Serpentarius

6 0.5 - A Feira dos Horrores


Notas iniciais
"Ele seria um bom caçador de youkais com um treinamento decente."

"0.5"

A Feira dos Horrores

"Ótimo, ser pego em uma armadilha tão óbvia!"

A situação não estava nada agradável: rendido por uma katana rente ao pescoço, Isao nada mais poderia fazer a não ser tentar convencer aquela garota sobre sua situação — sem contar toda a verdade, ao menos por agora. Ele não arriscaria confiar em uma estranha, não sem antes confirmar quem ela era...

— Meu nome é Isao, e... Fiquei curioso e te segui.

— Curioso? Com o quê?

A fala dela era rápida e sua voz, um pouco grave — bem mais marcante que a de Ligea.

— Com o que você disse: youki. Por acaso é uma Guardiã? Como se chama? De que signo é? Há outros?

Isao não conseguia vê-la já que ela estava atrás dele mas notou que a respiração da moça havia ligeiramente diminuído o ritmo, sugerindo relaxamento. Ela respondeu após alguns segundos de ponderação:

— Sou uma Guardiã De Apoio, me chamo Yomi. Estou caçando os youkais que se infiltraram nesse lugar. Por que me seguiu? E o que sabe sobre youkais?

A garota soltou Isao, que finalmente pôde ficar cara a cara com ela. Devia ter a mesma idade que ele, talvez um ou dois anos mais velha, usava um uniforme cinza-escuro de colegial, impecável porém visivelmente datado; carregava a katana em uma simples bainha lateral presa na cintura — que poderia até mesmo ser chamada de 'discreta' caso fosse comum carregar tais coisas pelas ruas hoje em dia. De longos cabelos negros e triste semblante, ela aparentava ter uma vida agitada e cansativa e carregar um grande peso nos ombros...

— Não sei muita coisa, só os boatos que ouço pelas ruas. Quando ouvi você falando 'youki' não acreditei... Você sente eles?

"O Apoio existe! Tenho tanto a perguntar..."

— Sim. É um cheiro bem diferente dos humanos. Você não consegue sentir?

"Minha família está tão distante da função que nem mesmo temos os instintos básicos de Guardiões."

— Não. Eu não sou um... Guardião... Nem de Apoio nem nada parecido.

Aquela constatação doeu muito em sua alma. A voz até mesmo falhou frente a cruel verdade sobre si mesmo. Ah, como queria fazer parte do grupo, lutar por algo mais que sua própria sobrevivência, ter o que contar aos netos quando estes se sentassem à sua volta com os olhinhos ávidos por histórias excitantes e incríveis...

"Definitivamente não sou Apoio. Encare os fatos Isao: você é um reles inútil."

— Mas sabe sobre nós. Como sabe dessas coisas? Não está me dizendo toda a verdade.

— Eu sou um... Pesquisador do oculto. Pode não parecer, mas tenho grande interesse em youkais e Guardiões. Ouço lendas sobre esses seres místicos desde que era pequeno, e acabei tomando gosto pelo assunto.

"Não vou me revelar enquanto não souber se ainda levam a Serpente em conta como Signo Guardião. Não vou me arriscar demais e pôr tudo a perder por agir precipitadamente. Obrigado pelo conselho, ojii-san... Só espero que ela acredite em mim, ao menos por enquanto."

— Pesquisador, eh? Por hora acredito. Apenas não se intrometa em meu caminho, e assim que tiver uma chance saia daqui. Tome cuidado, youkais são bastante traiçoeiros.

— Pode deixar. Só quero informações e, se possível, fotos.

Yomi não parecia muito interessada no que Koyanagi dizia, estava atenta demais ao frio ambiente e aos traços de youki para prestar atenção no relato de um simples colegial. Tinha certeza de que um dos youkais que sentira estava escondido ali, mas não conseguia saber exatamente em que lugar do imenso ginásio.

— Fique atrás de mim, Isao. Há youkais aqui, nos observando, esperando para atacar. E procure não atrair a atenção com barulho ou papo inútil.

— Certo.

