Notas iniciais
O nyah! tem alguma coisa contra apóstrofos, porque o título deveria ser Hors-d'ouvre.
First: essa fic é dedicada à minha umma linda diva perfeita Anaa Sshi, e à Teg, aquela coisa morta de linda que me faz vomitar arco-íris quando me chama de unnie. Amo vocês, meninas.
Second: Sugestões, críticas, elogios. Aceito qualquer coisa.
Third: Pelamordeshisus, DIGAM, se não estiver agradando.
Fourth: Juro que é o último. Glossário nas notas finais.

A ponta da faca deslizava suavemente pelos pingos de creme de leite na borda da sopa cremosa criando meigos coraçõezinhos. A precisão era ci­rúrgica, aquelas mãos poderiam estar salvando vidas ao invés de criarem obras de arte que seriam destruídas com o primeiro mergulhar da colher.

Ergueu a mão com cuidado e admirou sua criação com os belos olhos ofídicos cor-de-chocolate-meio-amargo por vários segundos antes de deixar um sorriso travesso despontar em seus lábios.

— Anda, Chef! Precisamos de ajuda com as codornas! — apressou uma garota de feições ocidentais e cabelos castanhos rajados de âmbar parci­almente cobertos pelo característico chapéu branco. Irritado por ter sido in­terrompido em seu momento de contemplação, ele ficou instantaneamente sério e a olhou acusatoriamente.

— Summer, em vez de ficar aqui me importunando, por que você não está lá ajudando? — sibilou, passando a ponta de sua língua pela da faca co­berta de creme. Seu olhar denunciava que ele estava prestes a usa-la para assassinar a garota à sua frente.

Ela não pareceu se abalar com olhar dele, mas com o que ele disse.

— Eu? De jeito nenhum! — esbravejou — Eu me recuso a olhar para­ aquelas codorninhas tão pequenas e indefesas, isso é crueldade... — baixou o tom de voz gradualmente e, ao final de seu discurso, parecia estar prestes a chorar. Ele riu, e jogando a faca em uma das pias disse:

— Summer, você é o que há de mais exótico na gastronomia. Uma gourmet vegetariana. — balançou a cabeça pros lados, fingindo admiração. Ela parou, e erguendo um dedo, corrigiu-o com veemência:

— Ovo-lacto vegetariana, por favor. Não é como se eu fosse uma co­medora de folhas qualquer. — empertigou-se, colocando as mãos na cintura. Ele apenas riu novamente, revirando os olhos. Não era algo frequente ver um sorriso no rosto do chef, e a maioria das vezes que o fazia, era quando es­tava com Summer. A garota, tão nova, era discriminada por ser a única mulher naquela cozinha e ainda era acusada de ser a “queridinha do chef”.

— Vamos lá ver essas codornas. — ele disse, indo até a bancada onde estava sendo preparado o prato. Uma pessoa só lidava com duas panelas no fogão, oito codornas em cima da bancada e o chapéu que insistia em querer escorregar dos cabelos pretos lisíssimos. Parecia desesperado para fazer tudo ao mesmo tempo e, ao ver os dois, parou por um segundo para fazer uma re­verência apressada e desajeitada ao chef.

— Yah! — gritou de repente para Summer, que pulou de susto e o fi­tou com olhos arregalados, surpreendida pela mudança repentina de humor a que deveria estar acostumada, mas aqueles olhos eram realmente amedronta­dores. — Como você pôde deixar ele lidar com tudo isso ao mesmo tempo? Termine as codornas, Heechul, eu cuido dos molhos e do arroz. — o chef disse ao outro, que suspirou aliviado. — E você! — gritou por cima do om­bro para a garota que ainda permanecia no mesmo lugar, olhando. — O que ainda está fazendo aqui? Tenho certeza de que você tem pratos pra fazer!

Summer expirou um “Bah!” e deu meia volta resmungando em francês, sua língua materna. Summer Marie Lyndon, entremetier* do restaurante, uma francesinha que adaptou seu sonho aos seus hábitos alimentares, conseguindo ser uma das melhores do país. Apesar da discriminação, mantinha um sorriso no rosto pela maior parte do tempo, que desaparecia com as ordens impaci­entes e vigorosas do chef...

...Cho KyuHyun, chef principal do restaurante, conhecido pela auste­ridade bipolar. Especialista na haute cuisine ocidental, formado pela Le Cor­don Bleu de Paris, a mais conhecida e conceituada escola de gastronomia do mundo. O Maison Seoul estava prestes a fechar quando o novo dono assumiu e o contratou para salvar o cardápio, e assim o fez, tornando-se uma lenda e um exemplo para pessoas como...

... Kim Heechul, chef de carnes, constantemente visto tentando conci­liar pressa e perfeição, com o intuito de agradar mais o chef que aos clientes.

