Servo da Família Sazawori
15 Guerra do Amor - Round 1
Os corredores sempre foram grandes, mas agora, mais do que nunca, eu me arrastava pelo castelo como se aquilo não tivesse fim. Já bastava ter que ficar o dia todo ouvindo aquela matraca da Catarina falar e falar sem parar, quase sempre me criticando por alguma coisa.
A noite pelo menos caiu rápida. Depois que Catarina disse que ia dormir e Juan fora tomar banho — depois de muita teimosia e Lowei jogá-lo no banheiro -, a paz finalmente reinou na sala.
Mas não por muito tempo, por que depois da matraca da Catarina vem a do Lowei, que me manda fazer isso e aquilo, arrumar lá e cá e por fim ver se todo mundo tá dormindo pra poder ir deitar e ter o mínimo de silêncio – ainda não consegui ensinar Rotaru a calar a boca de noite.
-Quarto da Larian, do Lowei, Rotaru, o da Catarina tá vazio. Tomara que ela tenha ido se afogar na banheira, huhuhu. –murmurei- É, vou dar uma olhada lá, só pra ter certeza.
Me arrastei até a porta do banheiro. Eu ouvia o som da água e alguns pingos que pareciam cair no chão. Ótimo, ela deve ter se afogado e deixado a torneira abert... AAAH!
Catarina estava ali, sim. Mas também, descobri que Juan ainda não tinha acabado o banho... Os dois estavam nus dentro da banheira, se agarrando e se beijando.
A água da banheira caía um pouco na velocidade que eles se remexiam dentro d’água. Fiquei encarando aquela cena por uns segundos aterrorizantes, aí saí correndo para fora do castelo.
Rotaru me viu e já foi logo latindo, como se perguntasse o que acontecera. Pensei em passar batido pelo cão, mas algo me dizia que ninguém se importaria comigo – talvez seja a crise de depressão de novo. Tratei de sentar do lado do collie e abraçar seu pescoço peludo.
O cão grunhiu e deitou a cabeça no meu ombro. Lembro do som de um trovão fazer o corpo de Rotaru tremer de susto e então uma chuva grossa começou a cair. Depois desmaiei de sono ali na grama mesmo.
Tudo amanheceu lindo e florido, com pássaros sendo devorados por cobras de quintal e...
Caralho, como eu nunca percebi que essa grama era tão macia? É melhor que a minha cama! Mas enfim, voltando ao assunto, eu acordei meio zonzo, ouvindo sons de pássaros sendo estrangulados por cobras... Ah não, era só a voz de Catarina.
Quando a minha visão se concertou e consegui ver direito, aquela mulher repugnante estava de pé na minha frente, encarando-me como se eu fosse um inseto.
-Patético. Além de me espiar no banho, não trazer todas as minhas malas, ainda dorme do lado de fora? Patético. –repetiu.
Sentei-me para poder olhar melhor Catarina. Então percebi que meus cabelos loiros estavam molhados, assim como todo o meu corpo.
-Então, vai ficar aí deitado o dia todo ou vai trabalhar? Vamos, levante, que nojo! –ela disse fazendo gestos com as mãos.
-Ahn, cala a boca Catarina. –deitei na grama confortável de novo- Me deixa em paz.
-Como!? Que abuso é esse? –ela perguntava elevando a voz- Como pode ser tão insolente?
-Dá pra ficar quieta pelo menos um segundo? Eu estou tentando dormir! –reclamei.
-Gente, gente, o que houve? –Juan chegou olhando para nós. Ele usava um roupão vermelho decorado com bordados pretos.
Ele nunca usou esse roupão na minha frente! O que ela tem de especial para ele usar esse roupão? Seria uma prova de que ela é mais especial do que eu? Ou algo para dizer que não me quer mais?
-Não sei o que é, só sei que esse ciúme está te corroendo, Dawari. –Lowei disse balançando negativamente a cabeça depois de eu contar a minha teoria do roupão.
-Ciúmes? Ciúmes? Eu não tenho ciúmes, claro que não! –indaguei.
Estávamos tirando as milhões de malas de Catarina de dentro da charrete que a trouxe. Sinceramente, coitado do cavalo que puxou tudo isso!
É, eu ainda estava tendo uns ataques depressivos. Acabei desabafando com Lowei depois de acabar esmagando o dedo dele com a mala pela milésima vez e paramos um pouco para beber água.
