Set the World on Fire
1 We Stitch These Wounds
Notas iniciais
Pov’s Thalia
Luke Castellan. Filho de Hermes.
Talvez, agora, eu entenda perfeitamente bem o seu ponto de vista. Talvez eu tenha compreendido o porquê dele ter feito às escolhas – supostamente – erradas. Eu tenho quase certeza de que sei por que ele traiu os semideuses e se arrependeu no final.
Depois de todos esses anos, eu vi muitas coisas, eu perdi muitas pessoas, eu acompanhei varias mudanças, mas será que valeu a pena? Meio século atrás, eu diria que foi a coisa certa a fazer, entrar para as caçadoras, mas e hoje? Sinceramente? Eu não faço a mínima ideia.
O acampamento, definitivamente, acabou. As únicas coisas que restaram são os entulhos dos chalés, uma única parede azul da Casa Grande e o meu pinheiro. A árvore ainda está lá, no topo da colina meio-sangue, mas só ela. Os campos de morango foram devastados, nenhuma única coisa verde sobreviveu, nem o dragão e nem o velocino de ouro estão visíveis sobre o solo acinzentado.
É realmente triste ter que ver tudo isso. Se Quiron estivesse vivo ele, provavelmente, teria se suicidado. Outra lembrança ruim. A morte dele foi, definitivamente, uma das mais tristes e, infelizmente, uma das mais memoráveis.
O centauro morreu porque se recusou a treinar os novos semideuses e, por isso, foi considerado dispensável pelos deuses do Olimpo. Claro que, antes de ir para o Elísio, ele me prometeu que estava bem com isso. Além de mim – e de alguns poucos meio-sangues – ninguém provavelmente sentiu muito a sua falta. Afinal, mortes aconteciam todos os dias – seja por monstros ou pela vontade divina –. Antes dele, eu já havia presenciado muitas mortes, e os seus nomes estavam gravados nas minhas pálpebras e apareciam toda vez que fechava os olhos.
Jason Grace, Leo Valdez, Piper Mclean, Nico Di Ângelo, Percy Jackson, Annabeth Chase...
Felizmente, ainda que eu não tenha tanta certeza, todos eles tiveram uma vida feliz, conseguiram ter filhos e envelheceram – na medida do possível –, porque, quando eram vivos, ninguém nunca esperou, ou até mesmo sonhou, com um futuro assim. Ninguém sequer imaginou que aconteceria a “Revolução Divina”
Basicamente, a revolução foi uma rebelião de ambos os acampamentos – dos gregos e romanos – contra a população de NY e São Francisco. Liderados por Marco, filho de Zeus e neto de Júpiter, os meio-sangues conseguiram ir até o Olimpo e, com a ajuda dos deuses, fecharam Roma e os Estados Unidos. Onde eu estava durante tudo isso? Meu pai e Ártemis mandaram todas as caçadoras para uma missão na Grécia, de onde eu só voltei hoje mais cedo.
Levantei abruptamente do chão onde eu estava sentada ao lado do pinheiro e corri para o local onde as outras meninas estavam. Quando cheguei lá, notei que o acampamento já estava montado. Eu podia ver as barracas alinhadas em meia lua e a fogueira no centro. Várias garotas vestidas em trajes pratas e brancos andando em volta do lugar, sem dúvida, para montar guarda.
Eu caminhei lentamente até a minha própria barraca, que já estava montada, e me sentei no colchão. Sem falar com ninguém. Eu não costumava fazer isso, não com muita frequência – como vem acontecendo –. Geralmente, eu era a primeira a se oferecer para ficar acordada ou quase sempre ajudava alguém com os preparativos para passar a noite.
A verdade é que eu não faço a mínima ideia do que está acontecendo comigo. Eram tantas as perguntas. Porque, depois de tantos e tantos anos, eu estou lembrando disso? Porque, de repente, a ideia dele me pareceu à coisa certa? Porque minha cabeça parece que vai explodir em mil pedacinhos?
Depois de alguns minutos, desisti completamente de tentar achar uma única resposta para todas as minhas perguntas e fui dormir. Simples assim. Sem pronunciar qualquer palavra em voz alta. Rezando silenciosamente para não ter nenhum pesadelo.
Mas, é claro, que meu pedido – assim como os outros – não foi atendido.
Dream ON
A floresta a minha frente era bem densa, várias e várias árvores escuras cobriam a minha visão. Eu me encontrava em uma clareira, o chão sob meus pés era úmido e sujava um pouco a sola dos meus tênis pretos. Eu senti um sopro de vento gelado e agradeci mentalmente por estar vestindo a minha jaqueta de couro, por causa do corte de cabelo curto, senti um pouco de frio, mas nada muito preocupante.
