Será?
36 Flashback (POV Jasmine)
Notas iniciais
POV JASMINE
— Hoje à noite vai ser boa! – Disse Kitty.
Na verdade o nome dela é Vanessa, mas somos obrigadas a usar codinomes aqui. No meu caso já nem sei mais qual é o meu nome... Mentira! Eu adoro meu nome e sinto uma saudade enorme de ouvir minha mãe gritando ele.
Eu era tão idiota, tão mal agradecida! Daria minha vida para poder ao menos pedir perdão para os meus pais e abraçá-los pela última vez.
Meu nome é Jasmine Fernandes, tenho 17 anos e vim parar nesse lugar repugnante há 5 meses.
— Vai mesmo! – Concordou Dani.
Eu estava deitada na minha cama no quarto que divido com mais 5 meninas que também vieram parar aqui do mesmo jeito que eu.
— Susy! – Chamou Kitty.
Ignorei fingindo que estava dormindo.
De olhos fechados é impossível conter os pensamentos da minha antiga vida...
“Querido Diário,
Às vezes paro e me pergunto o que fiz para merecer isso!
Sinceramente não sei porque Deus me colocou em uma família que não me dá atenção e que me faz de empregada.
Já pensei várias vezes em acabar com esse sofrimento, mas penso melhor e desisto. Na verdade acho que eu não tenho coragem para fazer isso, mas é até bom, às vezes me sinto bem por ter escolhido continuar vivendo.
Minha mãe só grita comigo!.
Será que ela acha que sou surda? Prefiro não pronunciar a perguntar. Tudo que falo nessa casa é motivo de briga e eu não ando com paciência para brigas.
Todo dia é a mesma coisa, faço tudo o que ela manda e ainda escuto que não faço nada, meus únicos momentos de paz são na escola. Sempre fui boa aluna e um dia quero me formar na faculdade de Medicina, me tornar uma doutora renomada e ser reconhecida por ajudar quem realmente precisa.
Eu fico me perguntando: quando as coisas começarão a dar certo na minha vida?
Boa noite, beijos!”
Realmente eu não tinha a melhor convivência com meus pais, mas eu era imatura. Sinto tanta saudade dessas brigas.
Eu morava com meus pais e mais 3 irmãos, todos mais novos, em uma casa pequena, porém em uma das melhores vistas da cidade de Santos. De lá do morro dá para ver todos os lados da cidade.
Eu tinha que dividir meu quarto com meus irmãos e odiava, mas cheguei a conclusão que odeio ainda mais dividir o quarto com essas meninas. Não tem um dia aqui que não me arrependa por tudo que fiz.
Será que meus pais sentem minha falta?
Tenho muito medo da resposta, já que não nos dávamos tão bem.
“Querido Diário,
Será que um dia alguma coisa dará certo em minha vida?
Não só na vida familiar e econômica, mas também na amorosa. Eu sei que sou nova, mas já cansei de sofrer por amores platônicos e caras que só querem "pegar"...
Confesso que teve um tempo onde tudo que eu queria era só diversão mesmo e isso não faz muito tempo, na verdade faz pouco tempo que comecei a ser “rebelde”. Sempre obedeci meus pais, mesmo não gostando de fazer o que me mandavam, sempre fui boa aluna na escola e sempre me dei bem com todo mundo, mas depois de um tempo ser boazinha cansa e tudo começa a mudar.
Eu não vejo a hora de sair de casa e ter meu próprio dinheiro, meus horários, minhas coisas... Ainda assim não consigo pensar em ficar longe da minha família, vivemos brigando e eu odeio tudo, mas ficar longe seria horrível.
Obrigada por me aguentar, mesmo que seja por obrigação querido diário!
Beijos...”
É, eu era uma completa idiota!
Me achava uma filha jogada no vento, não tinhas muitas amigas, na verdade só tinha duas que sempre me ajudavam quando eu precisava e eu estava sempre perto delas.
Enfim, mesmo com elas por perto eu quase não tinha ninguém para conversar e então acabei baixando um aplicativo de relacionamento para passar o tempo e curar minha carência.
