Notas iniciais
vim aqui te desejar uma ótima leitura e espero que goste ♡ deixa teu comentário aí!! pode falar o que quiser ^^ ~gabinnie

Jimin ainda podia ouvir a risada deles ao entrar no bar.

— Chimchim, melhor sairmos daqui — Comentou Kookie, entre risos. Ele se apoiava no ombro do mais alto, que também morria de rir. — Eu não bebo, Tae prometeu passar um mês sem beber e você nem consegue colocar um gole de álcool na boca sem passar mal.

Revirando os olhos, mas sorrindo, Jimin respondeu.

— Primeiro, você bebe, sim, e pensa que consegue esconder. Segundo, promessas foram feitas para serem quebradas e, terceiro, isso é calúnia total!

Caminharam juntos até o balcão do bar, que por sinal ficava numa parte da cidade que eles não conheciam muito bem. Daejeon não era lá tão grande assim, mas de qualquer jeito eles não tinham costume de sair para lugares por aquela área. Jimin sentou-se num dos bancos, Kookie fazendo o mesmo logo depois. Tae ficou em pé, os braços apoiados na madeira. Jimin estava ereto, muito confiante, determinado a continuar fazendo os amigos rirem. Tinha plena consciência dos olhares ao redor deles – e que a “calúnia” sobre a qual falara não era tão mentirosa assim – de todos os outros clientes do bar, mas ignorou-os. Já recebia mais olhares que o normal desde que decidira pintar o próprio cabelo de rosa-chiclete, então começara a se acostumar com eles. Bom, o fizera primeiramente para lidar com a timidez e a introspectividade, até porque sempre quisera fazer algo assim mas nunca tivera coragem. Tinha muito a agradecer a TaeTae e ao maknae dos três por isso, eles sempre o incentivaram muito. Claro, não o faziam em momentos como o presente, do qual ele provavelmente se arrependeria no dia seguinte.

— Um Coquetel Maravilha, por favor — Pediu ao barman, que ergueu as sobrancelhas ironicamente, mas trouxe o pedido sem dizer nada. Tae escondeu o rosto numa das mãos.

— Esse, não, Chim, você me prometeu que iria pegar leve.

Kookie o olhou, indignado.

— Ah, então você sabia disso?

Tae passou a tentar se explicar, e Jimin riu da DR dos dois enquanto tomava um gole do drink. Ao sentir a bebida queimar sua garganta, ouviu uma risada seca vinda de algum lugar no balcão ao seu lado. Olhou para ver quem era, e avistou um garoto, que aparentava ser um pouco mais velho que ele, sentado ao balcão com um copo de whisky na mão cheia de veias aparentes – um detalhe que Jimin não soube dizer o porquê de ter notado. Tinha cabelos negros que quase cobriam-lhe os olhos, e a pele clara estava coberta com uma jaqueta de couro escuro e uma calça jeans rasgada, traje típico dos motoqueiros metidos a machões que costumavam frequentar bares daquele tipo. Havia também uma cicatriz na lateral do seu pescoço, algo que intrigou Jimin por alguns instantes. Agora foi sua vez de erguer uma sobrancelha, virando-se no banco e apoiando o copo na madeira do balcão.

— Algum problema, badboy?

O garoto olhou-o com o canto do olho, e Jimin teve a estranha sensação de já tê-lo visto em algum lugar. O ar petulante lhe dava a impressão de já terem passado por uma situação semelhante antes, mas ele não soube dizer quando ou onde.

— Deviam ter cuidado com as bebidas. Estamos bem longe da Zona Sul, crianças.

— Nossa, agora eu estou com medo — Tae e Kookie haviam parado de discutir, agora olhavam para Jimin e o estranho ao seu lado. — Cuidado, crianças, o machão aqui está nos ameaçando.

Jungkook riu, e Tae balançou a cabeça, sorrindo e murmurando para que Jimin parasse. O outro não se abalou, respondendo sem olhá-los e confirmando as prévias suspeitas de Jimin sobre ele ser mais velho.

— E talvez ter mais respeito por seus hyungs, também. De qualquer modo, não é comigo com quem precisam se preocupar.

