Serenity
3 Capítulo 3
Notas iniciais
No dia da viagem, minha mãe já havia ligado pelo menos quatro vezes perguntando que horas eu sairia. A mala estava pronta e o dia não estava tão frio. Sai de casa por volta das 11:30min e peguei um táxi para a estação onde o trem partiria às 12:00. Minha passagem já estava paga então, quando o táxi parou na entrada da estação, eu só segui para a plataforma indicada. Minha mala era de rodinhas, facilmente "carregável". Não estava nevando naquele dia, e parecia realmente esquentar um pouco o que me fez retirar o cachecol e guarda-lo no bolso de fora da mala. Faltavam no máximo, 12 semanas para o inverno acabar. Uma olhada no relógio de pulso era o suficiente para saber que Kwon SiCheng estava atrasado, e eu provavelmente seria capaz de ir sem ele.
Depois de longos minutos, o trem havia chegado e já fazia chamada para embarque. Com um suspiro longo, esperei mais dois minutos antes de entrar e sentar num banco próximo a janela, com a mala no banco ao meu lado. Na última chamada, eis que surge o impertinente nenhum pouco apressado, com um copo de cappuccino numa mão e o que parecia ser uma caixa de donuts na outra. Ele usava uma mochila nas costas e o azul do cabelo aparentava já estar desbotando. Ele entrou no vagão que eu estava e procurou-me com os olhos enquanto eu o observava. Quando finalmente me percebeu, veio até mim e sentou-se no banco a frente. Estendeu a caixa e o copo em minha direção e simplesmente franzi as sobrancelhas em resposta, pegando-os das mãos dele.
—Eu já tomei café da manhã. – Avisei enquanto ele tirava a bolsa das costas e colocava no acento ao lado. –Além do mais, é hora do almoço.
—Mas não é para você. –Ele pegou tudo de volta e colocou a caixa no colo enquanto tomava um gole do cappuccino aparentemente quente. – Eu acordei tarde e estou com fome.
As portas do trem se fecharam e logo começou a movimentação. SiCheng comia tranquilamente seus donuts e tomava seu café, enquanto eu tentava esquecer a vergonha que havia acabado de passar.
Era uma sexta-feira e eu havia pedido folga para o final de semana. A chefe da minha área era compreensiva e amiga da família, então não foi difícil conseguir a folga para ir ao casamento de JiHye. Eu não via minha família fazia seis meses. A última vez foi em um jantar em família, cujo objetivo era simplesmente me obrigar a conhecer o noivo da minha irmã caçula. Aparentemente, quem deixa o clima tenso sou eu. Aconteceu no jantar e no encontro com SiCheng e o amigo.
Encostei-me melhor no banco e suspirei pesadamente. Seria um final de semana difícil.
Observei o meu ‘par’ por tempo indeterminado; Seus lábios não estavam tão desbotados como eu havia observado antes, o tom de azul escuro em seu cabelo já começava a desbotar, sua camisa com alguma frase irônica, suas mãos grandes, seus olhos de felino com olheiras não muito visíveis, as sobrancelhas escuras e um pouco arqueadas, os brincos de metal pequenos que eu não havia notado antes, os fios ondulados do cabelo, e parando para olhar direito, seus olhos eram castanhos e não simplesmente pretos. Castanho-escuro.
Tudo parecia harmonizar, mesmo ele sendo uma bagunça. Por um segundo, seu olhar se encontrou com o meu e eu poderia facilmente desvia-los e fingir que não estava o olhando, mas eu queria olhar. Ficamos longos segundos nos encarando, até ele voltar a comer e quebrar o contato dos olhos.
(...)
— Como é a sua família? – Perguntou enquanto andávamos para fora da estação de Suwon. A viagem de 45 minutos não fora tão ruim quanto eu pensava, e apesar do silencio do percurso, não era um clima pesado.
—Eles são um pouco conservadores. Meus tios gostam de poker, e são todos por parte de mãe. Meu pai era filho único e os pais dele já morreram, então não sobrou nada da família do meu pai. A única parte do meu pai é a minha madrasta e duvido muito que a chamem. –Andamos um pouco até chamarmos um táxi. Dei o endereço da casa, que ficava em um bairro nobre de Suwon, e apenas relaxei. – Alguma dúvida?
