Serenidade
1 Capítulo único
Quando recebeu o convite, Senritsu sentiu os olhos lacrimejarem. Há tantos meses ansiava por vê-lo, aquele menino, talvez homem, que conquistara um cantinho próprio em seu peito. A hesitação não teve vez; é assim que deve ser quando temos objetivos a nosso alcance. Senritsu preparou a mala, ajeitou a touca e embarcou no dirigível. Poucas horas passaram-se até encontrar o rosto que vivia surgindo em seus sonhos. E o nome deslizou por seus lábios como uma carícia:
— Kurapika.
Ele sorriu. Parecia mais velho. E estava sorrindo.
— É um prazer revê-la, Senritsu.
O coração quase desmanchou. Apesar do tom calmo, ela podia ouvir. Tanta tristeza, tanta dor... Se ao menos pudesse abraçá-lo, acariciar seus cabelos e dizer que estava tudo bem... Mas Senritsu não era sua mãe. A mãe de Kurapika morrera há muitos anos e, pela memória dela, o Kuruta jamais desistiria de lutar.
Pensamentos vagaram confusos. Eram indecifráveis para quem não compreende a linguagem das emoções. Mas Senritsu estava acostumada a interpretar os sons, os palpitares. E temia que as batidas do coração de Kurapika cantassem uma música de morte. Seria doloroso. Ela sabia. Ficar ao lado do menino seria doloroso demais... E ela ficou, abraçando o sofrimento com cada pedacinho de suas forças.
Imaginou que se destruiria. Acreditou que seu próprio coração seria despedaçado. Mas a esperança vem ao encontro daqueles que esperam, e Senritsu encontrou a dela nos olhos daquele homem, talvez menino, que corria de um lado para o outro, transportando caixas e seguindo ordens. Riu-se ao perceber que a personalidade não mudara nem um pouco. As mesmas batidas tranquilas. O mesmo som aconchegante. Uma música que envolvia Senritsu na mais bela e cálida emoção.
— Senritsu? É você? — perguntou Leorio, aproximando-se.
— Sim. — Ela sorriu. — Kurapika pediu minha ajuda, e eu aceitei.
— Entendo. Ele confia muito em você.
Um palpitar. Mas não vinha do coração de Leorio.
— E em você também, Leorio.
Ele ficou quieto por um instante, fitando os olhos calmos da musicista. Esfregou a nuca, envergonhado.
— Não que eu seja muito útil.
Senritsu meneou a cabeça.
— Você é.
— Bem, eu... Obrigado. Você... Você quer tomar um café?
Ela abriu um sorriso leve.
— Não vejo por que não.
Pensamentos vagaram tranquilos. Eram imperceptíveis para quem não compreende a linguagem das emoções. Mas Senritsu estava acostumada a interpretar as risadas, os olhares, os suspiros. E desejava que todas as batidas do mundo pudessem ser como aquelas. Puras, sinceras, verdadeiras. Talvez assim, a música ao redor de Senritsu pudesse ser repleta de serenidade.
Fale com o autor