– Thalia? – Alguém chamou atrás de mim. Eu virei o rosto por cima do ombro para reparar que não estava sozinha. Annabeth e Luke estavam de costas para mim, nós três formando um perfeito triangulo. Mesmo com a visão desprivilegiada por causa da posição em que me encontrava, eu notei que todos estávamos armados. A filha de Atena com uma adaga, o filho de Hermes com uma espada recém-adquirida – de bronze celestial e prata – e eu, a filha de Zeus, com Aegis no pulso esquerdo e minha lança na mão direita.
Antes de responder, eu ouvi o som suave de uma flauta, quase como se o músico estivesse tocando uma canção de ninar, e olhei quase que instantaneamente para a direção da música. Ali, parado a certa distancia, estava Grover, um pequeno sátiro com uma flauta de bambu nos lábios.
– Que foi? – Perguntei a Luke, sem tirar os olhos do carvalho a poucos metros na minha frente, eu sentia que se me movesse, por mínimo que fosse o movimento, alguém ou algo enorme iria surgir no locar da grande arvore.
– Não acha que está tudo muito quieto? – Ele me perguntou com a voz baixa e desconfiada, mesmo não podendo encara-lo, eu sabia que ele tinha apertado os olhos.
– Mas eu disse que eu vi! – Exclamou Annabeth irritada. Ela têm apenas 7 anos, mas já possui um gênio extremamente forte.
– Ninguém está duvidando de você pequena. – Respondi impassiva.
Permanecemos em silencio por um longo tempo, nem o som da flauta de Grover era mais perceptível, apesar de termos cem por cento de certeza que ele ainda estava lá.
Por incrível que pareça, num primeiro momento, eu não ouvi a criatura. Somente vi o seu rastro de destruição. Automaticamente, eu gritei. Não um grito assustado ou de medo, mas um berro de ataque, que servia tanto para alertar os outros semideuses ao meu lado, quanto para atrair a atenção das criaturas.
Ao todo, eram 3 monstros, todos com um só olho acima do nariz. Ciclopes. Nenhum deles era pequeno, afinal, os três conseguiam facilmente andar pela floresta, arrastando arvores pelo caminho.
O Ciclope do meio foi o primeiro a nos alcançar, de perto, ele cheirava pior do que os outros monstros normais. Se não fosse pelo berro aterrorizante – e fedido – que ele deu assim que nos encontrou, eu teria ficado paralisada com o cheiro de esgoto e enxofre que saia dele.
Recobrei os sentidos no mesmo momento que Luke gritava o meu nome – alto e em bom som – e me dizia para sair do caminho. Eu não tinha entendido muito bem, até ver um enorme punho fechado vindo na minha direção. Desviei a tempo, e o ciclope acabou acertando a arvore.
Numa atitude involuntária, eu virei de costas para ver os outros. Grover estava com Annabeth ao seu lado, o sátiro continuava tocando a flauta – ainda que a melodia tenha se tornado hesitante e o seu corpo esteja tremendo – e a loira estava com a faca apontada para a direita, como se estivesse se protegendo de um inimigo invisível. Andando até mim a passos largos, eu encontro Luke, seus cabelos cor de areia estão bagunçados e ele esta coberto por grama e folhas secas, mas fora isso, ele parecia bem. Ele guardou a espada na bainha e começou a correr até mim mais rápido. Com o movimento repentino de desvio, eu tinha tropeçado e caído sentada no chão.
– Vamos Thalia, você está bem? – Ele perguntou, seus olhos demonstravam uma preocupação desnecessária. Eu já tinha passado e com toda certeza vou passar por coisas muito piores do que um tombo.
– Vamos – disse somente, enquanto me levantava para depois puxa-lo pela manga da jaqueta de lona que o garoto estava vestindo.
Juntos, retomamos a formação. Agora, éramos só nós dois, Annabeth deveria proteger Grover e a si própria.
Durante anos, fomos apenas eu e ele, então, conhecíamos os pontos fracos e fortes um do outro. E, por isso, foi fácil lutar quando o ciclope se recuperou na confusão de ter esmagado um arvore ao em vez de um semideus e atacar novamente.
Ele arrancou, sem qualquer esforço, uma pedra enorme do chão e atirou em nossa direção. Luke e eu nos abaixamos ao mesmo tempo e, por sorte, ninguém se feriu. Girei o meu antebraço de modo que Aegis protegesse o meu tronco e joguei minha lança no monstro, na altura de seu rosto encardido. Para a minha surpresa, o ciclope pareceu se assustar um pouco com a imagem da medusa em meu escudo, por que, por um sugundo, ele não se mexeu, e a ponta da lança cravou no meio de sua testa. Somente alguns poucos centímetros de seu único olho redondo.