Com as codornas prontas, KyuHyun deixou o resto com Heechul e saiu para fazer uma de suas típicas e temidas rondas. Mandou botar mais azeite, cortar a cenoura em cubos menores, reclamou da consistência da sopa, exigiu que o molho da salada fosse refeito, e fez menção de roubar um suspiro da bandeja, as antes que pudesse, teve um saco de confeitar apontado a milíme­tros de seu rosto.

— Nem pense nisso. — Advertiu RyeoWook, o pâtissier*, com sua voz estridente. — Ninguém toca nos meus doces desse lado da porta. — falou pausadamente, com um olhar psicopata. Conformado, Kyu­Hyun afastou a mão e a ergueu em rendição, afastando-se. Olhou no relógio. Só mais 3 horas.

— Ei, KyuHyun. — viu o dono do restaurante, Choi Siwon, colocar meio corpo pra fora de seu escritório e o chamar com um aceno de cabeça. KyuHyun entrou na sala e fechou a porta. Siwon sentou-se em sua cadeira e gesticulou para que o outro também o fizesse. O chef estranhou tal atitude, uma vez que raramente entrava ali para ter conversas longas, mas se acomo­dou em uma das poltronas.

— Sim? — KyuHyun começou, curioso para saber o motivo do cha­mado.

— Olha, eu... — ele parecia hesitante em falar, o que deixou o outro ainda mais desconfiado. Respirou fundo e disse tudo de uma vez só. — Eu contratei outro chef principal.

— O QUÊ? — KyuHyun levantou-se, exasperado. — COMO ASSIM, “CON­TRATOU OUTRO CHEF PRINCIPAL”? Você enlouqueceu? O que deu em você pra fa­zer isso, e sem me consultar?! — Os gritou eram audíveis da cozinha, apesar de toda a típica confusão culinária.

— Kyu, escuta. O nome dele é Zhou Mi, e ele é um dos melhores chefs da China...

— Eu não estou nem aí! — interrompeu — Pode ser até o espírito da Madame Brassart*, eu NÃO VOU dividir a minha cozinha! — disse, de­terminado.

— Era uma oportunidade única, ele é realmente muito bom, e estava prestes a assinar com o Le Han...! — usou o nome do concorrente com des­prezo como argumento, mas KyuHyun estava irredutível.

— Que tivesse assinado! Nós NÃO PRECISAMOS de um chef novo, o car­dápio está perfeito!

— Ele não vai mexer no seu cardápio! — levantou-se de sua cadeira e se aproximou do outro — Ele vai ser responsável por criar um cardápio ori­ental, eu acho que os clientes vão gostar disso. Por favor, Kyu... — juntou as mãos, implorando com um tom de voz suave.

— O quê?! Por que você acha que nós precisamos de um cardápio ori­ental? Isso vai totalmente contra a proposta do Maison! Além disso, a minha equipe não é especializada nesse tipo de culinária, a minha cozinha não tem os equipamentos apropriados para esse tipo de culinária e eu NÃO VOU dividir o que é MEU! — disse, decidido. Num último gesto, Siwon agarrou-o pelos ombros e, olhando-o nos olhos, propôs:

— Vamos fazer assim: eu dobro o tamanho da cozinha, contrato uma equipe só pra ele, e você fica do seu lado, fingindo que ele não existe. Por favor? Pela nossa amizade?

— Pela nossa amizade, o que eu não vou fazer é arrancar os seus olhos com a faca de desossar! — gritou, furioso. Diante do olhar insistente de Siwon, respirou fundo e concluiu, com um tom de voz modulado. — Mas o restaurante é seu, faz o que você quiser. — tentou parecer calmo, mas o estrondo do bater da porta ecoou pelo apo­sento.

Todos perceberam seu estado quando saiu do escritório e, sabendo que a tempestade estava por vir, redobraram a atenção nas panelas e na impeca­bilidade dos pratos. Um Cho KyuHyun com raiva não aceita nada menos que perfeito.

Furioso, foi até uma bancada vazia e socou o mármore com resíduos de farinha de trigo. Arrancou o chapéu e andou pela cozinha a passos largos e pesados até um espaço aberto em uma das paredes, onde ficava exposto o livro de receitas oficial da Cordon Bleu, que continha também a receita do sucesso daquele estabelecimento.

Ao se dirigir até aquele lugar e tirar o livro do suporte, todos pararam. Os talheres e facas pararam de tilintar, o óleo não chiava mais, os que estavam presentes prenderam a respiração incrédulos, olhando fixamente para não perderem nenhum segundo daquele evento sin­gular e nunca presenciado por muitos: Cho KyuHyun iria tentar uma receita nova.

Ignorando todos os olhares surpresos, foi até o freezer, escolheu o melhor peixe roliço e o pegou sem nenhum cuidado pela cauda, voltou e jo­gou-o com violência na superfície gelada.

Precisava pensar, e nada melhor que cozinhar para clarear as ideias. Abriu o livro na página do prato que prepararia, leu uma vez com calma a receita, fechou o livro, devolveu-o ao suporte e começou.