Os dois se dirigiram silenciosos para o alto de uma das arquibancadas, subindo a escadaria em ritmo lento. Nenhum som fora o da feira no exterior — longínquo porém presente — era audível ali dentro, o que só piorava o clima tenso instaurado. Os movimentos de Yomi eram ágeis, precisos, típicos de alguém que é habituado a se esconder — ou caçar. Isao tentava acompanhá-la como podia, mas ela era demasiadamente ágil para que ele mantivesse o ritmo sem fazer barulho ou tropeçar. Ele queria conversar mais, questionar sobre várias coisas — principalmente sobre certa mestiça — mas não arriscou contrariar as ordens dadas pela espadachim. Chegando lá em cima ficaram parados, observando e tentando identificar algum som, por mínimo que fosse, que acusasse a presença de mais alguém.

— Tem certeza de que está aqui? — Isao tremia de frio, esfregava as mãos para tentar se aquecer.

— Você nem percebeu, não é?

— Perceber?

— Esse frio anormal.

De fato, não estavam nem um pouco perto do inverno — que aliás não fora tão intenso como nos outros anos — para que a temperatura fosse tão baixa perto das piscinas.

— É mesmo, isso tá esquisito.

— Yuki-Onna.*

— O que?

— Yuki-Onna, youkai da neve. Ela pretende nos congelar aos poucos, limitando minhas habilidades de combate. Preciso achá-la logo, ou teremos problemas. Não senti o youki, mas tenho um palpite de onde ela está...

Dizendo isso a bela garota desceu rapidamente as escadas da arquibancada, deixando Isao para trás. Este desceu o mais rápido que pôde, mas perdeu-a de vista novamente — "Ela age tão subitamente que não consigo acompanhar...". Checou o portão por onde tinha entrado, e mal conseguiu tocá-lo devido à baixa temperatura do metal — quando o fez constatou que estava trancado, ou bloqueado. A temperatura caía cada vez mais...

"Esse frio maldito está me atrapalhando a pensar... Se ao menos a fervura do sangue me esquentasse, não seria de todo o mal. Cadê a Yomi? Ela não parece ser do tipo que conversa muito, preciso tentar arrancar mais informações antes que ela suma de novo. Não, preciso fazer mais: tentarei convencê-la a me levar aonde os Guardiões de Apoio se reúnem. Para isso preciso conquistar a confiança dela de algum modo..."

Enquanto tentava 'meditar' sobre o assunto, o garoto-problema contornava uma das piscinas do local à caminho dos vestiários, na esperança de que estivessem mais quentes. Mas hesitou ao ouvir confusos e abafados sons vindos da área:

"Mas o que é isso?"

— Yomi, é você?

Um grito foi a resposta. Não era a voz de Yomi; aguda demais para ser. Envolto em dúvidas Isao prosseguiu — um pouco receoso — e se deteve frente ao corredor dos vestiários. O silêncio voltara a predominar, e o frio parecia estar ainda mais intenso ali.

"Tá parecendo um frigorífico... Não tem nada aqui que eu possa usar como arma? Hm? Que barulho foi esse?"

Ainda na área da piscina, havia um espaço escuro entre o fim das arquibancadas e a parede dos vestiários, largo o suficiente para duas pessoas passarem lado a lado. Era usada normalmente por casais durante o almoço ou eventos esportivos, para fins de diversão privada. Isao acabara de ouvir o que parecia ser...

"...um gemido?"

— Quem está aí?

Outro gemido foi a resposta, sugestionava dor.

— Quem está aí?

Procurando a origem do gemido, o rapaz percebeu que este vinha justamente daquele espaço escuro e 'pouco' usado. Ainda receoso, se aproximou devagar e viu uma pessoa deitada de bruços no chão. Era uma garota, e vestia um uniforme escolar — não do Kusari, mas de um dos colégios das redondezas. Não se mexia, a não ser pelo movimento da própria respiração pesada e difícil.

"Uma vítima?"

— Hey, você está bem?

Koyanagi se ajoelhou ao lado dela, tendo o cuidado de não tocá-la. Não havia sangue ou ferimentos aparentes, a moça provavelmente desmaiou de modo súbito por alguma razão e se chocou contra o chão. Mais sons vieram dos vestiários, agora estavam bem mais próximos dali, mas Isao não poderia deixar aquela garota jogada de qualquer jeito para se esconder ou averiguar.

