se perdeu já que eu estava muito mais rápida, foi que eu notei a primeira nivelação visível do caminho. Delineado pela mesma luz purpura, pequenos degraus se formaram ao piso cinza, dando o meio para alcançar um espaço que minha visão daquele ângulo não alcançava.

Pela curiosidade latente, evidente, foi certo concluir que eu corri quase desesperada. E não me arrependi da visão que tomou sobre o meu novo horizonte.

Ao pisar no último degrau contemplei a figura de um enorme avatar negro e etéreo, contornado pela mesma cor púrpura, embora tomasse formas discretamente familiares para mim.

Era de uma garota alta, com cabelos longos e sutilmente ondulados. Os traços delicados e levemente embelezados me levavam a relembrar fracamente de Grace quando mais nova. Ou talvez fosse eu? Diante da falta minuciosa de detalhes, permutei sobre a indagação mental, cerrando minhas pálpebras em busca de um reconhecimento preciso.

O avatar que até então encontrava-se parecendo dormindo, diante da falta de movimento aparentou despertar, lentamente abrindo os olhos e exibindo o tom arroxeado e brilhoso que tinha no lugar. Não fiquei surpresa, realmente. De alguma forma, era a coisa mais óbvia que parecia sair de lá.

— Elissa Rose McShane, aproxime-se — proclamou com um timbre uníssono de várias vozes, embora sem mover os lábios.

Bom, que era para mim, parecia ser óbvio. Mas da mesma forma, procurei com o olhar qualquer outra pessoa ali; pelo menos alguém que pudesse ter chamado.

Ao afirmar minha usual solidão, não temi em continuar meus passos mais uma vez, somente parando tão próxima do avatar que era possível ela me alcançar apenas com um inclinar.

Não demorou mais uma vez ao novo anunciar acontecer, embora dessa vez a voz parecesse muito menos um somado de várias vozes femininas. Dessa vez assimilava a minha própria, um tanto mais doce, eu diria.

— Teu próprio destino não pode mais ser evitado. Por muito tempo guardei-a a sete chaves, em um ninho de proteção quase perpétuo. Mas ele lhe descobriram, finalmente... — a voz parecia morrer em gemido desgostoso de pura decepção. — Ah minha criança, os fardos que lhe joguei através de uma aventura deveriam ser só meus, eu assumo. Mas que destino tangível poderia afetar uma imortal? Os mais frágeis submetem aos mais fortes. Essa sina recaiu a ti, inevitavelmente.

Eu queria dizer para voltar desde o inicio, porque a realidade que é que até o próprio ambiente parecia fazer mais sentido do que as palavras provindas do avatar imóvel.

Cocei minha garganta, interrompendo rapidamente um devaneio desnecessário.

— Poderia partir para uma explicação mais óbvia... Deus?

Bom, eu julguei que era deus. Antes errar por soberba do que por carência, não era mesmo?

A voz riu seca, como se tentasse escolher se ficasse ofendida ou sucumbisse à graça impregnada. Pareceu escolher a segunda opção, porque o tom dócil tornou-se mais uma vez dominante quando recobrou seu direito de fala.

— Eu não sou deus, minha querida. Nem algo próximo disso. Sou uma mortal que virou imortal; uma divindade diferente, que foi submetida a testes tão vis movidos pela superficialidade — respondeu ficando m silêncio após, parecendo acreditar que havia sido o suficiente.

Diante o meu silêncio, e semblante muito mais confuso do que antes, não demorou as falas prosseguirem seguidas de um suspiro:

— Sou Psiquê, criança. Personificação da alma, mulher de Eros, mãe do Prazer... Reconhece?

Tentei realmente buscar em minha mente e a única psique que conhecia era a própria palavra em si. Provavelmente não fora meu melhor ato estudar tão pouco sobre mitologia em gerais, então eu não deveria estar fazendo um bom papel na frente da mulher.

— Hm... Desculpe.

Foi à única coisa que consegui dizer já que me sentia completamente inviabilizada. Em resposta o som de uma risada tão doce como o tocar de uma harpa chegara em meus ouvidos e rapidamente um sentimento confortável me envolveu.

— É de supor que me desconheça. Sou o que? Uma mera menor diante tantos grandes? Mas por favor, não diminuía minha importância assim que descobrir sobre mim. O toque de uma alma pode ser mais devastador que o próprio bronze, você sabe — Psiquê parecia bastante altiva na última frase causando-me um receio inatural.

— Sei?

Ela soltou um murmurar de quem concordava, limitando-se a isso por breves momentos antes de retomar ao tom dissertativo.

— Sua empatia lhe torna única, mas receio que já deve ter notado. Facilmente influenciável por emoções terceiras, e apenas um único contato já lhe faz conhecedora exímia, não? Ora, eu estive te observando — o tom de explicação conseguia me incomodar um pouco pela veracidade de tudo aquilo. — Sente o que as pessoas sentem até no físico, estou certa. Dores de cabeça, preocupações, alegrias... Vamos, eu posso continuar com isso o dia inteiro.