—Hm, não. –Ele parecia entretido observando as ruas de Suwon durante o percurso. Era uma cidade turística desde que eu me entendo por gente. – Precisamos combinar a nossa história. Sobre como nos conhecemos e há quanto tempo.
—Droga. Eu me esqueci disso. –O motorista dava algumas olhadelas para nós, e aquilo me incomodava um pouco.
—É simples. Eu fui doar sangue, conheci você. Um mês depois, nos encontramos por acaso em um encontro duplo. Nos apaixonamos e estamos juntos. Pronto, bem romântico. – A última parte soou completamente sarcástica, o que fez até parecer que a ideia era uma brincadeira. – Só que eles não precisam saber que o encontro foi há uma semana. Que tal cinco meses?
—É, acho que vai servir.
O carro parou no portão do casarão. SiCheng pagou o táxi e descemos do mesmo. Apoiei-me na parede para tocar o interfone e esperei até escutar alguns chiados.
—Quem é? – A voz de JiHye soou e eu quase sorri. Quase.
—MiYeon. – Um grito de pura empolgação quase me deixou surda, seguido do som do portão abrindo. Essa era JiHye. – Vamos.
Adentramos ao casarão, que tinha portão duplo. O jardim da minha mãe tomava toda a entrada e na pequena escadaria de mármore que levava a porta onde JiHye já me esperava. Bastou chegar um pouco mais perto para a menor me abraçar com toda a força que tinha. Retribuí como não costumava muito fazer, e ela não prolongou muito o contato.
—Que bom que veio... Mamãe já estava começando a duvidar. –Ela sorria abertamente e seus olhos desapareciam quando o fazia. Alguns segundos depois, ela pareceu se dar conta da presença de SiCheng, abrindo o mesmo sorriso e se curvando numa reverência breve. –Olá. Meu nome é Kim JiHye. MiYeon, não me avisou que traria companhia...
—Prazer, sou Kwon SiCheng. –Ele se curvou igual a ela e deu um sorriso como retribuição.
—Eu nem avisei que eu vinha. –Murmurei o mais baixo que eu conseguia.
Não demorou muito para adentrarmos no casarão. Suwon era por si só uma cidade antiga, e alguns casarões pertenciam a certas famílias por gerações, e era o caso da nossa. Minha mãe era a filha mais velha, então era direito dela tomar conta da casa, e ela a reformou quase toda. Eram dois andares de pura arquitetura coreana por fora, mas por dentro, o design era completamente moderno. O casarão havia sido pintado de branco, já que a cor antiga estava completamente encardida e os portões enferrujados, também foram trocados. O piso de madeira brilhava conforme passamos, já com as pantufas próprias para dentro de casa. JiHye nos levou até o meu antigo quarto e disse que apenas mudaram algumas coisas de lugar, mas fora isso, estava exatamente igual. Era para deixarmos as malas lá.
—Espero vocês lá embaixo, com a omma*. –Um último aviso seguido de um sorriso e então nos deixou a sós.
Respirei fundo e basicamente contei até dez para abrir a porta, já sentindo o constrangimento da minha adolescência formigando o meu corpo. Quase no fim da contagem, SiCheng abriu a porta de uma vez e entrou, quase me matando de susto.
Os posters de boybands ainda estavam lá, assim como os móveis brancos e as cortinas em tom de rosa escuro. A cama com a cabeceira de ferro branca também era a mesma. Haviam pintado alguns cantos que eu havia riscado quando tinha meus dezesseis anos, e se livrado dos bichos de pelúcia ridículos. O quarto era espaçoso, a cama ficava do lado esquerdo e o guarda-roupa do lado direito. A penteadeira estava lá, intacta. Me questionei o porque não tiraram aquelas porcarias de posters. Mais próximo do guarda-roupa estava á porta que levava ao banheiro.
—Olha só... Você curtia bastante Super Junior*, não é? – Eram no mínimo sete posters espalhados pelas paredes do quarto. SiCheng tinha o sorriso debochado estampado em seu rosto. Aparentemente, a diversão havia começado para ele.