"O que eu faço? O que eu faço? Preciso tirá-la daqui!"

Naquele momento a parede de um dos vestiários explodiu em uma nuvem de detritos e poeira, e Isao viu o corpo de Yomi sendo arremessado por metros de distância. Do rombo da parede saiu uma jovem garota de cabelos intensamente negros e pele branquíssima, envolta em gélida aura. Vestia-se como uma colegial do complexo, mas estranhamente usava o uniforme de inverno. Ostentava um sorriso de escárnio, e sua voz aguda e sarcástica causava calafrios:

— Morra, Hebi no Ningyõ!* Você é uma praga que deveria ter sido eliminada há muito tempo! Vingarei as mortes que carrega em suas costas!

Ela aparentemente não tinha visto Isao e a garota caída, concentrando-se na Guardiã de Apoio — que se levantava nesse momento, pronta para o combate — incrivelmente sofrera apenas alguns arranhões, apesar da violência do golpe.

— Cale-se, Youkai. Se quer tanto me matar, por que não o faz aqui e agora?

Yomi tinha no rosto um... Sorriso?

"Ela parece estar se divertindo. Era para ter quebrado vários ossos com aquele impacto, mas ainda continua de pé e não parece ter sido abalada por aquilo. Que tipo de treinamento ela fez?"

As duas combatentes se encaravam, esperando o próximo movimento uma da outra. O frio estava debilitando-os seriamente, fazendo todos ali — exceto a própria 'geradora' — tremerem incontrolavelmente. O primeiro movimento foi um simples assoprar da youkai, que congelou instantaneamente o chão aonde Yomi estava. Esta recuou antes de ser atingida, mas não poderia fazer isso novamente: estava às bordas da piscina.

— Por que foge agora, caçadora? Antes estava tão agressiva! Será medo?

— Não temo youkai algum, Yuki-Onna.

A garota-das-neves não se movia, apenas assoprava e movimentava os braços, moldando o frio que criava aparentemente do nada. Dirigia-se lentamente em direção a seu alvo, deixando um perigoso rastro de gelo por onde andava. Yomi não se movia: ou estava planejando algo ou simplesmente ficara sem opções, presa entre a youkai e a piscina — e um mergulho nesta com certeza seria mortal, a julgar pela temperatura.

— O que foi, sem saída? Antes quase me feriu, e agora foge como uma cobra encurralada.

Isao via toda a cena em um misto de medo e admiração. O modo como aquela estranha garota que se dizia Guardiã de Apoio agia frente a seu inimigo era tão confiante e desafiador! E ele ficava confuso e inseguro frente a coisas tão frugais, como uma simples conversa com a garota de que gostava...

"Isso sim é um verdadeiro Guardião de Apoio, não esse poço de insegurança que sou. Será que um dia serei como ela?"

Yomi relaxou, e abaixou a espada. Mantinha no rosto aquele sorriso de prazer, e encarava a youkai diretamente nos olhos, desafiando-a. O frio parecia não estar a atrapalhando seriamente, a julgar por sua postura. Sua voz também transbordava de desafio:

— Vamos logo com isso, tenho mais o que fazer. Ou vai ficar parada, esperando que eu vá até aí te cortar?

Tentando não demonstrar irritação a Yuki-Onna apenas sorriu e esticou um dos braços. O frio ao redor dela aumentou ainda mais, e uma ventania se iniciou ali dentro, convergindo na direção de Yomi. Esta continuou no mesmo lugar e imitou o gesto da youkai com o braço esquerdo; mas nada aparentemente aconteceu. A ventania a envolveu completamente, e até mesmo Isao teve de cobrir os olhos para se proteger do vento.

"Isso tudo é causado por ela? Youkais são tão poderosos assim?"

Passados alguns segundos a ventania cessou completamente, tão repentina como surgira. Isao se assustou quando viu a parede de gelo frente a Yomi, que ainda mantinha a mesma pose — e o mesmo tom sarcástico:

— Só isso? Você ainda é muito jovem, youkai. Pena que não terá a chance de crescer...