“Querido Diário,
A alguns dias eu baixei um aplicativo de relacionamento no meu celular. No começo eu tive um pouco de medo, mas com o tempo fui pegando confiança em mim mesma e fazendo várias amizades. Até que outro dia resolvi marcar um encontro para conhecer melhor um dos caras que converso e ver no que dará.
Foi perfeito! Nosso primeiro encontro foi simples, mas perfeito. Não demorou muito até ele me chamar para a casa dele e foi justamente em um dia que briguei aqui em casa, então fui para esquecer as brigas... Acho que já deu para perceber que não foi uma boa ideia.
Eu sei que deveria ter contado antes sobre isso, mas não estava com coragem.
Mesmo me decepcionando na primeira vez eu não desisti!
Volto logo, beijos!”
— SUSYYY! – Gritou Lívia me trazendo de volta a minha nova realidade.
Lívia é a esposa do dono da boate em que sou obrigada a trabalhar e consequentemente ela também é a gerente do lugar.
Como vim parar nesse lugar?
A história não era tão grande quanto parece.
Sentei na cama e encarei Lívia.
— Menina, você precisa pintar esse cabelo novamente. Isso está horrível! – Falou Lívia apontando para meu cabelo.
— Já avisei à ela! – Disse Kitty.
Ela estava sentada em sua cama e pintando as unhas.
— Quero todas vocês bem apetitosas essa noite, quero vocês ganhando muito dinheiro! – Falou Lívia animada.
— Lívia, acho que não estou bem! – Falei.
— Meu amor, você não tem o direito de decidir se está bem ou não! EU QUERO FATURAR E VOCÊ VAI ME AJUDAR! – Falou Lívia estressada.
Concordei com a cabeça e fui para o banheiro.
— Vou buscar a água oxigenada. – Gritou ela para que eu escutasse.
Apenas ignorei.
Na frente do espelho me encarei. Eu já não me reconhecia mais, meu cabelo tão grande e escuro antes agora era só um repicado oxigenado e sem vida, assim como o resto do meu rosto.
“– Eu te amo! – Disse Henri.
— Eu te amo mais! – Respondi.
Estávamos deitados na areia da praia vendo o anoitecer se aproximar. Ao longe tinha uma fogueira e um grupo de amigos cantando em uma roda.”
Me lembrei do dia em que vi Henri, o cara que me fez vir parar aqui, pela primeira vez. Já estávamos nos falando por mensagem a umas duas semanas, ele me conquistou e me fez acreditar naquilo.
Aquele dia parecia um filme de romance americano em que tudo da certo na vida da mocinha, mal sabia eu que aquele romance viraria um filme de terror.
Senti as lágrimas escorrem por meu rosto enquanto lembrava daquele dia...
Abri a torneira e deixei cair a água em minha mão enquanto as lágrimas silenciosas caíam por meu rosto. Passei a água no rosto para abrandar as lágrimas e sai do banheiro prendendo ao máximo a vontade de chorar novamente.
— A Lívia deixou as coisas para pintar seu cabelo. Senta aqui que vou te ajudar. – Falou Dani, apontando para a cadeira em frente à penteadeira.
Sentei e deixei que ela mexer no meu cabelo, já que eu não tinha mais gosto nenhum por ele.
Fechei os olhos e o passado retornou aos meus pensamentos.
“Querido Diário,
Hoje meu dia foi normal... Cheio de brigas e tudo mais...
A única novidade foi o pedido de namoro que recebi virtualmente do Henri, mas eu sinto que ele é diferente, sinto que vai dar certo e que ele é tudo que preciso para me tirar daqui.
Claro que eu aceitei na hora!
Para que esperar mais do que já venho esperando?!
Como eu disse outro dia ele mora em outra cidade e está trabalhando muito no momento, mas semana que vem ele entrará de férias e virá me buscar.
Meus pais não podem nem imaginar que eu estou tendo essas ideias, então eu estou pensando em fugir e passar alguns dias com o Henri.
