Sereno
1 único
Nunca mais vi as gotas de sereno sobre carros, talvez porque nunca mais acordei cedo e fui pra rua. Mas quando era criança, eu madrugava pra ir pra escola com você, eu já sentia muito sono nessa época e às vezes minha mãe tinha que amarrar os cadarços dos meus tênis, porque ainda andava sonolento. Nós dois íamos para escola juntos na moto de meu pai, naquele tempo as leis de segurança no trânsito não eram tão rígidas e ninguém chamava a atenção de um tio levando duas crianças pequenas numa moto. Mas eu lembro do frio e das gotas nas superfícies dos carros estacionados, meu pai que nos disse que era o sereno. Um dia pedi ao meu pai para irmos de carro, porque notei que você sentia muito frio tremendo todo daquele jeito, ainda que estivesse de casaco. Só não contava que você protestasse.
"Mas a moto é maneira." "Eu sei que gosta dela."
Você já pensava nos outros antes de você mesmo. Eu realmente fazia sempre ceninha quando chegava na escola com a moto, todos eram pobres. Poucos pais tinham carros, quem dirá motos. Eu era mesmo abençoado por ter tido um pai com os dois! Você gostava de me dizer que era bem sortudo, não? Mas eu não queria te ver mais tremendo e passamos a ir de carro. Ainda bem, porque eu cresceria e a última coisa que eu desejaria fazer seria me exibir, você nesse tempo se preocupou comigo. Achava que eu era reservado demais e já não conseguia prever meus próximos movimentos. Eu idem. Nossas ideias se convergiam umas nas outras. Você não entendia por que não queria falar sobre sexo e garotas. Eu ainda queria comer melancia como nas tardes no meu quintal depois de uma caça às cigarras. Nossos pés ficavam todos sujos e ralados, porque nunca nos dávamos por satisfeitos quando víamos que um capturava uma a mais. Nossa disputa era idiota e perdurou por muitos anos. Pelo menos até certo momento, eu não tinha vontade de disputar garotas com você. Lembro que ficara mais vaidoso e se importava com reputação, eu pensei que você já não se interessava por mim. Mas você sempre esteve preocupado comigo, se eu havia comido, se eu precisava de um guia, um ombro amigo e até mesmo de camisinhas. Eu te achava engraçado, porque não era muito focado em manter uma imagem. Pra conseguir isso era só me largar, mas você não quis.
Eu te larguei.
Te larguei quando percebi que algo estava errado. Eu sentia coisas estranhas... desejos pervertidos como os seus, mas eu sentia isso só por você. Ficamos três meses sem nos falarmos, você gostava de dizer que eu pirei de vez e eu tentava me lembrar de ti tremendo no frio, uma criança de corpo franzino e que precisava pelo menos de três casacos pra se sentir aquecida. Mas que virara um rapaz muito bonito. Você não era atraente, não de forma suja. Você, ainda que tivesse uma boca tão suja, era puro. Seus sorrisos para mim eram diferentes e eram os mais bonitos. Você era gentil e de alguma forma eu sujei isso. Comecei a querer te tocar, de torná-lo meu. Eu precisava mesmo me afastar e posso ter te magoado. Eu voltei a falar contigo, quando compreendi que perversões faziam parte do ser humano, e que não faria mal se eu abrisse o meu coração. Tampouco te tornaria impuro. Sei que ainda teria os mesmos brilhos nos seus olhos. Eu me abri a ti, e você me abraçou. Chorou e disse que sentia medo de ter me perdido para sempre. Em volta havia carros com sereno, era uma manhã gelada e suas mãos se aqueciam nos bolsos do meu moletom. Parecia que havíamos voltado no tempo, de quando éramos crianças, e você me beijou, marcando uma nova fase da minha vida.
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