Serfon, um colégio nada normal
3 O significado das asas
Notas iniciais
O ano enfim parecia ter começado, mas não na ordem certa, afinal já estávamos no começo do segundo semestre. Ele havia começado pelo motivo de que todos acharam a sua determinação para prosseguir com aquele colégio. Muitos já haviam me dito depois daquela trapalhada que eu fiz ai chegar muito atrasado à aula e ainda atrapalhar a apresentação do meu novo professor Juvenal! Que lástima de nome.
Mas isso não parece impedir ninguém de estudar aqui normalmente, seja lá o que seja o normalmente para eles.
Acabei conhecendo um dos alunos melhor do que os outros, o nome dele era José. Sabe aquele cara que tinha me perguntando se eu não tinha forças para aguentar tudo aquilo, exato, ele é o José.
Já haviam se passado três dias desde o inicio das minhas aulas. A correria dos trabalhos atrasados nem ocorreu, o sistema daquele colégio tem uma norma rígida quanto a passar sobre tais trabalhos, só seria obrigado a ir para o projeto de teatro, então estava totalmente relaxado. Meu quarto dia de aula já começava de uma maneira totalmente calma, e silenciosamente passaram as três primeiras. E assim tocou o sinal do intervalo.
Comi pouco, coloquei os fones de ouvido, abri o meu livro, embora não estivesse lendo e deixei que as coisas na minha mente deixassem um pequeno espaço para que eu mesmo pudesse controla-los, mas parecia mais difícil do que eu imaginei.
A aula estava para começar, uma coisa ainda me intrigava e era aquele monitor no corredor. Não o vi durante, as outras aulas. Já estávamos na quarta aula. Havia algo de estranho no tom em que ele me disse:
“Boa sorte garoto, você vai precisar.”
Mas isso não é motivo para preocupação, tenho que voltar para aquela bendita sala.
Não gosto de dizer isso, ou simplesmente de pensar que as coisas estão sendo um pouco precipitadas, mas devo afirmar que, cheguei atrasado...
– Separem-se em duplas, podem ficar totalmente livres na escolha do seu parceiro, agora se ficarem de frescura eu mesmo decido o parceiro de cada um de vocês. Agora sejam rápidos.
– Bom você poderia me desculpar, mas eu não sei sobre o que é para fazer... Será que poderia repetir?
Parece que o professor não gostou muito disso e além do mais, só temos ele de professor é? Tá na hora de mudar né galera? Não aguento ver a cara dele mais hoje...
Sim, o professor era o Juvenal... E ele não saiu da sala de aula desde aquele dia. Sempre as aulas pertenciam a ele. Mas claro que as matérias não eram as mesmas, ele sempre variava de uma maneira incrível, então podemos dizer que mesmo que apenas fosse ele, as aulas valiam a pena. Menos pela parte da loucura dele.
– Alguma alma caridosa pode se voluntariar para auxiliar essa pobre criatura?
Ai, essa doeu em mim.
– Eu o ajudo e pare de ser ranzinza Pedro, essa sua antipatia me dá ânsias de vômito.
– Que bom, sabemos que a humanidade tem salvação por causa da sua nobre ação.
Olhei para trás e vi quem havia respondido e... Era a garota ruiva do meu primeiro dia de aula. Não havia perguntado o nome dela, mas por causa do escândalo do primeiro dia ela sabia do meu.
– Diego, se quiser saber agora sobre o que está sendo tratado, pode vir até aqui.
Todos os olhares se voltaram para mim, como se eu estivesse tentando matar a alguma pessoa na frente de uma igreja. Andei com certa dificuldade, posso dizer que até com medo, mas lá estava eu sentado na frente dela recebendo uma explicação detalhada sobre os primeiros 10 minutos de aula que eu perdi.
Acabei percebendo que o meu relógio estava atrasado perdi o horário da aula e aumentei o horário do meu intervalo. Arrumei isso. E voltei a escutar.
A temática daquele bendito trabalho em dupla era para ser dito o que cada um acreditava ser a forma de liberdade, alguma forma de fugir de um passado ou encontrar a calmaria do presente.