Sinceramente algo em mim dizia que eu não iria gostar em nada o rumo que aquela conversa tomava, parecendo-me colocar contra a parede. Talvez fora por isso que tentei virar o jogo, tomando um porte quase mais descrente.

— O que você quer provar com tudo isso?

Psiquê murmurou, como se pensasse, e o avatar pela primeira vez se moveu, tremulando rapidamente. Antes que eu pudesse perceber, sua forma diluía ao ar como fumaça, e ao centro dele, uma mulher um pouco mais velha que eu parecia ganhar forma, reluzindo a mesma luz alva que minha pele.

Bem, ela era linda. Não aquelas lindas que vimos em passarelas ou em televisões. Era uma beleza natural, que conseguia despertar até os sentimentos mais amenos em meu peito. Uma devoção pareceu nascer em um ímpeto, mas logo era cessada, porque a essência da mulher parecia ser tão iluminada que eu mesma me senti mais uma vez receosa.

Ela me assustava pela o exagero em praticamente em tudo.

Psiquê aproximou de mim e pude notar de perto seus traços. Cabelos negros como a noite, e ondulados nas pontas. Vestia uma toga antiga, onde era enfeitada por broches fofinhos, que a faziam parecer uma debutante. Diante da luz, não pude conseguir visualizar muito mais, todavia a cor rubra aos lábios ainda conseguia fazer-se chamativa.

Ela pôs a ficar em minha frente, tomando proporções de tamanho finalmente normais, e eu pude ver que ela um pouco maior que eu, por isso nossas visões eram praticamente niveladas.

Um sorriso terno cresceu aos cantos dos lábios carnudos e eu tive a impressão que ela fosse me abraçar.

— Só quero provar sua capacidade, minha criança — sua voz agora não era nada parecida com a minha. Eleve cantos divinos a cem e talvez consiga algo próximo. — Só quero provar sua linhagem, sua diferença. Você não é normal, Elissa, e está na hora de tomar conta disso.

Não fiz menção de responder; até porque não conseguia. Mas talvez pelo meu cenho decaído e confuso, com nuances de indignação, Psiquê mais uma vez retomou as suas explicações.

— Não mistura falsa confusão com não aceitação. Eu lhe conheço ao âmago. Eu vejo sua alma, sinto-a. É sangue do meu sangue, carne da minha carne. Talvez não haja ninguém tão conhecedora de Elissa Rose McShane como eu. Talvez até mais que a própria. E é por isso que eu falo: aceite todas as suas dúvidas como realidade, e abrace a nova vida que lhe espera. Pare de fugir dos temores, dos pensamentos, das incertezas. A realidade pode parecer louca, mas é, pelo menos, palpável.

Eu sabia que não gostaria do rumo que aquela conversa tomara. Meu instinto tão pouco me enganava nas diversas vezes que apitava. Mas, se por ventura eu realmente fosse seguir assídua meu instinto, talvez Psiquê não precisaria estar me dando esse sermão cortês.

O que eu não entendia, ainda, era o porquê da necessidade. Se fosse apenas trazer clareza diante minha vida, havia outros meios menos trabalhosos. Além de que, eu realmente não havia entendido a fundo o que ela queria dizer com eu ser diferente.

Certo, eu não era idiota. Pelo menos, gostava de me considerar sagaz no limite do possível. Diante dos acontecimentos recentes e a aparição óbvia e real de uma divindade em minha frente, poderia pressupor que lendas tinham um quê real naquilo tudo. E aparentemente, eu tinha minha própria inserção involuntária no meio. Até aí, era administrável.

Mas só até ai.

— Eu sou uma semideusa... É isso então?

Psiquê limitou-se a acenar com a cabeça, em gesto positivo e eu continuei:

— E sou sua filha, aparentemente — dessa vez não havia sido uma pergunta, apenas uma afirmação que fora seguida com um sorriso tão límpido que me fez querer derreter. Mas eu sabia que esse logo sucumbiria pelo teor mórbido diante as minhas próximas falas: — E você me condenou a fardos terríveis, presumo.

Ao findar de meus dizeres, o que eu supus tornou-se real, e rapidamente o sorriso vacilou, criando uma atmosfera um tanto densa entre nós. Eu pude ver a luz tremular em torno dela, perdendo o pouco da característica vívida.

Cabisbaixa, Psiquê cessou seu contato visual comigo.

— Infelizmente sim. Eu sinto muito, minha criança — eu podia sentir a sinceridade em cada palavra o que me fez, pelo menos, sentir um pouco feliz.

Mas essa felicidade logo esvaia, sendo dominada por minhas dúvidas temerosas.