— Impossível! Você deveria ter sido completamente congelada!

A resposta de foi um poderoso chute na parede de gelo, que explodiu em vários pedaços. Alguns destes voaram na Yuki-Onna, ferindo-a superficialmente e fazendo-a recuar. Yomi avançou com impressionante velocidade, se aproveitando da fina poeira resultante da explosão e do momento de guarda aberta, não dando tempo para que houvesse recuperação: aplicou um golpe diagonal com a katana, rasgando a roupa e a pálida pele de seu inimigo. Recuando — agora ligeira — a Yuki-Onna tentou novamente gerar a ventania, mas Yomi já estava perto demais e acabou por decepar um de seus braços. A fluidez e precisão dos movimentos da Guardiã de Apoio era tal que, se não fosse a natureza cruamente violenta daquele embate, diria-se que ela conseguia transformar perfeitamente a poesia das antigas artes marciais em belos e fatais gestos.

O golpe final foi uma estocada que atravessou o corpo da youkai, arrancando desta um gemido abafado, engasgado. Yomi continuou a empurrá-la com a arma até que ela ficasse prensada contra uma parede, apoiada na lâmina — já que suas trêmulas pernas não mais conseguiam sustentá-la. Em pouco tempo começaria a desfazer-se, sua vida chegara ao fim... Mas não seria algo em vão: com o restante de suas forças, segurou um dos braços de Yomi com a mão que sobrara e sorriu, certa de que cumpriria ao menos parte do que fora designada.

Sugar energia vital de humanos e transferir essa energia para o lado youkai da barreira: tarefa simples para uma criatura de seu nível. Apesar de jovem, Mai detinha grande poder — parte por causa de sua própria raça, parte pela dedicação em seu treinamento — e era uma das alunas preferidas de Maki, a mestra do grupo em que fazia parte. Adorava se misturar aos humanos, achava-os curiosos e até mesmo belos. Perguntou uma vez a Maki se poderia ter um ou dois humanos de estimação depois que a dominação youkai se estabelecesse; tinha muito interesse em aprender mais sobre eles. Queria conhecê-los a fundo... Mas o destino não fora caridoso para com seus sonhos, encerrando sua vida muito antes do desejado. Encontrar a Hebi no Ningyõ em um lugar daqueles, justamente em uma missão tida como fácil, fora azar demais. Mas ao menos conseguira feri-la minimamente; se tivesse encontrado um Guardião, certamente não teria tempo de reagir como fizera agora. Partia com um sorriso no rosto, certa de que Maki ficaria orgulhosa de sua batalha, afinal, lutara minimamente bem contra uma temida e poderosa inimiga dos youkais.

— Por que sorri, youkai? Já vê as portas do inferno abertas, aguardando sua alma?

— Você perdeu, Serpente. Se descuidou no final...

Tardiamente Yomi tentou se afastar da Yuki-Onna, mas não conseguiu: um de seus braços estava quase completamente congelado, assim como a outra mão e também sua katana, ainda atravessada no corpo gélido da falsa colegial.

— Droga!

Mai começou a rir, já não sentindo a metade inferior de seu corpo. A vista tornara-se completamente embaçada, mas ainda conseguia distinguir a expressão de surpresa no rosto de sua algoz. Yomi tentava se libertar, mas o gelo já começara a cobrir um de seus ombros e subia rápido demais pelo outro braço. O contato com os fluidos da mulher-das-neves potencializou o congelamento; aquilo era completamente diferente da fraca ventania de outrora. Já não sentia mais suas mãos debaixo daquelas camadas de gelo, se não pensasse em um modo de se libertar rapidamente poderia até mesmo morrer — era uma presa fácil congelada na parede daquele modo.

A distância e o ângulo em que as duas estavam atrapalharam Isao, que não percebeu o que havia acontecido até que Yomi gritou. Levantou-se e saiu do 'esconderijo', mais preocupado com a Guardiã de Apoio do que com a garota desmaiada, e correu — como se seu sangue finalmente conseguisse 'esquentar' o corpo, injetando adrenalina nos músculos. O problema é que aquele foi o pior erro que Isao cometera até então...

