Serendipity
1 Capítulo I
Notas iniciais
Emma acordou assustada, o mesmo pesadelo repetidas vezes não a deixava esquecer-se de como tudo que viveu ainda a afetava, mesmo que já tenha acontecido há seis anos. Memórias de seus dias no colégio Sweet Amoris ainda apavoravam seus dias e deixaram rastros devastadores em seus dias. Ellen deslizou pelos lençóis de sua cama e caminhou até a sacada de seu pequeno apartamento, mesmo agora na faculdade, ainda pensava em como tudo poderia ter sido diferente. Mas não foi.
Sentir o vento bater em seus cabelos soltos e bagunçados fez com que um alivio percorresse por todo seu corpo, mesmo que momentaneamente. Ellen respirou fundo e fechou os olhos, tentando não pensar em nada, mas sua mente estava um turbilhão. Odiava acordar no meio da noite, odiava ter crises de ansiedade, Emma também se odiava por dar tanta importância àquilo que aconteceu e por deixar que isso controlasse sua vida, mas não conseguia esquecer.
Suspirou novamente, desistindo de vez de qualquer chance de voltar a dormir. Ainda era de madrugada, seu relógio marcava três da manhã, Emma jogou-se em sua cama novamente e escorregou por ela se esticando até que seu braço alcançasse a cômoda que permanecia ao lado de sua cama para pegar seu celular. Sem pensar duas vezes, discou um número conhecido, no qual recorria diversas vezes a telefonemas durante a madrugada quando tinha pesadelos ou quando simplesmente estava pensando demais para poder dormir.
— Sério mesmo? Acordada às 3h da manhã? – perguntou ele fingindo indignação, sua voz indicava que Castiel não tinha acabado de acordar, então Emma sabia que estava mais uma noite trabalhando em mais alguma música para sua banda Crowstorm, principalmente agora que seu grupo está ficando famoso dentro e fora da cidade. Quando Ellen continuou em silêncio, pode ouvir um longo suspiro de Castiel – O que foi, Em? Outro pesadelo?
— É, agora não consigo dormir – afirmou ela, agora olhando para o teto do quarto – Só queria conversar um pouco, você sabe, para não ficar andando sem rumo pelo apartamento – seu comentário o fez rir.
— Então vamos conversar – ele disse e depois disso, Emma ouviu um barulho de algo sendo colocado de lado, muito provavelmente sua amada guitarra – Meus pais me visitaram ontem durante a noite, uma tortura, como você já sabe. Minha mãe perguntou por você, ela ficou nervosa quando disse que você não poderia vir – afirmou fazendo-a sorrir.
— Você sabe que eu adoro sua mãe, mas eu realmente precisei ficar mais tempo na faculdade, ao contrario de você eu não sou uma cantora famosa – disse, fazendo-o rir.
— Você sabe tão bem quanto eu que você canta tão mal que poderia causar um acidente de trânsito caso alguém escutasse – afirmou ele, fazendo Emma gargalhar.
Emma adora passar seu tempo conversando com seu melhor amigo, eles se conheceram após seu período no colégio Sweet Amoris, período em que foi julgada por todo o colégio como mentirosa após tentar ajudar um colega de sala, passou por momentos horríveis, sofreu vários tipos de exposições na escola e em rede sociais apenas por denunciar um problema real envolvendo uma família rica. Ela devia ter imaginado que isso iria acontecer, mas estava cega por estar apaixonada demais, talvez. Quando conheceu Castiel, estava destruída, e ele não estava diferente, foi assim que se reconstruíram juntos, mesmo que sem o apoio da família. Hoje já estavam na faculdade, eram dias passados, mas não tanto quanto ambos gostariam. Emma sentia-se mais calma apenas de conversar com Castiel, em um mundo em que não podia confiar, sabia que sempre poderia contar com ele.
— Você vai ficar sem falar nada? Estou começando a ficar preocupado – comentou, demonstrando a preocupação em sua voz. Às vezes sentia como se ele a tratasse como uma criança, mas outras vezes gostava de ser mimada assim – Quer que eu vá até ai? – perguntou, mas já escutava de uma porta sendo destrancada. Os dois moravam no mesmo prédio, a poucos passos de distância – Abre, estou na porta.