O estranho deu um último gole e levantou-se, caminhando para fora do bar. A sensação peculiar que Jimin sentia aquele garoto exalar o colocava num constante déjà vu, mas não tinha ideia se realmente o conhecia ou se apenas tivera essa impressão equivocada. E odiava ficar com uma dúvida atrás da orelha, fosse sobre o que fosse, então observá-lo se afastar foi irritante pelo simples fato de saber que não conseguiria decifrar aquela sensação. De qualquer modo, voltou-se para os amigos e os três ficaram ali, conversando e bebendo. Depois de passar o que pareceu ser meia hora, Jungkook começou a insistir que fossem embora logo, agarrando o braço de Tae e balançando-o quase por inteiro. O mais velho olhou para Jimin com um olhar que quase se traduzia em “a culpa não é minha, então não piore as coisas”.

Depois de pagarem, eles saíram do bar em direção à rua escura e praticamente deserta. Conversavam e descontraíam, sem se preocupar em serem discretos ou silenciosos. De repente, Jimin pensou ter ouvido uma voz grossa gritar alguma coisa atrás de si, e virou-se rapidamente, em tempo de ver Kookie e Tae fazerem o mesmo.

Pouco além do bar de onde haviam saído apenas há apenas alguns instantes, numa área mais escura ainda da rua, viram um grupo não tão carismático de quatro caras vestidos em jaquetas e casacos, estampados com um tigre ameaçador sob dizeres não decifráveis, rodearem um sujeito solitário. Problemas, pensou Jimin, o maxilar rijo e as mãos paralisadas do lado do corpo. Ele só ficou mais tenso ao perceber que quem estavam rodeando era o menino metido de mais cedo, ainda exibindo o mesmo semblante inexpressivo. A impressão de que já havia o visto em algum lugar voltou mais forte dessa vez, e ele se sentiu impotente e irritado por outra vez não saber dizer de onde. Jimin viu seus lábios se moverem para formar palavras baixas, pelo menos de onde estava.

— Já disse que não sei do que está falando.

— Não banque o engraçadinho comigo, Suga — Um dos caras respondeu, num tom firme. Suga?, indagou Jimin. Que diabos de nome é esse? — Você não vai escapar de pagar o que deve ao chefe. E seu prazo está acabando, ele está ficando sem paciência.

— Então diga a seu chefe que venha falar comigo pes...

— Ei, deixem-no em paz — Antes que pudesse parar para raciocinar, Jimin viu-se dando passos rápidos e firmes para ficar entre os dois, meio de costas para o menino do bar. Jungkook e Taehyung estavam logo atrás, sussurrando confusos e meio assustados, pedindo para que parasse com aquilo. O cara que estivera falando moveu o rosto para Jimin quase como se tivesse fogo saindo pelas narinas; aparentemente não gostava de ter seus negócios interrompidos. — Se ele disse que não deve nada, é porque não deve. Deixem-no ir.

— O que porra você está fazendo? — Suga murmurou atrás de Jimin, que o silenciou com um movimento de mão. Tentou falar mais alguma coisa, mas o valentão voltou a rosnar, os dentes trincando.

— Isso não é assunto seu, garotinha. Vou dar 10 segundos para você e suas amigas se retirarem.

Kookie o puxava pelo braço e Taehyung encarava os causadores de problemas com um olhar misto de confusão e firmeza, mas Jimin estava determinado a não sair do lugar. Não tinha ideia do porquê estava fazendo aquilo, mas não iria parar agora. Por mais insuportável que o garoto do bar fosse, ele estaria em apuros se tivesse de enfrentar quatro caras sozinho; precisaria de ajuda, e por mais que odiasse admitir, Jimin aprendera a ser bom em luta. E queria descobrir de onde o conhecia, se é que sequer se conheciam de fato, então precisava dele vivo e bem. Ou era o que dizia para si mesmo.

— Não se meta — Suga ordenou, atrás dele, tentando empurrá-lo para longe, mas Jimin tirou o próprio braço do dele.

— Quem tem que ir embora são vocês — Jimin retrucou, olhando com valentia para o touro mecânico que bufava à sua frente. Erguendo a gigantesca mão, ele segurou Jimin pela gola da camisa e fez menção a erguê-lo do chão. Rápido como um raio, o menino que antes estivera mandando-o ir embora socou o cara no queixo, fazendo-o retroceder e soltar Jimin, o qual sentiu o mesmo braço que socara o agressor empurrá-lo para trás em um ato quase protetor.