A cozinha estava estranhamente quieta, assim como o resto do castelo parecia estar. A conversa cessou quando Juan entrou e nós dois o olhamos.
-O que você quer? –perguntei com a voz alterada. Será que me embebedei com a água e nem percebi?
-Lowei me dê licença, por favor, preciso falar em particular com Dawari. –Juan disse me olhando.
-Sim... Claro, Juan. –Lowei me olhou com desculpas e saiu.
-Ei, nós estávamos conversando, não nos interrompa! –resmunguei.
-Dawari. Eu preciso falar com você, me escute.
O silêncio dali fazia a voz de Juan ter mais poder que normalmente.
-Você não devia estar transando com a sua noiva, Juan?
-Dawari! –ele pareceu assustado com a minha resposta- A-Ah! Catarina me falou que você nos viu ontem, é que...
-“É que” nada, Juan! Eu vi muito bem vocês ali se agarrando no meio do banheiro!
-Me deixe explicar antes de pensar essas coisas, Dawari!
-Tarde demais, devia ter me explicado assim que ela te falou. O que você acha que eu iria pensar? Que vocês estavam inocentemente tomando banhos juntos e eu vi uma miragem, é? Me poupe!
-Cala-te! –ele puxou a gola de minha camisa, fazendo-me levantar da cadeira- Não fale como se pudesse me dar ordens, Dawari.
Ugh, mesmo irritado eu tenho que lembrar que Juan ainda é o rei, e eu sou seu servo que deve obedecê-lo, mas...
-Você pode mandar em mim, mas não manda em meus sentimentos, ouviu? –eu disse tentando tirar a mão dele da minha gola.
-Desde quando você ficou assim tão ciumento e duvidoso de mim? Não confias em mim, Dawari?
-Da última vez que você disse que iria me proteger eu acabei sendo estuprado! Não lembra? Você diz que me ama que e que estará sempre comigo, mas você nunca está! Nunca!
Eu tenho que desabafar às vezes. Mas, sério porra, eu sempre enfrento tudo sozinho, onde está ele que diz que está sempre do meu lado?
-Aquilo foi inevitável, ele tinha seqüestrado Larian e não tinha como eu saber! E pare de agir feito criança! Você acha que eu nunca estou ao seu lado, mas isso é porque você nunca nota as coisas que faço por você! –Juan disse tão irritado quanto eu.
-Seria melhor que você tivesse morrido junto de seus pais. –eu disse baixo e sem pensar. Foi a primeira coisa que me veio à cabeça e saiu sem querer.
PAF!
O som ecoou pela cozinha alto e claro. Meu rosto agora estava virado de lado e tinha uma marca vermelha, graças ao tapa que Juan deu em mim. E provavelmente usou o que lhe tinha de força, pois havia doído pra cacete e me deu um toque.
Levantando o rosto, pude ver lágrimas pequenas se formando no canto dos ainda belos olhos de Juan. Ao contrário de mim ele tentava esconder a tristeza com a expressão irritada.
Já minhas lágrimas corriam livremente pelo meu rosto visivelmente assustado e um tanto confuso do que acabara de acontecer. Juan se virou de costas para mim e caminhou lentamente até a porta e abriu-a. Antes de sair, disse sem nem se dar ao capricho de virar o rosto:
-Você não entende Dawari, e sei que nunca irá entender.
Então ele saiu, deixando-me sozinho e desabado no chão, lágrimas pingavam e molhavam o chão limpinho.
E ali fiquei por um tempo, olhando para a porta. Por algum motivo eu ainda pedia para que ele entrasse por aquela porta e me abraçasse, desculpando-se, para que eu pudesse me desculpar e seríamos felizes, chutando aquela vaca da Catarina para fora de nossas vidas.
Mas era só ilusão minha, ele não voltou.
E a culpa disso tudo era dela. Ela.
Catarina, eu não vou deixar Juan fazer a escolha errada.
Isso é uma promessa!
Notas finais
Epa, uma briguinha pra esquentar a competição, agora sim. Algo me diz que esse capítulo rendeu um 1x0 pra Catarina, hein!
Mas enfim, eu gostei desse título de capítulo ^^
Agora vou deixar vocês curiosos enquanto escrevo o "No País das Tentações", heh (propaganda mode on)
Fale com o autor