— Yomi! Saia de perto dela!

A Guardiã de Apoio olhou para o garoto — havia se esquecido dele — com uma expressão de desaprovação, que rapidamente mudou para surpresa e preocupação:

— O que ainda está fazendo aqui? Não se aproxime, ela não... Cuidado!!

O aviso chegara tarde e incompleto demais: Koyanagi repentinamente viu apenas o chão à frente, e o inconfundível gosto ferroso de sangue inundou sua boca — havia caído não sabia como, seu queixo e dentes doíam muito e sentia uma leve tontura e confusão. Via Yomi tentar desesperadamente se livrar do gelo, olhando preocupadíssima para ele, e gritando algo que ele não conseguia entender — seus ouvidos estavam zunindo demais para que interpretasse o que ela dizia. Não conseguia mover as pernas, estavam presas por alguma coisa esquisita que roçava entre elas. Se apoiando com podia, olhou para trás e viu a outrora desmaiada colegial de pé a uns cinco metros atrás dele. Sorria, imponente; mantinha as mãos apoiadas na cintura em clara posição de superioridade. Era bela, mas algo em seu olhar não estava correto — era inumano demais. O mais estranho de tudo era seu cabelo: muito longo, preso em duas tranças laterais que chegavam até... As pernas de Isao!

"O quê?"

— ...uma Futakuchi-Onna*! Garoto, é uma youkai!

Finalmente o zumbido nos ouvidos diminuiu, mas os avisos de Yomi não mais seriam úteis naquela altura dos acontecimentos. A youkai chegou perto de Isao, ajoelhando-se ao lado dele — assim como ele havia feito antes com ela. Sorria, vitoriosa, enquanto examinava a indefesa presa que tão facilmente caíra em suas garras.

— Consegui dois belos troféus, não acha, Hebi no Ningyõ? A energia desse jovem e a sua cabeça... Mai, sua morte não será em vão, prometo que Maki saberá de seu feito. Agora descanse, amiga.

A Yuki-Onna fechou os olhos, contente: as palavras de sua aliada e o desespero de sua inimiga trouxeram-lhe a calma de que tanto necessitava para se entregar ao frio abraço da morte. Seus membros e metade de seu tronco já haviam se desmaterializado em uma fina poeira semelhante a neve, levada pela fraca brisa que entrava de algum ponto no ginásio. Sua consciência foi aos poucos desaparecendo, como se também desintegrasse. Mai já não sentia mais dor, apenas sono. Muito sono.

"Obrigada, Moe, por essas palavras. Agora vingue-me..."

Yomi percebeu que o gelo que quase lhe sufocou — havia subido pelo pescoço e chegara perto da boca — e que estava lhe paralisando cessara seu avanço com o último suspiro da youkai. Mas não daria tempo de esperar aquilo derreter ou ceder por si só; ela tinha que continuar tentando quebrá-lo, ou correria sério perigo de ter sua energia vital drenada — exatamente como estava prestes a acontecer com Isao.

"Por que ele me seguiu? Humano tolo!"

— Não adianta tentar se libertar, caçadora. Será tarde demais quando o fizer. Aceite sua derrota e aproveite a cena que vai assistir agora: pretendo me divertir muito com seu parceiro antes de matá-lo definitivamente. Quero ver o desespero aflorar em seus olhos ao se sentir completamente impotente.

Obviamente Isao não gostara nadinha daquelas palavras... Mas o que poderia fazer? Estava caído no chão com as pernas amarradas, havia um youkai ajoelhado ao seu lado prestes a devorá-lo, e sua salvadora estava presa e completamente a mercê do oponente. O que faria? Iria se entregar assim, sem luta, sem reação, ao primeiro inimigo que aparecera para ele? Desistiria de reerguer o clã Koyanagi? Desistiria de lutar contra youkais? Desistiria de Hikari?

"Não!"