Tão ligeiro quanto havia sido o ataque, a resposta veio num movimento de punho que jogou o rosto do badboy para longe, espirrando sangue.

Jimin gritou para que parassem, sentindo-se ser puxado por Jungkook enquanto os enjaquetados espancavam o menino no chão, incapaz de levantar-se. Taehyung estava logo atrás deles, mandando Jimin parar de resistir. Soltando-se de Jungkook, Jimin tentou correr em direção aos caras quando Tae, surgindo do nada, o empurrou para o outro lado e berrou para irem embora, enquanto ele próprio corria para ajudar — ao se aproximar deles, um murro no rosto de um dos que espancavam Suga, atraindo a atenção de mais outro. O mais novo já tinha os braços em volta do amigo outra vez, e Jimin gritava para que Jungkook o soltasse, mas este gritava que não ia deixar outra pessoa se arriscar. Teve vontade de berrar que nada daquilo importava àquela altura, mas só pôde observar de longe enquanto Taehyung e Suga trocavam socos e chutes com os valentões, numa luta que parecia não ter lado mais forte. Jungkook, hesitante, puxou Jimin para longe ao que um dos mais altos – ele parecia uma montanha de tão grande – dos desconhecidos começou a correr na direção deles. Ele estava muito perto, não conseguiriam se safar, e Jimin duvidou das próprias capacidades para lidar com ele, ainda mais tendo que proteger Kookie – de repente, toda a coragem esvaiu-se por completo ao entrarem em um beco para continuar fugindo, onde os sons da briga não estavam tão altos e a sensação de que estavam sozinhos aumentou assustadoramente. Mal teve tempo de olhar para trás; foi tudo muito rápido, mas logo quando Jimin virou a cabeça, o menino do bar se pusera entre eles e seu agressor, protegendo-os com o próprio corpo. Socos foram trocados e Jimin correu para tentar ajudá-lo, mas o adversário estava agora caído e desmaiado no chão. Olhou para Suga, ofegante e sangrando ao seu lado, e sentiu-se estranhamente dividido. Sentia que precisava ficar ao lado de Jungkook, provavelmente apavorado, mas parecia errado deixá-lo sozinho ali, depois de ter se arriscado para protegê-los. E isso tornava toda a situação mais estranha ainda.

Instantes depois, Jimin avistou Tae, em pé e respirando rápido no final do beco. Não se ouvia mais nenhum som de briga; estavam livres dos agressores. Exalando aliviado, Kookie correu e jogou os braços ao redor do pescoço do mais alto, enterrando o rosto em seu ombro. Taehyung pareceu suspirar ao fechar os olhos e abraçar o amigo de volta. Jimin se aproximou de Suga, sem saber muito o que fazer, mas definitivamente preocupado com a quantidade de sangue que ensopava sua camisa e sua jaqueta.

— Ei, você está…

— Saiam logo daqui — Ele cortou-o, dispensando-o com um movimento de mão. Jimin pensou em insistir, mas não teve tempo. Logo Kookie trouxe Tae meio apoiado em si, sangrando em várias partes do rosto, uma visão que fez o estômago de Jimin revirar.

— Vamos logo, Chim. Por favor.

Taehyung, implorando, lançou um olhar surpreendentemente nada preocupado para o outro tão machucado quanto ele, e logo depois para o amigo de novo. Antes que pudesse responder, Suga começou a andar a passos largos para longe deles, e Jimin sentiu ser puxado pelo braço para a direção oposta, imaginando se aquela separação seria o fim para o forte sentimento que aquele estranho menino despertava nele.

*

"Você vai se meter em confusão de novo."

Guardou o celular no bolso do moletom, ignorando a notificação da possível milésima mensagem de Jungkook. Claro que ele muito provavelmente estava certo, mas isso não mudava o fato de que Jimin se arrependia de ter contado aos amigos que voltaria ao bar para procurar pelo sujeito que ele se recusava a aceitar que tinha Suga como nome de batismo. Sentava-se numa das mesas com sofás, nem tão nos cantos, nem tão no centro… e com uma visão direta e ampla do balcão, local onde Jimin apostava que sua presa fosse escolher se sentar. Ao sair de casa, escolhera uma roupa que não atraísse atenção para si – um moletom cinza com uma calça preta – e até aceitara usar o capuz preto que já estava ficando empoeirado no armário para esconder, pelo menos um pouco, o chamativo cabelo cor-de-rosa.