—Pega leve, eu tinha dezesseis anos. –Era impossível não falar em tom rabugento. Deixamos as malas no chão, para depois desfazê-las. Me sentei na beirada da cama e soltei um suspiro longo. Eu não estava pronta. Eu não sabia nada sobre ele. –Escuta... Eu não sei nada sobre você. Podemos, sei lá, trocar algumas informações?
—Hn. –Ele pareceu ponderar. Estava de costas para mim, com os braços apoiados na janela aberta. –Tudo bem. O que quer saber?
—Coisas simples. Hn... Cor favorita?
—Isso é sério? –Quase pude imaginá-lo franzindo as sobrancelhas, só pelo tom de voz incrédulo. –Roxo. E a sua?
—Vermelho. Comida favorita?
—Cup Noodles.
Isso não é comida de verdade. –Cruzei os braços abaixo dos seios, esperando uma resposta decente.
—Ramen. –Deu de ombros e se virou para mim, encostando as costas na janela. –Melhor agora?
—É a mesma coisa!
—Exatamente.
—Tá. –Eu não me sentia irritada, apenas um pouco contrariada. –Já teve alguma namorada importante?
—Não, só você, meu bem. – O sarcasmo estava em sua voz e em seus olhos, num sorriso quase imperceptível.
—E seu relacionamento com os seus pais? –Seu olhar mudou de água para o vinho, mas o sorriso ainda estava ali. Ele demorou alguns segundos e quando eu achei que iria finalmente responder, batidas na porta interromperam completamente toda a tensão envolvida no quarto.
—MiYeon? Tá tudo bem ai? –JiHye bateu três vezes antes de abrir. Por um segundo, ela pareceu perceber o clima tenso, e quando ia falar algo que provavelmente demostraria seu constrangimento de ter interrompido, SiCheng se pronunciou.
—Nós já íamos descer, eu só queria saber um pouco mais sobre vocês. MiYeon disse que alguns dos tios gostam de poker? Eu sei jogar um pouco. –Ele parecia extremamente convincente, tanto que JiHye simplesmente relaxou e sorriu.
—Ah, que bom! Todos os homens da casa jogam! Quer participar do jogo de hoje à noite enquanto as mulheres saem pra relaxar? –A empolgação emanava dela enquanto eu me mantinha quieta, pensando que provavelmente, como a maioria das crianças, SiCheng havia tido problemas com os pais. Isso fazia dele ainda mais complicado.
—Mas é claro. –Ele sorriu em retribuição e por fim, decidimos descer.
(...)
Quando a noite daquela sexta-feira chegou, eu já estava exausta. Os tios e tias e os filhos deles, todos já haviam sido devidamente apresentados. Os homens se encontravam na sala de jogos da casa, para a noite do poker. SiCheng havia sido extremamente simpático, o que manteve os meus parentes minimamente interessados.
—Ele é bonito. –Eu estava na cozinha, esperando as mulheres para a pequena saída que daríamos. Minha mãe havia se aproximado. –Vocês só vão dormir no mesmo quarto porque não tem lugar. Sabe disso, não é?
—Eu sei. Ainda conheço as regras do lugar.
—Irei arranjar um colchão para ele depois. –Sempre que conversávamos, tinha esse vazio. Esse silêncio incômodo. –Como vai o trabalho?
—Bem, como sempre. –O silêncio, em parte, era culpa minha. Sempre fui curta com a minha mãe e em contrapartida, ela não questionava muitas coisas. A grande verdade é que eu muito me assemelhava ao meu pai, diferente de JiHye. –Ainda decepcionada pela mudança para Seul?
—Já faz sete anos que você mudou para lá. Primeiro disse que iria cursar Enfermagem e depois, arranjou um emprego. Eu não tinha muitas esperanças que voltasse, agora já não tenho mais. –Ela suspirou e seus olhos vagaram pela cozinha. –Eu vejo os filhos das vizinhas próximos a elas, e me sinto frustrada. Pelo menos JiHye teve o senso de morar perto da família.
—Me desculpe. Eu não vou voltar. –Disse por fim. Depois de mais algum tempo no silêncio, ela saiu de perto.