Decidiu jogar tudo para o alto e finalmente agir, usando as duas únicas coisas que o mantiveram vivo até o presente dia: seu instinto e seus músculos. A youkai estava próxima demais para evitar o que se seguiu: assim que ela virou o rosto em sua direção Isao agarrou-o e deu uma violentíssima cabeçada no nariz dela, quebrando-o instantaneamente. A surpresa da Futakuchi-Onna foi tão grande que ela não conseguiu revidar e muito menos bloquear o soco que o jovem aplicou-lhe logo em seguida no que restava de seu nariz. A excruciante dor e o impacto do golpe a fizeram tombar no chão, e Isao aproveitou o momento para libertar suas pernas — o cabelo de Moe afrouxara no instante em que o primeiro golpe a atingiu.

"Não vou morrer em um lugar desses!"

Em seguida o garoto-problema correu para libertar Yomi, quase tropeçando em seus próprio pés; sentia tontura tanto pela queda quando a youkai o prendeu quanto pela cabeçada.

"Não vou desistir enquanto ainda estiver respirando!"

Yomi estava perplexa — e também com muita raiva: o que o garoto tinha na cabeça, afinal? Ia quebrar o maldito gelo com os punhos?

— Saia daqui Isao, fuja enquanto pode!

-...

Mas Koyanagi estava obstinado: bem próximo da Guardiã de Apoio, retirou da parede um extintor de incêndio — que já estava quase caindo do suporte — e ergueu-o acima de sua cabeça. Mesmo com toda a tontura, reuniu força o bastante para arremessar o pesado — e frio — objeto metálico; este se chocou contra a camada de gelo que cobria os braços de Yomi. O gelo não chegou a quebrar, mas rachou em vários pontos, principalmente no local onde o extintor acertara.

— O que está fazendo, idiota? Por que isso? Deveria ter fugido!

— É meu dever como Guardião de Apoio.

Isao nem percebera que acabara de revelar uma importante informação sobre si mesmo que iria influenciar uma série de acontecimentos futuros. Preocupava-se em pegar o extintor e golpear novamente o gelo, precisava libertar Yomi antes que Moe se recuperasse completamente. O que ele não sabia era que ela já havia se recuperado, e estava completamente tomada pela fúria. As duas longas tranças de seu cabelo moviam-se tempestuosas e, com impressionante agilidade, enrolaram-se em volta do pescoço do garoto, arrastando-o para longe da espadachim novamente.

— Você arruinou o meu rosto! — Moe gritava com ódio, enquanto apertava o pescoço de Isao e erguia seu corpo até certa altura — Eu vou devorá-lo, humano medíocre... Vou torturá-lo e devorá-lo aqui mesmo!

A youkai movimentou seus cabelos de tal modo que Isao se chocou contra a parede com violência. Yomi estava tão desesperada que não se importava mais em se machucar nas tentativas de quebrar aquela droga de gelo. Não podia deixar que um humano, ainda mais um que se revelara Guardião de Apoio, morresse na sua frente — ainda mais para um inimigo daquele nível. Sentia que estava quase conseguindo libertar os braços, mas o gelo teimava em não ceder mesmo com todo o esforço empreendido.

"Por que me descuidei assim? Não posso deixá-lo morrer!"

Moe ainda estava transtornada com os danos em sua face, cobrindo-a com as mãos. Já não se importava mais com a razão para que viera ali, pensava apenas em vingar a morte de Mai e os golpes que recebera. Não havia percebido que revelara a grotesca segunda boca presente em sua nuca — boca essa que salivava, esperando a macia carne humana presa por seus cabelos. Com outro movimento das tranças Isao foi submergido na gelada piscina, para em seguida ser suspenso novamente no ar e se chocar com ainda mais força contra a parede — ouviu o nítido barulho de algo se quebrando nesse momento. Não conseguia respirar e nem enxergar direito, e percebeu que logo iria desmaiar...

"Parece que é o fim..."

Fechou os olhos e sentiu-se projetado novamente no ar, afundando pela segunda vez na piscina... Mas o que ele não sabia é que o som que ouvira antes não era o de suas costela se quebrando — não que elas estivessem inteiras — mas sim o de gelo se partindo. Sim, Yomi de certo modo se libertara, e aproveitou a distração da Futakuchi-Onna para golpeá-la repetidas vezes com a estranha arma que portava...