Eu amo minhas amigas, mas não vou contar isso nem para elas. Quando eu voltar esclareço tudo e peço desculpas a elas.
Não vou me prolongar muito pois preciso levantar cedo amanhã. Obrigada por me aturar!
Beijos!”
Ingênua... Se ingenuidade matasse... Com certeza eu estaria bem melhor do que agora.
“– O que vai fazer hoje? – Perguntou Fabiana minha melhor amiga.
Estávamos na aula de artes fazendo a pintura de um trabalho para a semana Cultural da escola.
— Vou para casa, acho! – Respondi dando de ombros.
— Sei... – Falou ela desconfiada.
— É sério, você esqueceu que eu sou uma menina comprometida agora? – Perguntei.
— Eu só acredito nisso quando eu ver ele de mãos dadas com você. – Respondeu ela.
— Semana que vem ele virá me ver, aí faço questão que ele te conheça. – Falei.
— Ok, Jas! – Disse ela.”
Eu deveria ter escutado Fabiana quando ela dizia que eu poderia me dar mal.
“Querido Diário,
Hoje o Henri me ligou e disse que já está arrumando as coisas para vir me ver, eu estou pulando de alegria. Não aguento mais a Fabi desconfiando dele.
Ontem ele disse que me ama e foi tão emocionante!
Nos conhecemos a pouco tempo, mas eu também já o amo e quero que seja para sempre, quero ter filhos com ele e não quero nunca mais acordar desse sonho.
Será que eu já devo arrumar minha mala?
Não sei, acho que vai ficar muito na cara. Antes de ir passar uma semana na casa dele, ele vai passar uma semana aqui, então vou ter tempo de organizar minhas coisas. Acho que amanhã à noite ele já chega a cidade.
Amanhã vou à praia com a galera da escola, fim de ano chegando e todo mundo fingindo que é amigo um dos outros. Se fosse só minhas amigas eu com certeza iria mais feliz...
Não sei se vou mesmo, mas o Henri disse que seria importante estar perto deles para não sentir saudades quando estiver em sua casa, mesmo sendo só uma semana.
Agora vou dormir e sonhar com meu príncipe que me ama!
Beijos!”
Príncipe que me ama? Por favor né Jasmine!
Tudo o que eu queria era ser correspondida e no entanto...
Tinha tudo para dar certo aquele relacionamento imaginário, só meu.
“Querido Diário,
Sumi um pouco porque passei a semana com o Henri, tiramos várias fotos e nos divertimos muito. Só não gostei muito por que todas as fotos ficaram no celular dele.
Ele teve um imprevisto e voltou à São Paulo, infelizmente ele não poderia me levar. Acho que era alguma coisa com a família dele, mas o importante é que logo ele volta e eu vou lá antes das férias acabar.
Falando em férias, já faz uns dias que a minha começou!
Agora é aproveitar as festas de fim de ano e aguardar meu amor vir me buscar.
Até mais querido diário, beijos!”
Tudo parecia tão certo, ele queria falar com meus pais e eu cai em mais essa mentira.
— E então? – Perguntou Dani.
— O quê? Pode repetir? – Perguntei assustada sem entender o que Dani falava.
— Em que mundo você está hoje, hein Susy?! – Perguntou Dani revirando os olhos. – Eu quero saber se você quer deixar mais prateado do que estava? – Dani refez a pergunta apontando para meu cabelo.
— Ah, você que sabe! Não gosto dessa cor mesmo e não quero ficar atraente para ninguém. – Respondi dando de ombros.
— Ok. – Falou Dani.
Eu odeio esse lugar, odeio tudo que acontece aqui, me odeio por ter entrado naquele maldito carro com o Henri, odeio ter sido enganada, odeio ter que viver...
— Já está quase escurecendo. – Disse Kitty feliz.
Eu sinceramente não sei qual é o problema dela, talvez as drogas que fazem ela usar tenham subido a cabeça e a deixaram assim ou talvez a vida dela antes fosse realmente horrível, mas eu duvido muito da última opção, isso aqui é o verdadeiro inferno!
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