Servo da Família Sazawori
12 Escondendo um Collie!
Notas iniciais
Sabe, eu odeio quartas-feiras. Não tenho um motivo específico nem nada do tipo, eu só... Não gosto. Hoje já não bastava ser quarta-feira, eu ainda tinha que arrumar o castelo, ouvir as reclamações de Lowei, lidar com o mau-humor de Juan enquanto escondia o maldito Rotaru de todo mundo.
Esse cachorro babão só sabe latir, ontem ele ficou uivando a noite toda e eu tive que dar uma desculpa idiota pro Juan, de que o mendigo da esquina estava cantando, algo assim. Ok que eu gosto de animais, mas esse bicho está me tirando paciência.
Ah, ele também gosta de morder coisas. E nessas “coisas” se destacam as minhas roupas e os móveis. Agora o Lowei fica dando faniquito porque diz que o castelo está cheio de cupins.
-Cala a boca, Rotaru! –eu sussurrava, tentando deixar o cachorro dentro da cozinha, ele latia feito um louco- Fica quieto, alguém vai te escutar!
Ouvi sons de passos ecoando pelo corredor. Empurrei o collie ali, fechei a porta e murmurei desculpas, segurando a porta com as costas.
-Dawari, viu Juan? –Lowei perguntou, enquanto tentava arrumar as mangas da blusa.
-E-eu acho que... Ele não foi... Uh... Pro tribunal, não era...? –respondi, segurando meu nervosismo.
-Ah. –ele olhou melhor para mim- Por acaso está escondendo algo?
-Ehhh... Eu? E-eu? Não! –disse, forçando um sorriso.
Do outro lado da porta, Rotaru latiu alto.
-Mas o quê...? –Lowei arqueou uma sobrancelha.
-Auf! –eu disse sem pensar.
-Hein?
-Auf! –repeti nervoso, tentando abafar o latido de Rotaru.
-Dawari, sai daí.
-Não.
Lowei se aproximou sério de mim e segurou meus braços, que eu usava para empurrar a porta. É claro que se ele usasse a força me tiraria dali afinal, ele é mais velho e mais forte do que eu. Parece até que todo mundo daqui é mais forte do que eu, aposto que até Larian é.
-Dawari!
-Auf!
-Para de latir, seu idiota!
-Idiota é a mãe! –consegui soltar um dos meus pulsos e soquei-o no estômago.
Ele recuou e eu corri para dentro da cozinha. Assim que entrei Rotaru parou a barulheira e me olhou com aqueles olhinhos negros profundos. Aproximou-se de mim e lambeu meu rosto quando fui acariciá-lo.
-Um cão? Dawari pode ir se explicando. –Lowei entrou na cozinha com as mãos no estômago e meio mancante.
-O nome dele é Rotaru. –expliquei, Rotaru assentiu com um latido.
-Eu não quero saber o nome disso. Quero saber o que ele faz aqui.
Rotaru rosnou para Lowei, fazendo este levar um susto. Rotaru é muito fofo, mas dá bastante medo quando fica com raiva. Ele mostra os afiados dentes que fariam até um leão tremer e levanta a cauda peluda, na posição de ataque.
-Rotaru, aquieta aí. –acariciei a cabeça do cachorro, que se acalmou e lambeu a minha mão- Viu Lowei, ele é mansinho.
-Mansinho o caralho, ele bicho tem cara de que quer me devorar!
-Não exagera Lowei...
Ele ia responder, mas um barulho o interrompeu. Era o som da porta se abrindo.
-Boa tarde, Dawari! –Larian disse, entrando na cozinha.
Ela só viu Rotaru pular para perto dela e brincou com ele, abraçando o bicho animadamente. Olhou depois para Lowei e eu.
-Ops.
-Você também participou disso, Larian? –Lowei disse, vendo o cachorro tão feliz com a presença da menina.
-Eh... –ela sorriu amarelo- Sim.
-Oh, deus.
-Por favor, Lowei, não conta pro Juan! –Larian disse triste.
-É ele iria expulsar o Rotaru na certa! –completei.
-Está bem, está bem, eu não conto.
-Eba! –eu e Larian comemoramos.
-Vocês contam.
-O quê? –perguntei.
-Como assim nós? –Larian disse assustada.
-Foram vocês que o trouxeram para cá. Eu não vou bancar o dedo duro e entregar vocês, mas quero que contem.
-E se não o fizermos? –perguntei desafiante.
-Então ele vai descobrir sozinho e ficará com raiva de nós três. –Lowei disse. Ele estava indiferente, mas eu sabia que por dentro ele estava tremendo feito o sino da igreja só de pensar no sermão de Juan.