Ela não havia conseguido quebrar o gelo completamente, seus braços ainda estavam presos; mas tinha conseguido se separar do gelo que cobria parte da parede onde perfurara a Yuki-Onna. Acabou por transformar sua desvantagem — os braços congelados em um bloco de gelo — em uma vantagem — um tipo de martelo feito de água solidificada e... Seus braços.

Yomi aplicou repetidos golpes na cabeça de Moe até que esta tombou desacordada — soltando Isao no processo, que caiu na glacial piscina. A Guardiã de Apoio golpeou a Futakuchi-Onna caída com tanta força que finalmente se livrou da maldição da Yuki-Onna — deixando um corpo se desintegrando no processo.

"Espero que não seja tarde demais!" — e olhou desesperada para a piscina.

"Desculpe ojii-san, eu deveria ter te escutado e não me envolvido com Guardiões e Youkais... Shinji, me desculpe, mas não fui forte o suficiente... Hikari, espero que seja feliz. Eu realmente te amei..."

Isao afundava lentamente na piscina, vendo a distorcida luz do sol entrando pela parte de vidro do alto teto do ginásio, até que fechou os olhos, já sem esperanças. Sentia o frio da água penetrando em cada poro de seu corpo, afogando-lhe em escuridão cega. Mas se assustou ao sentir o inconfundível toque humano: abriu os olhos com dificuldade e viu um familiar rosto que, naquele momento, resgatou a antiga lembrança de uma pessoa, há tempos esquecida nas profundezas da memória. Ou seria a proximidade com a morte, desenterrando experiências e lembranças de toda a sua vida?

"...Mãe?"

Yomi o puxou para fora d'água com esforço e, uma vez fora desta, tratou de reanimar o garoto o mais rápido que pôde — ela tinha certa noção de primeiros socorros, já que se acostumara a resgatar pessoas dos youkais nas mais variadas situações. Isao arregalou os olhos e se livrou parcialmente da sonolência ao sentir os lábios dela tocando os seus, enchendo seus pulmões de ar — e expulsando a água destes, causando uma incômoda tosse que durou quase um minuto, ininterrupta.

— Você foi um idiota.

A Guardiã de Apoio evitava olhar para ele diretamente, se preocupando com o estado de seus próprios braços: totalmente arroxeados, sem sensibilidade. Ela não sabia como o havia retirado da piscina, já que estava completamente exaurida da luta.

— De nada.

Koyanagi respirava aliviado, achando graça da situação. Não tinha percebido o momento em que ela se libertara; estava ocupado demais apanhando e sendo estrangulado pela Futakuchi-Onna para isso...

— Deveria ter corrido.

— Eu sei.

— De que adiantaria ter visto os youkais, se não sobrevivesse para contar a história?

— Obrigado por salvar minha vida.

A colegial realmente não queria olhar diretamente para o tímido jovem, mantendo o rosto virado. Os dois se arrepiaram com uma súbita brisa — que a eles pareceu uma intensa rajada de vento — fazendo-os compreender que ainda não estavam à salvo.

— Precisamos sair daqui e nos aquecer. Consegue ficar de pé?

— Acho que sim, mas não sem ajuda. Se afogar cansa...

Apoiados um no outro a dupla conseguiu sair do ginásio — aparentemente a magia da Yuki-Onna estava acabando, não mais bloqueando a porta de saída. Uma vez lá fora tentaram alcançar a área da feira, mas Isao caiu no chão e Yomi se ajoelhou; estavam completamente exaustos — e tremendo de frio.

— Precisamos nos aquecer, Isao. Ou teremos problemas...

— Já estamos no sol. Não é... Suficiente?

— Não. Demoraria... Demais...

Dizendo isso a garota finalmente olhou para ele. Olhou nos olhos dele por alguns segundos, como se lembrasse de algo — ou alguém. E, sem aviso algum, desabotoou o gakuran* de Isao.

— Mas o que está fazendo?

— Calor corporal. Precisamos nos... Aquecer rapidamente...

— Eeeeeh?