Emma levantou-se rapidamente de sua cama e foi em direção à porta, abrindo-a rapidamente e depois desligando o celular. Ao abrir encontrou seu melhor amigo com um olhar contrariado, vestia um moletom largo e claramente velho, seus cabelos vermelhos estavam bagunçados, de um jeito que não veria nos dias comuns, em que seu cabelo estava sempre impecável. Castiel segurava uma almofada embaixo de um dos braços e sua outra mão segurava seu telefone.
— Tiel, não precisava vir – disse colocando as mãos na cintura, mesmo assim, Castiel entrou no apartamento sem cerimonia alguma.
Emma fechou a porta novamente e nesse meio tempo Castiel já estava jogado na cama.
— Vem dormir logo, eu estou com sono e não queria ficar conversando a madrugada inteira – disse tentando parecer indiferente, mas Emma sabia que não era isso, Castiel sempre vinha até seu apartamento quando ficava preocupado ou achava que alguma coisa de ruim poderia acontecer, então Emma não reclamou, apenas apagou a luz e foi deitar-se em sua cama também.
A cama era grande, os dois conseguiam ficar nela e ainda manter uma distância considerável, mas Emma gostava de dormir quando Castiel estava ali, a poucos passos de distância, na qual poderia ser cessada se esticasse um dos braços. Castiel estava ali, parado olhando para ela, Emma sorriu, tentando dizer sem nenhuma palavra que estava tudo bem agora. Castiel esticou seu braço e segurou sua mão de maneira delicada, enquanto Emma sentia-se mais leve, e foi assim que ao fechar os olhos, caiu novamente no sono, mas sem nenhum pesadelo dessa vez.
Emma acordou com o alarme de seu celular, olhou para o lado, não via mais Castiel por ali, mas ao olhar para a mesa no centro de seu apartamento e ver um bilhete e uma pequena embalagem de padaria, logo notou que Castiel deveria ter saído cedo, como quase sempre fazia. Ele levava seus ensaios completamente a sério, o que fazia Emma não se surpreender quando Castiel começou a fazer sucesso em sua banda, ele era realmente bom naquilo e quando estava no palco mostrava um lado que as pessoas geralmente não viam dele, aquilo o fazia realmente feliz.
Ao se levantar, foi em direção ao bilhete deixado por Castiel, lá estava escrito: “Tive que sair cedo, garotinha, vai ter que tomar o café da manhã sozinha, te depois da faculdade”.
Emma não tinha outra opção, mesmo querendo voltar para cama, precisa ir até a faculdade, principalmente se quisesse continuar seu estágio na Universidade com seus professores. Juntou toda a coragem que tinha e então, foi tomar um banho quente e depois se vestiu com suas roupas costumeiras da faculdade. Estava no segundo ano do curso de relações internacionais, ela amava aquele curso, mas no dia de hoje ela apenas queria se deitar e ficar na cama o dia todo.
Pegou seu celular, e depois de jogar mais algumas coisas na bolsa, saiu de casa antes que pensasse mais uma vez em desistir. No caminho para faculdade, parou em um café próximo para comprar alguma coisa que pudesse comer. Comprou o de sempre, uma xicara de café e um muffin de chocolate, aquele café fazia o melhor muffin da cidade, segundo o que Emma sempre dizia.
— Emma, quase achei que você não viria hoje – Emma quase derrubou seu café após a abordagem nada discreta de sua amiga Meggie na cafeteria, ela sempre foi assim, completamente extrovertida desde o dia em que se conheceram, e mesmo que parecesse impossível as vezes, ela sempre estava completamente alegre. Meggie não estava sozinha, com ela estavam Priya e Mattew, ou como todos o chamavam, Matt, que frequentava o mesmo curso de Emma. Os três se sentaram sem cerimonia alguma a mesa, os três eram amigos de Emma desde o dia em que entrou na faculdade, apesar de Priya e Meggie cursarem direito ao invés de relações internacionais.
— Alguém está de mau humor – disse Priya brincando ao ver a cara emburrada de Emma e também, sua cara de susto após a abordagem da amiga.
— Tem como ficar animada depois desse escândalo? – disse Emma, agora sorrindo para a amiga, ela adorava a companhia dos três, era sempre divertido.
— Você me ama que eu sei, Em – disse Meggie – mas agora vamos às fofocas do dia.
— Vai começar o jornal local – brincou Matt, fazendo Meggie revirar os olhos.