– Eu não sei o seu nome ainda. – Falei de uma maneira que poderia dar uma pequena pausa no assunto...
– Me chamo Dryka, prazer em te conhecer oficialmente. Ou melhor, espero que se apresente oficialmente.
Ela riu meio timidamente, mas ainda assim foi um pequeno convite.
– Me chamo Diego. O prazer é meu.
Não teríamos as outras duas aulas. E assim que tocou nos dirigimos para o parque atrás do colégio, estava calmo por lá e escolhemos ficar embaixo de um carvalho. A sombra se estendia por mais alguns metros a nossa frente e ficamos admirando a mesma por determinados momentos e depois tentamos nos focar ao assunto principal.
Aqueles cabelos ruivos tomavam toda a minha atenção, isso porque me prendo a não descrever mais sobre ela neste momento.
A conversa podia estar boa, na verdade ótima, mas naquele momento eu tive uma dúvida e coloquei as cartas na mesa para poder entender o que era realmente que eu queria saber, quando já havia decidido o que perguntar, perguntei a ela:
– Qual o significado das asas que você tem em suas costas? – Perguntei meio receoso da resposta, mas um breve sorriso no rosto dela me mostrou que aquela pergunta não foi incomoda. Mas sim algo que ela pudesse se libertar de um pensamento retido há muito tempo.
– Elas significam a liberdade que um dia eu perdi... – Aquela pequena pausa me deixou um pouco nervoso para o que viria em seguida, e logo vi que ela estava sorrindo. E prosseguiu. – Mas isso não significa que hoje eu estou presa a alguma coisa, é totalmente contrario. Hoje estou mais livre do que no dia antes que as tatuassem em minhas costas.
– Desculpe-me se a pergunta incomodou... Eu não queria...
Um sorriso tímido, retirando uma mecha do cabelo de cima do olho esquerdo, ela me olhou esperançosa, como se eu fosse à saída de algo que há muito tempo a prendeu.
– Não, não me incomodou e acho que já sei sobre o que falaremos na apresentação.
– Sobre o que?
– As asas da liberdade... O que cada um de nós acredita...
Nossos rostos se aproximaram lentamente enquanto ela prosseguia com o que estavam tentando dizer, e logo os nossos lábios se tocaram, um beijo lento, apreciador e analista.
Não posso dizer o sentimento que eu tive no primeiro momento, mas posso dizer que a sensação foi quase inexplicável, e logo após anestesiante. Nossos rostos se afastaram e olhamos um para o outro.
Desviamos o olhar como se estivéssemos com vergonha do que tinha acabado de acontecer. E nos entreolhamos sorrindo mais uma vez.
– Não pensei que isso aconteceria... – Tentei falar sem parecer tão tímido.
– Pensei apenas em te ajudar e você se aproveita assim. Que coisa feia de se fazer Diego.
– Eu me aproveitando? Nunca pensaria em tal coisa!
– Eu sou feia pra você não pensar em tal coisa?
Xeque-mate. Responda rápido Diego!
– Não, claro que não... É só que no primeiro momento eu não acharia que teria uma chance assim contigo...
– Estou brincando. Não sou tão fácil assim pra ser conquistada só com um beijo.
Na cara, recebe essa, foi dar uma de trouxa e se entregou. Agora pense com atenção, você se colocou em fogo cruzado.
– Então você já esperava que isso acontecesse?
– Não, esperava que conseguíssemos terminar e escolher o que faríamos. E isso já conseguimos concluir, o que ocorreu foi só um extra.
– Apenas um extra? Dessa vez me surpreendeu viu.
Rimos por mais alguns momentos, nos separamos, já marcava três horas da tarde, o tempo realmente voou enquanto estávamos ali. Recebi um convite para ir a primeira comemoração da Serfon, ocorreria no centro da cidade, dentro de nove dias. Aceitei, embora quando as outras pessoas tivessem me convidado eu recusei institivamente. Agora talvez fosse diferente...
Eu ainda deveria saber o que seria esse evento e o quanto poderia mudar a minha vida nele, e foi o que ocorreu...
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