Servo da Família Sazawori

10 Um Sequestro Impiedoso


Notas iniciais
Já estava com esse capítulo na cabeça faz um tempo.

Acordei mais atento hoje, acho que aqueles olhares mortais que o Salim me mandou ontem no jantar me acordaram. O dia estava escuro e as nuvens negras dominavam os céus, indicando uma chuva muito em breve.

-Uhn... Esse clima me deixa de baixo astral. –eu disse enquanto ainda não tinha terminado o café da manhã.

-Faz uns dias já que não chove então essa deve cair bem forte. –Merie olhou a janela enquanto limpava a louça. Ela olhou o relógio na parede e levou um pequeno susto- Já é tarde, é melhor ir acordar Juan, Dawari.

-Ah, claro.

Levantei-me e saí, correndo pelo jardim de trás da casa, fugindo de uma possível chuva. Entrei no castelo e pus-me a subir a escadaria até o quarto de Juan. Antes de entrar ouvi um trovão, mas quando fechei a porta atrás de mim ficou um silêncio profundo naquele quarto.

Juan estava deitado, parecia dormir profundamente.

-Vamos, levante daí preguiçoso. –eu disse ignorantemente, me aproximando de sua cama.

-Uh, estraga prazer. –Juan se levantou sem o mínimo de sono.

Claro, já estava acordado mesmo.

Ajudei Juan a se vestir – é, mais uma das obrigações idiotas de Lowei. Ele só usava um blusão largo que quase chegava aos joelhos e suas roupas íntimas. O jantar de ontem havia terminado tarde, então Juan cansado preferiu dormir o quão antes, mesmo que fosse para usar a roupa mais desleixada.

Enquanto vestia-o, senti meu rosto corar de repente. Mas por que diabos...? Juan me olhou e sorriu daquele jeito malicioso, colocando a mão na minha cintura.

-Sabe que não precisa ficar envergonhado por causa disso, Dawari. –ele piscou- E você fica muito fofo assim vermelho viu?

Juan riu e me deixou mais sem graça. Não tem graça nenhuma! Para de rir, palhaço!

Acho que depois disso ocorreu tudo bem. Acordei Larian, Lowei já tinha acordado e ficou reclamando da minha demora, até que Juan o mandou calar a boca. Não vi mais Larian depois do almoço.

De tarde Merie estava fazendo uma torta para servir a Juan, quando se tocou que o leite havia acabado.

-Hum? Acho que usamos tudo no bolo de ontem. –eu disse, pensando- Mas eu me lembro de ter mais na dispensa...

-Vou ir lá checar. –Merie limpou as mãos num pano de cozinha foi andando até a dispensa- Ah, poderia ir ver a correspondência para mim? Acho que estou meio ocupada aqui...

-Claro, volto logo.

Um bolinho de cartas estava amarrado junto, perto da porta de entrada. Enquanto eu voltava para a cozinha, fui vendo a correspondência. Quase tudo era para Juan, então me deparei com uma simples carta bem humilde que fora enviada para mim.

-Uma carta para você? –Merie disse, parecia surpresa- Leia, leia.

Abri a carta com cuidado e li seu conteúdo. Por um momento senti meu coração acelerar. Lá tinha uma indicação de rua e um horário, com a data de hoje. Dizia na carta que o sujeito estava com a irmã do rei e que eu deveria ir ao beco da rua indicada “ou Larian estará em sérios problemas”. Li a carta em voz alta e Merie ficou com a expressão chocada.

Deve ser só uma brincadeira de alguém. Afinal, Larian ainda está no castelo. – pensei. Na verdade, rezei para que minha hipótese estivesse certa. Contei estava para Merie e ela me respondeu baixo.

-Não vejo Larian desde que ela saiu de manhã, disse que iria à casa de um amigo...

Merda. Merda. Merda. Merda. Larian está em algum lugar, com qualquer pessoa tarada que está fazendo o que quiser com ela. Não hesitei em pegar o guarda-chuva e sair pelas portas dos fundos, olhando o céu negro.

-Aonde vai, Dawari? –Merie me puxou pelo pulso direito.

-Tenho que ir buscar Larian. Não importa o que aconteça comigo. –respondi sério- Não conte a ninguém onde fui, Juan ficaria nervoso. Volto logo.

Deixei Merie no vácuo, montei em Black Star e saí em disparada na direção da cidade.

Cheguei finalmente na rua, nem demorei tanto. Deixei Black Star com o dono de um mercado que já é amigo meu e fui até o beco. Como sempre as ruas estavam bem vazias, já que a tarde caía rápida e o céu ameaçava cair a qualquer momento.

Ouvi sons parecidos com múrmuros, então me aproximei. Vi Larian deitada no chão dormindo, estava intacta. Ufa, ainda bem! Tentei pegá-la nos braços para levá-la, mas senti algo bater-me na nuca, então desmaiei.