Ele uivou de dor, ou pelo menos eu achei que fosse, já que o som emitido pelo monstro foi perecido com um urso sendo atropelado por um caminhão de gasolina – não que eu soubesse qual o som que o urso faria, é claro. –.
Eu olhei de relance para Luke enquanto o ciclope dava alguns passos para trás e tropeçava em uma arvore quase tão grande quanto ele. Castellan estava a alguns metros longe de mim, com a espada desembainhada e uma expressão divertida no rosto. Antes que eu pudesse verificar se os outros estavam bem. Mais dois ciclopes estavam a nossa frente.
– Pra colina, rápido! – Gritou Grover, apontando freneticamente para a esquerda, depois que ele disse essas três palavras, eu podia ter jurado que ouvi um balido.
– Leva a Annie, agente se vira! – Ouvi minha própria voz dizendo, mas não me lembro de ter pronunciado nada, pois ambos os monstros estavam correndo na nossa direção.
– Uma filha de Zeus! Uma filha de Zeus – Eles murmuravam incrédulos, mas sem diminuir a velocidade.
Luke se moveu com estranha rapidez e, no momento seguinte, eu estava sendo puxada pelo pulso na direção em que Grover correra com Annabeth.
– Anda Thals, corre! Por Favor! – Luke me implorava. Eu podia ouvir os passos dos dois ciclopes atrás de nós, mas eu me esforcei para correr o mais rápido que consegui. Nós dois corríamos em sincronia. Era inevitável, depois de tanto tempo. Mas ainda tinha uma boa distancia entre nós e a colina.
Num ato de puro desespero, empurrei Luke contra um tronco grosso de uma arvore qualquer e nos escondi entre a floresta. Assim que os monstros desviaram do caminho de Grover e Annabeth, eu suspirei aliviada.
Ambas as nossas respirações estavam ofegantes pela corrida e, somente ao sentir sua respiração quente próxima ao meu pescoço que eu notei o quão perto estávamos.
Uma das minhas mãos estava me apoiando no tronco, e a outra segurava a gola da jaqueta dele. Nossas pernas estavam entrelaçadas e seu rosto estava quase apoiado no meu pescoço. Assim tão perto, eu podia observa-lo, como eu não fazia há muito tempo.
Desde quando nos encontramos pela primeira vez, aos 14 anos, ele tinha mudado muito. Sua pele não era mais pálida como um fantasma, seus cabelos cor de areia estavam mais escuros e ele, definitivamente, tinha crescido. Antigamente, ele era apenas alguns centímetros maior que eu, agora, nós temos, mais ou menos, um palmo de diferença.
– Thalia... eu... – Começou ele, eu tive que desviar os olhar para esconder o vermelho do meu rosto.
Por sorte, ou azar, antes que Luke continuasse, ouvimos um estrondo logo atrás de nós e nos viramos automaticamente. Como minha lança ainda estava cravada na testa do primeiro ciclope, eu não tinha mais nada além de Aegis para me proteger. Luke já estava com a espada empunhada, mas uma de suas mãos se encontrava na curva da minha cintura.
Ao ouvirmos o segundo estrondo, dessa vez bem mais perto, saímos em disparada do nosso esconderijo improvisado e corremos novamente na direção que Grover tinha nos apontado. Começamos a nos embrenhar na mata e, logo, não era mais possível perceber se estávamos ou não em uma trilha, para todos os lados que ousávamos virar, existia uma arvore e mais mata fechada.
– Thalia! Luke! Aqui! – Annabeth gritou, ela estava quase no topo da colina.
Usei o escudo para indicar a Luke a direção correta, mas ele já tinha visto e agora estava, a todo custo, tentando ir para onde estavam os outros. Eu o seguia um pouco atrás, e tive que aumentar o passo a medida que as arvores iam cobrindo o caminho de grama cinza e folhas secas.
Sem querer, acabei tropeçando em na raiz de um carvalho escuro e caí, usando as mãos para amortecer a queda. Luke parou quase que imediatamente e voltou alguns passos para me ajudar. Eu levantei com a ajuda dele e do meu escudo e voltei a correr, ignorando a dor aguda dos cortes recém-adquiridos.
– Luke! Luke! Socorro! – Ouvi minha voz, que não passava de um sussurro distante. Ainda sim, não impediu que o garoto que corria na minha frente de parar de uma hora para a outra.
– Não fui eu que disse isso! – Gritei enquanto o empurrava mais alguns passos para frente. Ele estava com os olhos arregalados e seus movimentos eram mecânicos. Como, com uma única palavra, ele ficou assim?