Não fora capaz de responder de forma sólida quando Tae e Kookie perguntaram-no o porquê de fazer tanta questão de encontrar aquela pessoa outra vez – aquela pessoa que lhe dava a impressão de já terem se visto e, mais importante, que exalava uma aura tão única, tão diferente da sua que causava uma curiosidade que Jimin não lembrava-se de ter sentido por muito tempo. Talvez pela primeira vez.

A porta se abriu de novo, chamando a atenção dele; era um trio de meninas, rindo e conversando. Ele suspirou, tirando o capuz para coçar a cabeça – meu Deus, como odiava usar chapéus. Assim que um homem na mesa à sua frente olhou-o com uma expressão de surpresa não muito boa, ele lembrou-se e apressou-se para esconder o cabelo novamente. Já estava lá há quase uma hora, e começava a se perguntar se deveria esperar mais ou apenas desistir. Parando para pensar, não fazia muito sentido – na verdade, não fazia o menor sentido – Suga voltar ao lugar onde tivera uma briga feia justamente no dia anterior, ele não parecia o tipo de pessoa que se arriscaria sem motivo. Mas, também, o que Jimin sabia? Ele não o conhecia.

Quando ele estava prestes a levantar-se, desistindo e admitindo ser um imbecil por se submeter àquela perda de tempo, avistou uma figura encapuzada com um casaco preto e de calça esfarrapada entrar pela porta, dirigindo-se despreocupadamente até o balcão. Jimin não teve certeza até que a figura abaixou o capuz com uma das mãos – mãos largas e notadamente marcadas por veias muito aparentes – revelando cabelos negros e uma cicatriz na lateral do pescoço.

Era ele. Era Suga.

Jimin, engolindo em seco, saiu do sofá e caminhou devagar, tentando fingir não ter um objetivo em mente, até sentar-se a dois bancos do outro menino. De mãos cruzadas, viu com o canto do olho que ele já tinha o mesmo copo de whisky em mãos, brincando com o líquido despreocupadamente. O barman se aproximou de Jimin, limpando um copo com um pano, lançando-lhe um olhar entretido e ao mesmo tempo entediado – bom, ele sempre achava que todos os barmans tinham esse mesmo olhar, de qualquer maneira.

— Por aqui de novo, Sakura? — Provocou, surpreendendo Jimin. Não imaginava que o homem fosse lembrar-se dele, e esse foi o motivo principal da surpresa, não o fato de ter seu cabelo zoado. Fez a melhor cara de nojo que pôde, sem permitir-se perder a compostura.

— Esse apelido é velho. Se vai tentar me zoar, pelo menos seja mais criativo.

O barman riu, aparentemente não ligando para o fato de que sua piada não surtira muito efeito. Jimin quase podia sentir o olhar de Suga em si, mas decidiu não devolvê-lo. Não ainda. Ele queria garantir que o menino não o ignorasse, ou que ao menos o reconhecesse.

— O que posso lhe oferecer, então?

Se endireitando quase imperceptivelmente na cadeira, Jimin respondeu.

— Um Coquetel Maravilha.

O homem do outro lado do balcão riu, balançando a cabeça. Quando ele se afastou para fazer a bebida, outra risada rápida veio de algum lugar ao seu lado, e Jimin soube que agora era seguro olhar. Suga, de copo à meio caminho da boca e sorriso desdenhoso no rosto, balançava a cabeça lentamente. Jimin pôde ver os hematomas e curativos no nariz, na boca e nos olhos, sentindo uma vertigem ao lembrar-se do terror da noite passada.

— Vocês da Zona Sul não aprendem nunca.

O outro tentou de tudo não perder a paciência, ainda mais por todo o tempo que esperou para falar com aquele ser insuportável. Estava a um passo de se arrepender amargamente, mas se esforçou para fazer o que viera fazer.

— Meu amigo mora aqui perto. Eu estava só passando.

— Não devia andar por aqui sozinho — Disse Suga, simplesmente, pondo o copo vazio de volta no balcão.