Acordei meio atordoado, não conseguia mexer minhas mãos e vi que minha blusa estava desabotoada, deixando bastante do meio peito e abdômen de fora. Sacudi a cabeça e olhei para cima. Meus pulsos estavam amarrados por uma corda e esta, a um poste de madeira atrás de mim. Tentei me soltar, mas foi em vão.

Vi-me dentro de uma pequena sala, além de mim e do poste, tinha só uma porta de madeira. Ela se abriu lentamente com um rangido e Salim entrou.

-S-salim...? –eu disse baixo- Salim, onde está Larian?

-Ora, acalme-se, Dawari. –ele deu dois passos em minha direção, ainda longe demais para eu dar-lhe um chute- Larian está bem, eu não ousaria tocá-la. Ela foi só uma isca.

-Por que me quer aqui?

-Cale-se, você sabe muito bem! –ele quase gritou- Juan! Juan matou meu irmão! E ele não havia feito nada!

-Ah... Então foi seu irmão... –senti um pouco de pena dele, mas isso passou quando lembrei que aquele pirralho havia me feito desmaiar e me prendido num poste. Cara, como isso pega mal.

-Eu amava muito meu irmão... –ele disse, com raiva- E ele foi morto sem dó nem piedade, acusado de uma coisa na qual era inocente!

-Perdão Salim... –eu disse, tentando acalmar a ferinha- Mas Juan não queria se intrometer. Ele teve que autorizar a pena de morte, já que muitos apontavam seu irmão como culpado e...

-Mas nem ouviram a opinião dele... –ele disse baixo.

-Mas o que eu tenho a ver com isso? –perguntei sendo bem direto, aquilo já estava começando a me machucar nos pulsos.

-Vingança. Eu não sou idiota, sei que não poderia nem chegar perto do rei, muito menos realizar minha vingança. Então... Vou o fazer sentir como é ter um parente sofrendo pro sua culpa. –ele fechou os punhos.

UHN? O que ele iria fazer comigo? Me solta, porra!

Salim abriu a bolsa que trazia e de lá tirou uma antiga câmera fotográfica. Um pequeno sorriso esboçou-se em seu rosto. Fudeu agora.

A porta se abriu mais uma vez e dois homens grandes e fortes entraram. Eles se aproximaram de mim e começaram a me despir. Tentava me soltar, esperneava, reclamava, chutava, mas eles deviam ser pelo menos três vezes mais fortes que Juan.

E, como se já não estivesse na situação mais enrolada e constrangedora, eles me estupraram. Um por um, depois os dois juntos. Salim fotografava tudo.

Lágrimas escorriam de meus olhos, aquilo doía, muito. Sentia ser rasgado pro dentro, invadido contra minha vontade. Eu chorava, gritava, mas eles não paravam. A pior dor mesmo era a sentimental, ser violado e ainda por dois vagabundos que eu nem conheço.

Quando consegui ver além daqueles dois brutamontes, estava aquela figura de cabelos castanhos me fotografando, rindo cínico para mim.

Aquilo só teve fim quando desmaiei de novo – puta que pariu, quantas veze sou desmaiar nessa porra – e acordei sozinho, nu, meus pulsos já estavam soltos. Não conseguia me levantar, não conseguia me mexer. Só tive forças para agarrar minha blusa levemente rasgada e cobrir-me com ela. Chorei baixinho ali, me senti um filhote abandonado, tremia com o frio que entrava por baixo da porta.

Ouvi a porta se abrir de novo. Estava com medo, muito medo, será que Salim havia voltado? Encolhi-me na parede, pedi para que, seja lá quem estivesse ali, saísse e me deixasse em paz. Minha voz saiu tão baixo que parecia um sussurro.

Quando vi que quem entrou era Juan, me senti no paraíso. Ele veio seguido de Merie, Larian, Lowei e outros policiais. O ruivo correu até mim e me abraçou me senti a pessoa mais segura do mundo. Seu abraço era quente, aconchegante, senti lágrimas caírem pelo meu rosto de novo.

-O que eles fizeram com você, Dawari...? –Juan acariciou meus cabelos e tocou seu rosto no meu.

Não consegui responder, meu corpo tremia, meus hematomas espalhados pelo corpo me faziam lembrar do que aconteceu, o que me fazia chorar mais. Larian estava olhando nós dois e quase chorava junto de mim. Lowei pediu para ela ir lá fora com ele buscar Black Star.

Todos na sala estavam no mínimo ocupados, observavam e procuravam pistas pela sala toda. Eu não conseguia parar se soluçar. Queria, mas não podia, não queria chorar assim na frente de Juan. Senti-me como uma criança em seus braços, chorando sem consolo, ou até pelo único consolo, aquele abraço tão terno que me fazia ficar tão seguro.

-Vai ficar tudo bem Dawari, não chore, por favor. –Juan sussurrou.

O ruivo tocou meu rosto e lentamente me beijou, parecia ignorar o fato de ter tanta gente ali. Mas todos estavam ocupados, então não viram somente Merie, que sorriu.

Notas finais
Fiquei com pena do Dawari -cofcof
Hm, eu tenho que parar de maltratar ele...

...ou não.