-Ah vai Lowei, ajuda a gente a esconder ele do Juan! Prometemos que contamos pra ele, só estamos esperando que o momento de tensão por causa do julgamento passe.
-Ok, ok... Hein? Como você sabe do julgamento Larian?
-Eu sei de tudo que acontece nessas terras. –ela sorriu.
Ah, Larian espertinha.
O som da porta da frente se abrindo ecoou novamente pelas paredes do castelo.
-Deve ser a Merie, ela que te levou pra escola não é Larian? –olhei a ruiva.
-Foi ela sim, mas ela entrou junto de mim.
-O quê? Então é... –Lowei olhou para a porta- É o Juan!
-Alguém em casa? –reconheci a voz de Juan e seus passos pelos corredores.
-Rápido, vamos esconder o cão! –Lowei disse.
-Mas o Dawari já o escondeu.
-Eu? –olhei para Larian.
-É. Se não... Onde está ele?
Olhamos em volta, mas não avistamos o collie. Ouvimos os sons de suas patas batendo no chão em uma corrida e seus latidos abafados. Ele tinha ouvido Juan e estava indo em sua direção. Corremos atrás dos latidos e batidas de pata, até chegarmos à sala principal.
Juan estava caído no chão, Rotaru em cima dele e lambendo o seu rosto. O ruivo tentava afastar o collie, mas este era pesado.
-Oh, merda. –soltei.
-Juan! –Lowei exclamou assustado.
O conselheiro foi até seu mestre e ficou tentando tirar o cão de cima dele. Agachei e assobiei alto.
-Rotaru, vem! Vem cá garoto! –chamei bobamente o bicho, que veio rebolando a cintura e sacudindo a cauda até mim.
-J-juan...! –Larian apareceu e forçou um sorriso para o irmão, que se sentava e olhava-nos com raiva. Vi várias folhas de papel espalhadas pelo chão, provavelmente Juan teria trazido-as.
-O que significa isto? –ele disse com uma voz séria, se levantando e olhando Rotaru.
-Eh, eh... –Lowei gaguejou.
-Eu... Ele... Uh... –Larian se enrolava nas próprias palavras.
-Eu o trouxe para cá. Vi ele na frente do castelo sozinho na chuva e não pude deixá-lo. –eu disse- Desculpe não ter contado para você, eu... Eu... –comecei a me enrolar e me perder no olhar impaciente do rei.
-Dawari, isso é culpa sua? –ele disse.
-Não, fui eu que o trouxe, o Dawari só me ajudou a escondê-lo porque eu fiquei pedindo... –Larian falou hesitante.
Juan olhou para o cachorro, este choramingava com o rabo entre as pernas e a cabeça abaixada.
-Por favor, Juan. Não nos faça jogar o Rotaru num canil... –fiz a minha cara mais pidona.
-Por favor, por favor. –Larian completou.
Ele recolheu as mãos e suspirou, não pude identificar se era de raiva, piedade ou impaciência. Levantou o rosto e esboçou um leve sorriso.
-Ok, ele pode ficar.
Eu e Larian agradecemos mil vezes e abraçamos ele, felizes. Rotaru também se animou a ficar pulando e latindo alegre.
Eu estava deitado na cama de Juan do lado do ruivo, tentava me aquecer com o fino lençol. Vi ele olhar a chuva cair lentamente pela janela do quarto.
-Juan, desculpe trazer o cão, eu...
-Não tem problema Dawari. –ele se virou para mim, sorrindo- Não estou triste por causa disso.
-Então por que está assim? Você parece... Triste.
Juan se sentou na cama e ficou a afagar meus cabelos loiros.
-Juan...
-Eu levei Salim ao tribunal para tentar provar o que ele fez a você, mas... Como não conseguimos provas concretas, não tive como provar nada. Desculpe-me.
Sentei-me na cama ao lado dele. Abracei-o e sorri para consolá-lo.
-Juan, nem precisava... Eu agradeço muito por ter feito isso por mim, não importa se deu certo ou não. –eu disse feliz. Ele tinha enfrentado o júri só pra provar aquela coisa? Ah, eu já esqueci – ok, não esqueci, mas tudo bem.
Separamos nosso abraço e ele me beijou, aconchegante como sempre.
Ouvi os sons dos uivos de Rotaru, pelo menos agora eu não precisava mais me preocupar com desculpas idiotas para isso. Senti que minha raiva e impaciência por aquele cachorro eram evidentes, mas que eu não conseguiria deixá-lo.
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