— Quer parar de agir como se fosse minha babá? — Retrucou Jimin, indignado mais uma vez com a capacidade daquele menino de ser indelicado. Suspirando, voltou o olhar para seu próprio copo, colocado à sua frente. Não poderia estar com menos vontade de beber. — E eu queria… bom, queria agradecer por ontem. Se não fosse por você, Tae estaria bem pior e Deus sabe o que aconteceria conosco...

— Vocês pediram por aquilo. Eu teria me virado sozinho — Cortou o outro, jogando uma nota perto do copo e se virando na cadeira – foi possível ver que o olho esquerdo estava pior que todo o resto, e os machucados iam de roxos até quase amarelos. Antes que Jimin pudesse reagir, ele já estava caminhando para a saída.

— Bom, não há de quê! — Disse Jimin, irritado, puxando uma nota qualquer do bolso e jogando-a no balcão. Seguiu até a porta, e a baforada de vento frio que o recebeu ao voltar para a rua fez os pelos na nuca se arrepiarem; Suga não estava muito longe. — Olha aqui, você pode querer dar uma de machão, mas…

— Cale a boca.

Jimin teve vontade de devolver a grosseria, mas algo na postura dele o fez obedecer. No mesmo segundo, ele notou um grupo de caras altos e encapuzados se aproximar, de mãos nos bolsos suspeitosamente volumosos. Atrás deles, havia inúmeras motocicletas estacionadas na calçada e numa parte da rua, com o mesmo emblema de tigre que vira nos casacos dos homens na noite anterior. Jimin engoliu em seco.

— Você só se envolve com gente problemática, é?

— Vá embora, riquinho — Ordenou Suga, uma pontada de alarde na voz. Mas só uma pontada. O outro deu um passo a frente, ficando mais próximo dele e encarando aqueles que se aproximavam.

— Não — Respondeu, fazendo o mais alto virar o olhar para ele, uma surpresa irritada estampada no rosto.

— Como é q...

— Ora, ora, se não é o nosso querido Suga — Vociferou o mais alto dos homens, abrindo os braços de um jeito que fez Jimin jurar que ele iria puxar Suga para um abraço. — Soube das suas travessuras ontem à noite com meus amigos. É muita coragem sua voltar aqui.

— Não devo nada a você, Mao — Disse Suga, simplesmente, movendo o olhar irritado de Jimin para adquirir o mesmo tom inexpressivo que usara com os adversários no dia anterior. Era impressionante como mudava de tom tão rapidamente.

— Acho que discordamos nesse tópico, docinho — Retrucou Mao, sem deixar de sorrir, e Jimin não conseguiu conter um riso no fundo da garganta – os tratamentos daquele povo eram mais estranhos que eles próprios. No mesmo instante, arrependeu-se de tê-lo feito; o cara voltou o olhar para ele, como se finalmente percebesse que ele estava ali, e de repente pareceu ter três metros de altura. O sorriso de Jimin sumiu de seu rosto. — E quem é esse? Seu novo namorado?

O homem sorria assustadoramente, e toda a coragem para respondê-lo com valentia esvaiu-se de Jimin. Um dos comparsas atrás dele ergueu a cabeça, o olhar fixo nele – e, como um raio, a lembrança o atingiu.

— Ele estava aqui ontem, chefe. Foi um dos maricas que atrapalhou nosso trabalho — Disse, fuzilando Jimin com o olhar, o qual mordeu o lábio de nervoso, lembrando-se dele como quem tentara enfrentar na noite anterior. O chefe voltou a olhar para ele, a expressão mais interessada e o sorriso ainda mais arrepiante.

— Ah, entendo… então foi você — Murmurou, fazendo menção a tocá-lo no rosto. Antes que o fizesse, Jimin lascou-lhe um tapa na mão. Suga, que antes estivera observando sem se mover, virou o rosto ligeiramente para os dois. Mao não se abalou, dando um passo na direção do menino. — Ora, vamos, me dê um pedaço desse rosto de filhinho de papai…

Sem que Jimin pudesse acompanhar de tão rápido, Suga se pôs entre os dois, meio empurrando-o para trás, meio enfrentando Mao. Porém, definitivamente protegendo-o. Sem querer, o menino mais baixo percebeu a cicatriz no pescoço de Suga destacar-se à sua frente pela luz, aparentando ser mais real do que nunca. Durante os segundos que se passaram, parecendo intermináveis, era quase palpável a tensão entre eles; ambos se encaravam com tanta intensidade que a voz de Jimin, que estava observando tudo por trás do ombro de Suga, quase não foi audível quando ele falou.