— Vocês viram que dois irmãos de uma cidade chique vão mudar para a nossa faculdade? Aparentemente um no curso de moda e outro no de medicina. Segundo minhas fontes, eles são riquinhos e estão vindo para cá por conta de uma fofoca muito grande e polemica que nem eu mesma tive acesso – Meggie contava como se fosse realmente uma repórter.
— E que tipo de gente começa a frequentar as aulas em uma sexta-feira? – perguntou Emma indignada, o que fez Priya rir.
— Uma pessoa que não é preguiçosa como você em – respondeu Priya rindo
— E o que isso envolver a gente Meg? – perguntou Matt confuso.
— Nada, eu só queria contar, eu não sabia que precisava de motivos para espalhar a notícia – afirmou ela, em tom de brincadeira, depois virou-se para contar mais alguma “novidade” do campus a Priya e Matt. Emma estava um tanto perdida em seus pensamentos para realmente ligar para alguma noticia ou fofoca, ela sempre ficava assim após algum pesadelo, não conseguia evitar.
Emma encarava seu café, confusa, mesmo que tentasse pensar em outras coisas, após essa fofoca não conseguia deixar de pensar em sua própria situação após deixar sua cidade natal, fofocas tinham sido um dos principais motivos de ter deletado todas as suas redes sociais e também, de ter escolhido uma profissão em que ficaria longe de todos os holofotes.
Depois de algum tempo, após terem comido e conversado durante um tempo, os quatro se dirigiram a faculdade, eles frequentavam o mesmo bloco, mas apenas em salas diferentes. Depois de se despedirem de Priya e Meggie, Emma e Mattew seguiram em direção a sua sala, ao final do corredor. Tudo naquele dia parecia exatamente normal, até mesmo havia trocado mensagens com Castiel marcando uma sessão de filmes durante a noite. Todo aquele dia estranhamente normal perdurou até o final das aulas, Emma e Mattew estavam conversando perto de sua sala de aula quando Meggie e Priya vieram a seu encontro.
Eles caminhavam até a saída do campus enquanto conversavam de maneira descontraída, seu dia fora tão calmo que Emma até se esqueceu dos pesadelos de sua noite anterior, ela apenas queria aproveitar sua sexta-feira à noite.
— Em, você vai com a gente naquela festa que te falamos? – perguntou Matt sorrindo para a garota – Vamos, você nunca vai com a gente.
— Hoje não vou conseguir pessoal, eu combinei com o Castiel de assistirmos alguns filmes – disse Emma, e então logo as garotas riram.
—Depois você me diz que vocês não estão namorando – disse Priya rindo.
— O que? Não, nós não somos namorados – disse Emma, um pouco envergonhada, ela odiava quando as duas começavam a falar esse tipo de coisa, eles eram apenas amigos.
— Aham, acho que só vocês dois ainda não sabem – disse Meggie – Mas como você já está ficando quase como um tomate de tanta vergonha, nós vamos parar de falar sobre isso agora. Mas e amanhã? Que tal irmos à festa de amanhã na boate aqui da cidade?
— Acho que amanhã não tem problema, que tal? – perguntou Priya olhando para Mattew e Emma.
— Acho que tudo bem – disse Mattew, um pouco contrariado.
— Por mim, tudo bem – disse Emma sorrindo para os amigos.
— Meninos, ali! A menina nova sobre quem estávamos falando mais cedo! – sussurrou Meggie apontando para uma garota de cabelos loiros enrolados.
O coração de Emma quase parou, ela conhecia aquela menina, mais do que gostaria de conhecer. Além dela, conhecia o garoto loiro ao seu lado, eram Ambre e Nathaniel, dois dos colegas de classe de Emma enquanto estudou no colégio Sweet Amoris, dois dos responsáveis por tornar sua vida um verdadeiro inferno, e até fazer com que ela mudasse de cidade. Emma se questionava o que os dois faziam ali, na verdade, queria que tudo isso fosse só mais um sonho ruim, mas não era o que parecia ser.
— Emma, você está bem? – perguntou Mattew, preocupado, mas Emma não respondeu, sentia-se tonta e apenas queria desaparecer daquele lugar.
Sem dar qualquer explicação, Emma saiu correndo dai, ignorando os chamados de seus amigos ou que as outras pessoas começavam a olha-la por estar correndo no meio do campus, tudo que ela queria agora era sumir daquele lugar e fingir que nada daquilo aconteceu.
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