– Mas... Como...? – Ele perguntou depois de um tempo em silencio, quer dizer, sem contar os vários pedidos de socorro com a minha voz.
– Relaxa, Castellan, você acha mesmo que eu, Thalia Grace, filha de um dos Três Grandes pediria ajuda a alguém? – Respondi com outra pergunta sarcástica. Ao ouvir a minha resposta, seu rosto suavizou e ele voltou a correr junto comigo.
Meus pés doíam, e, como se para piorar a minha situação, nem os urros de raiva e nem os gritos com a minha voz tinham cessado. De vez em quando, eu tinha que lembrar ao Luke que não era eu pedindo socorro, e sim um monstro gigante.
Felizmente, o pé da colina já era um pouco visível atrás de algumas arvores menores. O que era, muito provavelmente, a melhor noticia em muito tempo.
De novo, eu ouvi antes de ver, o tronco oco de uma arvore antiga ser lançada em nossa direção. Eu soltei um grito de aviso, mas acabou saindo apenas um som entre um ruído inaudível e um engasgo. O tronco acertou em cheio o meio entre nós dois.
– Uma filha de Zeus! Uma filha de Zeus — Eles pronunciaram em uníssono, enquanto chegavam cada vez mais perto. Nenhum deles imitava a minha voz ou urrava.
– Thalia! – Chamou Luke, pela, provável, terceira vez antes que eu respondesse. E, ainda assim, ele demorou a ouvir minha resposta, pois os três ciclopes estavam a poucos metros de distância, e agora gritavam a mesma frase de antes. “Uma filha de Zeus! Uma filha de Zeus!”
– Sai daqui! – Gritei, fazendo esforço para manter a minha voz um pouco mais alta do que as dos monstros. – SAIA DAQUI AGORA – Repeti, quando notei que ele não tinha se movido.
– Está maluca? Acha mesmo que vou te abandonar? – Ele respondeu confiante.
– Vai para o acampamento... AGORA! – Berrei. O meu plano era literalmente suicida, mas não é como se tivéssemos muitas alternativas.
O ciclope que estava com a lança cravada na testa retirou o objeto e, habilmente, o lançou na minha direção. Ambos estávamos muito surpresos. Eu consegui desviar a tempo, mas não sem que ela pegasse de raspão o meu braço direito e caísse no chão. Ignorando a dor. Corri em direção a minha lança. Já era um ponto positivo, tinha conseguido minha arma de volta, ainda que não pudesse usa-la.
Meu braço queimava, não como uma queimadura de verdade. Mas de dentro para fora, como se ele quisesse se separar do corpo. Cega pela dor, eu lancei um olhar mortal para Luke, que estava vindo em minha direção.
– SAI DAQUI! – Berrei, o que foi uma má ideia, minha garganta estava seca e, no final, eu acabei emitindo um choramingo de dor. – Eu volto. Eu prometo. – Sussurrei.
Não sei se ele me ouviu, mas eu o vi pronunciar três palavras para depois correr na direção de Annie, que observava a cena paralisada.
Com as ultimas forças que me restavam. Corri na direção contraria aos ciclopes e a colina – a tropeçando varias vezes e ralando os braços em alguns galhos pontudos das arvores.
Por fim, consegui chegar a uma clareira qualquer. Não aquela que eu estivera antes, mas uma menor e, mas escura. Mesmo sendo meio-dia, o céu estava escuro.
Pela primeira vez em muitos anos, rezei. Não rezei pela a minha vida, rezei para o meu pai, para que ele protegesse meus amigos. E, também pela primeira vez, ele atendeu os meus pedidos.
Nuvens de tempestade escureceram ainda mais o céu. Elas chegaram tão de repente que eu teria perdido se tivesse apenas piscado. Trovões estalaram em meus ouvidos. Os três ciclopes que me rodeavam também ficaram com medo. Para falar a verdade, até eu fiquei com um pouquinho. O vento gelado sacudiu até os galhos mais fortes das arvores ao nosso redor.
Eu fechei os olhos com força, para aliviar a dor no meu braço e também para me concentrar. Sem mais nem menos, um enorme clarão quase me cegou e três raios provocaram tremores na terra, me fazendo cair de joelhos e eliminando os três monstros. Assim, simplesmente. Como respirar.
Eu só tive tempo de soltar Aegis e a minha lança no chão antes que a escuridão me engolisse.
Dream OFF
Acordei com um pulo. Fazia anos que eu não sonhava com o dia da minha morte. Mas, mesmo assim, eu ainda me lembrava perfeitamente bem das três últimas palavras que Luke me disse.
Eu te amo.
Fale com o autor