— Hyung...

Antes que qualquer um deles pudesse dizer ou fazer qualquer outra coisa, foram ouvidas sirenes de polícia vindo de algum lugar na rua, e todos os olhares seguiram o som. Aproveitando a distração, Suga puxou Jimin pelo braço e os dois correram, sem emitir um som ou sequer olhar para trás. Jimin não sentiu mais o seu toque até que gritos foram ouvidos e um estalo aterrorizantemente alto e próximo arrepiou todos os pêlos de seu corpo.

Um tiro.

Suga o empurrou para o chão, ambos caindo perto de uma lata de lixo dentro de um beco. Jimin estava atordoado demais para raciocinar, e mesmo quando o outro se levantou e gritou para que corresse, fazendo o mesmo sem ele, demorou alguns segundos para de fato conseguir se mover. Correu atrás do hyung, correu, correu tanto… seus pulmões estavam explodindo, cada respiração arranhava sua garganta; ele não sabia se os sons das sirenes e dos homens atrás deles haviam sumido ou se a adrenalina não o permitia ouvi-los.

O menino à sua frente virou numa esquina, parando perto de uma moto estacionada num dos cantos do beco, os sons da cidade começando a ficar mais próximos. Suga pulou sobre ela, ligando-a rapidamente e, sem pensar, Jimin fez o mesmo, montando atrás dele. O dono do veículo olhou-o com surpresa e confusão, parecendo não ter antecipado que ele estivera ali o tempo inteiro.

— Que diabos você está fazendo?

— O quê? Você não espera que eu fique pra trás e lide com seus amigos sozinho, né? — Respondeu Jimin, sem dar espaço para discussão. Por um milésimo de segundo, temeu que o outro fosse expulsá-lo e ele teria realmente de ficar ali para sobreviver a qualquer que fosse a atrocidade à qual os agressores fossem submetê-lo. Berros, passos e tiros foram ouvidos ao longe, e Jimin tentou manter a voz o mais calma possível, apesar de sentir vontade de gritar. — É melhor você se apressar, eles estão chegando.

O rosto cheio de machucados à sua frente manteve-se imóvel por alguns instantes, parecendo não acreditar na audácia daquele baixinho de cabelo rosa. A boca de Suga se limitou a uma linha fina quando ele, aparentando estar irritadiço, pisou fundo e moveu a moto em direção ao final do estreito labirinto no qual se encontravam – o menino atrás dele procurou o apoio para se segurar depois de quase ser lançado para fora. Mas não encontrou nenhum. Ele olhou para Suga, pensando se sairia morto se tentasse o que estava pensando, mas não havia outro jeito, a alternativa de cair e se esbofetear no chão ainda conseguia ser menos tentadora que aquilo. Então, abraçou o corpo do mais velho, o mais rápido possível para que não houvesse tempo para reação. E, além da tensão nos músculos rijos devido à situação, não sentiu nada.

Chegaram à uma avenida, e um carro buzinou quando Suga o ultrapassou, surgindo do nada da rua lateral. Deixaram-se se misturar na multidão de veículos, ziguezagueando por entre eles para despistar quem quer que ainda estivesse seguindo-os. O vento forte no rosto faziam Jimin fechar os olhos quase completamente, imaginando se o menino que abraçava tinha algum destino em mente. Olhou para trás, procurando por algum dos perseguidores em suas motos assustadoras, porém não avistou nenhum, nem sequer uma motocicleta comum. Voltou o rosto para perto do ouvido do outro.

— Eles sumiram — Gritou, lutando contra o vento e os barulhos do trânsito. Suga não reagiu. Jimin tentou outra vez. — Para onde você está nos levando? — Nenhuma resposta. Antes que Jimin pudesse sequer irritar-se ou pensar em algo para dizer, eles se aproximaram de uma parada de ônibus lotada de pessoas. — Casa charmosa a sua, tenho de admitir.