— O que vai acontecer comigo? Por quê?

Psiquê sovou o ar, parecendo buscar forças no meu mar intangível, e isso a fez quase inquieta. Moveu as mãos pelo cabelo negro, colocando as mechas para trás da orelha e finalmente voltou a me encarar.

— Eu sou esposa de Eros, nora de Afrodite, que por ventura não me aprecia. Jurei ser eternamente de meu amado, tornando-me imortal e conseguindo vencer o ciúme da deusa do amor com a sua maior arma. Mas veja, você foi fruto de uma paixão efêmera, e quem é o detentor do poder das paixões? — parecia ser uma pergunta retórica, portanto me mantive quieta. — Eros, naturalmente. Mas não é só ele que incita o amor, veja bem. Isso nasce em um momento, em um olhar. Em uma empatia total. Seu pai era um homem eloquente. Espirituoso e tão vívido... Foi o único em milênios que conseguiu minha atenção. Claro que meu esposo descobriu. Como esconder uma paixão do próprio amor? Parece um ato impossível.

Até aquele ponto, já tinha ficado bem ciente em minha mente que Psiquê gostava de falar. Quase pedi para ela acelerar, chegando ao ponto realmente importante que cabia em provavelmente algum revés sobre mim, mas me abstive de tecer comentários, permitindo um olhar firme e paciente.

— Eros descobriu sobre você e seu pai. Lógico que, como fruto de uma paixão, era irrevogável a ideia de te aniquilar, por mais que fosse agradável para o meu amado. Então ele deixou uma promessa branda vagar naquele dia que você nascera quase 16 anos atrás. Prometeu que sua vida seria impossível, que sua felicidade seria apenas vista como esperança. Afrodite não tardou em apoiá-lo com resquícios de ódio sobre mim, embora tenha passado milênios.

Ela não precisou terminar para eu compreender tudo. Já sentia minhas pernas perderem um pouco da força e minha boca ficar seca. Não antes, no entanto, de me sentir indubitavelmente injustiçada. Todavia como de praxe, limitei a encurvar minha postura, querendo me abraçar.

Eu poderia ver muito bem o futuro resplandecer em minha mente. A minha felicidade inalcançável, a solidão constante e a inveja latente. Em minha volta todos seriam felizes, realizados na mais pura completude. Eu? Bem, mais uma vez o pensamento cinzento fez-se dominante sobre até meus recônditos cantos.

Nem percebi que Psiquê ainda falava até sentir seu toque sobre meu ombro.

— Não se preocupe, no entanto. Eu te escondi por todo esse tempo para lhe procurar esperança. Ela existe, eu posso afirmar. Prove-se digna minha querida, garanta sua necessidade no mundo. Até eles não podem negar quando veem algo sublime.

Pouco a pouco, enquanto a frase morria ao ar, e o brilho de Psiquê perdia gradativamente a intensidade, fazendo sua imagem cada vez mais translúcida. Foi quando eu notei que aquilo era uma despedida.

Exaltei, aprumando minha postura envergada, e tentei desesperadamente sentir seu toque sobre meu ombro. Minha mão passou como se ela fosse um holograma.

— Espera! Eu tenha perguntas. Você só falou e eu ouvi, agora vai sair de fininho? Me diga como me provar! — perguntava em brados desesperados, sentindo meus olhos ficarem úmidos.

Psiquê pareceu sorrir cálida.

— Está por vir, asseguro. Apenas continue confiando em seus instintos. Continue vendo as almas das pessoas nessa forma tão simples. Conheça e conquiste. Prove o valor dos mais frágeis.

Permiti ficar satisfeita com essa resposta, por hora. Sabia que diante dos fatos provavelmente fosse à coisa mais clara daquela conversa inteira que eu receberia. Porém do mesmo jeito, eu tinha tantos anseios e dúvidas. E talvez, certa carência. Parecia quase urgente assegurar que eu fosse vê-la de novo.

— Quando vou te ver de novo?

— Sempre que voltar aqui, eu estarei em sua espera — assegurou e sua imagem cada vez mais dissolvia.

— E como eu volto aqui? — rebati rapidamente.

Dessa vez o sorriso de Psiquê havia sido tão amplo que por breves segundos ela conseguiu se iluminar novamente, trazendo o calor de um carinho.

— Ora, aqui é sua alma. Quem melhor que você mesma para descobrir?

E, diante da resposta, ela sumiu e eu me vi acordada em minha cama, com lágrimas caindo ao rosto de um olhar focado ao teto esbranquiçado.

Notas finais
Em comparações esdrúxulas, esse ficou realmente pequeno, né? A proposta inicial era deixá-lo unificado com o primeiro, mas queria realmente deixar o encontro dela com Psiquê separado, algo mais íntimo, então me permiti o luxo de dividir. Se alguém estiver lendo, espero que tenha gostado.