Eu amava minha família como qualquer pessoa ama, mas eu não estava disposta a morar perto. Eu cresci, consegui um emprego e posso me manter. Nunca gostei de viver com as pessoas como se elas fizessem parte de mim e virse-versa. Gosto do meu espaço, e de como posso viver nele sem palpites ou julgamentos antiquados.
(...)
Das três tias que haviam saído comigo, JiHye e minha mãe, duas delas voltaram bêbadas. JiHye havia bebido pouco, já que não queria ficar de ressaca durante o casamento. Havíamos saído 22:00h, e voltado 00:30. Os respectivos maridos das tias as levaram escada acima. Eu estava exausta. A noite havia sido basicamente, farpas e agulhadas direcionadas a mim. Inclusive, me perguntavam milhares de coisas sobre SiCheng, das quais respondi poucas.
Subi para o meu quarto, que estranhamente cheirava a cigarros. Separei uma muda de roupas e fui direto para o banheiro. Tomei um banho quente e merecido depois de tanta paciência gasta. Com um blusão preto e uma calça moletom, saí do banheiro depois de longos 20 minutos. SiCheng ocupava o espaço próximo a janela, o cheiro de cigarros vinha dele.
—Achei que nunca acabaria o banho. –Seu sarcasmo era tão impregnado que eu quase podia vê-lo como uma aura verde escura. Passei por ele e me sentei na cama. O colchão que minha mãe havia citado mais cedo se encontrava no chão, já arrumado. O vi tirar a camisa durante o trajeto até o banheiro e uma pequena parte de sua tatuagem nas costas ficou a vista antes da porta ser fechada. Ela ficava do lado direito, um pouco próxima do ombro, em cima do osso. Não tive certeza de qual era o desenho. Eu não tinha a menor ideia de que ele possuía uma tatuagem. Bom, dava para contar nos dedos as coisas que eu sabia.
Acomodei-me entre o cobertor branco da minha cama e o esperei terminar, o que não demorou muito. Ele guardou a roupa que havia usado anteriormente e se deitou no colchão no chão, ao lado da minha cama.
Um silêncio preencheu o lugar por alguns minutos, enquanto tentávamos dormir. Bom, pelo menos eu tentava.
—Seus tios são legais. –Ele falou, em tom de voz baixo. –Eu me senti bem-vindo.
—Eles não te incomodaram? –Pisquei algumas vezes, a luz que iluminava o quarto vinha da janela, dos postes na rua.
—Não. Me contaram histórias bem legais sobre você. –Quase soltei um gemido de insatisfação. Eu provavelmente sabia bem do que se tratavam essas histórias. Histórias relacionadas à adolescência. –Sobre quando pintou o cabelo. Sobre o aparelho. Você não tinha uma vida amorosa na adolescência.
—Eu realmente não tinha. –Puxei um pouco mais a coberta e suspirei quando o sono começou a chegar. –Eu fui a única pessoa da família a usar aparelho. Aquilo machucava e incomodava e era difícil de limpar.
—Eu imagino. –Sua voz ia ficando distante e meus olhos já se encontravam fechados. –Achei que seu pai estaria presente. Eu não quis perguntar.
—Ele morreu faz alguns anos. –Minha voz já soava sonolenta, e a dele simplesmente calma. –A falta de saúde o matou.
—Devo dizer que sinto muito, ou ele era como o meu? –Sua voz mudava de tom algumas vezes, sarcasmo, brincadeira, seriedade. Eu não sabia mais distinguir de tanto sono.
—Como o seu pai era? –O bocejo veio após a pergunta.
—Alguém ruim, mas não o suficiente. –Ele demorou alguns segundos para responder, imaginei que estivesse pensando sobre.
—O meu pai também. –Murmurei. Ele demorou pra responder, e isso foi tempo o suficiente para eu cair num sono de vez. Estava cansada, mais mentalmente do que fisicamente. Podia escutar um ruído de sua voz, talvez uma resposta. A essa altura eu não podia mais saber.
Com pouquíssimos pensamentos, eu dormi pesadamente.
—Então não devo realmente sentir por eles, doutora.
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