Suga parou a moto bruscamente, sentando-se ereto. E forçando o outro a soltá-lo do abraço.

— A carona acaba aqui. Desça — Disse, sem sequer virar o rosto. Jimin chegou a abrir a boca para discutir, mas viu que não havia motivo. Relutante, tirou uma das pernas de cima da moto e se endireitou na calçada, desajeitado. — Você tem dinheiro?

Jimin cruzou os braços, teimosamente.

— Não — Respondeu, não sabendo muito bem o porquê; ele tinha algo nos bolsos, era possível que desse para uma passagem. Talvez ele quisesse fazer Suga se arrepender de largá-lo ali – ou, talvez, só talvez, ele não quisesse deixá-lo ir embora de novo sem conseguir as respostas para suas perguntas.

Suspirando exasperado, o menino na moto puxou uma carteira escura do bolso da calça, mal olhando para o tanto de dinheiro que tirara de lá e empurrando-o nas mãos de Jimin.

— Para o seu próprio bem, riquinho, fique na Zona Sul — Disse, rispidamente, olhando-o com olho rígidos e incontestáveis. As chamas que viu dançando naquele olhar foram diferentes de todos os outros olhares que ele já lhe lançara – diferente de qualquer um que já cruzara na vida. Por mais estranho que parecesse, sentiu uma curiosidade muito maior do que todo o medo que estivera sentindo desde o momento em que entrara naquele bar.

— Ei, esp… — Tentou Jimin, mas foi interrompido pelo alto som da moto derrapando, levando Suga para longe dele novamente, engolido pelos sons e luzes da cidade em movimento. O menino suspirou, tentando manter a calma perante o fato de que, de novo, não conseguira o que viera buscar.

Ele soltou um muxoxo, de repente tendo consciência do corpo que habitava. Sentiu dores nas laterais e a garganta parecia mais seca do que jamais estivera, a adrenalina deixou-o e o cansaço finalmente tomou conta; ele procurou um banco na parada de ônibus, mas sem sorte. Encostou-se, então, na parede de atrás, dando uma olhada no dinheiro que Suga simplesmente jogara em cima dele – e notou que havia muito mais do que o suficiente para uma ida de ônibus a qualquer lugar. Entendia que as notas eram parecidas, mas como alguém podia ser tão desleixado ao ponto de dar dinheiro a um estranho sem nem checar quanto havia? Bom… talvez ele quisesse sair logo dali por medo de ainda ser encontrado pelos outros motoqueiros, ou talvez não tivesse mais paciência para as confusões que aquele – como dissera antes – completo estranho lhe trouxera nos últimos dois dias. Jimin engoliu em seco.

Sem aviso, ele notou algo estranho no meio das notas – um papel. Um pedaço de papel, rasgado e com alguma coisa escrita. Ele aproximou-o do rosto para enxergar aquela letra péssima, parecendo ter sido feita às pressas, e entendeu que se tratava de uma data e de um endereço, num um bairro ali perto. Não teve nenhuma reação de início, apenas ficou a imaginar o que aquilo significava para Suga; se era importante, se ele anotara para não esquecer e agora perderia qualquer que fosse o compromisso, se ele sequer lembrava-se daquele papel. Mas não importava. Nada daquilo importava, pois não estava nem perto de ser da conta de Jimin. Guardando tudo no bolso do moletom, suspirou. Que noite inútil, pensou. Se metera em confusão com pessoas de caráter questionável pelo segundo dia consecutivo, estava coberto de machucados, e ainda por cima não conseguira nem metade do que viera buscar, pois não tivera a chance nem de perguntar a ele se haviam se conhecido antes. E, agora, não havia mais nenhuma chance de encontrá-lo novamente – não tinha ideia de onde ele morava, onde ia, ou…

Uma luz se acendeu na mente de Jimin. Ele pôs a mão no bolso do casaco lentamente, puxando o papel rasgado e observando-o. Aquilo era sua única pista.

E se havia algo que Jimin estava disposto a fazer, depois de todo aquele sufoco, era segui-la.

Notas finais
obrigada por ter chegado até aqui, eu nem te conheço e tu já tens um lugar no meu coração ♡ ei, fique com vergonha não, valorização é muito importante pra quem escreve, deixa teu comentário aí!! pode falar o que quiser ^^ ~gabinnie