Tirou as escamas do peixe, limpou-o e cortou cuidadosamente três sulcos diagonais em sua carne. Salgou-o, e em uma panela larga e rasa, fritou-o, logo depois o colocando para secar em folhas de papel toalha. Fez o molho de maisena, gengibre, vinho, pimenta e molho de soja, e recolocou o peixe logo depois. Colocou mais alguns condimentos e finalizou o preparo com um cozimento lento e cuidadoso, tudo sob os olhares curiosos dos subordinados que dividiam a atenção entre o chef e o que estavam fazendo.

A maioria se perguntava o que faria com o prato pronto, uma vez que não constava no cardápio.

Quando finalmente desligou o fogo, o chef pegou um prato e, do modo típico ocidental, arrumou uma pequena, porém charmosa porção em um prato de porcelana, decorou-o com um pouco do molho de chilli e finalizou com um raminho de coentro no topo da pequena posta.

Afastou-se de sua mais nova obra prima e suspirou fundo. Uma salva de palmas ecoou pela cozinha e só então ele percebeu que estava tão absorto no prato que nem pensou no que Siwon dissera horas antes, mas com um de seus sorrisos travessos no rosto enquanto fazia uma reverência em agradecimento às ovações, encontrou naquela peça de porcelana fina, tudo o que precisava ter pensado. Correndo como se aquela ideia pudesse lhe fugir a qualquer momento, pegou uma bandeja, um abafador de prata e talheres para peixe, arrumou o prato como o tradicional no serviço à americana e mantendo o sorriso, comandou:

— Chamem o chefe-de-fila!

Heechul, atento, correu porta a fora e voltou segundos depois com o chefe dos garçons, JongWoon, sem saber o que se passava, postou-se à frente do chef e fez uma reverência.

— Sim, chef KyuHyun?

— Ajude-me a levar isto para o Sr. Choi Siwon, por favor. — disse, indicando a bandeja. Ajeitou novamente o chapéu na cabeça e dirigiu-se para o escritório, sendo seguido pelo outro com a bandeja. Sem bater, abriu a porta do escritório e os dois entraram, só então percebendo a presença de alguém desconhecido sentado elegantemente na poltrona em que KyuHyun estivera mais cedo.

— Oh, Kyu... — Siwon, disse, surpreso. — O que o traz aqui? — parecia um pouco receoso por algo. KyuHyun ignorou a pergunta e fixou os olhos no desconhecido.

Mesmo sentado, o que mais chamava a atenção de qualquer um eram as pernas longas cruzadas confortavelmente que terminavam em um par de sapatos obviamente caríssimos. Tinha os cabelos castanhos bem cortados em uma franja que delineava bem o rosto magro de olhos escuros, lábios finos, nariz reto e aristocrático. Usava um blazer escuro cheio de botões dourados e chamativos sobre uma camiseta azul-claro, uma echarpe vermelha com motivos indianos no pescoço e uma medalha redonda de ouro antigo. Uma figura que deveria estar nas passarelas, e não no escritório do dono de um restaurante. Voltou o olhar para KyuHyun e abriu um sorriso diplomático, que foi ignorado.

— JongWoon, por favor. — pediu. O chefe dos garçons atravessou o aposento em silêncio, deixou a bandeja na mesa de Siwon, retirou o abafador e, após fazer uma reverência, saiu da sala. Ao ver o sofisticado prato à sua frente, lançou um olhar confuso ao chef, que, polidamente, ainda que incomodado com a presença do outro, esclareceu:

— Eu fui incoerente mais cedo, me desculpe. — fez uma reverência demorada.

O desconhecido, com curiosidade, levantou-se.

— Você deve ser o chef desta cozinha, não? Um belo arranjo de peixe Sichuan você tem aí, mas deixe-me dizer que se não for feito do jeito tradicional, perde totalmente a proposta de uma receita oriental. — julgou, empertigado. — A propósito, sou Zhou Mi.

Então é ele. Chegou um pouco mais cedo do que eu esperava, pensou, e olhou para Siwon, que só então entendia a intenção dele ao preparar aquele prato. Era como se dissesse: Não precisamos de um novo chef pra fazer um cardápio oriental, eu posso fazer isso sozinho. Olhou-o pedindo desculpas silenciosamente, e se levantou.

— Sim, Zhou Mi, este é KyuHyun, nosso chef principal. — apresentou, e respirou fundo antes de seguir. — Chef KyuHyun, este é Zhou Mi, e ele vai ficar responsável pelo nosso cardápio oriental.

Notas finais
Tudo bem se eu não merecer reviews.
Glossário:
entremetier: chef responsável pelos pratos que não levam carnes ou peixes.
pâtissier: chef confeiteiro.
Madame Brassart: fundadora da Le Cordon Bleu
Receitas do capítulo: Codornas à Madame Brassart e Peixe Sichuan.