Notas iniciais
Itálico = pensamentos do personagem ou palavra de alguma língua fictícia da história.

O homem preferiu fugir à noite. Não nascera para enfrentar o calor do deserto ao dia — mesmo Terebad, com seus mil lagos e dez vezes mais árvores, era quente demais para ele. Mesmo tendo viajado por tantos lugares no mundo, sempre preferira o frio. Afinal, vinha de Novrog, onde nas manhãs de verão as folhas das árvores congelavam e, no inverno, os dedos de qualquer um que não se preparara o suficiente. A lembrança da terra natal lhe trazia tristeza. Sabia que nunca iria retornar. A última vez que estivera lá foi décadas atrás, no auge da sua juventude e virilidade, sentindo-se triunfante como quem mata um dragão, mas recebido com a euforia de um funeral. Apenas uma pessoa acreditara em sua história, e justo ela... Não. A vida não tem tempo para essas lamentações. Quantas vezes teria que repetir isso em seus pensamentos?

Féllubas estava em pleno galope, seu pelo negro camuflando cavalo e cavaleiro na escuridão da noite. Evitavam a estrada principal. Assim, Dorovan iria demorar mais para entregar a mensagem, mas tinha menos chance de ser capturado (de novo).

A sua sorte, porém, o abandonara há muito tempo.

Dois cavaleiros terebades, provavelmentes vindos de alguma patrulha na região, interromperam o galope de Féllubas e pararam a uns dez metros adiante, no meio do caminho.

— Um dromere sozinho — disse o da esquerda, com o tom ríspido característico da língua do Muktereb, — longe da Estrada Dourada, vestido em farrapos. O que você pensa dele?

— Contrabandista, fugitivo, ou os dois — respondeu o da direita, uma mulher. — Devíamos matá-lo e entregar suas orelhas ao Comandante. — Levantou a voz para que Dorovan a ouvisse melhor. — Algo a dizer, dromere?

O novrogue apenas encarou-os.

— Fale pro seu comandante dormir com um tetmerg.

Os dois gargalharam. Se perceberam meu sotaque, tudo está acabado.

—Corajoso, esse aí — comentou a mulher. — Que pena.

Atacaram.

Galoparam em sua direção, lanças prontas para atravessá-lo. Percebeu que a mulher estava desprotegida em seu lado direito, então aproveitou o último segundo antes de ser espetado para girar Féllubas e ferí-la com um golpe de sua espada roubada, um corte que passou pelo seu braço, sua perna direita e seu cavalo, que, com um relincho de dor, caiu no chão em cima da guerreira. A manobra teve seu preço — Dorovan sentira algo passando pelo seu ombro direito, que, ao verificar, estava sangrando.

— Não! — gritou o rapaz, cuja lança não conseguira sequer raspar no fugitivo. Os dois homens, montados em seus cavalos, encaravam-se. O cavaleiro terebade tremia; parecia querer nada mais do que ir até sua companheira (que uivava de dor na areia do deserto, manchada de vermelho) e salvá-la. Dorovan pensava que iria desmaiar: não estava sentindo o seu braço, e caiu de seu cavalo. Esse é meu fim, pensou. Estou velho, já estava na hora de alguém mais jovem me derrubar. Ouviu um trote. Será Féllubas? Fuja, meu amigo. Vá... Mas quem apareceu foi o cavaleiro, que, sem hesitar, empurrou sua lança no peito de Dorovan. A última coisa que vira foi o rosto do terebade: melancólico. Vingativo.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.