Mal terminou de abrir a camisa do rapaz, Yomi retirou a parte de cima de seu serafuku*; só que naquele momento o cansaço e a sonolência acabaram por vencê-la:

— Agora eu é que... Fiquei curiosa... Com o que você... Disse... Guardião...

E tombou sobre o peito de Isao, desacordada. Segundos depois, foi a vez dele perder os sentidos subitamente.

-~~*

"Mas Hikari, daqui a cinco minutos teremos de voltar pra aula! Vai querer que os inspetores peguem no seu pé?

"Bobagem Isao, temos tempo de sobra. Vamos aproveitar que nos deixaram sozinhos agora e curtir um pouco."

"No lugar de sempre?"

"Sim. Adoro aquele seu cantinho, ali ninguém nos acha!"

"E podemos fazer que nem da última vez."

"Seu pervertido! Mas é justamente por isso que quero ir pra lá..."

Isao abriu os olhos devagar, chateado pelo sonho ter acabado exatamente ali. Já há algum tempo não sonhava com Hikari daquele modo tão real — talvez as provas que se aproximavam o estivessem preocupando demais, não deixando seu cérebro relaxar. Ah, havia também a preocupação com Guardiões, youkais...

"Onde estou?"

Ainda devia ser tarde da noite, a julgar pela escuridão. Estava deitado em uma confortável cama, que com certeza não era a sua. Tentou se levantar mas desistiu da idéia, ainda estava fraco e algumas partes de seu corpo doíam; resolveu apenas permanecer sentado e se alongar. Aos poucos sua visão acostumou-se com a falta de iluminação dali, deixando que Isao examinasse o ambiente.

"Um hospital? Que alívio... Yomi também deve estar aqui. Se não fosse por ela, eu com certeza teria morrido. Não sabia que youkais eram tão fortes e... Bizarros. Mas aquela garota da neve era bonitinha. Mortal, mas bonitinha. Que estranho pensar assim sobre o inimigo... Espero que eu seja capaz de matá-los quando for preciso. Se ao menos houvesse outro modo..."

Isao voltou a deitar na cama, ficar acordado em uma hora daquelas no hospital não era lá uma coisa muito inteligente a se fazer.

"Espero que mais ninguém tenha sido morto na feira. Acho que se Yomi não tivesse perseguido e matado aquelas duas, muita gente seria morta, talvez até mesmo eu, Shinji e Rigea. E Hikari."

O rapazinho fechou os olhos, sonolento. Queria poder voltar ao sonho interrompido, modificá-lo e aproveitá-lo o máximo que podia antes que acordasse novamente pela manhã. O problema é que é impossível controlar o pensamento, ainda mais quando se entra em estado de sonolência; e o rosto que acabou aparecendo primeiro em sua mente não foi o de Hikari Gautier, mas o de Yomi. Acabou por relembrar do momento em que ela desabotoou a camisa dele e, em seguida, tirou a blusa.

"Acho que não tem problema imaginar várias versões do mesmo sonho."

*Yuki-Onna: literalmente, "mulher-da-neve". É um tipo de youkai que, como o próprio nome diz, tem poderes derivados da neve e do gelo. Vive solitária em montanhas, onde costuma congelar desavisados para se alimentar. Mais raramente, aprisiona um desses desavisados para fins de reprodução — matando-o ou não depois do processo. Sua aparência é como foi descrita aqui, com a ressalva de que normalmente yuki-onnas usam belos quimonos cerimoniais.

*Hebi-no-Ningyõ: "Boneca-Serpente". O porquê de Yomi ter esse apelido, assim como também o motivo dela ter parado o sopro de gelo da Yuki-Onna serão explicados futuramente na história...

*Futakuchi-Onna: "mulher-de-duas-bocas". Outro youkai que tem aparência somente feminina. A segunda boca 'nasce' em uma mulher que se recusa a comer, compensando a falta de alimento. Os cabelos movem-se como serpente assim como descritos aqui, e servem para ajudar a alimentação da segunda boca. Podem se alongar até certo ponto.

*gakuran: o típico uniforme escolar masculino japonês, tão comumente visto em animes.

*serafuku: o típico uniforme escolar feminino japonês, tão famoso pelo mundo todo a ponto de se tornar fetiche.